quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O país dos sonsos

- As pessoas que usam drogas moram na favela?

- Não. Moram aqui em volta da gente.

- Que burras!

Essa foi a conclusão do filho de uma amiga, enquanto assistia na TV à “passeata” de 600 traficantes armados. Ele tem 9 anos. Até outro dia, eu não sabia com que idade uma criança já era mais inteligente que um maconheiro. Eu apostava em 6 anos. E continuo achando que, aos 6, ele teria chegado à mesma conclusão. Quem se atrasou foi a TV.

Minha amiga tem alguns amigos maconheiros, que fumam na frente de crianças. Ela não leva mais os filhos em determinadas festinhas: “Se você compactua com aquilo, como vai proibir?”. Pois é: como? De modo que, pelo bem dos filhos que ainda não tenho, já estou dando limites a certas companhias. Preconceito? Não. Amor de pai. Eu não quero meus filhos nos mesmos círculos de amizades dos colunistas da imprensa.

A Guerra “do Rio” suscitou uma porção de apelos ao debate sobre a legalização da maconha. Que um debate tão velho ainda encontre gente entusiasmada com o seu começo, é um sinal do quanto a sonsice se disfarça de bom-mocismo no Brasil. Nelson Motta pediu até um referendo no Rio de Janeiro sobre a venda controlada de maconha “medicinal” (as aspas são dele), o que é o mesmo que pedir para a sociedade aprovar a multiplicação de receitas médicas falsas, como já acontece em 15 estados americanos.

Ele alegou que “desde as cavernas os humanos buscam substâncias naturais que (...) tirem as dores do corpo e da alma”. É verdade. Esses “humanos” não são fáceis. Desde as cavernas, eles também roubam, estupram e matam. Como “as possíveis ‘soluções’ estariam mais próximas da moderação que da repressão”, vamos pedir aos doutores “um diagnóstico de estresse”, autorizando uma estupradinha básica para aliviar as dores do corpo e da alma. Se alguém esquecer a camisinha, basta chamar Sérgio Cabral: “Quem aqui não teve uma namoradinha que teve que abortar?”.

Enquanto Nelson Motta sugere a hipocrisia como estágio intermediário em nossa volta triunfante ao tempo das cavernas, Cabral nos ameaça com a continuidade da corrupção caso não aceitemos sua ideia: “Então está bom! Então o policial na esquina leva a graninha dele, o médico lá topa fazer o aborto, a gente engravida uma moça” etc. Afinal, somos “humanos”, com fraquezas, abusos e excessos, e só podemos nos tornar responsáveis legalizando e promovendo as nossas irresponsabilidades.

Hoje, conviver com a bebida já infunde nas crianças o desejo precoce de tomar um porre. Amanhã, será muito melhor: elas lerão na escola as histórias de meninos homossexuais que se apaixonam por colegas no banheiro, os recém-lançados gibis de Lula (sem mensalão) e de Che Guevara (sem fuzilamentos); continuarão atrás de Trinidad e Tobago nas provas internacionais; verão mais maconheiros e clínicas de aborto na volta pra casa; e crescerão loucas pra tomar um, fumar um, dar um, dar dois, dar três, sempre mui inspiradas em modelos elevados de conduta moral.

Eu acho natural que apologistas da maconha ou do aborto não vejam, na parte (ou no todo) que lhes compete, qualquer problema nesse mundo encantado, e que, no caso dos maconheiros, continuem fumando na praia de Ipanema e nas festinhas da cidade, mesmo depois da Guerra “do Rio”. A droga é como o esquerdismo: além do crime, estimula a sonsice. E todo pai tem obrigação de proteger os filhos contra um país de sonsos, muito antes que uma criança de 9 anos diga deles:

- Que burros!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Fica, Nabuco!

Joaquim Nabuco e Cazuza. Juntinhos. Lado a lado. Dente por dente.

O Ministério da Cultura decidiu premiá-los in memoriam com a Ordem do Mérito Cultural 2010. Agora, toda vez que alguém falar na abolição da escravatura, vou cantar: “Ideologiaaaa/ Eu quero uma pra viver!”. E toda vez que alguém cantar um rock anos 80, vou falar: “Por felicidade da minha hora, eu trazia da infância e da adolescência o interesse, a compaixão, o sentimento pelo escravo – o bolbo que devia dar a única flor da minha carreira”. Não tenho dúvidas de que vou acabar compondo o primeiro rock abolicionista brasileiro.

Para a cerimônia de entrega dos prêmios no Teatro Municipal, a diretora Bia Lessa foi contratada sem licitação por R$ 489.369. O ministro Juca Ferreira alegou que a lei permite a contratação sem licitação de artistas “consagrados pela crítica especializada ou pela opinião pública” e que o montante incluía despesas de cenografia, iluminação e banda. O cachê de Bia Lessa, na verdade, seria de R$ 85 mil. Só fiquei na dúvida se Bia Lessa é consagrada pela crítica especializada ou pela opinião pública, mas, como Lula já disse “Nós somos a opinião pública”, deixei a crítica especializada pra outro dia.

No Municipal, Lula comparou os gritos de “Fica, Juca!” da plateia – pedindo a permanência do ministro no governo Dilma – à despedida de Pelé no Maracanã. Sérgio Cabral também usou Pelé para falar do governo Lula (“quem viu, viu, quem não viu tem o DVD”), mas, não satisfeito, comparou o presidente a Pablo Picasso: “Nós temos, diante de nós, o maior, o melhor, o mais extraordinário... Não sei se daqui a cem ou duzentos anos produziremos outro igual”. Se Juca Ferreira é Pelé, Lula é Picasso, e a plateia – segundo a imprensa – é a “classe artística”, só posso deduzir que Cazuza é Joaquim Nabuco: “Eu sou mais um caraaaa”...

Para quem detectou que, “na América, falta à paisagem, à vida, ao horizonte, à arquitetura, a tudo que nos cerca, o fundo histórico, a perspectiva humana”, terminar como Cazuza no panteão cultural do PT não é lá uma grande surpresa. Nabuco sabia que o nosso senso de proporções e hierarquia fora amputado, na raiz, por um ambiente visual urbano que mais parece (até hoje) um “jardim infantil”. Se a recusa em absorver o legado europeu já nos condenava “à mais terrível das instabilidades”, a recusa em absorver a própria história nos condena à propaganda petista.

É uma pena. O centenário da morte de Joaquim Nabuco era uma ótima oportunidade para o Brasil lembrar que seus verdadeiros heróis não morreram de overdose.

Fica, Nabuco!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Soletrando a Guerra "do Rio"

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

– E você garante que eles não traficam drogas nessas vizinhanças?


– Isso eu não garanto. Garanto que matarei qualquer um que o faça.

Em homenagem a Luciano Huck, o novo especialista em segurança pública do jornal O Globo, começo a coluna interativa de hoje com um Quiz. De quem é a resposta acima?

a) José Mariano Beltrame à imprensa, em Guerra “do Rio” – Episódio Zero.

b) Capitão Nascimento a Matias, em Tropa de Elite 1.

c) Traficante imaginário a Arnaldo Jabor, em A segunda entrevista do bandido.

d) Joey Zasa a Michael Corleone, em O Poderoso Chefão 3.

Tempo!...

Para quem ainda não sabe, uma dica: se é para aprender com uma obra de ficção, escolha ao menos a melhorzinha.

