sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Como eu tinha um DVD, não me incomodei

Wagner Moura traduziu um soneto de Shakespeare. Está no livro Sonetos de Shakespeare: Faça Você Mesmo, que reúne, entre outros, a tropa de elite da tradução nacional: Lázaro Ramos (que “lembra” ter passado dias pensando em uma só palavra), Fernanda Torres, Jorge Furtado e Fernando Meirelles. Na pena de Wagner Moura, o verso final do Soneto nº 71 (And mock you with me after I am gone”) ficou assim: “Te sacaneará. E eu já morri. Fudeu.”. Wagner Moura é o Bardo do Bope. O Capitão Nascimento de Stratford-upon-Avon. Ele senta o dedo em Shakespeare com a mesma naturalidade com que seu personagem metralha um traficante da Rocinha. E ainda convida você a fazer o mesmo.

FHC, o ex-presidente em cujo governo foram criadas as bases da atual estabilidade brasileira, foi bem mais modesto. Ensinou o PSDB a traduzir ao povo os crimes do PT. Em lugar de quebra do sigilo fiscal, que ninguém entende, deve-se dizer: “você se sente violado, sua vida devassada”, “estão entrando na sua vida privada, na vida da sua família”, “amanhã vai ter fiscal entrando nas suas coisas, vendo o valor do seu salário na sua carteira de trabalho, falsificando documentos em seu nome para criar intrigas”. Em lugar de lobismo e tráfico de influência na Casa Civil: “é o mensalão de novo”, “é uma sala ao lado da do presidente em que ficam tramando para beneficiar empresas”, Lula “estava ao lado, como não viu ou não ouviu?”. E, se Lula estava ao lado, vale lembrar, Dilma estava dentro.

Eu sou como FHC. Deixo Shakespeare para especialistas do porte de Wagner Moura, e cuido de tornar mais acessíveis as obras do PT. Quando comecei a traduzi-las para o público jovem do site Tribuneiros.com, meu objetivo era o mesmo daquele alegado pela tropa de Wagner: incentivar a leitura no país. Agora, Guido Mantega está disposto a me ajudar. Para conter o ímpeto dos devassadores da nossa vida privada, sua ideia é transformar de vez a Constituição em uma micareta, criando nela uma “área vip” com proteção especial e exclusiva para os políticos. Se você não é político, sinto muito: você tem menos direito aos seus direitos; menos garantia às suas garantias. Da próxima vez, garanta sua pulseirinha vermelha no primeiro lote.

É dura a vida de tradutor do PT. Quando você acha que já deixou tudo mastigadinho, sempre vem José Dirceu e mostra seu insuperável talento. Ninguém melhor do que o operador do primeiro mensalão para revelar que o problema do Brasil é “o abuso do poder de informar”; que o PT precisa “fazer a reforma política” para se “transformar em maioria”; que “a eleição da Dilma é mais importante do que a eleição do Lula porque é a eleição do projeto político”. José Dirceu quer triplicar a quantidade de dinheiro público destinada aos partidos, e não gosta dos excessos de liberdade da “mídia”, cujas denúncias de corrupção já derrubaram nove ministros do governo Lula, inclusive ele. Para Dirceu, só o poder político pode se contrapor ao poder da mídia, de modo que o governo Dilma vem aí para corrigir essas e outras falhas. Talvez, como disse Lula, “extirpar o DEM” da vida pública. Chega de oposição.

O Sr. Myiagi – hoje Mr. Han - dizia que não existem maus alunos, só maus professores. Eu também (quase) acredito que não existem maus eleitores, só maus tradutores. Fora as raras exceções (normalmente da Revista Veja) capazes de derrubar ministros com denúncias, a imprensa brasileira – e até a oposição – traduz os crimes do PT da mesma forma que nossos atores e cineastas traduzem Shakespeare: tirando do autor da obra todo o seu método, toda a sua poesia, como se tudo não passasse de uma brincadeira de criança. O célebre texto do pastor protestante Martin Niemöller (1892-1984), que aqui se atribui ora a Maiakovski, ora a Bertolt Brecht, ora ao brasileiro Eduardo Alves da Costa, vem comprovar a minha tese: no Brasil, de uma maneira ou de outra, a autoria é o que se perde na tradução.

Niemöller sintetizou (e simplificou) para a posteridade o quanto o estado anestésico de ignorância e indiferença das pessoas – sobretudo das elites intelectuais que as informam – é o ambiente ideal para a progressão da barbárie. Ele escreveu: “Um dia, vieram e levaram meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar.”.

Contaminado e até inspirado por Wagner Moura, tomei a liberdade – enquanto ela ainda existe – de fazer uma “tradução livre” de Niemöller, aplicando ao petismo (das últimas semanas) o que ele aplicou ao nazismo. Como Lázaro Ramos, também passei dias pensando em uma só palavra. Mal posso esperar para lançar o livro Crimes do PT – Faça Você Mesmo, do qual o leitor poderá participar semanalmente, atualizando cada linha com as novas mamatas da tropa de Lula. Os shakespearianos doaram “seus direitos autorais” para as crianças da Unicef. Eu estou pensando em doar os meus para a campanha de José Serra. Por ora, dedico esta obra aos eleitores de Dilma. Vamos lá. Juntem-se a mim:

“Um dia, vieram e grampearam o telefone do meu vizinho. Como eu tinha um prato de arroz, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e cobraram a ‘cervejinha’ de outro vizinho. Como eu tinha uma televisão, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e tiraram o cadeado da minha casa para colocar na minha boca. Como eu tinha um DVD, não me incomodei. No quarto dia, vieram e levaram minha família. Como eu já morri, fudeu.”

Um comentário: