domingo, 5 de dezembro de 2010

Fica, Nabuco!

Joaquim Nabuco e Cazuza. Juntinhos. Lado a lado. Dente por dente.

O Ministério da Cultura decidiu premiá-los in memoriam com a Ordem do Mérito Cultural 2010. Agora, toda vez que alguém falar na abolição da escravatura, vou cantar: “Ideologiaaaa/ Eu quero uma pra viver!”. E toda vez que alguém cantar um rock anos 80, vou falar: “Por felicidade da minha hora, eu trazia da infância e da adolescência o interesse, a compaixão, o sentimento pelo escravo – o bolbo que devia dar a única flor da minha carreira”. Não tenho dúvidas de que vou acabar compondo o primeiro rock abolicionista brasileiro.

Para a cerimônia de entrega dos prêmios no Teatro Municipal, a diretora Bia Lessa foi contratada sem licitação por R$ 489.369. O ministro Juca Ferreira alegou que a lei permite a contratação sem licitação de artistas “consagrados pela crítica especializada ou pela opinião pública” e que o montante incluía despesas de cenografia, iluminação e banda. O cachê de Bia Lessa, na verdade, seria de R$ 85 mil. Só fiquei na dúvida se Bia Lessa é consagrada pela crítica especializada ou pela opinião pública, mas, como Lula já disse “Nós somos a opinião pública”, deixei a crítica especializada pra outro dia.

No Municipal, Lula comparou os gritos de “Fica, Juca!” da plateia – pedindo a permanência do ministro no governo Dilma – à despedida de Pelé no Maracanã. Sérgio Cabral também usou Pelé para falar do governo Lula (“quem viu, viu, quem não viu tem o DVD”), mas, não satisfeito, comparou o presidente a Pablo Picasso: “Nós temos, diante de nós, o maior, o melhor, o mais extraordinário... Não sei se daqui a cem ou duzentos anos produziremos outro igual”. Se Juca Ferreira é Pelé, Lula é Picasso, e a plateia – segundo a imprensa – é a “classe artística”, só posso deduzir que Cazuza é Joaquim Nabuco: “Eu sou mais um caraaaa”...

Para quem detectou que, “na América, falta à paisagem, à vida, ao horizonte, à arquitetura, a tudo que nos cerca, o fundo histórico, a perspectiva humana”, terminar como Cazuza no panteão cultural do PT não é lá uma grande surpresa. Nabuco sabia que o nosso senso de proporções e hierarquia fora amputado, na raiz, por um ambiente visual urbano que mais parece (até hoje) um “jardim infantil”. Se a recusa em absorver o legado europeu já nos condenava “à mais terrível das instabilidades”, a recusa em absorver a própria história nos condena à propaganda petista.

É uma pena. O centenário da morte de Joaquim Nabuco era uma ótima oportunidade para o Brasil lembrar que seus verdadeiros heróis não morreram de overdose.

Fica, Nabuco!

Um comentário:

  1. São textos como esse que me fazem sempre aqui retornar, apesar do embargo a mim imposto.

    Muito bom.

    R.Pian

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