quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O sexo oral jornalístico

Minha cena favorita no cinema é aquela em que um batalhão de jornalistas cerca alguém, em busca de uma declaração. Eu sempre observo uma por uma as expressões dos repórteres fajutos: o interesse forçado, a bajulação excessiva, o cinismo canastrão, o desejo de aparecer, a simples vontade de levar a figurante ao lado para a cama depois que o diretor gritar “corta”. Nenhuma outra cena é mais representativa do jornalismo brasileiro do que essa. E as farsas coletivas, se não forem observadas no detalhe, podem alcançar efeitos hipnóticos.

O meu figurante favorito na imprensa brasileira é Ricardo Noblat. Sempre que o PT comete um crime, eu observo as expressões que ele usa em sua coluna no Globo. Ricardo Noblat é como aquele intérprete de Lula para surdos que, em dezembro de 2009, quando o presidente disse que ia “tirar o povo da merda”, traduziu em Libras para “tirar o povo do esgoto”. Ou aquelas legendas da sessão erótica que traduzem “vem me dar uma chupada” para “vamos fazer sexo oral”. Seu método consiste na mesma disseminação de eufemismos que tudo encobre e (a todos) infantiliza. Com uma diferença: Noblat agora faz “Mea Culpa” – o que é muito bonito.

Esta semana foi assim. Em artigo intitulado “Errei. Perdão”, o jornalista se retrata por ter chamado o PT de “lerdo, irresponsável e incompetente no trato da violação do sigilo fiscal de Verônica Serra”, quando o certo, segundo ele, era “ter dito simplesmente que o governo preferiu esconder o caso”. Noblat, figurante dedicado, usa a palavra “governo” (que, por acaso, é do PT) para isolá-lo de qualquer relação com o “partido” (que, por acaso, é o PT). O “caso” teria sido criado por alguém dessa outra coisa chamada “partido”, e o pecado do “governo” teria sido apenas “esconder o caso”.

Mas “governo”, para Noblat, nada tem a ver com Lula, “sujeito esperto, dotado de rara sensibilidade política”, cuja reação “razoável”, se tivesse sido alertado pelo secretário da Receita, seria ligar para Serra: “Oi, Serra, acabei de saber que violaram o sigilo fiscal da Verônica. Pois é, sei... Eu lembro que você tinha me alertado para essa possibilidade. Mas já tomei providências”. Na fala imaginária do Lula sensível, Noblat até o redime por não ter tomado providências antes, como se ainda o fizesse em tempo agora.

Já para isolar Dilma, Noblat não precisou de uma fala imaginária. Pegou uma palavrinha vaga que ela usou contra o episódio (“malfeito”), e pronto: agora Noblat, Lula e Dilma condenam a violação do sigilo de Verônica que, na pior das hipóteses, é um crime apenas do “partido” (ou melhor, de alguém filiado ao “partido”, sem nenhuma relação com seus dirigentes), e que foi escondido pelo “governo”, essa coisa abstrata da qual Lula e Dilma não fazem parte, ainda que os dados da moça tenham sido encontrados com o pessoal da candidatura Dilma.

Numa espécie de “Mea Culpa” do “Mea Culpa”, o Noblat inicialmente arrependido de ter chamado o governo de “lerdo, irresponsável e incompetente” chega a dizer que ele não foi lerdo nem incompetente, mas “foi irresponsável”. E, “por omissão (...), acabou sendo conivente com o que Dilma chamou de malfeito”. Em outras palavras: os crimes do PT não nascem exatamente crimes; eles apenas – em função de algumas trapalhadas ou esquecimentos; assim, quase por acaso... – “acabam sendo”...

Começar a análise de uma ação criminosa do PT pela hipótese mais absurdamente amena (no caso, a “lerdeza” ou “incompetência” do governo) para então parar na mais confortavelmente inócua (uma extrapoladinha básica), ao mesmo tempo em que blinda e bajula Lula sem constrangimentos, é expediente rotineiro de Ricardo Noblat, sobre o qual já escrevi em “Da arte de criticar sem criticar” (aqui). Mas agora, em vez de passar de uma hipótese à outra no mesmo texto, Noblat prefere um “Mea Culpa” entre as duas, o que lhe confere uma certa dignidade. É como se o intérprete de Libras se corrigisse: “‘Tirar o povo do esgoto’, não! Do bueiro!’”.

E nós, surdos, assistindo ao filme em estado hipnótico, disséssemos: ah tá.

*****

Tuitadas do dia

[Pim] Lula acusa a vítima de partir para a baixaria. Será este um de seus recursos que @BlogdoNoblat chama de "rara sensibilidade política"?

[Pim] Primeiro, era incompetência. Depois, conivência por omissão. Quando é que @BlogdoNoblat vai escrever que o PT comete crimes por opção?

4 comentários:

  1. Que bom que retornaste.

    Abs,

    R.Pian

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  2. sensacional...

    o pior é saber q no final... ah tá.



    Carolina Aragão

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  3. Excelente análise. Expressou precisamente o que se passa na nossa imprensa. O debate público brasileiro está todo viciado por tais deturpações semânticas. Seria preciso que um Karl Krauss tupiniquim escrevesse um "Os Últimos Dias do Brasil". A propósito, aproveito para divulgar meu blog: http://obrasileouniverso.blogspot.com/. Talvez te interesse.
    Parabéns pelo trabalho. Um abraço,
    Flávio

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