sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Tesouros de um amor que vai chegar

[Publicado originalmente no facebook - aqui]
[Leia também os votos do Blog do Pim para 2012 - aqui]

Porque é Natal, e é verão, há um quê de infância e de amor no ar, um clima de redescoberta e entrega à vida que, muito embora infestado pela propaganda da diversão obsessiva, conserva ainda um resíduo providencial para aqueles que têm a coragem de prestar contas às crianças que um dia foram. É tempo de resgatar um pouco da pureza, da inocência e dos mais belos sonhos infantis, abandonados em algum lugar do caminho em troca de próteses de felicidade e reconhecimento social. Resgatemos, pois, ouvindo a música favorita de Juveninho, sempre com "os olhos tão ligados nesses sonhos/ tesouros de um amor que vai chegar"... Feliz Natal e que, neste verão, você também se enamore de verdade.



Nota de rodapé: Leia também VOTOS: uma declaração de amor de Carlos Andreazza à sua esposa, Carol, publicada na sétima edição [dedicada ao tema "o que é para sempre"] do fanzine Amarello. Uma obra inspiradora, sem dúvida, porque "as coisas são bem mais singelas e autênticas do que impõem a propaganda e a pressa".

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Brasil à luz do Barcelona

"(...) Contra times de várzea, esse futebol infantilizado não raro soa bonitinho, fofo, alegre - e até moleque. Mas a verdadeira molecagem precisa daquele estofo (...) do qual possa emergir de repente causando a sua graça. Sozinha, (...) ela é só uma bundinha teen à espera de palmadas adultas.
 
As da Holanda – lamento dizer -, chegaram em boa hora."

Sim. Isto foi o que escrevi no artigo "Palmadas holandesas", logo após a eliminação do Brasil na Copa de 2010. Troque Holanda por Barcelona, e temos agora a bundinha teen dos "meninos da Vila" levando palmadas espanholas: 4 a 0 na final do Mundial de Clubes, com mais de 70% da posse de bola. O que mudou de quase 2 anos pra cá? Nada. O que mudará até a Copa de 2014? Nada.

O motivo é simples: o Brasil sempre tira as lições erradas das aulas humilhantes que recebe. Foi assim com a seleção de 1982. Foi assim com a seleção de 2010. Será assim com o Santos de 2011.

Em 1982, tínhamos 1 craque (Zico), 4 bons jogadores (Leandro, Júnior, Falcão e Sócrates) e 6 entre ruins e razoáveis (Valdir Peres, Luisinho, Oscar, Toninho Cerezo, Serginho Chulapa e Éder). O Brasil venceu uma única seleção de porte, a Argentina, e isto porque Telê colocou Batista para marcar Maradona. De resto, passou pela União Soviética com a ajuda do juiz, que ignorou dois pênaltis de Luisinho, e por Escócia e Nova Zelândia - grandes seleções de rúgbi e críquete. Quando Gentile anulou Zico, perdemos para a Itália de goleada, apesar de outra ajuda do juiz, que invalidou o quarto gol italiano, contribuindo para maquiar a humilhação.

De um time limitado, grosseiro, que perdeu feio, jogando mal, criou-se o embuste do time que "perdeu jogando bonito", do qual se tirou a lição enviesada de que tínhamos de jogar feio também. Desde então, a mentalidade reinante no futebol brasileiro cultua a caricatura dos extremos: de um lado, o “craque” poético, que deslumbra a multidão com a plasticidade de suas jogadas individuais; do outro, o “marcador” troglodita, sem o qual o primeiro não teria tamanha liberdade. Um ataca, outro defende (descendo o cacete), e enquanto um faz a sua parte, o outro o observa, isento de maiores obrigações.

Aos "poetas", couberam as posições de atacantes e meias. Aos trogloditas, couberam as linhas de zaga e de volantes. Aos "meios-termos" (nem tão habilidosos, nem tão grandes, porém velozes), restaram as laterais. Consolidava-se assim a cultura do posicionamento distorcido, que não apenas engessa o futebol brasileiro até hoje, desde as peladas e categorias de base, como também o mediocriza e desperdiça. Aqui se formam (o que nossos “professores” imaginam ser) zagueiros, laterais, volantes, meias ou atacantes, em vez de se formarem jogadores de futebol.

Na hora de montar um time de base ou pelada, os piores garantem logo suas posições de defesa, e os melhores é que disputam as demais, ficando de fora (da carreira, inclusive) se não conseguirem se impor. Não passa pela cabeça de ninguém adequar os melhores às posições dos piores, porque a marcação está bem mais associada à grosseria do que à técnica (para o desarme) e à inteligência (para a cobertura). O resultado é um país onde meias e atacantes habilidosos parecem deuses da bola, quando não passam de meninos sem adversários minimamente preparados, deixando-se cada vez mais nivelar por baixo.

Hoje é inconcebível no Brasil um jogador completo, capaz de dominar, tocar, lançar, driblar, marcar e, portanto, assumir outras posições durante o jogo, preenchendo os espaços deixados por seus companheiros. A característica proeminente de cada um, fator determinante de sua respectiva especialidade, tornou-se o requisito único (mesmo que falso) para o exercício da mesma, mutilando talentos, isolando jogadores e impossibilitando atuações conjuntas consistentes. Os esquemas mirabolantes dos nossos “professores” são apenas a tentativa pomposa de contornar as deficiências que eles mesmos criaram, com o reforço da imprensa nacional e da CBF de Ricardo Teixeira.

O Barcelona de Guardiola é o triunfo de 11 jogadores completos. Todos se apresentam. Todos atacam. Todos defendem. Todos marcam. Todos cobrem. Todos se movimentam em blocos compactos. Não há afobação (fora um ou outro delírio de Daniel Alves), porque ninguém precisa resolver o jogo sozinho. Todos sabem que o time encontrará os espaços certos, na hora certa, avançando com força total, sob o comando de Xavi. Todos sabem que marcar exige atenção geral, porque a vantagem no mano-a-mano é sempre de quem vem de frente. Todos sabem que só é possível ter fôlego para tudo isso quando se valoriza a posse de bola. Todos, enfim, sabem jogar futebol.

Se Neymar (anulado por Puyol) e Ganso (preciso e preguiçoso) quiserem realmente aprender, terão de jogar na Europa, como venho dizendo há anos. Não só pela estrutura, mas pela cultura de repúdio à mediocridade. O time da Vila Belmiro só tem os dois, ainda em construção, sendo o resto – como eu já havia escrito aqui (e eu já havia escrito quase tudo...) – “um bando de Elanos, tão medíocres quanto os do Flamengo” ou os da seleção argentina, onde nem Messi faz milagre. Jamais oferecerão o estofo necessário para que seus presumíveis talentos façam a diferença em jogos de verdade.

Como Neymar renovou contrato com o Santos até 2014, resta o aviso: prepare a bundinha, Brasil! As palmadas, dessa vez, virão em domicílio.

* Mais artigos e vídeos na profética página de Futebol do Blog do Pim. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Obrigado, Vasco!

[Publicado originalmente no facebook - aqui]

Ninguém dá tanta graça ao futebol brasileiro quanto o Vasco. É preciso agradecer.

Num campeonato em que o maior destaque foi a "titibilidade", quem mais poderia nos trazer em seu desfecho uma alegria redentora?

