terça-feira, 30 de novembro de 2010

Soletrando a Guerra "do Rio"

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

– E você garante que eles não traficam drogas nessas vizinhanças?


– Isso eu não garanto. Garanto que matarei qualquer um que o faça.

Em homenagem a Luciano Huck, o novo especialista em segurança pública do jornal O Globo, começo a coluna interativa de hoje com um Quiz. De quem é a resposta acima?

a) José Mariano Beltrame à imprensa, em Guerra “do Rio” – Episódio Zero.

b) Capitão Nascimento a Matias, em Tropa de Elite 1.

c) Traficante imaginário a Arnaldo Jabor, em A segunda entrevista do bandido.

d) Joey Zasa a Michael Corleone, em O Poderoso Chefão 3.

Tempo!...

Para quem ainda não sabe, uma dica: se é para aprender com uma obra de ficção, escolha ao menos a melhorzinha.

Qualquer bandido do velho cinema americano é mais sabido que os “especialistas” do teatro de guerra brasileiro. Se O Poderoso Chefão 3 é o pior filme da série de Francis Ford Coppola, então Joey Zasa já tem muito a ensinar a Luciano Huck, autor do artigo motivacional “Avante, Rio!”. Só porque Zasa vai logo matando os negros e espanhóis que traficam droga em sua família? Não. Porque Zasa sabe que não pode garantir a inexistência do tráfico, mas pode garantir sua punição.

Para Luciano Huck, cuja lógica faz jus à de Zuenir Ventura, “a ‘guerra ao tráfico’ não deu certo em nenhum lugar do mundo”, “só gerou violência e territórios ocupados”, então “por que daria certo no Brasil?”. Faz sentido. Da mesma forma, o combate ao estupro e ao homicídio não deu exatamente “certo” em nenhum lugar do mundo, então por que daria no Brasil? Se descriminarmos todos os crimes, seremos muito mais felizes.

No Caldeirão mental do Huck, os “meninos e meninas” do narcotráfico “não são bandidos”, mas “nasceram no lugar errado e estão bandidos”. Pobres vítimas que, “por absoluta falta de opção” nas “comunidades dominadas pelas armas”, foram cooptadas pelos líderes do “movimento”. Que essa “absoluta falta de opção” ainda produza uma maioria honesta e trabalhadora, é um desses mistérios cuja elucidação fica para depois dos comerciais. Ou, como escreve o apresentador do “Soletrando” sobre o problema das armas: “Mais [sic] isso dever [sic] ser o tema de um outro artigo”.

Com a “propriedade” de quem mora há 10 anos no Rio e o “privilégio” de quem anda a trabalho “das coberturas do Leblon às celas de Bangu”, recebido pelos anfitriões “mais credenciados”, Huck se sente à vontade para propor soluções à Guerra, como, por exemplo, a anistia dos “meninos e meninas” do tráfico. Isso mesmo: a anistia. Eu, que frequento a região serrana do Rio desde pequeno, dos casarões às favelas, com gente me guiando pelo mato, fiquei até encorajado a opinar sobre a história do capim na seção de Ciência do Globo.

Arnaldo Jabor, o rapper do colunismo, deu os parabéns às UPPs através de seu bandido imaginário. O programa Fantástico celebrou a ação policial na Vila Cruzeiro por ter posto os bandidos “pra correr”. José Mariano Beltrame afirmou que “marginal sem casa, sem arma, sem território, sem moeda de troca é muito menos marginal do que era antes”. Nelson Jobim – não me pergunte o motivo – disse que “estamos numa mudança de paradigma”. Luciano Huck concluiu que, com as comunidades livres, “o povo carioca sabe cuidar da sua cidade e das suas crianças”. Ninguém parece se incomodar muito com bandidos soltos por aí. De modo que eles agradecem.

Quem foge dispondo de clientela farta, fornecedor intacto, fronteira aberta, governo “neutro” e uma sociedade mergulhada nesse Caldeirão de ideias esquerdistas (que os nossos especialistas de auditório ainda querem derramar nas “comunidades”, sob o nome de educação) não precisa ser nenhum Joey Zasa ou Don Corleone para encontrar novos territórios, construir famílias e erguer impérios. Basta, quando muito, levar um caderninho de telefones.

Avante, Brasil!

