sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A comédia eleitoral

O escritor José de Alencar pedia mais senso de humor à diretoria do Jockey Club, em 1854. Ele sugeria que, no dia das corridas de cavalos, fossem instituídas também corridas de burrinhos e de piquiras (cavalos de pequena estatura) para animar a plateia. Todos ganhariam “uma boa meia hora de rir franco e alegre”, e “o gosto dos passatempos hípicos se iria popularizando”. Até onde sei – e eu nada sei –, ninguém do turfe deu bola para Alencar. Em compensação, não há hoje corrida eleitoral no Brasil que não traga junto uma corrida de burrinhos e de piquiras.

O meu burrinho preferido é Zuenir Ventura. O meu piquira, Luis Fernando Verissimo. Perto deles, o palhaço Tiririca é apenas uma sombra no fotochart. Para Zuenir, a violação da vida privada da família Serra, a cobrança de propina na Casa Civil de Dilma Rousseff e o acobertamento de ambos pelo governo Lula estão no mesmo patamar da reação de José Serra. “De um lado”, os crimes (que ele ameniza); “de outro”, a reação, que, para o padrão Ventura de polidez, soa muito agressiva. O ideal é que a vítima seja generosa, assistindo em silêncio a cada etapa de sua própria extinção. Querem acabar com a democracia? Por aqui!


Essa dupla é assim. Enquanto Zuenir vai elogiar a “ética” com “atitude” de Marina Silva, que “nunca elevou o tom” (nem teve o sigilo da família violado), Verissimo senta na arquibancada. Tudo seria uma mera batalha do noticiário contra os índices de Dilma para levar a eleição ao segundo turno. Verissimo é piquira criado. Chama os crimes do PT de “notícias de corrupção”, e recorre à popularidade do presidente para legitimar uma revisão do “conceito da imprensa como formadora de opiniões”. Verissimo é Lula: “Nós somos a opinião pública”. É Dirceu: “O problema do Brasil é o abuso do poder de informar”. É Dilma: oi... é... ah... boa noite.


Se o jornalismo virou uma guerra de versões, eximindo-se da responsabilidade de identificar nelas os fatos, não foi sem a contribuição de Zuenir e Verissimo. Quando a ordem é equiparar disparidades, meu burrinho e meu piquira jamais refugam. Pelo contrário. Mostram seu rico repertório de malabarismos morais, abanam o rabinho para a diretoria e jogam a bola para a torcida. Eu, como José de Alencar, sou a favor da “parte cômica do divertimento”, e faço de tudo para que o gosto dos passatempos políticos vá se popularizando. Se Zuenir e Verissimo podem distrair a plateia, eu também posso avisá-la em qual raia eles fazem xixi e cocô.

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Tuitada da semana

[Pim] Se você jamais entendeu a posição de Dilma sobre o aborto, eu traduzo. É assim, ó: Sou contra o aborto, exceto nos casos de gravidez.

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