O Vasco nunca nos desaponta. Nunca decepciona. Sempre vem nos lembrar que as certezas existem e podemos ficar tranquilos. Aconteça o que acontecer, ele estará lá.

Mais certo que o grande amor. Mais certo que o melhor amigo. Mais certo que o Natal da família e a festa de Réveillon.

O Vasco é a aplicação futebolística perfeita da teoria de Nash, segundo a qual a segunda mulher mais bonita é sempre mais acessível que a primeira.

"Não procures o que está acima de ti", dizia São Tomás de Aquino. "Não tentar nada acima dos seus limites", recomendava Sertillanges. "You gotta punch your weight", ensinava Rob Gordon em "Alta fidelidade". Por mais que pareça o contrário, o Vasco segue à risca os mandamentos filosóficos, intelectuais e até cinematográficos.

É um clube consciente: sabe exatamente o seu lugar.

Se é possível extrair conhecimento através da análise da repetição dos fenômenos, ninguém pode negar que temos muito a aprender com o Vasco.

Só quem tem um ideal bem definido pode alcançar tamanha constância. Só quem descobre a própria vocação pode reunir forças para manter a regularidade.

Obrigado, Vasco, pelas valiosas lições de vida em todo meio ou fim de ano.

O sentimento de vice não pode parar.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A indignação dos alienados

Ancelmo Gois publicou em sua coluna de 1 de dezembro uma homenagem aos terroristas de esquerda mortos na luta pela implantação de uma ditadura comunista no Brasil. Não com essas palavras, claro. Para ele, eram todos “militantes políticos”.

O jornalista e editor Carlos Andreazza comentou a fraude no facebook. Eu “curti” e aproveitei para indicar o texto “Comunistas na chefia”, de Olavo de Carvalho. É sempre perigoso fazer isso. O Brasil – sobretudo nas redes sociais – dispõe de um exército de especialistas na “não-leitura” de Olavo de Carvalho. Normalmente, algum deles aparece. Foi o que aconteceu. Então tratei de me divertir.

Desde o Ancelmo Gois até minha última mensagem para o feicebuquiano O. S. (cujo nome omito por pura generosidade), a sequência obedece a um padrão bastante comum: 1) a mentira jornalística; 2) a refutação intelectual; 3) a indignação alienada; 4) a análise da alienação; 5) a agonia analfabeta; 6) a caridade da educação; 7) a agressão sonsa; 8) o deboche final; 9) o despertar da consciência.

Segue a sequência completa para quem quiser um retrato da mentalidade reinante no país. Ficou grande, eu sei, mas convém registrá-la. O item mais importante deve ser o 4. Volto na nota de rodapé com um vídeo bastante educativo – exemplo para todos que defendem (ou atacam) causas sem conhecimento de causa –, cuja divulgação se faz fundamental no combate à indignação dos alienados brasileiros.

1) A mentira jornalística
 

2) A refutação intelectual 

Carlos Andreazza

A propósito da coluna de Ancelmo Gois de hoje...

Nada tenho contra homenagens a mortos, respeito a dor da perda, e considero asqueroso que o Estado tenha torturado e matado cidadãos brasileiros. Desprezo, porém, a mistificação e a mentira: MR8, VPR, PCdoB, ALN e VAR-PALMARES jamais reuniram "militantes políticos"; eram, isto sim, grupos guerrilheiros-terroristas, que combateram, armados [assassinaram dezenas de pessoas inocentes], a ditadura militar, mas não - nunca! - em luta pela democracia e pela liberdade, antes em busca de instalar aqui uma outra ditadura, a comunista, aquela dos vagabundos sanguinários Stálin e Trotsky.

Leiam os manifestos e documentos dessas organizações. Não se encontra, nem deturpado, um só valor da democracia. Esses homens e mulheres lamentavelmente mortos não são heróis nacionais [...]

Não há virgem neste puteiro.

Carlos Andreazza

Há outra farsa nesta placa, que sugere que os dois mil indigentes encontrados ali tenham sido vítimas da ditadura. Ainda hoje, por falta de estrutura e grana, centenas de pessoas são enterradas, diariamente, como indigentes, em cemitérios não-oficiais.

Felipe Moura Brasil

“(...) a ditadura brasileira, por execrável que fosse em si mesma, era um preço módico a pagar pela eliminação da ameaça comunista (...) Não temos o direito de falsificar toda a memória histórica de um país só para continuar dando a impressão de que éramos lindos. (...)” (Olavo de Carvalho - http://www.midiasemmascara.org/artigos/desinformacao/12617-os-comunistas-na-chefia.html)

3) A indignação alienada 

O. S. 

a ditadura brasileira foi um preço módico??? das duas uma, ou vc não sabe o q é módico, ou é um retardado mental

4) A análise da alienação 

Felipe Moura Brasil

Eis aí a mentalidade esquerdista sintetizada em um peido verbal: 1) preguiçoso e avesso à leitura, o sujeito nem se dá ao trabalho de conferir o texto indicado, onde encontraria a resposta prévia para a sua previsível indignação de ignorante, desprovido do senso das proporções; 2) manipulador, destaca a expressão "preço módico" de seu contexto comparativo real, para - passando ao terreno do significado vocabular - dar a impressão de que ignoramos as atrocidades da ditadura brasileira, quando, na verdade, apenas demonstramos o quão branda ela foi quando comparada às ditaduras comunistas, modelo pelo qual lutavam os terroristas de esquerda no Brasil; 3) autoritário, xinga de antemão quem discorda dele, mesmo que sua opinião seja baseada no completo e voluntário desconhecimento do assunto, incluindo aí a argumentação adversária; 4) afetado de superioridade, questiona nosso conhecimento linguístico, enquanto gasta 3 interrogações para mostrar sua indignação moral e nenhum ponto final em respeito às normas gramaticais. Este último item, aliás, é bastante representativo da mentalidade esquerdista que assola o país: o excesso de indignação moral movido pelo mais profundo desprezo ao conhecimento.

5) A agonia analfabeta 

O. S. 

mentalidade esquerdista? atualiza seu dicionário, o que eu disse nada tem a ver com esquerda, direita, se é q esses termos maniqueístas servem pra significar algum pensamento de fato... vc fez uma citação (que como toda citação já vem carregada com a história do autor do texto). eu sou aveso a leitura, só pq não me dei ao trabalho de ler o artigo - então saiba que ao destacar um texto, a primeira ideia do que vc pretende dizer com isso, está contida no citado, depois aprofunda-se. Não acho q o comunismo era uma saída, nem mesmo uma opção para o Brasil - tanto que não fiz comentário à colacação do andreazza. Agora, é extrema ingenuidade sua, achar que a comparação entre a ditadura militar e um governo comunista que só existiu de vislumbre na luta armada (que só surge com o golpe, deixemos isso bem claro) através da frase - "a ditadura brasileira, por execrável que fosse em si mesma, era um preço módico a pagar pela eliminação da ameaça comunista", mesmo com o execrável, não quer no fim das contas dizer, "dos males o menor", quando na verdade - sem ditadura (exilios, torturas e assassinatos oficiais) é impossível saber que rumo político tomaria o estado nacional. Xinguei sim, porque acho um absurdo completo a ideia de que "a ditadura militar não foi tão ruim assim". Quanto à parte gramátical... minhas reticências sem ponto final)

O. S. 

ah, e esqueci de colocar. O autor do texto não justifica o módico, só o mantém em suspensão para uma suposta explicação (o que já deixa bem claro que é um termo muito complicado para qualquer aspirante a intelectual jogar no facebook para impressionar os amigos...)

6) A caridade da educação 

Felipe Moura Brasil

Com direita, o que este sujeito disse nada tem a ver, de fato. Com esquerda, só uma cabeça alienada ou corrompida pela própria propaganda esquerdista pode negar que tenha. Seu discurso é o subproduto feicebuquiano de 40 anos de falsificação histórica promovida no Brasil pela intelectualidade e pela imprensa esquerdistas, ambas devotas diretas ou indiretas de Antonio Gramsci - aquele que propunha exatamente isso: a tomada de poder através da "ocupação de espaços" nos canais de cultura e da disseminação exclusiva de ideias que favorecessem o Partido.

Mas vamos lá:

1) "toda citação vem carregada com a história do autor do texto" é uma frase que aparece aí para: a) desmerecer o autor (no caso, Olavo de Carvalho), independentemente do conteúdo da citação e do texto; e b) justificar sua "não-leitura" do texto em função de seu desprezo pela pessoa do autor;

2) "avesso" se escreve com 2 esses;

3) o sujeito tenta colocar em mim a culpa de sua "não-leitura", dizendo que "a primeira ideia" do que pretendo dizer (vou ignorar a vírgula entre o sujeito e o verbo) "está contida no citado, depois aprofunda-se", como se aprofundar-se não fosse o papel dele antes de repudiar o conteúdo que recomendei; ou seja: para ele, minha indicação de leitura teria de conter toda a argumentação do texto em si (isto é, todo o texto), caso contrário respostas alopradas (como a dele) estão mais do que justificadas;

4) a guerrilha comunista começou no Brasil em 1961, dirigida e financiada desde Cuba, como comprovam o depoimento dos próprios guerrilheiros, registrado em livros de autores simpáticos ao esquerdismo, como Denise Rollemberg e Luís Mir; de modo que apresentar a guerrilha retroativamente como reação ao golpe de 1964 - e não como a sua causa - é uma das maiores e mais bem-sucedidas fraudes da esquerda brasileira, aqui repetida não sei se pela má-fé deliberada dos militantes ou se pela ignorância voluntária de um imbecil juvenil;

5) quando se detecta o surgimento e o progresso de um câncer, com todos os sintomas vindo à tona, não se espera que ele cause a morte ou um sofrimento terrível para dar início ao seu combate, ainda que este seja doloroso, afinal "a comparação da gravidade relativa dos males, da qual a esquerda nacional hoje foge como o diabo da cruz, é uma exigência incontornável e a base de quase todos os diagnósticos e decisões", como bem escreveu Olavo de Carvalho; de modo que dizer que "é impossível saber que rumo político tomaria o estado nacional" é papo de quem nunca estudou ciência política nem o contexto real da época, e deixaria o câncer comunista crescer à vontade, patrocinado pela ditadura genocida cubana;

6) "gramatical" não tem acento;

7) o texto e a simples advertência de Olavo de Carvalho no "PS", além de toda a sua obra (que o sujeito certamente não leu), já são suficientes para explicar o uso da expressão "preço módico", que, ademais, nada tem de complicado, a não ser para uma cabeça entupida de propaganda esquerdista; que, para coroar toda a sua participação, dá como prova do uso inapropriado do termo a sua própria incapacidade de compreendê-lo, além, é claro, da preguiça de estudá-lo mais a fundo. Não me surpreende que uma mentalidade assim deformada só possa conceber o meu combate à manipulação esquerdista como uma tentativa de "impressionar os amigos". Tudo que existe acima disso é algo que o esquerdismo sempre tratou de destruir.

7) A agressão sonsa 

O. S.

além do entupimento de termologias bobas anti-esquerdistas (que não me dizem absolutamente nada - me são indiferentes e só parecem reforçar seu status de skinhead praiano, ah, e também não me intimido com suas observações leitura de professora colegial de português, e sei o quanto eu li e a qualidade do que li) e digressões retóricas, não vi nenhuma colocação favorável à promoção da ditadura militar à salvadores do futuro sombrio do brasil.

8) O deboche final 

Felipe Moura Brasil

Para encerrar: 1) “termologia” (ou termofísica) é aquela parte da Física que estuda o calor; de modo que o sujeito certamente quis dizer “terminologia”, embora não tenha especificado qualquer uma que eu supostamente teria utilizado, porque passar do específico para o geral é uma forma de fugir do tema em questão e partir para a rotulação pessoal, como ele sempre faz, naturalmente; 2) se a “termologia” me faz um “skinhead praiano”, porém, só pode ser por causa do calor...; 3) faltou um “de” em “observações leitura”; 4) nós dois sabemos, de fato, o quanto o sujeito leu (quase nada) e a qualidade do que leu (nenhuma); 5) em “promoção da ditadura militar à salvadores”, não há acento grave e, em lugar de “salvadores”, o certo seria “salvadora”, porque se refere à ditadura, e não aos militares; 6) a ditadura militar surgiu como reação à guerrilha e certamente foi um mal muito menor do que uma ditadura comunista, como a que os terroristas de esquerda tentavam nos impor; o resto – este papo de “salvadores do futuro sombrio” – eu deixo para todos aqueles que, como este sujeito, precisam salvar a própria inteligência das trevas esquerdistas. Boa sorte!

9) O despertar da consciência 

O. S. 

é,essa do termologia foi foda msm...

*******

NOTA DE RODAPÉ: Este vídeo, sim, merece ser divulgado. Marcos Palmeira, Juliana Paes e Maitê Proença têm muito a aprender com ele. Seus assessores de imprensa, também. Os alunos da CAL, do Tablado e do Wolf Maya, idem. Os feicebuquianos, principalmente. Sua exibição deveria ser diária no Projac; obrigatória na Aula 1 de qualquer cursinho de atores; e permanente na página inicial do facebook. Se todos fizessem uso habitual da resposta de Billy Bob Thornton sobre o movimento Occupy Wall Street, seríamos um país mais adulto. Desde Elvis Presley, em 1972, não se via no mundo artístico tamanha consciência. Eis, enfim, um ator que conhece o seu papel.


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Invada a reitoria você também!

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara.]

Você é a favor das drogas? É contra a polícia no campus? Não tem mais o que fazer? Ótimo!

Participe da próxima invasão de reitoria e incremente o seu portfólio de militante.

O pacote inclui: manchetes e fotos de primeira página em todos os jornais, fotogalerias nos sites jornalísticos, vídeos no youtube, repercussão nas redes sociais, reportagens benevolentes na TV Globo, depoimento solidário ("Não se pode tratar a USP como se fosse a cracolândia") do Ministro da Educação e pré-candidato petista à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad - e muito mais!

Em especial: a foto da vitória! Todos unidos na saída da delegacia exibindo o documento de liberação após o pagamento da fiança de R$ 545! Fiança paga, é claro, com o dinheiro público dos nossos sindicatos, entidades e movimentos sociais, que cuidam de todas as despesas pra você, incluindo os advogados. Isso mesmo: ninguém precisa chamar o papai!

Venha! Traga o seu capuz. Traga o seu baseado. Traga o seu galão de gasolina e o seu coquetel molotov.

Após a invasão, basta ignorar as ordens judiciais, aguardar a chegada da polícia com a(s) câmera(s) do(s) seu(s) celular(es) ligada(s) e resistir bravamente à prisão, com o máximo possível de vitimismo heroico e acusações histéricas. Vamos juntos imputar ao governo tucano qualquer indício de truculência policial! Todo sangue é bem-vindo!

Aproveite ainda para arremessar pedras nos repórteres e destruir seus equipamentos, que nós garantimos a sua absolvição moral. Você e seus amigos delinquentes serão tratados como "manifestantes" (Folha de São Paulo), "estudantes" (O Globo) e até "os meninos" (Jornal Nacional)! É muita honraria à sua espera.

Mas lembre-se: não basta, por fim, reunir 5% dos alunos em assembleia e afetar os demais 95% com a declaração de "greve geral".

É preciso, também, participar das festinhas do DCE, com Open Bar de ervas e charutos cubanos.

Comece em alto estilo a sua carreira na militância esquerdista.

Inscreva-se já!*

*Os 100 primeiros ganham uma carteirinha do PT.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Rody e as "Rodices"

Em memória de Rodrigo Cezar (1987-2011), o nosso eterno Rody.***

Rodrigo Cezar sempre ria quando, no meio de uma festa ou de um samba, eu tirava do bolso minhas barrinhas de cereal. Ria, implicava, me chamava de "estranho". O Pim? O Pim é "estranho". Algum tempo depois, lá estava ele na noitada tirando barrinhas de cereal do próprio bolso.

Aquilo se tornou para mim uma síntese da personalidade dele: por trás de seu humor moleque e fanfarrão, havia um sujeito humilde e sereno, capaz de observar e aprender. O Rody que se gabava das vitórias no futevôlei era o mesmo que tirava dúvidas com a dupla adversária: "Essa minha ginga do pescoço", ele perguntava, "tá adiantando alguma coisa?". O Rody que pagava a anuidade da rede ao pessoal do "Vovôlei", como ele chamava, tirando as moedas do cofrinho (sim, do cofrinho) era o mesmo que dava a vez para os recém-chegados jogarem. O Rody que tirava onda de ter sido eleito o melhor jogador do último campeonato de futebol em Niterói era o mesmo que afirmava: "É porque meu irmão não jogou a final". O Rody que explicava o seu tremendo poder de atrair as moças dizendo a frase "É o néctar!" era o mesmo que mandava mensagem pra gente perguntando em qual restaurante (barato) deveria levá-las.

Era difícil não gostar dele. Rody provocava por um lado e envolvia pelo outro, no fim das contas cativando pelos dois, com aquele sorriso leve e radiante de bom garoto, que iluminava qualquer ambiente. Prestativo ainda - como se espera dos melhores professores de educação física -, armava a rede, molhava a quadra, dava aula de altinha às amigas, ajudava as mães a carregar carrinho de bebê pela areia, brincava com as crianças e até consertava bicicleta. No caso, a minha. Rody ajeitou a corrente, mostrou como funcionavam as marchas e em qual eu deveria deixar quando pedalasse pela ciclovia. Depois, claro, passou a dizer para todo mundo: "Eu que ensinei o Pim a andar de bicicleta".

Ele vinha pedalando de Copacabana à Ipanema para praticar o seu esporte favorito, o futevôlei, pelo qual reunia a um só tempo os amigos, a praia, o sol, e as moças da areia e do calçadão, onde gostava de fazer as resenhas no fim de tarde. "Vida!", gritava na quadra, celebrando com a gente a intensidade daqueles momentos, não raro fotografados por alguma turista paparazzi. De todas as suas milhares de fãs, a maior, sem dúvida, era a rede - que, assim como as outras, ele beijava quando podia. Rody fazia tantos pontos com a bola resvalando na fita que, para a sua alegria, batizei aquela jogada sortuda de "Rodice". Todo mundo comete uma "Rodice" de vez em quando. Mas ninguém jamais cometerá tantas "Rodices" quanto o Rody.

Talvez por isso ele abusasse da sorte. Normalmente, ela estava do seu lado. Durante os quase 6 dias de coma após sofrer uma parada cardíaca, era como se a bola estivesse mais uma vez rodopiando em cima da rede, escolhendo em qual lado ia cair. A gente soprou, rezou, cantou, meditou, torceu muito para ela cair do lado de cá. Mas, dessa vez, infelizmente, a rede não ajudou. Rody se foi, e sua morte precoce, assim como sua vida intensa, uniu uma porção de pessoas, criando e fortalecendo amizades, marcadas para sempre pelo fundo comum e inesgotável da saudade: a saudade daquele menino simples e divertido que veio de Barra Mansa ensinar a gente a ser mais carioca. Junto, com ou sem bicicletas e barrinhas de cereal, a gente estará sempre prestando tributo a ele e revivendo a felicidade que ele proporcionava, com sua beleza sem vaidade, seu humor sem cinismo, sua humildade sem hipocrisia.

A maior "Rodice" da minha vida foi ter conhecido o Rody.

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*** Texto de Felipe Moura Brasil, o Pim, lido pelo autor na Missa de 7º Dia do Rodrigo, em 28/10/2011, e publicado no dia seguinte no facebook, com ampla repercussão - AQUI.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Todos juntos contra a inteligência

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara.]

O brasileiro, quando fica doente, acorre logo ao médico para diagnosticar o problema, mas, quando nota o país enfermo, acha natural sair atônito às ruas com uma receita qualquer. Para ele, o que muda o mundo é a ação (assim entendida como uma agitação ambulante) e, tendo esta uma intenção declaradamente boa, não será o vazio (ou a manipulação) de ideias que a gerou a dissuadi-lo da tentação de integrar o time dos bonzinhos. Ele está revoltado, sente que “precisa fazer alguma coisa” e, se esta coisa for tão simples e prática quanto uma marcha com os amigos, ele será o primeiro a se inscrever para exorcizar a culpa de sua apatia (assim entendida como uma não-agitação ambulante).


Pouco importa se ele vai marchar contra uma doença, contra um sintoma, contra uma simples palavra naturalmente abstrata ou, nos casos mais graves, contra as dificuldades que o vírus encontra para se propagar. A rigor, quanto menos comprometedora for a sua participação, melhor. Protegido pela multidão e bradando contra a maldade ou os maus de uma maneira geral, ou mesmo contra aqueles em particular cujas falcatruas já foram fartamente expostas pela “mídia”, ele estará livre de assumir qualquer tomada individual de posição sobre os assuntos espinhosos dos quais sempre fugiu, e que escondem, por óbvio, as causas mesmas dos males que ele finge histericamente combater.

Marcada para 20 de setembro, no Rio de Janeiro, a marcha “Contra a corrupção” é um caso emblemático, com cerca de 25 mil presenças previamente “confirmadas” pelo facebook. “Vamos”, convoca o texto do evento, “ou vai ficar em casa reclamando que o nosso povo do qual TODOS fazemos parte é sem ATITUDE?”. Vou ficar em casa, obrigado. Mas não reclamarei – prometo – de que o nosso povo do qual todos (em minúsculas, por favor) fazemos parte é sem atitude (idem). Essa histeria que se quer vender por “ATITUDE”, o nosso povo tem de sobra, como se vê. O que lhe falta é o desejo de conhecer a realidade, somado à coragem de enfrentar inimigos concretos, em vez de sofrer os efeitos de sua (deles) estratégia sem atinar de onde vieram.