Qualquer bandido do velho cinema americano é mais sabido que os “especialistas” do teatro de guerra brasileiro. Se O Poderoso Chefão 3 é o pior filme da série de Francis Ford Coppola, então Joey Zasa já tem muito a ensinar a Luciano Huck, autor do artigo motivacional “Avante, Rio!”. Só porque Zasa vai logo matando os negros e espanhóis que traficam droga em sua família? Não. Porque Zasa sabe que não pode garantir a inexistência do tráfico, mas pode garantir sua punição.

Para Luciano Huck, cuja lógica faz jus à de Zuenir Ventura, “a ‘guerra ao tráfico’ não deu certo em nenhum lugar do mundo”, “só gerou violência e territórios ocupados”, então “por que daria certo no Brasil?”. Faz sentido. Da mesma forma, o combate ao estupro e ao homicídio não deu exatamente “certo” em nenhum lugar do mundo, então por que daria no Brasil? Se descriminarmos todos os crimes, seremos muito mais felizes.

No Caldeirão mental do Huck, os “meninos e meninas” do narcotráfico “não são bandidos”, mas “nasceram no lugar errado e estão bandidos”. Pobres vítimas que, “por absoluta falta de opção” nas “comunidades dominadas pelas armas”, foram cooptadas pelos líderes do “movimento”. Que essa “absoluta falta de opção” ainda produza uma maioria honesta e trabalhadora, é um desses mistérios cuja elucidação fica para depois dos comerciais. Ou, como escreve o apresentador do “Soletrando” sobre o problema das armas: “Mais [sic] isso dever [sic] ser o tema de um outro artigo”.

Com a “propriedade” de quem mora há 10 anos no Rio e o “privilégio” de quem anda a trabalho “das coberturas do Leblon às celas de Bangu”, recebido pelos anfitriões “mais credenciados”, Huck se sente à vontade para propor soluções à Guerra, como, por exemplo, a anistia dos “meninos e meninas” do tráfico. Isso mesmo: a anistia. Eu, que frequento a região serrana do Rio desde pequeno, dos casarões às favelas, com gente me guiando pelo mato, fiquei até encorajado a opinar sobre a história do capim na seção de Ciência do Globo.

Arnaldo Jabor, o rapper do colunismo, deu os parabéns às UPPs através de seu bandido imaginário. O programa Fantástico celebrou a ação policial na Vila Cruzeiro por ter posto os bandidos “pra correr”. José Mariano Beltrame afirmou que “marginal sem casa, sem arma, sem território, sem moeda de troca é muito menos marginal do que era antes”. Nelson Jobim – não me pergunte o motivo – disse que “estamos numa mudança de paradigma”. Luciano Huck concluiu que, com as comunidades livres, “o povo carioca sabe cuidar da sua cidade e das suas crianças”. Ninguém parece se incomodar muito com bandidos soltos por aí. De modo que eles agradecem.

Quem foge dispondo de clientela farta, fornecedor intacto, fronteira aberta, governo “neutro” e uma sociedade mergulhada nesse Caldeirão de ideias esquerdistas (que os nossos especialistas de auditório ainda querem derramar nas “comunidades”, sob o nome de educação) não precisa ser nenhum Joey Zasa ou Don Corleone para encontrar novos territórios, construir famílias e erguer impérios. Basta, quando muito, levar um caderninho de telefones.

Avante, Brasil!

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Pós-escrito: José Mariano Beltrame confessou: "Minha pretensão não é acabar com o tráfico [no Rio de Janeiro]: ele existe em Londres, em Paris. O que é inaceitável é a pessoa ser vigiada, é levar o filho na escola e ver um homem com um fuzil". Pelo visto e as favelas onde UPPs e traficantes convivem em harmonia são a prova , Beltrame não tem a pretensão de acabar com o tráfico, e nem sequer de combatê-lo. Dizer o quê? Chamem Joey Zasa!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mandem a gasolina para Lula

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

Eu escrevi no Twitter em 28 de abril: “Depois de avisar gentilmente aos bandidos, polícia de Cabral ocupa 5 favelas da Tijuca. Mas: para qual eles foram agora?”. Ninguém questionava ainda o destino dos narcotraficantes após a instalação sem tiros das UPPs. A imprensa aplaudia a tal Pacificação, como se o nome atribuído a uma ação política se convertesse magicamente em realidade. Sete meses e muitos veículos queimados depois, a imprensa continua sendo a porta-voz do governo. Mas, como no aforismo de Karl Krauss: “Há escritores que já conseguem dizer em vinte páginas aquilo para o que às vezes preciso de até duas linhas”.


Eu gosto de escrever em duas linhas. Se resumisse este artigo à equação Farc + PT + Cabral + Traficantes + Usuários = Guerra “do Rio”, com aspas, eu já ampliaria toda a cobertura jornalística. Gabriel O Pensador, num encontro imaginário com o Capitão Nascimento no calçadão, reclama que não é revistando maconheiro que ele “vai achar os grandes bandidos”, afinal “nós somos vítimas da violência estúpida que afeta todo mundo”. Gabriel O Pensador é uma espécie de Arnaldo Jabor do rap. Um integrante do “sistema” revoltado contra o “sistema”. Ele já pode fundar uma ONG com Wagner Moura, Dado Dolabella, Marcelo D2 e Chico Buarque.

O Brasil só dá alegrias às Farc. Dilma – a musa das selvas colombianas – garantiu a Cabral que vai continuar apoiando o estado no combate à violência, assim como faz o governo Lula. Isto significa que continuaremos neutros em relação aos grupos terroristas que fornecem drogas e fuzis aos nossos traficantes. Neutros nas ideias. Neutros nas fronteiras. Neutros no calçadão. Assim como se absteve em votação da ONU contra o apedrejamento de mulheres no Irã, o governo do PT continuará se abstendo (estou de boa vontade) no combate aos nossos 50 mil homicídios por ano. Lula ordenou “que é para atender o Rio de Janeiro naquilo que o Rio precisar”. É como se o Rio fosse outro país, do qual Lula e Dilma respeitassem a soberania.

Em Rondônia, o Exército controla o fluxo de drogas na fronteira, até o dia do mês em que o diesel distribuído para as patrulhas diárias acaba. Isso mesmo: o diesel das patrulhas acaba. Os traficantes (e desmatadores) só precisam esperar até o dia 15 ou 18 de cada mês para abastecer o mercado nacional. Como os traficantes cariocas incendeiam carros, ônibus e vans com garrafas de gasolina, eu sugiro que, num gesto simbólico, a polícia de Cabral também se solidarize com Lula e Dilma, doando todas as garrafas apreendidas para abastecer as patrulhas de Rondônia. Se Lula não bebê-las antes, é possível que os bandidos tenham de esperar até o dia 19.

No Rio de Janeiro, eles nem precisam tanto. Uma parte já convive com as UPPs nas favelas, aonde os “pensadores” vão hoje às compras sem medo. A outra, dispensada, brinca de Coringa pela rua. E há uma terceira, que, diante das novas dificuldades, põe a mão na cabeça: “Ah, não vou ser bandido mais não. Dá muito trabalho!”. Mas essa só existe na imaginação dos nossos “artistas” e “especialistas”. José Mariano Beltrame disse que “prender bandido é importante, apreender droga é importante, mas o mais importante é recuperar o território”. É como dizer que comer é importante, beber é importante, mas o mais importante é recuperar a saúde.