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Pós-escrito: José Mariano Beltrame confessou: "Minha pretensão não é acabar com o tráfico [no Rio de Janeiro]: ele existe em Londres, em Paris. O que é inaceitável é a pessoa ser vigiada, é levar o filho na escola e ver um homem com um fuzil". Pelo visto e as favelas onde UPPs e traficantes convivem em harmonia são a prova , Beltrame não tem a pretensão de acabar com o tráfico, e nem sequer de combatê-lo. Dizer o quê? Chamem Joey Zasa!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mandem a gasolina para Lula

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

Eu escrevi no Twitter em 28 de abril: “Depois de avisar gentilmente aos bandidos, polícia de Cabral ocupa 5 favelas da Tijuca. Mas: para qual eles foram agora?”. Ninguém questionava ainda o destino dos narcotraficantes após a instalação sem tiros das UPPs. A imprensa aplaudia a tal Pacificação, como se o nome atribuído a uma ação política se convertesse magicamente em realidade. Sete meses e muitos veículos queimados depois, a imprensa continua sendo a porta-voz do governo. Mas, como no aforismo de Karl Krauss: “Há escritores que já conseguem dizer em vinte páginas aquilo para o que às vezes preciso de até duas linhas”.


Eu gosto de escrever em duas linhas. Se resumisse este artigo à equação Farc + PT + Cabral + Traficantes + Usuários = Guerra “do Rio”, com aspas, eu já ampliaria toda a cobertura jornalística. Gabriel O Pensador, num encontro imaginário com o Capitão Nascimento no calçadão, reclama que não é revistando maconheiro que ele “vai achar os grandes bandidos”, afinal “nós somos vítimas da violência estúpida que afeta todo mundo”. Gabriel O Pensador é uma espécie de Arnaldo Jabor do rap. Um integrante do “sistema” revoltado contra o “sistema”. Ele já pode fundar uma ONG com Wagner Moura, Dado Dolabella, Marcelo D2 e Chico Buarque.

O Brasil só dá alegrias às Farc. Dilma – a musa das selvas colombianas – garantiu a Cabral que vai continuar apoiando o estado no combate à violência, assim como faz o governo Lula. Isto significa que continuaremos neutros em relação aos grupos terroristas que fornecem drogas e fuzis aos nossos traficantes. Neutros nas ideias. Neutros nas fronteiras. Neutros no calçadão. Assim como se absteve em votação da ONU contra o apedrejamento de mulheres no Irã, o governo do PT continuará se abstendo (estou de boa vontade) no combate aos nossos 50 mil homicídios por ano. Lula ordenou “que é para atender o Rio de Janeiro naquilo que o Rio precisar”. É como se o Rio fosse outro país, do qual Lula e Dilma respeitassem a soberania.

Em Rondônia, o Exército controla o fluxo de drogas na fronteira, até o dia do mês em que o diesel distribuído para as patrulhas diárias acaba. Isso mesmo: o diesel das patrulhas acaba. Os traficantes (e desmatadores) só precisam esperar até o dia 15 ou 18 de cada mês para abastecer o mercado nacional. Como os traficantes cariocas incendeiam carros, ônibus e vans com garrafas de gasolina, eu sugiro que, num gesto simbólico, a polícia de Cabral também se solidarize com Lula e Dilma, doando todas as garrafas apreendidas para abastecer as patrulhas de Rondônia. Se Lula não bebê-las antes, é possível que os bandidos tenham de esperar até o dia 19.

No Rio de Janeiro, eles nem precisam tanto. Uma parte já convive com as UPPs nas favelas, aonde os “pensadores” vão hoje às compras sem medo. A outra, dispensada, brinca de Coringa pela rua. E há uma terceira, que, diante das novas dificuldades, põe a mão na cabeça: “Ah, não vou ser bandido mais não. Dá muito trabalho!”. Mas essa só existe na imaginação dos nossos “artistas” e “especialistas”. José Mariano Beltrame disse que “prender bandido é importante, apreender droga é importante, mas o mais importante é recuperar o território”. É como dizer que comer é importante, beber é importante, mas o mais importante é recuperar a saúde.