Um protesto contra “nenhum político especificamente” ou “contra todos os corruptos” é um protesto contra uma palavra, uma abstração, um “x” sem o seu valor correspondente e, portanto, vago para ser preenchido ao gosto do marchador. (Alguém duvida que o PT infiltrará militantes para protestar contra os crimes da oposição, igualando-os aos seus? Que haverá uma porção deles exaltando as “atitudes” de Dilma? Alguém?) Trata-se, pois, de um não-protesto, que, por isso mesmo, tem o poder de atrair a elite indisposta a arcar com as responsabilidades de uma guerra ideológica que coloque a corrupção em seu devido lugar: o de sintoma de uma doença – a estratégia revolucionária do Foro de São Paulo, criado pelo sr. Lula – que assola o país com efeitos bem mais graves, como o assassinato de 50 mil brasileiros por ano e a estupidificação de outros milhões em salas de aula.

Marchar “contra a corrupção”, como quem ademais só vê a faceta dinheirista do mal, é pior que amenizar a massa de crimes petistas: é diluí-la entre ladrões de toda espécie para manter intacto o vírus com o qual eles continuarão se alimentando; é combater um câncer com um falso genérico para tosse. Para um partido que chegou ao poder com a bandeira da ética, apropriando-se justamente de slogans “contra a corrupção” e vinculando-se a eles no imaginário popular de maneira quase irreversível, toda revolta expressa nos mesmos termos, com o mesmo grau de abstração, servirá apenas como propaganda (pseudo)espontânea de seus discursos, facilmente transformável em propaganda de fato, governista ou eleitoral, em campanhas futuras.

Na verdade, o PT já se antecipou. Divulgou uma resolução em que exalta as supostas medidas anticorrupção de Dilma, mas rechaça a ideia de “faxina” como tentativa “da mídia conservadora e da oposição de promover uma espécie de criminalização generalizada da conduta da base de sustentação do governo”. Da mesma forma, o partido repudia a censura, mas propõe o “controle” ou a “democratização” da “mídia”. Em outras palavras: o PT combate o crime abstrato, enquanto defende o crime real. Combater a corrupção abstrata, portanto, é também uma forma de ser petista. Já são 25 mil petistas virtuais no facebook, prontinhos para pegar um sapinho mental na micareta genérica promovida pela OAB. “Todos juntos contra a corrupção”. Todos juntos contra a inteligência.

Quando o brasileiro se revolta e sente que “precisa fazer alguma coisa”, é melhor preparar o brejo: as vacas vão chegar marchando.

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Nota de rodapé 1: Não bastasse a marcha “Contra a corrupção”, o facebook ainda me convida para outra, em Brasília, “Pelo fim da ignorância passiva dos brasileiros!”. Pois é. Se você achava ruim a “ignorância passiva”, espere só até conhecer a ativa.

Nota de rodapé 2: Na rua, o bueiro explode. No ônibus, tem assalto com refém. No metrô, tem arrastão e apagão. De carro, você é rendido no sinal (ou atola na chuva). De táxi (inclusive o “rádio”), é sequestrado. E o bondinho descarrila e tomba. Andar no Rio de Janeiro é mesmo uma arte. A “pacificação” de Sérgio Cabral e o "choque de ordem” de Eduardo Paes são como a “faxina” de Dilma Rousseff: dos males, só cuidam dos menores - e olhe lá.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A insustentável leveza de Juveninho

O romance não é uma confissão do autor,
mas uma exploração do que é a vida humana,
na armadilha em que se transformou o mundo.

Milan Kundera, em A insustentável leveza do ser




O que é o flerte?

A pergunta é de Milan Kundera em A insustentável leveza do ser. E se, bem ou mal, estamos todos flertando, diz Juveninho, convém saber do que se trata.

O flerte, segundo Kundera, é um comportamento que deve sugerir que uma aproximação sexual é possível, sem que essa eventualidade possa ser entendida como uma certeza. “Em outras palavras, o flerte é uma promessa de coito, mas uma promessa sem garantia.”

Juveninho é especialista em matéria de coito. Não pode ouvir uma promessa morena que quer logo extrair a garantia. Mas não se afoba. Principalmente quando é ele mesmo, Juveninho, o autor da promessa. Para Kundera, o virtuosismo do flerte reside precisamente no equilíbrio entre a promessa e a ausência de garantia: a arte, segundo Juveninho, de prometer sem se comprometer - de manter verossímil a alegação de que tudo não passou de educação, simpatia e afeto, ou, como diria o aposentado orkut: “sou legal, não tô te dando mole”.

Muitas amizades entre homens e mulheres – e elas existem, afirma Juveninho – começam a partir do flerte, ou, mais precisamente, são resultados de um flerte não correspondido. Juveninho não vê nisso mal algum, muito pelo contrário: vê somente o indício de uma maturidade, que se revela na habilidade de lidar com coitos potenciais. Da mesma forma que ninguém precisa chegar às vias de fato, ninguém precisa ignorar ou excluir do seu convívio real ou virtual aqueles que um dia se aproximaram de maneira meramente sugestiva. Ver em cada aproximação um estupro potencial é, para Juveninho, o aspecto definidor de uma moça besta.

E moça besta, ele diz, é o que não falta na Zona Sul do Rio de Janeiro. Numa província de elite em que toda a cultura se resume a “curtir a vida” (adoidado), gastando fortunas (em viagens, ingressos, roupas, bebidas) para fugir a qualquer esforço de inteligência e realização superior, nada mais natural, segundo Juveninho, que essas moças só se interessem por aquilo que lhes desperta um desejo imediato de consumo; e que, por pura projeção, só possam conceber a curiosidade masculina como uma tentativa de consumi-las com urgência, como se o simples fato de serem aparentemente desejáveis as eximisse de serem efetivamente interessantes.

Com efeito, lamenta Juveninho, o comportamento que sugere que uma aproximação sexual é possível (às vezes, um mero “boa noite”) já soa como a própria intimação ao coito, devendo ser imediatamente rechaçado com ar blasé ou correspondido tão somente como concessão, uma atenção emprestada por quem se dispensa da mais mínima participação ativa no processo. Antigamente, ao “conversar” com moças incapazes de lhe fazer uma única pergunta, Juveninho desandava a falar de si, para ver se, subitamente, elas despertavam da passividade. Hoje, tem um método mais eficaz: inverte as perguntas, como numa espécie de “Auto-Quiz”.

- Quantos irmãos eu tenho?
- Você? Ué... Não sei.
- Meus pais são casados?
- Seus pais? Como assim!?
- O que eu desejo estar fazendo daqui a 10 anos?
- Eu, hein! Como posso saber isso!?
- Qual era o nome do cachorro que tive na infância?
- Cruz credo, cara! Você é maluco!

É verdade que nem sempre funciona. Quem quiser ter uma conversa de verdade, segundo Juveninho, no grande parquinho que se tornou a Zona Sul, é logo considerado um maluco. Todo o repertório de assuntos que constitui o conteúdo verbal do flerte - ou de qualquer outra possibilidade de relação - se resume, quando muito, ao que se fez no último fim de semana e o que se fará no próximo, de preferência com interlocutores já devidamente apresentados por parentes ou amigos em comum, porque, nas palavras de Juveninho, ninguém pode falar com estranhos nem andar sem mão dada no parquinho.