Que ninguém se lembre da criminalidade quando a economia vai bem, já é sintoma de um país doente. Que pacificar não signifique fiscalizar fronteiras e prender bandidos (pequenos e grandes), usando as Forças Armadas para recuperar o território, nem quando uma cidade está em chamas, já é sintoma de um país petista. Eu sempre fico um pouco constrangido de dizer em 6 parágrafos aquilo que eu já disse numa única linha sobre o Brasil de Lula, Dilma e Sérgio Cabral: Fique calmo, companheiro. Você não está seguro, mas o seu dinheiro está.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A cuíca necessária

Não lembro a primeira vez que, tentando expressar o que faltava a determinada música, falei convicto de estar dizendo tudo: “Falta a cuíca de Ovidio Brito”. Nem a primeira vez que, criticando algo ou alguém que nada tinha a ver com música, falei novamente convicto de estar dizendo tudo, ainda que poucos me entendessem: “Falta a cuíca de Ovidio Brito”.

Naquele momento, porém, a cuíca de Ovidio Brito, ou melhor, a sua falta, passou a simbolizar para mim um defeito inadmissível tanto em obras de arte quanto em artistas, tanto em esportes quanto em atletas, tanto em eventos quanto em amigos, tanto em lugares quanto em mulheres. Soava-me simplesmente absurdo que uma porção de coisas e pessoas viesse desprovida da cuíca de Ovidio Brito.

Algumas, consinto, tinham até pandeiro, repique, tantã, surdo, cavaco, banjo e violão, mas e daí? O que faz a base justificar sua existência senão a liberdade concedida a um gracejo? É ele que provoca. Que marca. Que fica. O problema de quem, como eu, descobriu cedo o poder da molecagem é justamente a preguiça de fortalecer a base da qual ela poderá irromper ainda mais contundente. Toda a minha formação não é senão um esforço para dar ao gracejo à base devida, como um roteirista que parte da piada para nela encaixar um filme inteiro.

Ovidio Brito tinha a base. Tinha a longa experiência como percussionista e os músicos de primeira do Pagode do Arlindo preparando o terreno para a sua (e nossa) gargalhada musical. Se a sonoridade da cuíca já sugere o riso, a de Ovídio Brito era o gracejo máximo, não só do samba como dele mesmo, que desfazia a aparência um tanto carrancuda no momento em que os ombros solavam junto com o instrumento em "Testamento de Partideiro" e "Dora", ou quando emprestava melancolia à primeira parte de "Lua cheia", transformando o riso em pranto, e vice-versa, com aquela graça de que nem a tristeza pode prescindir.

Entrevistei Ovidio uma única vez para o piloto de um documentário, infelizmente jamais realizado. Sua frase mais emblemática foi a seguinte: “Depois que eu partir, se o Cara abrir outra porta pra eu voltar, eu volto do mesmo jeito”. Ovidio Brito morreu de acidente de carro, na madrugada da última segunda-feira, no Centro do Rio, aos 65 anos - e a música popular perdeu, talvez, a maior de suas graças. Mas, se o “Cara” não abrir outra porta pra ele voltar, confesso que entenderei perfeitamente.

Ao Céu já não falta a cuíca de Ovidio Brito.



sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O facebook, a micareta e o Brasil

Em 2003, Mark Zuckerberg invadiu o sistema de Harvard - onde estudou - para ver a ficha das mocinhas. Descobrir nomes, fotos e currículos era um privilégio de prodígios da informática. Mais tarde, com a ajuda do brasileiro Eduardo Saverin, Zuckerberg criou o facebook, onde, além dos dados pessoais, as mocinhas publicam espontaneamente se estão solteiras ou casadas, que tipo de homem desejam, quais os seus galãs preferidos, e outras intimidades de espantar terapeutas e namorados.

Eu tenho uma tese sobre as micaretas quase tão real quanto a história do facebook. Em resumo: um sujeito queria beijar mocinhas no meio da rua, não conseguia, e inventou a micareta. Minha versão, se não é exatamente a verdadeira, é bem melhor do que ela, porque eleva o criador (Dodô? Osmar?) ao status de gênio. De um jeito ou de outro, a possibilidade do beijo virou chamariz desses eventos, onde até as mocinhas se sentem à vontade para agarrar desconhecidos no meio da rua.

O italiano Antonio Gramsci criou o Brasil de hoje exatamente como Zuckerberg criou o facebook, e o criador da micareta (não fui eu, mas obrigado) criou a micareta: gerando um ambiente onde aquilo que só se conseguia à força viesse espontaneamente, sem que ninguém se desse conta. Se Zuckerberg conquistou os segredos das mocinhas e o inventor da micareta os seus beijos, os cadernos de Gramsci ensinaram à esquerda brasileira a conquistar os votos “espontâneos” que elegeram três vezes o PT.

Depois de 30 anos “ocupando espaços” nas artes, na educação, no jornalismo, nas editoras, no show business e nos demais centros disseminadores de ideias, a esquerda gramsciana transformou o Brasil num imenso facebook; numa imensa micareta. Da mesma forma que mocinhas e rapazes tornam públicos os seus desejos, e consomem corpos estranhos como quem vai à feira, os brasileiros entregam o país a um partido que não conhecem senão pela história narrada por seus próprios militantes disfarçados.

Essa história exclui as Farc, que respondem por boa parte dos nossos 50 mil homicídios por ano, e cujos narcoterroristas acabam de saudar em nota “oficial” a eleição de Dilma Rousseff e “sua pública convicção da necessidade de uma saída política para o conflito interno da Colômbia”. Isto significa que eles confiam em Dilma (que já empregou na Secretaria de Pesca a mulher de um de seus líderes) para ajudar a promovê-los de sequestradores, torturadores e assassinos a representantes democráticos legítimos.

O episódio não só confirma a minha tese, como também deixa clara a única diferença entre o facebook, a micareta e o Brasil. O novo filme sobre Mark Zuckerberg mostra que você não faz 500 milhões de amigos sem criar alguns inimigos. A nota “oficial” das Farc mostra que você não mata 50 mil brasileiros por ano sem criar alguns amigos.

A micareta?

Ah. Você não beija 50 mocinhas numa noite sem beijar alguns trocinhos.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A imagem de Zuenir Ventura

Uma prova de que me divirto com pouco é que ainda leio Zuenir Ventura. Costumo comentar seus textos no twitter, com não mais do que 140 caracteres. Mas já é a segunda vez que o promovo a uma coluna no Blog do Pim. Na primeira, juntei-o com Verissimo, dando um parágrafo para cada um. Agora, com o artigo O exemplo de Obama, Zuenir ganhou uma coluna inteira. Eu sou como o PT: recompenso, à altura, aqueles que se esforçam pelo partido. Ele segue em negrito. Eu, no padrão.

Ao contrário do presidente Barack Obama, que com invejável franqueza aceitou a derrota, confessou-se humilhado e assumiu a responsabilidade pela “surra”, reconhecendo sua culpa, os perdedores daqui estão tendo grande dificuldade de admitir a derrota nas últimas eleições.


Eu não sou da escola Zuenir Ventura. Quando um presidente assume sua responsabilidade e reconhece sua culpa, isto significa, para mim, que ele assumiu sua responsabilidade e reconheceu sua culpa pelas ações e omissões de seu governo, coisa que não é do feitio de Barack Obama.


Isto que Zuenir chama de “invejável franqueza” – e que a primeira página do Globo (será de Zuenir?) chamou de “sinceridade desconcertante”; e que toda a imprensa brasileira aplaudiu como exemplo máximo de elegância, integridade e respeito à democracia – não é senão a “admissão” de que a falha foi não de seu governo, mas de sua propaganda, incapaz de convencer o povo dos supostos méritos do primeiro.

Nas palavras de Obama: “Acho que estávamos tão ocupados e focados em fazer um monte de coisas que paramos de prestar atenção ao fato de que liderar não significa apenas legislar. É também uma questão de persuadir as pessoas”. Obama, em suma, estava cuidando tanto do país que não teve tempo sequer de avisar ao povo o que estava fazendo de bom, o que é muito lindo e comovente. Aplausos venturosos pra ele.

Obama se recusou a enxergar no fracasso eleitoral do Partido Democrata o repúdio à sua agenda de reformas, preferindo ainda culpar a impaciência do povo diante da recuperação econômica do país, como se esta fosse naturalmente lenta, a despeito de quem o governasse (e como o governasse). Pela impaciência do povo, Obama não assumiu a responsabilidade. Por não tê-lo convencido de seus esforços invisíveis, sim.

Na escola Zuenir Ventura, só mesmo alguém de virtudes excelsas pode chegar a tanto.

O chororô comporta todo tipo de alegações para desqualificar a vitória de Dilma Rousseff — algumas até fazem sentido, mas outras são justificativas ridículas, desculpas esfarrapadas.

Supondo que algumas alegações façam sentido e outras não, como diz Zuenir Ventura, por que então chamar todas de “chororô”, atribuindo-lhes de antemão somente o aspecto negativo? Será que as alegações justas são irrelevantes para o juízo do autor? Ou é preciso suprimi-las para que seu texto fique de pé? Façam suas apostas. Eu dou 1 milhão de dólares a quem encontrar novamente no texto as alegações justas.


E aproveito para passar um dever de casa aos alunos da escola Zuenir: copie sua frase, trocando “Dilma Rousseff” por qualquer coisa, como – para ficar no mesmo nível – Vasco da Gama:

“O chororô comporta todo tipo de alegações para desqualificar a vitória do Vasco — algumas até fazem sentido, mas outras são justificativas ridículas, desculpas esfarrapadas.”

Se as alegações que fazem sentido fossem, por exemplo, 2 gols legítimos do Flamengo (como você viu no replay) anulados pelo juiz, sendo que o Vasco ganhou de 1 a 0, ainda assim seria tudo chororô? Seria? O Flamengo adora um chororô? Pois então parabéns. Você está aprovado na escola Zuenir Ventura, onde seu time tem sempre a razão.

E não estou dizendo que o PSDB ganharia as eleições se Lula e o PT não tivessem cometido toda sorte de crimes eleitorais, como nunca antes na história deste país, com o uso sem constrangimentos da máquina pública para promover a candidatura Dilma e calar seus opositores. Mas que cometeu, cometeu. Que usou, usou, como tanto escrevi aqui. E isso só é chororô na cabeça de torcedor profissional.

Mas eu já ia me esquecendo: sobre essa parte, Zuenir não vai falar. Afinal, essas seriam alegações justas...

O candidato José Serra chegou a transformar sua frustração em “vitória estratégica”, mas pelo menos não tentou diminuir o mérito da adversária.

Que mérito é esse (de Dilma) é algo que nem Zuenir se aVentura a falar... Ok. Eu o ajudo. Ele falou em seu artigo anterior. Trata-se de “
sua [de Dilma] incrível capacidade de superação — superou o preconceito antifeminista, o câncer e até o descrédito dos que a julgavam um robô incapaz de enfrentar Serra num debate”. Eu louvo o esforço de Zuenir Ventura em bajular Dilma Rousseff. Também acredito que seus maiores méritos são ser uma mulher, curar-se de doenças e, quando muito, não parecer um robô.

Quanto à vitória estratégica, o PSDB foi, ainda que numa batalha desigual, o partido com mais governadores eleitos: foram 8, que se somam na oposição aos 2 do DEM, abarcando a maioria dos estados mais populosos e prósperos, como Santa Catarina, Paraná, Minas e São Paulo. E o PT terá de lidar com isso, o que não estava em seus planos.

Zuenir abriu o texto falando da dificuldade da oposição em admitir a derrota. Vamos fingir que foi uma derrota normal, como a de Obama, sem o uso criminoso da máquina pública, só para ver se ele tem algo mais que a expressão “vitória estratégica” de José Serra para justificar o “chororô” adversário com os discursos correspondentes.

Em compensação, foi estranha a reação de certos dirigentes da oposição e de torcedores inconformados.

Pelo visto, nada. Assim manda a escola Zuenir: se você não tem declarações políticas suficientes para embasar a sua tese, procure entre os “torcedores inconformados”, mantendo-os anônimos, se possível. Com eles, toda tese poderá ser justificada.


Houve quem alegasse que “Dilma não se elegeu, foi eleita por Lula”, como se essa simplificação explicasse tudo.

De José Serra, passamos então a um “houve quem”. Um “houve quem” cujas falas levam aspas. Todo mundo tem direito a aspas no jornalismo brasileiro, até os anônimos. E continuo curioso: se essa simplificação de que Dilma foi eleita por Lula não explica tudo, Zuenir não vai se aVenturar a explicar pra gente? Ou ela venceu porque é mulher, superou um câncer, e não pareceu um robô?


E houve quem afirmasse que a candidata do PT ganhou porque os seus 55 milhões de eleitores têm desprezo pelos valores éticos ou, mais precisamente, por terem “assassinado a ética”.


Mais um “houve quem” com direito a aspas. Zuenir já pode reivindicar os méritos pela criação do Bolsa-Aspas da imprensa brasileira. Um programa social que dá voz aos anônimos, desde que anônimos permaneçam.

Antes de ser velada - de corpo ausente - por 55 milhões de eleitores, a ética precisou ser assassinada pelo PT (e ter seu cadáver continuamente ocultado do povo pela "intelectualidade" da qual Zuenir Ventura é quase expoente), através de mensalões, aloprados, erenices, namoros com as Farc, alinhamento com ditaduras, quebras de sigilo, assaltos às ideias e obras alheias, recolhimento de materiais legais da Igreja pela Polícia Federal, uso de estatais para propaganda eleitoral e demais crimes recentes que só tornam normal esta eleição para as mentes venturosas...

Só um país regido e (des)informado por mentes assim pode ignorar tudo isso e mais seus 50 mil homicídios por ano (o equivalente a 2 Guerras do Iraque anuais), os últimos lugares de seus estudantes em exames internacionais e o IDH na posição 73 do ranking (pouco à frente da Venezuela...), em favor de um governo cujo maior mérito foi não bloquear a política econômica de seus antecessores, com a qual procurou os meios corruptos de se beneficiar, como já descrevi aqui.

