sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A nossa Mina San José

[versão em áudio - aqui]

A economia brasileira estava soterrada a 622 metros de profundidade, sem iluminação e com ventilação parca. Os mais pobres alimentavam-se com duas colheres de atum e meio copo de leite, e se comunicavam com o mundo por meio de bilhetes ou linhas telefônicas improvisadas. Convocados pelo governo FHC, os especialistas estudaram o terreno, elaboraram um plano de resgate e abriram um duto de 58 centímetros de diâmetro no solo, pelo qual desceriam uma cápsula, aprimorada em relação a resgates anteriores e fabricada especialmente para tirar o país do buraco econômico. O que era necessário agora? Puxar a cordinha.

Nesse momento, porém, as regras de expediente obrigavam FHC a ceder o comando da operação a Lula, que havia lutado o tempo todo contra aquele plano de resgate chamado Real. Ao tomar posse da parafernália e deparar-se com seus alicerces prontos para um salvamento de sucesso, Lula preferiu então manter a equipe original à frente da operação, ocupando-se apenas de apagar os vestígios de seu antecessor. Para isso, contava com o exército de professores universitários, cientistas políticos, colunistas, celebridades e economistas, cujos esforços na mineração nacional de ideias nos últimos 30 anos o haviam elevado ao poder.

Antes de puxar a cordinha, Lula ainda reuniu os programas bolsa-alimentação, vale-gás e bolsa-escola, enviados por FHC para a subsistência física e mental dos mais pobres, e rebatizou-os como o seu – e somente seu – Bolsa-família. Estava tudo preparado para o espetáculo da retirada. Quando os pobres foram subindo um a um acima da linha da pobreza, viam somente o presidente Lula recebendo-os de braços abertos no solo, sob aplausos da imprensa nacional e internacional. Quando perguntavam quem lhes enviara proteína, glicose e medicamentos, Lula sempre dizia: eu. E todos comemoravam, cada qual com seu celular.

Agora que Lula vai botar o pijama, FHC o desafiou para uma conversa “cara a cara”: “Quero ver o presidente Lula, que fez o PT votar contra o Real, dizer que estabilizou o Brasil. Ele não precisa disso. Para que ser tão mesquinho?”. Não seria surpreendente se Lula respondesse o mesmo que disse, em reunião no Alvorada, sobre a campanha eleitoral: “Fui muito duro em alguns estados por onde passei, mas precisava ajudar a eleger alguns senadores”. Bastaria trocar “alguns senadores” por “Dilma Rousseff” – e pronto: seu exército de mineração de ideias diria que Lula, num gesto de rara grandeza, “admitiu” ter “extrapolado” com FHC.

Eis o jogo de cena lulista, que passou 8 anos incólume pela presidência do Brasil (e do qual Dilma, com sua posição camuflada sobre o aborto, mostra ter vindo garantir a continuidade). A mina de ouro e prata sobre a qual teve início seu mandato rendeu frutos tanto aos pobres quanto a mensaleiros, aloprados e erenices. A continuação do crescimento econômico, com a ampliação de programas como o Bolsa-família, conviveu pacífica e perfeitamente com o uso petista da parafernália pública em benefício próprio. Lula deixou a economia funcionando como estava, e tratou de soterrar em seu lugar a moral, os valores, os princípios e o imaginário popular, que são – em última análise – a base das decisões humanas, incluindo as econômicas.

Ou a gente puxa logo a cordinha dessa cápsula. Ou Dilma puxará a da descarga.

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