Enquanto circular incólume a crença geral de que a economia move o mundo, avulsa e desencarnada, como se não fosse ela determinada por fatores intelectuais, culturais, éticos, psicológicos e religiosos, e enquanto todos estes estiverem reduzidos à propaganda político-partidária, a obsessão dinheirista-consumista regerá também a vida social e amorosa das elites, com todo o seu poder de esvaziar o cérebro de mocinhas encantadoras, todas elas, segundo Juveninho, muito mais adestradas a usufruir um homem (como uma bolsa ou um sabonete) do que a conhecê-lo de fato para além de suas posses e poses, criando aquele vínculo profundo sem o qual toda relação é tão descartável quanto um notebook velho.

Não quer com isso, Juveninho, desprezar o papel dos atributos físicos – ou, ao menos, manifestados pela aparência imediata – na hora do flerte. Admirador incontornável das carnes morenas e douradas, Juveninho seria o último a exaltar as vantagens do amor desencarnado. Mas esclarece: uma coisa é o desejo de coito (aplicável a numerosas moças), outra bem diversa é o encanto. Milan Kundera acredita que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. O problema é que aquelas poucas mulheres que realmente encantam, comovem, dão beleza à vida de Juveninho – entrando em sua memória poética e fazendo dez embaixadinhas lá dentro –, normalmente são as mais bestas de todas.

Os amigos não se conformam.

- Mas e fulana, Juveninho? Aquela gostosa!
- Não entra na minha memória poética.
- Mas entra na sauna, não é?
- ...
- E beltrana? Mó gatinha...
- Bate na trave.
- E sicrana? Você era apaixonado por ela!
- É besta.
- É besta ou você não entra na memória poética dela?
- É besta.
- Como você sabe?
- Nunca me fez uma pergunta.
- Ela não pode estar desinteressada?
- Pode. Não pode é ser besta.

Até os amigos agora fazem perguntas a Juveninho. Nenhum quer parecer tão besta quanto as moças mais encantadoras da cidade. Todos já sabem de cor quantos irmãos tem Juveninho, se seus pais são casados, o que ele deseja estar fazendo daqui a 10 anos e qual era o nome do cachorro (um fox terrier, eles gritam!) que Juveninho teve na infância. Imploram pelo romance autobiográfico A insustentável leveza de Juveninho, regado a muitos diálogos de “Auto-Quiz”. Alguns, aliás, confessam que colocaram o método em prática, com relativo sucesso. Outros, que pararam de puxar o cabelo das moças nos eventos, porque isto sim é intimar ao coito. As amigas admitem que andam interagindo com os estranhos no parquinho, porque ignorá-los, sobretudo se gentis, é de fato tão grosseiro quanto, para os homens, puxar o cabelo; e que, apesar de um ou outro Trem Fantasma, conquistaram amizades e conhecimentos assim, sem mais antecipar o momento do “não”. Por fim, todos exigem papeis de destaque na grande obra juveniniana, embora temam a maneira como serão descritos.

Juveninho conversa com cada um deles. Não os rechaça. Não os exclui. Não é besta nem nada. Trata os fãs com educação, embora prefira conhecer as tietes. Seu comportamento sugere apenas que o livro é possível, sem que essa eventualidade seja entendida como uma certeza. É uma promessa de romance, mas uma promessa sem garantia.

Até porque, pensa Juveninho, a literatura é como a maturidade: bem ou mal, também se revela enquanto estamos flertando.

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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O playground de Dilma

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

Dilma já disse a Lula que não quer disputar a reeleição. Dá muito trabalho encobrir a roubalheira de petistas e aliados. Sua carapaça política é tremendamente menor que a de Lula. Com ele, o lema era: “Não sabe roubar, deixa que eu cubro!”. Com ela, o lema tem de ser: “Não sabe roubar, não desce pro play!”.


O problema é que o play está lotado. Varrer todo mundo de lá exigiria aquele arsenal de princípios e valores com o qual ninguém faz carreira no PT. Já bastou a cara feia do PR, varrido do Ministério dos Transportes. Aturar a cara feia do vice-presidente Michel Temer, do PMDB, seria demais. Faxina tem limite. Nada de varrer o próprio pé.

Para Dilma, as denúncias contra o Ministro da Agricultura, Wagner Rossi, são menos graves do que a perda de apoio na base. O que é um tráfico de influência perto de um Congresso independente? O que é usar um jatinho do agronegócio – ainda mais “em raras ocasiões”, como alegou Rossi – perto do isolamento do PT? Na dúvida, melhor recorrer à velha tática petista: vão-se os “apadrinhados”, ficam os padrinhos.

É difícil agradar a todos. É difícil parecer bonzinho, gerenciando os malvadinhos. A flexibilidade moral nem sempre vem equipada com a desenvoltura e o vigor teatrais que a ocultam; muito menos que ocultem os crimes de toda uma facção, como Lula fazia de bom grado. Com oito meses de governo, Dilma dá sinais de cansaço. Pede colo. Sente saudades do tempo em que só tinha uma Erenice para encobrir.

Mas não sejamos injustos. Que a presidente dá conta dos “apadrinhados”, é inegável. A imprensa chapa-branca pode aplaudir com a mão esquerda. Viva a ética parcial da faxina parcial! O legado petista para as próximas gerações! Dilma é tão boa em livrar-se dos peões incompetentes do governo que já planeja até livrar-se de si mesma. Em breve, vai-se a “apadrinhada”, volta o padrinho.

E todos podem descer pro play à vontade.

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Nota de rodapé: Qualquer crítica à revista Veja deveria vir com a ressalva: “Apesar de ser o único grande veículo de comunicação impressa do Brasil a trazer à tona as profundezas de corrupção dos governos petistas, 'derrubando' dezenas de ladrões de dinheiro público e estabelecendo a pauta semanal de escândalos políticos aos demais veículos sonsos e retardatários, eu acho que...” - e aí então poderíamos falar de manipulações, sendo a maior delas, claro, a propaganda obamista de André Petry.

Pós-escrito: Horas após a publicação deste artigo, o ministro Wagner Rossi se demitiu, segundo ele, “a pedido da família”. Mas quem da família terá pedido? Seu filho Baleia, deputado federal também usuário do jatinho da empresa que mantém negócios com o ministério? Ou outros filhos, donos de produtoras de vídeo que, indiretamente, prestam serviços a órgãos públicos? Não sei. Mas, para Rossi, é tudo uma conspiração de José Serra...

terça-feira, 7 de junho de 2011

O balzaquiano Juveninho

[Ouça mais histórias de Juveninho - AQUI]



Juveninho anda muito ocupado fazendo 30 anos. Logo ele, que chegou à idade da razão aos 12. O motivo é simples, ele diz: há muito a se fazer quando se tem 30 anos. Os amigos desconfiam de crise existencial, balanço mental, revisão de valores e objetivos. Mas isto, afirma Juveninho, é coisa de quem espera completar 30 anos para tirar a fralda do cérebro. A de Juveninho, ele garante, ficou há mais de uma década pela prateleira, marcando a página 56 de “O apanhador no campo de centeio”: “quando estou com gente burra”, dizia Holden Caufield, “fico burro também”. Desde então, o objetivo de vida de Juveninho é ser inteligente.