Se eu acreditasse nas eleições das maquininhas, e se acreditasse que os 55 milhões de eleitores de Dilma foram informados de metade das maracutaias petistas, diria que o bem-estar, a segurança, a honra, o caráter e a inteligência são critérios irrelevantes para o julgamento desses brasileiros, exclusivamente preocupados com seu dinheiro e sua conta bancária. Mesmo assim, dou a Zuenir Ventura e sua turma o crédito pela estupidez de, pelo menos, alguns.

A disputa teria sido um jogo maniqueísta entre um lado onde só houvesse o bem e outro onde só existisse o mal, com derrota do bem, claro.

Quem disse isso? O último que ouvi falar coisas assim foi Ziraldo, o rei da Bolsa-Ditadura, referindo-se ao período militar no documentário sobre Wilson Simonal. Mas eu entendo. É preciso atribuir à “oposição” um maniqueísmo bocó, reduzi-la a uma caricatura, jogar em sua boca o simplismo e a idiotice que dela se gostaria de ouvir, para então condená-la (ou “extirpá-la”, como diria Lula) por uma suposta justa causa. Para isso, sempre se encontrará (ou se inventará) um idiota em qualquer torcida, e as redes sociais hoje facilitam a tarefa que é uma beleza. (Maria Rita Kehl usou o mesmo expediente em seu último artigo no Estadão, como comentei aqui). Mas, em último caso - o de Zuenir -, nem é preciso se dar ao trabalho. Mantenha os idiotas anônimos e diga deles (ou por eles) o que quiser.


Malabarismo maior fez outro observador, ao concluir que a expressiva votação de Serra, somada aos votos brancos, nulos e ao alto nível de abstenção, “deixa clara a insatisfação da maioria do povo não só com ela, mas também com o próprio Lula”.


O fato é que quase 60% dos eleitores não votaram em Dilma. E Dilma, queira Zuenir ou não, é a afilhada política de Lula, como ela mesma se apresentou. O único malabarismo deste trecho vem agora. E adivinha quem faz?


Por esse raciocínio, que considera todos esses votos serristas, Serra teria sido o verdadeiro vencedor das eleições, não sua adversária.

Pois é. Quem, senão Zuenir, diria que aquele raciocínio “considera todos esses votos serristas”? Tratava-se na verdade, como até Zuenir havia dito, da soma dos votos serristas, nulos, brancos e do alto nível de abstenção. Insatisfação com o governo é uma coisa. Votar na oposição é outra (porque há oposições, como o PSDB, que, de fato, dão preguiça ao eleitor). Mas as aspas que Zuenir atribuíra ao tal “outro observador” não eram suficientes para justificar sua demonização. Não era exatamente aquilo que ele gostaria que o sujeito tivesse dito para poder tratá-lo como um idiota. Então ele precisava fazer um puxadinho nas aspas, sabe?


Fica parecendo que até os “torcedores inconformados” só viram idiotas completos quando Zuenir dá a sua mãozinha. Da próxima vez, Zuenir, faça o enxerto nas aspas mesmo. Como o sujeito é anônimo, ninguém vai reparar.

É o time daqueles que, por não gostarem de Lula, acham um absurdo 80% gostarem. Como pode ser tão popular se eu não o apoio?


Dessa vez, Zuenir não teve nem a coragem de colocar as aspas. É como se tivesse assumido a criação da pergunta. Que, aqui na Terra, aliás, é outra: como Lula pode ter 80% de aprovação, se quase 60% do eleitorado não votou em sua candidata?


A derrota às vezes não só obscurece a razão


Assim dizia Zuenir, o racional...


como mobiliza baixos instintos, como os dessa tal estudante de Direito Mayara Petruso, de SP, que postou no seu twitter a mensagem racista contra o Nordeste: “Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado.”

Sim, Mayara tem nome. Sim, falou uma bobagem e deve responder por ela. Só isso. Mas o que faz Zuenir, como tantos outros, numa ação política conjunta? Usa a frase contra os nordestinos, dita por um indivíduo desconhecido e isolado, num texto sobre a dificuldade da oposição de admitir sua derrota. É mais uma forma enviesada de demonizar a oposição. É mais um complemento seu à tese de Lula segundo a qual a eleição de Dilma significou a superação de preconceitos. É mais uma tentativa petista de dividir o país. Não encontrando declarações satisfatórias nem de políticos nem de anônimos que pudessem sustentar sua tese, Zuenir arrematou com um dos milhões de preconceitos que circulam pela internet, afetando sua indignação com todo o seu talento no ramo.


O PT agradece.

Os ataques de xenofobia da futura advogada — advogada, imagine! — provocaram polêmica nas redes sociais e o repúdio da OAB. E a reação bem-humorada de um pernambucano em meio à indignação: “Eles elegem o Tiririca e vêm nos chamar de atrasados!”


[O problema de analisar o texto completo de Zuenir Ventura é ter que copiar trechos irrelevantes. Por isso prefiro escrever artigos.]


Em vez de tentar tapar o sol com a peneira, seria mais honesto e realista responder como fez o brasilianista Timothy Power, quando lhe pediram para explicar a vitória de Dilma: “O padrão de vida de muitos brasileiros melhorou nestes últimos oito anos de governo, e as pessoas quiseram uma continuação.”

Como o padrão de vida de muitos brasileiros só melhorou nestes últimos oito anos de governo porque FHC havia, antes, estabilizado a moeda, podemos dizer, na verdade, que a propaganda petista, com seus crimes, mentiras e Venturas espalhados por todas as redações e universidades, foi mais eficiente do que as (poucas) verdades que o PSDB disse sobre o PT e sobre si mesmo, com a covardia, a frouxidão e as trapalhadas de um partido que ainda não aprendeu a fazer oposição.


Ou então se render ao óbvio, como fez Obama, adotando um mea culpa: perdemos porque não soubemos vencer. Simples assim.

Como não sou da escola Zuenir Ventura, repito: mea culpa, para mim, é outra coisa. Mas eu o entendo. Quando houve um tiroteio em São Conrado, Zuenir escreveu uma coluna chamada Danos a imagem. Da mesma maneira que o Rio de Janeiro, com seus tiroteios, não cuidou bem da sua imagem, Obama, derrotado nas eleições para o Congresso, tampouco cuidou bem da sua imagem. A imagem é muito importante para Zuenir Ventura. A dele com o PT, ele mantém sempre em dia.


Simples assim.

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Tuitadas (recentes) sobre Zuenir


[Pim] Zuenir Ventura iguala a mudança de discurso de Dilma sobre o aborto com uma troca involuntária de palavras de Serra. É pura canalhice.

[Pim] Zuenir vê contradição entre políticas "avançadas" de Marina e suas posições contra o aborto. A vida, para Zuenir, é mesmo um atraso...

[Pim] A propaganda ideológica de Zuenir Ventura é assim. Feita pra você aceitar aborto, casamento gay e regulamentação de drogas sem pensar.

[Pim] Onde está Zuenir Ventura - com aquele ar de bom moço - para dizer que a quebra de sigilo prejudica "a imagem" da Receita Federal?

[Pim] Se seu filho roubar alguém, eduque-o de acordo com o jornalismo brasileiro, dizendo: "Filho, assim você prejudica a sua imagem!".