Que ninguém se lembre da criminalidade quando a economia vai bem, já é sintoma de um país doente. Que pacificar não signifique fiscalizar fronteiras e prender bandidos (pequenos e grandes), usando as Forças Armadas para recuperar o território, nem quando uma cidade está em chamas, já é sintoma de um país petista. Eu sempre fico um pouco constrangido de dizer em 6 parágrafos aquilo que eu já disse numa única linha sobre o Brasil de Lula, Dilma e Sérgio Cabral: Fique calmo, companheiro. Você não está seguro, mas o seu dinheiro está.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A cuíca necessária

Não lembro a primeira vez que, tentando expressar o que faltava a determinada música, falei convicto de estar dizendo tudo: “Falta a cuíca de Ovidio Brito”. Nem a primeira vez que, criticando algo ou alguém que nada tinha a ver com música, falei novamente convicto de estar dizendo tudo, ainda que poucos me entendessem: “Falta a cuíca de Ovidio Brito”.

Naquele momento, porém, a cuíca de Ovidio Brito, ou melhor, a sua falta, passou a simbolizar para mim um defeito inadmissível tanto em obras de arte quanto em artistas, tanto em esportes quanto em atletas, tanto em eventos quanto em amigos, tanto em lugares quanto em mulheres. Soava-me simplesmente absurdo que uma porção de coisas e pessoas viesse desprovida da cuíca de Ovidio Brito.

Algumas, consinto, tinham até pandeiro, repique, tantã, surdo, cavaco, banjo e violão, mas e daí? O que faz a base justificar sua existência senão a liberdade concedida a um gracejo? É ele que provoca. Que marca. Que fica. O problema de quem, como eu, descobriu cedo o poder da molecagem é justamente a preguiça de fortalecer a base da qual ela poderá irromper ainda mais contundente. Toda a minha formação não é senão um esforço para dar ao gracejo à base devida, como um roteirista que parte da piada para nela encaixar um filme inteiro.

Ovidio Brito tinha a base. Tinha a longa experiência como percussionista e os músicos de primeira do Pagode do Arlindo preparando o terreno para a sua (e nossa) gargalhada musical. Se a sonoridade da cuíca já sugere o riso, a de Ovídio Brito era o gracejo máximo, não só do samba como dele mesmo, que desfazia a aparência um tanto carrancuda no momento em que os ombros solavam junto com o instrumento em "Testamento de Partideiro" e "Dora", ou quando emprestava melancolia à primeira parte de "Lua cheia", transformando o riso em pranto, e vice-versa, com aquela graça de que nem a tristeza pode prescindir.

Entrevistei Ovidio uma única vez para o piloto de um documentário, infelizmente jamais realizado. Sua frase mais emblemática foi a seguinte: “Depois que eu partir, se o Cara abrir outra porta pra eu voltar, eu volto do mesmo jeito”. Ovidio Brito morreu de acidente de carro, na madrugada da última segunda-feira, no Centro do Rio, aos 65 anos - e a música popular perdeu, talvez, a maior de suas graças. Mas, se o “Cara” não abrir outra porta pra ele voltar, confesso que entenderei perfeitamente.

Ao Céu já não falta a cuíca de Ovidio Brito.



sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O facebook, a micareta e o Brasil

Em 2003, Mark Zuckerberg invadiu o sistema de Harvard - onde estudou - para ver a ficha das mocinhas. Descobrir nomes, fotos e currículos era um privilégio de prodígios da informática. Mais tarde, com a ajuda do brasileiro Eduardo Saverin, Zuckerberg criou o facebook, onde, além dos dados pessoais, as mocinhas publicam espontaneamente se estão solteiras ou casadas, que tipo de homem desejam, quais os seus galãs preferidos, e outras intimidades de espantar terapeutas e namorados.

Eu tenho uma tese sobre as micaretas quase tão real quanto a história do facebook. Em resumo: um sujeito queria beijar mocinhas no meio da rua, não conseguia, e inventou a micareta. Minha versão, se não é exatamente a verdadeira, é bem melhor do que ela, porque eleva o criador (Dodô? Osmar?) ao status de gênio. De um jeito ou de outro, a possibilidade do beijo virou chamariz desses eventos, onde até as mocinhas se sentem à vontade para agarrar desconhecidos no meio da rua.

