quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O país dos sonsos

- As pessoas que usam drogas moram na favela?

- Não. Moram aqui em volta da gente.

- Que burras!

Essa foi a conclusão do filho de uma amiga, enquanto assistia na TV à “passeata” de 600 traficantes armados. Ele tem 9 anos. Até outro dia, eu não sabia com que idade uma criança já era mais inteligente que um maconheiro. Eu apostava em 6 anos. E continuo achando que, aos 6, ele teria chegado à mesma conclusão. Quem se atrasou foi a TV.

Minha amiga tem alguns amigos maconheiros, que fumam na frente de crianças. Ela não leva mais os filhos em determinadas festinhas: “Se você compactua com aquilo, como vai proibir?”. Pois é: como? De modo que, pelo bem dos filhos que ainda não tenho, já estou dando limites a certas companhias. Preconceito? Não. Amor de pai. Eu não quero meus filhos nos mesmos círculos de amizades dos colunistas da imprensa.

A Guerra “do Rio” suscitou uma porção de apelos ao debate sobre a legalização da maconha. Que um debate tão velho ainda encontre gente entusiasmada com o seu começo, é um sinal do quanto a sonsice se disfarça de bom-mocismo no Brasil. Nelson Motta pediu até um referendo no Rio de Janeiro sobre a venda controlada de maconha “medicinal” (as aspas são dele), o que é o mesmo que pedir para a sociedade aprovar a multiplicação de receitas médicas falsas, como já acontece em 15 estados americanos.

Ele alegou que “desde as cavernas os humanos buscam substâncias naturais que (...) tirem as dores do corpo e da alma”. É verdade. Esses “humanos” não são fáceis. Desde as cavernas, eles também roubam, estupram e matam. Como “as possíveis ‘soluções’ estariam mais próximas da moderação que da repressão”, vamos pedir aos doutores “um diagnóstico de estresse”, autorizando uma estupradinha básica para aliviar as dores do corpo e da alma. Se alguém esquecer a camisinha, basta chamar Sérgio Cabral: “Quem aqui não teve uma namoradinha que teve que abortar?”.

Enquanto Nelson Motta sugere a hipocrisia como estágio intermediário em nossa volta triunfante ao tempo das cavernas, Cabral nos ameaça com a continuidade da corrupção caso não aceitemos sua ideia: “Então está bom! Então o policial na esquina leva a graninha dele, o médico lá topa fazer o aborto, a gente engravida uma moça” etc. Afinal, somos “humanos”, com fraquezas, abusos e excessos, e só podemos nos tornar responsáveis legalizando e promovendo as nossas irresponsabilidades.

Hoje, conviver com a bebida já infunde nas crianças o desejo precoce de tomar um porre. Amanhã, será muito melhor: elas lerão na escola as histórias de meninos homossexuais que se apaixonam por colegas no banheiro, os recém-lançados gibis de Lula (sem mensalão) e de Che Guevara (sem fuzilamentos); continuarão atrás de Trinidad e Tobago nas provas internacionais; verão mais maconheiros e clínicas de aborto na volta pra casa; e crescerão loucas pra tomar um, fumar um, dar um, dar dois, dar três, sempre mui inspiradas em modelos elevados de conduta moral.

Eu acho natural que apologistas da maconha ou do aborto não vejam, na parte (ou no todo) que lhes compete, qualquer problema nesse mundo encantado, e que, no caso dos maconheiros, continuem fumando na praia de Ipanema e nas festinhas da cidade, mesmo depois da Guerra “do Rio”. A droga é como o esquerdismo: além do crime, estimula a sonsice. E todo pai tem obrigação de proteger os filhos contra um país de sonsos, muito antes que uma criança de 9 anos diga deles:

- Que burros!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Fica, Nabuco!

Joaquim Nabuco e Cazuza. Juntinhos. Lado a lado. Dente por dente.

O Ministério da Cultura decidiu premiá-los in memoriam com a Ordem do Mérito Cultural 2010. Agora, toda vez que alguém falar na abolição da escravatura, vou cantar: “Ideologiaaaa/ Eu quero uma pra viver!”. E toda vez que alguém cantar um rock anos 80, vou falar: “Por felicidade da minha hora, eu trazia da infância e da adolescência o interesse, a compaixão, o sentimento pelo escravo – o bolbo que devia dar a única flor da minha carreira”. Não tenho dúvidas de que vou acabar compondo o primeiro rock abolicionista brasileiro.

Para a cerimônia de entrega dos prêmios no Teatro Municipal, a diretora Bia Lessa foi contratada sem licitação por R$ 489.369. O ministro Juca Ferreira alegou que a lei permite a contratação sem licitação de artistas “consagrados pela crítica especializada ou pela opinião pública” e que o montante incluía despesas de cenografia, iluminação e banda. O cachê de Bia Lessa, na verdade, seria de R$ 85 mil. Só fiquei na dúvida se Bia Lessa é consagrada pela crítica especializada ou pela opinião pública, mas, como Lula já disse “Nós somos a opinião pública”, deixei a crítica especializada pra outro dia.

No Municipal, Lula comparou os gritos de “Fica, Juca!” da plateia – pedindo a permanência do ministro no governo Dilma – à despedida de Pelé no Maracanã. Sérgio Cabral também usou Pelé para falar do governo Lula (“quem viu, viu, quem não viu tem o DVD”), mas, não satisfeito, comparou o presidente a Pablo Picasso: “Nós temos, diante de nós, o maior, o melhor, o mais extraordinário... Não sei se daqui a cem ou duzentos anos produziremos outro igual”. Se Juca Ferreira é Pelé, Lula é Picasso, e a plateia – segundo a imprensa – é a “classe artística”, só posso deduzir que Cazuza é Joaquim Nabuco: “Eu sou mais um caraaaa”...

Para quem detectou que, “na América, falta à paisagem, à vida, ao horizonte, à arquitetura, a tudo que nos cerca, o fundo histórico, a perspectiva humana”, terminar como Cazuza no panteão cultural do PT não é lá uma grande surpresa. Nabuco sabia que o nosso senso de proporções e hierarquia fora amputado, na raiz, por um ambiente visual urbano que mais parece (até hoje) um “jardim infantil”. Se a recusa em absorver o legado europeu já nos condenava “à mais terrível das instabilidades”, a recusa em absorver a própria história nos condena à propaganda petista.

É uma pena. O centenário da morte de Joaquim Nabuco era uma ótima oportunidade para o Brasil lembrar que seus verdadeiros heróis não morreram de overdose.

Fica, Nabuco!