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A obra-prima petista

Se Steven Spielberg tem Tom Cruise, o PT tem Edinho Silva. Cada um lidera a divisão pré-crime de sua época. Tom Cruise, em Washington, 2054. Edinho Silva, em São Paulo, 2010. O presidente do PT paulista antecipou o roteiro de Minority Report 2. Se, no filme de Spielberg, o criminoso é preso antes de cometer o crime, na campanha eleitoral petista a vítima é culpada antes de sofrê-lo. Lula, o Filho do Brasil? Que nada! O PT é capaz de tramas muito melhores para levar o Oscar.

Dias após militantes petistas agredirem José Serra com um rolo de fita crepe, a equipe de Edinho Silva registrou, na Polícia Civil, um boletim de ocorrência de preservação de direitos. O objetivo é evitar que o partido seja responsabilizado por eventuais tumultos causados por “falsos” militantes petistas infiltrados nos próximos atos de campanha do PSDB. De quem veio a denúncia? Marilena Chaui. Se Tom Cruise tem os paranormais precogs para prever assassinatos, Edinho Silva tem a militante da USP Marilena Chaui para prever conspirações tucanas.

Os paranormais de Tom Cruise trabalham juntos e conectados, flutuando num tanque de fluido nutriente. Os paranormais do PT trabalham juntos e conectados, afogados num tanque de ideias marxistas e gramscianas. Os paranormais de Tom Cruise se chamam Dashiell Hammett, Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, em homenagem aos famosos escritores de mistério. Os paranormais do PT se chamam Marilena Chaui, Frei Betto e Emir Sader, cujas obras consistem em esconder os criminosos até o último capítulo, inclusive.

Quando os paranormais de Tom Cruise vislumbram crimes futuros, os nomes da vítima e do criminoso aparecem escritos cada qual numa pequena esfera, como duas bolinhas de bingo sorteadas. Os paranormais do PT simplificam a previsão, sorteando sempre a mesma bolinha para ambos os papeis. Se, a partir dos nomes, a equipe de Tom Cruise vai às ruas prender os pré-criminosos, a equipe de Edinho Silva vai à Polícia Civil garantir-lhes um salvo-conduto. Se o crime acontecer? Bingo! Prendam as vítimas.

O escritor e enciclopedista Diderot dizia que “toda a verdadeira poesia é emblemática”. Ao condensar num só boletim de ocorrência a autoridade ilimitada que se arroga o partido, seu papel de representante de um futuro pelo qual jamais terá de responder, sua inocência prévia incondicional, sua inversão moral, temporal e da relação entre criminoso e vítima, o roteiro de Minority Report 2 constitui-se uma das grandes obras de arte petistas de todos os tempos. Seu alcance simbólico é maior que o do mensalão, ainda que sua popularidade jamais lhe chegue aos pés.

Da mesma maneira que o PT usa o e-mail da Petrobras, o sistema de som da Eletrobras e os jornais da CUT para pedir votos para Dilma Rousseff, sugiro que faça como o coprodutor de Guerra ao Terror Nicolas Chartier e comece a pedir votos por e-mail para os membros da academia americana. Lula, o Filho do Brasil já era. Eu quero ver Dilma Rousseff ao lado de Edinho Silva no palco do Kodak Theater, dizendo que o Oscar de Melhor Filme é “uma questão muito importante”.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A nossa Mina San José

[versão em áudio - aqui]

A economia brasileira estava soterrada a 622 metros de profundidade, sem iluminação e com ventilação parca. Os mais pobres alimentavam-se com duas colheres de atum e meio copo de leite, e se comunicavam com o mundo por meio de bilhetes ou linhas telefônicas improvisadas. Convocados pelo governo FHC, os especialistas estudaram o terreno, elaboraram um plano de resgate e abriram um duto de 58 centímetros de diâmetro no solo, pelo qual desceriam uma cápsula, aprimorada em relação a resgates anteriores e fabricada especialmente para tirar o país do buraco econômico. O que era necessário agora? Puxar a cordinha.

Nesse momento, porém, as regras de expediente obrigavam FHC a ceder o comando da operação a Lula, que havia lutado o tempo todo contra aquele plano de resgate chamado Real. Ao tomar posse da parafernália e deparar-se com seus alicerces prontos para um salvamento de sucesso, Lula preferiu então manter a equipe original à frente da operação, ocupando-se apenas de apagar os vestígios de seu antecessor. Para isso, contava com o exército de professores universitários, cientistas políticos, colunistas, celebridades e economistas, cujos esforços na mineração nacional de ideias nos últimos 30 anos o haviam elevado ao poder.

Antes de puxar a cordinha, Lula ainda reuniu os programas bolsa-alimentação, vale-gás e bolsa-escola, enviados por FHC para a subsistência física e mental dos mais pobres, e rebatizou-os como o seu – e somente seu – Bolsa-família. Estava tudo preparado para o espetáculo da retirada. Quando os pobres foram subindo um a um acima da linha da pobreza, viam somente o presidente Lula recebendo-os de braços abertos no solo, sob aplausos da imprensa nacional e internacional. Quando perguntavam quem lhes enviara proteína, glicose e medicamentos, Lula sempre dizia: eu. E todos comemoravam, cada qual com seu celular.

Agora que Lula vai botar o pijama, FHC o desafiou para uma conversa “cara a cara”: “Quero ver o presidente Lula, que fez o PT votar contra o Real, dizer que estabilizou o Brasil. Ele não precisa disso. Para que ser tão mesquinho?”. Não seria surpreendente se Lula respondesse o mesmo que disse, em reunião no Alvorada, sobre a campanha eleitoral: “Fui muito duro em alguns estados por onde passei, mas precisava ajudar a eleger alguns senadores”. Bastaria trocar “alguns senadores” por “Dilma Rousseff” – e pronto: seu exército de mineração de ideias diria que Lula, num gesto de rara grandeza, “admitiu” ter “extrapolado” com FHC.

Eis o jogo de cena lulista, que passou 8 anos incólume pela presidência do Brasil (e do qual Dilma, com sua posição camuflada sobre o aborto, mostra ter vindo garantir a continuidade). A mina de ouro e prata sobre a qual teve início seu mandato rendeu frutos tanto aos pobres quanto a mensaleiros, aloprados e erenices. A continuação do crescimento econômico, com a ampliação de programas como o Bolsa-família, conviveu pacífica e perfeitamente com o uso petista da parafernália pública em benefício próprio. Lula deixou a economia funcionando como estava, e tratou de soterrar em seu lugar a moral, os valores, os princípios e o imaginário popular, que são – em última análise – a base das decisões humanas, incluindo as econômicas.

Ou a gente puxa logo a cordinha dessa cápsula. Ou Dilma puxará a da descarga.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Dilmês fluente

Há quem só comece a falar dizendo “Então...”. Há quem só comece a perguntar dizendo “Posso te fazer uma pergunta?”. Eu sou diferente. Aprendi com Dilma Rousseff. Com muito orgulho, faço parte agora daqueles que só começam a responder dizendo: “Essa questão, eu acho uma questão muito importante”.

É curioso como pequenos detalhes fazem mesmo a diferença. Minha vida mudou. Nunca estive com os índices de popularidade tão altos.

Felipe, você quer o almoço agora?

- Essa questão, eu acho uma questão muito importante.

Água e óleo, patrão?

- Essa questão, eu acho uma questão muito importante.

O que você acha, Felipe, da revelação pública de desejos sexuais e preferências amorosas, em redes sociais como o facebook?

- Essa questão, eu acho uma questão muito importante.

