quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A cuíca necessária

Não lembro a primeira vez que, tentando expressar o que faltava a determinada música, falei convicto de estar dizendo tudo: “Falta a cuíca de Ovidio Brito”. Nem a primeira vez que, criticando algo ou alguém que nada tinha a ver com música, falei novamente convicto de estar dizendo tudo, ainda que poucos me entendessem: “Falta a cuíca de Ovidio Brito”.

Naquele momento, porém, a cuíca de Ovidio Brito, ou melhor, a sua falta, passou a simbolizar para mim um defeito inadmissível tanto em obras de arte quanto em artistas, tanto em esportes quanto em atletas, tanto em eventos quanto em amigos, tanto em lugares quanto em mulheres. Soava-me simplesmente absurdo que uma porção de coisas e pessoas viesse desprovida da cuíca de Ovidio Brito.

Algumas, consinto, tinham até pandeiro, repique, tantã, surdo, cavaco, banjo e violão, mas e daí? O que faz a base justificar sua existência senão a liberdade concedida a um gracejo? É ele que provoca. Que marca. Que fica. O problema de quem, como eu, descobriu cedo o poder da molecagem é justamente a preguiça de fortalecer a base da qual ela poderá irromper ainda mais contundente. Toda a minha formação não é senão um esforço para dar ao gracejo à base devida, como um roteirista que parte da piada para nela encaixar um filme inteiro.

Ovidio Brito tinha a base. Tinha a longa experiência como percussionista e os músicos de primeira do Pagode do Arlindo preparando o terreno para a sua (e nossa) gargalhada musical. Se a sonoridade da cuíca já sugere o riso, a de Ovídio Brito era o gracejo máximo, não só do samba como dele mesmo, que desfazia a aparência um tanto carrancuda no momento em que os ombros solavam junto com o instrumento em "Testamento de Partideiro" e "Dora", ou quando emprestava melancolia à primeira parte de "Lua cheia", transformando o riso em pranto, e vice-versa, com aquela graça de que nem a tristeza pode prescindir.

Entrevistei Ovidio uma única vez para o piloto de um documentário, infelizmente jamais realizado. Sua frase mais emblemática foi a seguinte: “Depois que eu partir, se o Cara abrir outra porta pra eu voltar, eu volto do mesmo jeito”. Ovidio Brito morreu de acidente de carro, na madrugada da última segunda-feira, no Centro do Rio, aos 65 anos - e a música popular perdeu, talvez, a maior de suas graças. Mas, se o “Cara” não abrir outra porta pra ele voltar, confesso que entenderei perfeitamente.

Ao Céu já não falta a cuíca de Ovidio Brito.



4 comentários:

  1. Sem palavras para o seu post...realmente traduziu tudo o que ele representou para a nossa música. Com certeza fará muita falta.

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  2. Palavras com a precisão e a sensibilidade dos sons do Ovídio.

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  3. Obrigado, pelo carinho, nos faz muito bem ler textos como este... "palavras de um neto com muita saudade".
    Dário Firmino

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  4. Bonito! Fica um pranto de saudade, mas o riso da cuíca de Ovidio Brito impera nos nossos corações.

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