O maior problema de querer ser inteligente no Brasil é a falta de companhia. Para Juveninho, seus amigos só querem ser ricões, com carrões, apartamentões e mulheres lindas e gostosas. Já as mulheres lindas e gostosas podem até pular de quebra-galho em quebra-galho (Juveninho em Juveninho, traduzem os amigos), mas estão mesmo é atrás dos homens ricões, com carrões e apartamentões. E as mulheres não tão bonitas e gostosas se arriscam em cirurgias estéticas, a fim de atender milimétrica e mililitramente às exigências desses tipos tão sutis de homem (os borrachófilos, segundo Juveninho), os quais, para elas, são os únicos que existem. Onde a biblioteca é a conta bancária, ele diz, o divã é o leito cirúrgico.

A aversão à inteligência – ou intelectofobia; ou Juveninhofobia, segundo Juveninho – produz uma multidão de reféns voluntários das propagandas dominantes (inclusive a de peitos), como se pode verificar diariamente no facebook. Basta uma companhia aérea divulgar uma promoção, e todos os colecionadores de paisagens correm para completar seu álbum. O ideal mais elevado dessa geração, ele diz, é registrar em algum lugar paradisíaco o seu edificante momento seminu fazendo absolutamente nada, para então despertar a inveja dos miguxos do outro lado da tela, ansiosos por extravasar o tédio de empregos aborrecidos em vislumbres ilusórios de felicidade, como se o conteúdo das paisagens pudesse suprir a sua miséria interior.

Para Juveninho, viagem é como megaevento: um índice de possibilidades. Quem faz de uma viagem um fim em si mesma, está sempre em função da próxima, sem nunca ter feito valer a primeira. Da mesma forma, quem não leva adiante qualquer possibilidade extraída de um megaevento – seja uma possibilidade loira, ruiva, morena ou mulata –, está sempre em função do próximo, sem nunca ter feito valer o primeiro. Do Louvre, do Havaí ou do carnaval de Salvador, seus amigos guardam - isto é, publicam - sempre a mesmíssima e única coisa: uma foto com pulinhos e caretas diante do cenário, com aquela certeza afetada (“uhuuuuul”, traduz Juveninho) de que isto representa o máximo em matéria de aproveitar a vida. São os colecionadores de índice, ele diz: nunca se aprofundaram em qualquer assunto, interesse, conhecimento ou morena. Vivem para ostentar, senão a riqueza, ao menos a beleza e o prazer.

Balzac escreveu que o homem começa a morrer na idade em que perde o entusiasmo; de modo que Juveninho se sente a cada dia mais cercado de zumbis, que afetam entusiasmo para camuflar existências vazias, destituídas de qualquer significado maior. O cruel retorno à realidade, marcado por uma inescapável depressão ao fim de cada viagem, megaevento, ou simplesmente domingo, serve menos como alerta para um ciclo vicioso de frustrações do que como estímulo para a compra antecipada de passagens e ingressos para novos mundos encantados de “gente bonita”, onde balzaquianos que nunca leram Balzac, segundo Juveninho, pulam, bebem e fazem “uhuuuuul”, convictos de estarem participando de um grande acontecimento cultural. Aos 30 anos, se você é bonito, mora sozinho, pula, bebe e faz “uhuuuuul”, diz Juveninho, você tem tudo de que precisa para pousar os maiores aviões do Brasil na sua pista. Principalmente, ele diz, se você gosta de aviões emborrachados.

Em 1945, Henry Miller já questionava se o objetivo do adulto americano era se tornar “apenas um ‘sucesso’, independentemente da forma ou do estilo, do propósito ou da significação” com que o sucesso se manifestasse. Juveninho, hoje, não tem dúvidas: o objetivo de seus amigos é se tornar apenas um “sucesso”, para poderem finalmente consumir pacotes de turismo e de silicone. Aprendeu com Olavo de Carvalho: ao substituir a realização superior do homem na vocação pela mera busca do emprego, sem nenhuma importância no que diz respeito ao conteúdo, os brasileiros vivem presos “como animaizinhos, entre a dor inevitável e o prazer impossível”, “entre o trabalho forçado e a diversão obsessiva (da qual o Carnaval é a amostra mais significativa)”. Se Henry Miller, aliás, sonhava com um zoológico humano, o sonho se realizou. Para Juveninho, o facebook é um zoológico virtual de animaizinhos presos entre o trabalho forçado e a diversão obsessiva, da qual o Rock In Rio é a amostra mais significativa.

A jaula favorita de Juveninho é a dos casais, através da qual ele pode – como queria Miller –“estudar a felicidade conjugal com certo distanciamento e imparcialidade”. Do namoro à lua-de-mel, das férias ao primeiro filho, do ciúme à separação, Juveninho acompanha cada cena de sua novela das oito feicebuquiana, esforçando-se, ele admite, para não atirar pipoca aos macacos. Não espanta Juveninho que, assim como tudo o mais, a declaração de amor só tenha sentido atualmente quando tornada pública, e seja tanto mais admirada, desejada e comovente (“Que fofoooo!”, ele traduz) quanto maior o público alcançado. Quem não encontra uma atividade que dê sentido à própria vida, ele diz, despeja na vida alheia tanto as frustrações quanto as supostas paixões vividas. Por isso, Juveninho não se comove com a moda dos pedidos de casamento no YouTube. Declara que é tudo esgoto do mesmo zoológico virtual e que já dizia o velho ditado juveniniano: cão que ladra não afoga o ganso.

Os amigos o chamam de insensível. Acham que Juveninho está sentindo o peso da idade e da solidão, e começando a exagerar no tom e na hostilidade. Dizem que ele só não viaja mais porque, depois de velho, passou a ter medo de avião; e que, do Louvre, do Havaí e do carnaval de Salvador, só não guardou as fotos porque suas ex-namoradas roubaram todas. Que Juveninho só não vai ao Rock In Rio ver o show do Guns porque, quando lembrou que admirava o Rose, a fila já durava dez horas e ele não tinha barrinhas de proteína e cereal suficientes. Que ele só anda ocupado porque decidiu morar sozinho, numa última tentativa de enjaular moças lindas e gostosas, emborrachadas ou não, pois que Juveninho já teria sido visto fazendo “uhuuuul” com uma série de peitinhos faber-castell pela cidade. E que não adianta Juveninho despejar na literatura os seus recalques, porque eles, os amigos, estarão sempre de olho, esforçando-se para acertar a pipoca, o churros e a pizza bem na cara do macaco.

Juveninho dá de ombros. Com tantas moças casadas chamando-o de inflexível por recusar o papel de amante, não serão os amigos - chamando-o de insensível por simplesmente descrever a realidade - a lhe despertar a fúria. Aos 30 anos, Juveninho não tem mais tempo para quem não quer entender, nas palavras de Miller, “até as coisas desagradáveis”, “até mesmo o que parece hostil, mau, ameaçador”; ou para quem não quer, nas palavras de Juveninho, tirar a fralda do cérebro. Quando está com gente burra, ele agora usa a internet do celular. Nada mais pode desviá-lo do objetivo de ser inteligente; nem mesmo os aviões sobrevoando o zoológico sem pousar na sua jaula. Se a inteligência no Brasil é incompatível com a beleza, ele diz, azar o da beleza. Para o balzaquiano Juveninho – e os amigos não negam -, sempre há um trocinho querendo saber com quantos “us” se faz um “uhuuuul” de verdade.