O italiano Antonio Gramsci criou o Brasil de hoje exatamente como Zuckerberg criou o facebook, e o criador da micareta (não fui eu, mas obrigado) criou a micareta: gerando um ambiente onde aquilo que só se conseguia à força viesse espontaneamente, sem que ninguém se desse conta. Se Zuckerberg conquistou os segredos das mocinhas e o inventor da micareta os seus beijos, os cadernos de Gramsci ensinaram à esquerda brasileira a conquistar os votos “espontâneos” que elegeram três vezes o PT.

Depois de 30 anos “ocupando espaços” nas artes, na educação, no jornalismo, nas editoras, no show business e nos demais centros disseminadores de ideias, a esquerda gramsciana transformou o Brasil num imenso facebook; numa imensa micareta. Da mesma forma que mocinhas e rapazes tornam públicos os seus desejos, e consomem corpos estranhos como quem vai à feira, os brasileiros entregam o país a um partido que não conhecem senão pela história narrada por seus próprios militantes disfarçados.

Essa história exclui as Farc, que respondem por boa parte dos nossos 50 mil homicídios por ano, e cujos narcoterroristas acabam de saudar em nota “oficial” a eleição de Dilma Rousseff e “sua pública convicção da necessidade de uma saída política para o conflito interno da Colômbia”. Isto significa que eles confiam em Dilma (que já empregou na Secretaria de Pesca a mulher de um de seus líderes) para ajudar a promovê-los de sequestradores, torturadores e assassinos a representantes democráticos legítimos.

O episódio não só confirma a minha tese, como também deixa clara a única diferença entre o facebook, a micareta e o Brasil. O novo filme sobre Mark Zuckerberg mostra que você não faz 500 milhões de amigos sem criar alguns inimigos. A nota “oficial” das Farc mostra que você não mata 50 mil brasileiros por ano sem criar alguns amigos.

A micareta?

Ah. Você não beija 50 mocinhas numa noite sem beijar alguns trocinhos.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A imagem de Zuenir Ventura

Uma prova de que me divirto com pouco é que ainda leio Zuenir Ventura. Costumo comentar seus textos no twitter, com não mais do que 140 caracteres. Mas já é a segunda vez que o promovo a uma coluna no Blog do Pim. Na primeira, juntei-o com Verissimo, dando um parágrafo para cada um. Agora, com o artigo O exemplo de Obama, Zuenir ganhou uma coluna inteira. Eu sou como o PT: recompenso, à altura, aqueles que se esforçam pelo partido. Ele segue em negrito. Eu, no padrão.

Ao contrário do presidente Barack Obama, que com invejável franqueza aceitou a derrota, confessou-se humilhado e assumiu a responsabilidade pela “surra”, reconhecendo sua culpa, os perdedores daqui estão tendo grande dificuldade de admitir a derrota nas últimas eleições.


Eu não sou da escola Zuenir Ventura. Quando um presidente assume sua responsabilidade e reconhece sua culpa, isto significa, para mim, que ele assumiu sua responsabilidade e reconheceu sua culpa pelas ações e omissões de seu governo, coisa que não é do feitio de Barack Obama.


Isto que Zuenir chama de “invejável franqueza” – e que a primeira página do Globo (será de Zuenir?) chamou de “sinceridade desconcertante”; e que toda a imprensa brasileira aplaudiu como exemplo máximo de elegância, integridade e respeito à democracia – não é senão a “admissão” de que a falha foi não de seu governo, mas de sua propaganda, incapaz de convencer o povo dos supostos méritos do primeiro.

Nas palavras de Obama: “Acho que estávamos tão ocupados e focados em fazer um monte de coisas que paramos de prestar atenção ao fato de que liderar não significa apenas legislar. É também uma questão de persuadir as pessoas”. Obama, em suma, estava cuidando tanto do país que não teve tempo sequer de avisar ao povo o que estava fazendo de bom, o que é muito lindo e comovente. Aplausos venturosos pra ele.

Obama se recusou a enxergar no fracasso eleitoral do Partido Democrata o repúdio à sua agenda de reformas, preferindo ainda culpar a impaciência do povo diante da recuperação econômica do país, como se esta fosse naturalmente lenta, a despeito de quem o governasse (e como o governasse). Pela impaciência do povo, Obama não assumiu a responsabilidade. Por não tê-lo convencido de seus esforços invisíveis, sim.

Na escola Zuenir Ventura, só mesmo alguém de virtudes excelsas pode chegar a tanto.