Veja bem, Felipe, se o Ficha Limpa, além de punir os réus atuais antes do fim de seus julgamentos, quer também punir retroativamente os réus que foram condenados quando a lei ainda não existia, você não acha que devemos também ser a favor do aborto retroativo de quem é a favor do aborto?

- Essa questão, eu acho uma questão muito importante.

Felipe, se a única proposta inteligível de Marina Silva é a convocação de uma porção de plebiscitos e se o STF prefere ouvir “a voz rouca das ruas” (Joaquim Barbosa) ou temperar o rigor da lei (Ricardo Lewandowski) a fazer cumprir a Constituição, você não acha que a escalação do Flamengo, a política externa, a legalização das drogas e do aborto, e a pena de morte devem ser decididas e temperadas pela Raça Rubro-Negra?

- Essa questão, eu acho uma questão muito importante.

Se Barack Obama disse num comício em Albuquerque, no Novo México, que os preceitos de Jesus sobre “cuidar dos irmãos” foram os responsáveis pela sua escolha pelo cristianismo, e se seu irmão vive numa cabana do Quênia, sem água corrente nem energia elétrica, você não acha, Felipe, que Dilma Rousseff é mais cristã que Obama, pois sua Casa Civil sempre esteve aberta “aos irmãos” que quisessem aproveitar?

- Essa questão, eu acho uma questão muito importante.

O seu voto, então, é para José Serra, Felipe?

- Essa questão, eu acho uma questão muito importante.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A comédia eleitoral

O escritor José de Alencar pedia mais senso de humor à diretoria do Jockey Club, em 1854. Ele sugeria que, no dia das corridas de cavalos, fossem instituídas também corridas de burrinhos e de piquiras (cavalos de pequena estatura) para animar a plateia. Todos ganhariam “uma boa meia hora de rir franco e alegre”, e “o gosto dos passatempos hípicos se iria popularizando”. Até onde sei – e eu nada sei –, ninguém do turfe deu bola para Alencar. Em compensação, não há hoje corrida eleitoral no Brasil que não traga junto uma corrida de burrinhos e de piquiras.

O meu burrinho preferido é Zuenir Ventura. O meu piquira, Luis Fernando Verissimo. Perto deles, o palhaço Tiririca é apenas uma sombra no fotochart. Para Zuenir, a violação da vida privada da família Serra, a cobrança de propina na Casa Civil de Dilma Rousseff e o acobertamento de ambos pelo governo Lula estão no mesmo patamar da reação de José Serra. “De um lado”, os crimes (que ele ameniza); “de outro”, a reação, que, para o padrão Ventura de polidez, soa muito agressiva. O ideal é que a vítima seja generosa, assistindo em silêncio a cada etapa de sua própria extinção. Querem acabar com a democracia? Por aqui!


Essa dupla é assim. Enquanto Zuenir vai elogiar a “ética” com “atitude” de Marina Silva, que “nunca elevou o tom” (nem teve o sigilo da família violado), Verissimo senta na arquibancada. Tudo seria uma mera batalha do noticiário contra os índices de Dilma para levar a eleição ao segundo turno. Verissimo é piquira criado. Chama os crimes do PT de “notícias de corrupção”, e recorre à popularidade do presidente para legitimar uma revisão do “conceito da imprensa como formadora de opiniões”. Verissimo é Lula: “Nós somos a opinião pública”. É Dirceu: “O problema do Brasil é o abuso do poder de informar”. É Dilma: oi... é... ah... boa noite.


Se o jornalismo virou uma guerra de versões, eximindo-se da responsabilidade de identificar nelas os fatos, não foi sem a contribuição de Zuenir e Verissimo. Quando a ordem é equiparar disparidades, meu burrinho e meu piquira jamais refugam. Pelo contrário. Mostram seu rico repertório de malabarismos morais, abanam o rabinho para a diretoria e jogam a bola para a torcida. Eu, como José de Alencar, sou a favor da “parte cômica do divertimento”, e faço de tudo para que o gosto dos passatempos políticos vá se popularizando. Se Zuenir e Verissimo podem distrair a plateia, eu também posso avisá-la em qual raia eles fazem xixi e cocô.

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Tuitada da semana

[Pim] Se você jamais entendeu a posição de Dilma sobre o aborto, eu traduzo. É assim, ó: Sou contra o aborto, exceto nos casos de gravidez.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Como eu tinha um DVD, não me incomodei

Wagner Moura traduziu um soneto de Shakespeare. Está no livro Sonetos de Shakespeare: Faça Você Mesmo, que reúne, entre outros, a tropa de elite da tradução nacional: Lázaro Ramos (que “lembra” ter passado dias pensando em uma só palavra), Fernanda Torres, Jorge Furtado e Fernando Meirelles. Na pena de Wagner Moura, o verso final do Soneto nº 71 (And mock you with me after I am gone”) ficou assim: “Te sacaneará. E eu já morri. Fudeu.”. Wagner Moura é o Bardo do Bope. O Capitão Nascimento de Stratford-upon-Avon. Ele senta o dedo em Shakespeare com a mesma naturalidade com que seu personagem metralha um traficante da Rocinha. E ainda convida você a fazer o mesmo.

FHC, o ex-presidente em cujo governo foram criadas as bases da atual estabilidade brasileira, foi bem mais modesto. Ensinou o PSDB a traduzir ao povo os crimes do PT. Em lugar de quebra do sigilo fiscal, que ninguém entende, deve-se dizer: “você se sente violado, sua vida devassada”, “estão entrando na sua vida privada, na vida da sua família”, “amanhã vai ter fiscal entrando nas suas coisas, vendo o valor do seu salário na sua carteira de trabalho, falsificando documentos em seu nome para criar intrigas”. Em lugar de lobismo e tráfico de influência na Casa Civil: “é o mensalão de novo”, “é uma sala ao lado da do presidente em que ficam tramando para beneficiar empresas”, Lula “estava ao lado, como não viu ou não ouviu?”. E, se Lula estava ao lado, vale lembrar, Dilma estava dentro.

Eu sou como FHC. Deixo Shakespeare para especialistas do porte de Wagner Moura, e cuido de tornar mais acessíveis as obras do PT. Quando comecei a traduzi-las para o público jovem do site Tribuneiros.com, meu objetivo era o mesmo daquele alegado pela tropa de Wagner: incentivar a leitura no país. Agora, Guido Mantega está disposto a me ajudar. Para conter o ímpeto dos devassadores da nossa vida privada, sua ideia é transformar de vez a Constituição em uma micareta, criando nela uma “área vip” com proteção especial e exclusiva para os políticos. Se você não é político, sinto muito: você tem menos direito aos seus direitos; menos garantia às suas garantias. Da próxima vez, garanta sua pulseirinha vermelha no primeiro lote.

É dura a vida de tradutor do PT. Quando você acha que já deixou tudo mastigadinho, sempre vem José Dirceu e mostra seu insuperável talento. Ninguém melhor do que o operador do primeiro mensalão para revelar que o problema do Brasil é “o abuso do poder de informar”; que o PT precisa “fazer a reforma política” para se “transformar em maioria”; que “a eleição da Dilma é mais importante do que a eleição do Lula porque é a eleição do projeto político”. José Dirceu quer triplicar a quantidade de dinheiro público destinada aos partidos, e não gosta dos excessos de liberdade da “mídia”, cujas denúncias de corrupção já derrubaram nove ministros do governo Lula, inclusive ele. Para Dirceu, só o poder político pode se contrapor ao poder da mídia, de modo que o governo Dilma vem aí para corrigir essas e outras falhas. Talvez, como disse Lula, “extirpar o DEM” da vida pública. Chega de oposição.

