terça-feira, 30 de novembro de 2010

Soletrando a Guerra "do Rio"

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

– E você garante que eles não traficam drogas nessas vizinhanças?


– Isso eu não garanto. Garanto que matarei qualquer um que o faça.

Em homenagem a Luciano Huck, o novo especialista em segurança pública do jornal O Globo, começo a coluna interativa de hoje com um Quiz. De quem é a resposta acima?

a) José Mariano Beltrame à imprensa, em Guerra “do Rio” – Episódio Zero.

b) Capitão Nascimento a Matias, em Tropa de Elite 1.

c) Traficante imaginário a Arnaldo Jabor, em A segunda entrevista do bandido.

d) Joey Zasa a Michael Corleone, em O Poderoso Chefão 3.

Tempo!...

Para quem ainda não sabe, uma dica: se é para aprender com uma obra de ficção, escolha ao menos a melhorzinha.

Qualquer bandido do velho cinema americano é mais sabido que os “especialistas” do teatro de guerra brasileiro. Se O Poderoso Chefão 3 é o pior filme da série de Francis Ford Coppola, então Joey Zasa já tem muito a ensinar a Luciano Huck, autor do artigo motivacional “Avante, Rio!”. Só porque Zasa vai logo matando os negros e espanhóis que traficam droga em sua família? Não. Porque Zasa sabe que não pode garantir a inexistência do tráfico, mas pode garantir sua punição.

Para Luciano Huck, cuja lógica faz jus à de Zuenir Ventura, “a ‘guerra ao tráfico’ não deu certo em nenhum lugar do mundo”, “só gerou violência e territórios ocupados”, então “por que daria certo no Brasil?”. Faz sentido. Da mesma forma, o combate ao estupro e ao homicídio não deu exatamente “certo” em nenhum lugar do mundo, então por que daria no Brasil? Se descriminarmos todos os crimes, seremos muito mais felizes.

No Caldeirão mental do Huck, os “meninos e meninas” do narcotráfico “não são bandidos”, mas “nasceram no lugar errado e estão bandidos”. Pobres vítimas que, “por absoluta falta de opção” nas “comunidades dominadas pelas armas”, foram cooptadas pelos líderes do “movimento”. Que essa “absoluta falta de opção” ainda produza uma maioria honesta e trabalhadora, é um desses mistérios cuja elucidação fica para depois dos comerciais. Ou, como escreve o apresentador do “Soletrando” sobre o problema das armas: “Mais [sic] isso dever [sic] ser o tema de um outro artigo”.

Com a “propriedade” de quem mora há 10 anos no Rio e o “privilégio” de quem anda a trabalho “das coberturas do Leblon às celas de Bangu”, recebido pelos anfitriões “mais credenciados”, Huck se sente à vontade para propor soluções à Guerra, como, por exemplo, a anistia dos “meninos e meninas” do tráfico. Isso mesmo: a anistia. Eu, que frequento a região serrana do Rio desde pequeno, dos casarões às favelas, com gente me guiando pelo mato, fiquei até encorajado a opinar sobre a história do capim na seção de Ciência do Globo.

Arnaldo Jabor, o rapper do colunismo, deu os parabéns às UPPs através de seu bandido imaginário. O programa Fantástico celebrou a ação policial na Vila Cruzeiro por ter posto os bandidos “pra correr”. José Mariano Beltrame afirmou que “marginal sem casa, sem arma, sem território, sem moeda de troca é muito menos marginal do que era antes”. Nelson Jobim – não me pergunte o motivo – disse que “estamos numa mudança de paradigma”. Luciano Huck concluiu que, com as comunidades livres, “o povo carioca sabe cuidar da sua cidade e das suas crianças”. Ninguém parece se incomodar muito com bandidos soltos por aí. De modo que eles agradecem.

Quem foge dispondo de clientela farta, fornecedor intacto, fronteira aberta, governo “neutro” e uma sociedade mergulhada nesse Caldeirão de ideias esquerdistas (que os nossos especialistas de auditório ainda querem derramar nas “comunidades”, sob o nome de educação) não precisa ser nenhum Joey Zasa ou Don Corleone para encontrar novos territórios, construir famílias e erguer impérios. Basta, quando muito, levar um caderninho de telefones.

Avante, Brasil!

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Pós-escrito: José Mariano Beltrame confessou: "Minha pretensão não é acabar com o tráfico [no Rio de Janeiro]: ele existe em Londres, em Paris. O que é inaceitável é a pessoa ser vigiada, é levar o filho na escola e ver um homem com um fuzil". Pelo visto e as favelas onde UPPs e traficantes convivem em harmonia são a prova , Beltrame não tem a pretensão de acabar com o tráfico, e nem sequer de combatê-lo. Dizer o quê? Chamem Joey Zasa!

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