O chororô comporta todo tipo de alegações para desqualificar a vitória de Dilma Rousseff — algumas até fazem sentido, mas outras são justificativas ridículas, desculpas esfarrapadas.

Supondo que algumas alegações façam sentido e outras não, como diz Zuenir Ventura, por que então chamar todas de “chororô”, atribuindo-lhes de antemão somente o aspecto negativo? Será que as alegações justas são irrelevantes para o juízo do autor? Ou é preciso suprimi-las para que seu texto fique de pé? Façam suas apostas. Eu dou 1 milhão de dólares a quem encontrar novamente no texto as alegações justas.


E aproveito para passar um dever de casa aos alunos da escola Zuenir: copie sua frase, trocando “Dilma Rousseff” por qualquer coisa, como – para ficar no mesmo nível – Vasco da Gama:

“O chororô comporta todo tipo de alegações para desqualificar a vitória do Vasco — algumas até fazem sentido, mas outras são justificativas ridículas, desculpas esfarrapadas.”

Se as alegações que fazem sentido fossem, por exemplo, 2 gols legítimos do Flamengo (como você viu no replay) anulados pelo juiz, sendo que o Vasco ganhou de 1 a 0, ainda assim seria tudo chororô? Seria? O Flamengo adora um chororô? Pois então parabéns. Você está aprovado na escola Zuenir Ventura, onde seu time tem sempre a razão.

E não estou dizendo que o PSDB ganharia as eleições se Lula e o PT não tivessem cometido toda sorte de crimes eleitorais, como nunca antes na história deste país, com o uso sem constrangimentos da máquina pública para promover a candidatura Dilma e calar seus opositores. Mas que cometeu, cometeu. Que usou, usou, como tanto escrevi aqui. E isso só é chororô na cabeça de torcedor profissional.

Mas eu já ia me esquecendo: sobre essa parte, Zuenir não vai falar. Afinal, essas seriam alegações justas...

O candidato José Serra chegou a transformar sua frustração em “vitória estratégica”, mas pelo menos não tentou diminuir o mérito da adversária.

Que mérito é esse (de Dilma) é algo que nem Zuenir se aVentura a falar... Ok. Eu o ajudo. Ele falou em seu artigo anterior. Trata-se de “
sua [de Dilma] incrível capacidade de superação — superou o preconceito antifeminista, o câncer e até o descrédito dos que a julgavam um robô incapaz de enfrentar Serra num debate”. Eu louvo o esforço de Zuenir Ventura em bajular Dilma Rousseff. Também acredito que seus maiores méritos são ser uma mulher, curar-se de doenças e, quando muito, não parecer um robô.

Quanto à vitória estratégica, o PSDB foi, ainda que numa batalha desigual, o partido com mais governadores eleitos: foram 8, que se somam na oposição aos 2 do DEM, abarcando a maioria dos estados mais populosos e prósperos, como Santa Catarina, Paraná, Minas e São Paulo. E o PT terá de lidar com isso, o que não estava em seus planos.

Zuenir abriu o texto falando da dificuldade da oposição em admitir a derrota. Vamos fingir que foi uma derrota normal, como a de Obama, sem o uso criminoso da máquina pública, só para ver se ele tem algo mais que a expressão “vitória estratégica” de José Serra para justificar o “chororô” adversário com os discursos correspondentes.

Em compensação, foi estranha a reação de certos dirigentes da oposição e de torcedores inconformados.

Pelo visto, nada. Assim manda a escola Zuenir: se você não tem declarações políticas suficientes para embasar a sua tese, procure entre os “torcedores inconformados”, mantendo-os anônimos, se possível. Com eles, toda tese poderá ser justificada.


Houve quem alegasse que “Dilma não se elegeu, foi eleita por Lula”, como se essa simplificação explicasse tudo.

De José Serra, passamos então a um “houve quem”. Um “houve quem” cujas falas levam aspas. Todo mundo tem direito a aspas no jornalismo brasileiro, até os anônimos. E continuo curioso: se essa simplificação de que Dilma foi eleita por Lula não explica tudo, Zuenir não vai se aVenturar a explicar pra gente? Ou ela venceu porque é mulher, superou um câncer, e não pareceu um robô?


E houve quem afirmasse que a candidata do PT ganhou porque os seus 55 milhões de eleitores têm desprezo pelos valores éticos ou, mais precisamente, por terem “assassinado a ética”.