O Sr. Myiagi – hoje Mr. Han - dizia que não existem maus alunos, só maus professores. Eu também (quase) acredito que não existem maus eleitores, só maus tradutores. Fora as raras exceções (normalmente da Revista Veja) capazes de derrubar ministros com denúncias, a imprensa brasileira – e até a oposição – traduz os crimes do PT da mesma forma que nossos atores e cineastas traduzem Shakespeare: tirando do autor da obra todo o seu método, toda a sua poesia, como se tudo não passasse de uma brincadeira de criança. O célebre texto do pastor protestante Martin Niemöller (1892-1984), que aqui se atribui ora a Maiakovski, ora a Bertolt Brecht, ora ao brasileiro Eduardo Alves da Costa, vem comprovar a minha tese: no Brasil, de uma maneira ou de outra, a autoria é o que se perde na tradução.

Niemöller sintetizou (e simplificou) para a posteridade o quanto o estado anestésico de ignorância e indiferença das pessoas – sobretudo das elites intelectuais que as informam – é o ambiente ideal para a progressão da barbárie. Ele escreveu: “Um dia, vieram e levaram meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar.”.

Contaminado e até inspirado por Wagner Moura, tomei a liberdade – enquanto ela ainda existe – de fazer uma “tradução livre” de Niemöller, aplicando ao petismo (das últimas semanas) o que ele aplicou ao nazismo. Como Lázaro Ramos, também passei dias pensando em uma só palavra. Mal posso esperar para lançar o livro Crimes do PT – Faça Você Mesmo, do qual o leitor poderá participar semanalmente, atualizando cada linha com as novas mamatas da tropa de Lula. Os shakespearianos doaram “seus direitos autorais” para as crianças da Unicef. Eu estou pensando em doar os meus para a campanha de José Serra. Por ora, dedico esta obra aos eleitores de Dilma. Vamos lá. Juntem-se a mim:

“Um dia, vieram e grampearam o telefone do meu vizinho. Como eu tinha um prato de arroz, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e cobraram a ‘cervejinha’ de outro vizinho. Como eu tinha uma televisão, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e tiraram o cadeado da minha casa para colocar na minha boca. Como eu tinha um DVD, não me incomodei. No quarto dia, vieram e levaram minha família. Como eu já morri, fudeu.”

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O sexo oral jornalístico

Minha cena favorita no cinema é aquela em que um batalhão de jornalistas cerca alguém, em busca de uma declaração. Eu sempre observo uma por uma as expressões dos repórteres fajutos: o interesse forçado, a bajulação excessiva, o cinismo canastrão, o desejo de aparecer, a simples vontade de levar a figurante ao lado para a cama depois que o diretor gritar “corta”. Nenhuma outra cena é mais representativa do jornalismo brasileiro do que essa. E as farsas coletivas, se não forem observadas no detalhe, podem alcançar efeitos hipnóticos.

O meu figurante favorito na imprensa brasileira é Ricardo Noblat. Sempre que o PT comete um crime, eu observo as expressões que ele usa em sua coluna no Globo. Ricardo Noblat é como aquele intérprete de Lula para surdos que, em dezembro de 2009, quando o presidente disse que ia “tirar o povo da merda”, traduziu em Libras para “tirar o povo do esgoto”. Ou aquelas legendas da sessão erótica que traduzem “vem me dar uma chupada” para “vamos fazer sexo oral”. Seu método consiste na mesma disseminação de eufemismos que tudo encobre e (a todos) infantiliza. Com uma diferença: Noblat agora faz “Mea Culpa” – o que é muito bonito.

Esta semana foi assim. Em artigo intitulado “Errei. Perdão”, o jornalista se retrata por ter chamado o PT de “lerdo, irresponsável e incompetente no trato da violação do sigilo fiscal de Verônica Serra”, quando o certo, segundo ele, era “ter dito simplesmente que o governo preferiu esconder o caso”. Noblat, figurante dedicado, usa a palavra “governo” (que, por acaso, é do PT) para isolá-lo de qualquer relação com o “partido” (que, por acaso, é o PT). O “caso” teria sido criado por alguém dessa outra coisa chamada “partido”, e o pecado do “governo” teria sido apenas “esconder o caso”.

Mas “governo”, para Noblat, nada tem a ver com Lula, “sujeito esperto, dotado de rara sensibilidade política”, cuja reação “razoável”, se tivesse sido alertado pelo secretário da Receita, seria ligar para Serra: “Oi, Serra, acabei de saber que violaram o sigilo fiscal da Verônica. Pois é, sei... Eu lembro que você tinha me alertado para essa possibilidade. Mas já tomei providências”. Na fala imaginária do Lula sensível, Noblat até o redime por não ter tomado providências antes, como se ainda o fizesse em tempo agora.

Já para isolar Dilma, Noblat não precisou de uma fala imaginária. Pegou uma palavrinha vaga que ela usou contra o episódio (“malfeito”), e pronto: agora Noblat, Lula e Dilma condenam a violação do sigilo de Verônica que, na pior das hipóteses, é um crime apenas do “partido” (ou melhor, de alguém filiado ao “partido”, sem nenhuma relação com seus dirigentes), e que foi escondido pelo “governo”, essa coisa abstrata da qual Lula e Dilma não fazem parte, ainda que os dados da moça tenham sido encontrados com o pessoal da candidatura Dilma.

Numa espécie de “Mea Culpa” do “Mea Culpa”, o Noblat inicialmente arrependido de ter chamado o governo de “lerdo, irresponsável e incompetente” chega a dizer que ele não foi lerdo nem incompetente, mas “foi irresponsável”. E, “por omissão (...), acabou sendo conivente com o que Dilma chamou de malfeito”. Em outras palavras: os crimes do PT não nascem exatamente crimes; eles apenas – em função de algumas trapalhadas ou esquecimentos; assim, quase por acaso... – “acabam sendo”...

Começar a análise de uma ação criminosa do PT pela hipótese mais absurdamente amena (no caso, a “lerdeza” ou “incompetência” do governo) para então parar na mais confortavelmente inócua (uma extrapoladinha básica), ao mesmo tempo em que blinda e bajula Lula sem constrangimentos, é expediente rotineiro de Ricardo Noblat, sobre o qual já escrevi em “Da arte de criticar sem criticar” (aqui). Mas agora, em vez de passar de uma hipótese à outra no mesmo texto, Noblat prefere um “Mea Culpa” entre as duas, o que lhe confere uma certa dignidade. É como se o intérprete de Libras se corrigisse: “‘Tirar o povo do esgoto’, não! Do bueiro!’”.

E nós, surdos, assistindo ao filme em estado hipnótico, disséssemos: ah tá.

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Tuitadas do dia

[Pim] Lula acusa a vítima de partir para a baixaria. Será este um de seus recursos que @BlogdoNoblat chama de "rara sensibilidade política"?

[Pim] Primeiro, era incompetência. Depois, conivência por omissão. Quando é que @BlogdoNoblat vai escrever que o PT comete crimes por opção?