Mais um “houve quem” com direito a aspas. Zuenir já pode reivindicar os méritos pela criação do Bolsa-Aspas da imprensa brasileira. Um programa social que dá voz aos anônimos, desde que anônimos permaneçam.

Antes de ser velada - de corpo ausente - por 55 milhões de eleitores, a ética precisou ser assassinada pelo PT (e ter seu cadáver continuamente ocultado do povo pela "intelectualidade" da qual Zuenir Ventura é quase expoente), através de mensalões, aloprados, erenices, namoros com as Farc, alinhamento com ditaduras, quebras de sigilo, assaltos às ideias e obras alheias, recolhimento de materiais legais da Igreja pela Polícia Federal, uso de estatais para propaganda eleitoral e demais crimes recentes que só tornam normal esta eleição para as mentes venturosas...

Só um país regido e (des)informado por mentes assim pode ignorar tudo isso e mais seus 50 mil homicídios por ano (o equivalente a 2 Guerras do Iraque anuais), os últimos lugares de seus estudantes em exames internacionais e o IDH na posição 73 do ranking (pouco à frente da Venezuela...), em favor de um governo cujo maior mérito foi não bloquear a política econômica de seus antecessores, com a qual procurou os meios corruptos de se beneficiar, como já descrevi aqui.

Se eu acreditasse nas eleições das maquininhas, e se acreditasse que os 55 milhões de eleitores de Dilma foram informados de metade das maracutaias petistas, diria que o bem-estar, a segurança, a honra, o caráter e a inteligência são critérios irrelevantes para o julgamento desses brasileiros, exclusivamente preocupados com seu dinheiro e sua conta bancária. Mesmo assim, dou a Zuenir Ventura e sua turma o crédito pela estupidez de, pelo menos, alguns.

A disputa teria sido um jogo maniqueísta entre um lado onde só houvesse o bem e outro onde só existisse o mal, com derrota do bem, claro.

Quem disse isso? O último que ouvi falar coisas assim foi Ziraldo, o rei da Bolsa-Ditadura, referindo-se ao período militar no documentário sobre Wilson Simonal. Mas eu entendo. É preciso atribuir à “oposição” um maniqueísmo bocó, reduzi-la a uma caricatura, jogar em sua boca o simplismo e a idiotice que dela se gostaria de ouvir, para então condená-la (ou “extirpá-la”, como diria Lula) por uma suposta justa causa. Para isso, sempre se encontrará (ou se inventará) um idiota em qualquer torcida, e as redes sociais hoje facilitam a tarefa que é uma beleza. (Maria Rita Kehl usou o mesmo expediente em seu último artigo no Estadão, como comentei aqui). Mas, em último caso - o de Zuenir -, nem é preciso se dar ao trabalho. Mantenha os idiotas anônimos e diga deles (ou por eles) o que quiser.


Malabarismo maior fez outro observador, ao concluir que a expressiva votação de Serra, somada aos votos brancos, nulos e ao alto nível de abstenção, “deixa clara a insatisfação da maioria do povo não só com ela, mas também com o próprio Lula”.


O fato é que quase 60% dos eleitores não votaram em Dilma. E Dilma, queira Zuenir ou não, é a afilhada política de Lula, como ela mesma se apresentou. O único malabarismo deste trecho vem agora. E adivinha quem faz?


Por esse raciocínio, que considera todos esses votos serristas, Serra teria sido o verdadeiro vencedor das eleições, não sua adversária.

Pois é. Quem, senão Zuenir, diria que aquele raciocínio “considera todos esses votos serristas”? Tratava-se na verdade, como até Zuenir havia dito, da soma dos votos serristas, nulos, brancos e do alto nível de abstenção. Insatisfação com o governo é uma coisa. Votar na oposição é outra (porque há oposições, como o PSDB, que, de fato, dão preguiça ao eleitor). Mas as aspas que Zuenir atribuíra ao tal “outro observador” não eram suficientes para justificar sua demonização. Não era exatamente aquilo que ele gostaria que o sujeito tivesse dito para poder tratá-lo como um idiota. Então ele precisava fazer um puxadinho nas aspas, sabe?


Fica parecendo que até os “torcedores inconformados” só viram idiotas completos quando Zuenir dá a sua mãozinha. Da próxima vez, Zuenir, faça o enxerto nas aspas mesmo. Como o sujeito é anônimo, ninguém vai reparar.

É o time daqueles que, por não gostarem de Lula, acham um absurdo 80% gostarem. Como pode ser tão popular se eu não o apoio?


Dessa vez, Zuenir não teve nem a coragem de colocar as aspas. É como se tivesse assumido a criação da pergunta. Que, aqui na Terra, aliás, é outra: como Lula pode ter 80% de aprovação, se quase 60% do eleitorado não votou em sua candidata?


A derrota às vezes não só obscurece a razão


Assim dizia Zuenir, o racional...


como mobiliza baixos instintos, como os dessa tal estudante de Direito Mayara Petruso, de SP, que postou no seu twitter a mensagem racista contra o Nordeste: “Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado.”

Sim, Mayara tem nome. Sim, falou uma bobagem e deve responder por ela. Só isso. Mas o que faz Zuenir, como tantos outros, numa ação política conjunta? Usa a frase contra os nordestinos, dita por um indivíduo desconhecido e isolado, num texto sobre a dificuldade da oposição de admitir sua derrota. É mais uma forma enviesada de demonizar a oposição. É mais um complemento seu à tese de Lula segundo a qual a eleição de Dilma significou a superação de preconceitos. É mais uma tentativa petista de dividir o país. Não encontrando declarações satisfatórias nem de políticos nem de anônimos que pudessem sustentar sua tese, Zuenir arrematou com um dos milhões de preconceitos que circulam pela internet, afetando sua indignação com todo o seu talento no ramo.


O PT agradece.

Os ataques de xenofobia da futura advogada — advogada, imagine! — provocaram polêmica nas redes sociais e o repúdio da OAB. E a reação bem-humorada de um pernambucano em meio à indignação: “Eles elegem o Tiririca e vêm nos chamar de atrasados!”


[O problema de analisar o texto completo de Zuenir Ventura é ter que copiar trechos irrelevantes. Por isso prefiro escrever artigos.]


Em vez de tentar tapar o sol com a peneira, seria mais honesto e realista responder como fez o brasilianista Timothy Power, quando lhe pediram para explicar a vitória de Dilma: “O padrão de vida de muitos brasileiros melhorou nestes últimos oito anos de governo, e as pessoas quiseram uma continuação.”

Como o padrão de vida de muitos brasileiros só melhorou nestes últimos oito anos de governo porque FHC havia, antes, estabilizado a moeda, podemos dizer, na verdade, que a propaganda petista, com seus crimes, mentiras e Venturas espalhados por todas as redações e universidades, foi mais eficiente do que as (poucas) verdades que o PSDB disse sobre o PT e sobre si mesmo, com a covardia, a frouxidão e as trapalhadas de um partido que ainda não aprendeu a fazer oposição.


Ou então se render ao óbvio, como fez Obama, adotando um mea culpa: perdemos porque não soubemos vencer. Simples assim.

Como não sou da escola Zuenir Ventura, repito: mea culpa, para mim, é outra coisa. Mas eu o entendo. Quando houve um tiroteio em São Conrado, Zuenir escreveu uma coluna chamada Danos a imagem. Da mesma maneira que o Rio de Janeiro, com seus tiroteios, não cuidou bem da sua imagem, Obama, derrotado nas eleições para o Congresso, tampouco cuidou bem da sua imagem. A imagem é muito importante para Zuenir Ventura. A dele com o PT, ele mantém sempre em dia.


Simples assim.

*****

Tuitadas (recentes) sobre Zuenir


[Pim] Zuenir Ventura iguala a mudança de discurso de Dilma sobre o aborto com uma troca involuntária de palavras de Serra. É pura canalhice.

[Pim] Zuenir vê contradição entre políticas "avançadas" de Marina e suas posições contra o aborto. A vida, para Zuenir, é mesmo um atraso...

[Pim] A propaganda ideológica de Zuenir Ventura é assim. Feita pra você aceitar aborto, casamento gay e regulamentação de drogas sem pensar.

[Pim] Onde está Zuenir Ventura - com aquele ar de bom moço - para dizer que a quebra de sigilo prejudica "a imagem" da Receita Federal?

[Pim] Se seu filho roubar alguém, eduque-o de acordo com o jornalismo brasileiro, dizendo: "Filho, assim você prejudica a sua imagem!".