Por Felipe Moura Brasil
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Afogar é preciso

[Também publicado no Jornal da OAB - Tribuna do Advogado -, que me convidou a escrever sobre tortura e violação de soberania para sua edição de junho. O artigo é de 25 de maio, mas esperei sair a publicação oficial, antes de colocá-lo no Blog. Segue aí.]

Chame de tortura ou “técnicas incrementadas de interrogatório”, o fato hoje indiscutível é que a simulação de afogamento (“waterboarding”) funciona. Aplicada em Khalid Shaikh Mohammed e outros dois terroristas, em período limitado - os meses posteriores aos atentados de 11 de setembro de 2001 -, ela rendeu “informações de alto valor”, permitindo “uma compreensão mais profunda da Al-Qaeda”, como até Dennis Blair, Diretor de Inteligência Nacional do governo Obama, admitiu em 2009, muito antes de a morte de Bin Laden reacender o debate.

Em treinamento, milhares de militares americanos já haviam sido amarrados a uma prancha, com os olhos tapados e um pano enfiado na boca, e sufocados com o despejo de água no rosto. A CIA submeteu Mohammed a isso 183 vezes. Depois de dias, ele dedurou um tal de Hambali, cuja captura permitiu aos EUA desmontar uma célula de 17 membros da Jemmah Islamiyah, que planejava uma “Segunda Onda” de atentados na Costa Oeste. Não se sabe quantas vidas foram salvas. O motivo: Obama prefere omitir os documentos da CIA que nos ajudariam a esclarecer.

Tudo bem. A caça a Bin Laden demonstrou, mais uma vez, a eficácia dos métodos de interrogatório de Bush, dos quais saiu parte das informações sobre o mensageiro do terrorista. Com três diretores da CIA - incluindo o atual - revelando essa origem, só restou à Casa Branca, dessa vez, minimizar sua importância, alegando a multiplicidade de fontes de inteligência que, somente combinadas, conduziram ao sucesso da operação. Um típico desmentido que nada desmente. Mesmo que não tenham sido decisivas – e tudo indica que foram -, o fato de as informações terem sido úteis não pode ser ignorado.

Com o equipamento, o contingente e, claro, as pistas da Era Bush, o governo Obama violou o espaço aéreo do Paquistão, agiu sem o seu consentimento e executou Bin Laden desarmado - como se isto fosse mais humano que simular o afogamento de um preso. Em guerra, porém, contra organizações supranacionais, que não distinguem civis de combatentes e transformam qualquer lugar num campo de batalha com suicidas voluntários, os EUA fizeram o que tinham de fazer. Nenhum terrorista tem o direito de matar 3 mil inocentes e depois ficar “de autos” – como criança em pique-pega - num país que o acoberte. E nem mesmo o “waterboarding” é mais imoral do que permitir novos atentados.

Contra o terror, afogar é preciso.

Por Felipe Moura Brasil 

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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Obrigado, Bush, pelo PlayStation do Obama!

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

Slavoj Zizek é um filósofo marxista esloveno. Sua melhor obra é o depoimento para um
vídeo de 1 minuto no YouTube, explicando seu método de escrever. Para Zizek, é “psicologicamente impossível” sentar numa cadeira com essa finalidade. Então ele precisa se enganar. Fingir que não está escrevendo. Em matéria de autoengano, ninguém é páreo para um filósofo marxista.

Primeiro, ele apenas anota ideias, mas já com uma linha de pensamento definida em frases completas. Até certo ponto, ele diz a si mesmo: “Não, eu não estou escrevendo. Só estou anotando ideias”. Depois conclui: “Já está tudo aí. Agora só preciso editar”. Ele resume assim o processo: “Eu divido em duas partes: anotar e editar. O ‘escrever’ desaparece”. Lindo, não?

Nunca pensei que fosse dizer isso, mas eu sou como Slavoj Zizek. Só de pensar em escrever, tenho vontade de sair correndo para a Eslovênia. Então preciso me enganar. De uns anos pra cá, tenho me enganado publicamente no Twitter. Anoto ali as minhas frases, até resolver ou ter tempo de editá-las no formato de um artigo. Algum apego à posteridade ainda me obriga a esse esforço. No dia em que for criado o botão “Transforme suas frases avulsas em um texto decente”, eu viro um tuiteiro full-time.

Barack Obama é como eu. Quando ouve um chamado da posteridade, transforma as suas frases avulsas em um discurso oficial. A diferença é que, com frequência, seu discurso é exatamente o oposto de suas frases, cujo objetivo é menos o autoengano que o engano alheio. Se ele se opõe aos métodos de interrogatório de Bush, e espalha que vai acabar com a prisão de Guantánamo, e que não vai matar Bin Laden porque não quer criar um mártir, ele logo aparece na TV reivindicando o crédito pela execução de Bin Laden, cujo esconderijo foi encontrado graças aos métodos de interrogatório de Bush, aplicados – nas prisões secretas da CIA – em terroristas até hoje detidos na mantida Guantánamo. O teleprompter de Obama é um escritor menos preguiçoso do que Zizek e eu. Aplica uma porção de malabarismos verbais na hora da edição, enquanto a imprensa Obama-Oba cuida de sumir com suas frases originais.

Assim como eu uso a primeira pessoa para falar do mundo, Obama usa o mundo para falar da primeira pessoa. Ele está convencido de que o mundo começou junto com seu governo. No discurso oficial, afirmou que, pouco após assumir o cargo, orientou o diretor da CIA, Leon Panetta, a fazer da morte ou captura de Bin Laden a prioridade na guerra contra a Al-Qaeda. Obama, portanto, é o responsável por estabelecer uma prioridade já estabelecida há 10 anos. Ele também afirmou ter montado as equipes militares da operação. É, portanto, o responsável por montar equipes já montadas (e atuantes no Iraque e no Afeganistão) há 10 anos. O “eu” de Obama dirigiu cada etapa da caçada pregressa, enquanto o “nós” participou de todos os combates ao terror, embora o “eu” fosse contra. A guerra é dele. O time é dele. Ele é o dono da bola.

Não bastasse repetir 40 vezes a palavra “we”, Obama falou 10 “I”, 3 “my” e 2 “me”. Mais um pouco e ele diz que saltou de paraquedas do helicóptero, entrou no esconderijo pela chaminé e acertou três tiros no peito de Bin Laden, que, antes de morrer, gritou: “Matêêêê!”. Nenhuma foto in loco, no entanto, ficaria tão boa quanto a de sua equipe, supostamente tensa, acompanhando a missão Gerônimo em vídeo - uma transmissão “ao vivo” do Paquistão, segundo a imprensa Obama-Oba, depois desmentida por um porta-voz oficial, que revelou os 25 minutos de atraso. (Até os vizinhos comemoraram o gol em Bin Laden antes de Hillary Clinton.) Mas a sugestão ficou no ar: os SEALs teriam obedecido a cada comando de Obama, diretamente do PlayStation da Casa Branca. Ninguém sabia o truque pra passar de fase. Só ele.

Se Bill Clinton desperdiçou de 8 a 10 chances de matar Bin Laden, como revelou Michael Scheuer, ex-comandante da unidade Bin Laden da CIA, Obama - cujo único ativo para a campanha de 2012 era o assassinato da economia - não podia perder a sua. Por sorte, alguém já fizera o “trabalho sujo” entre um e outro, sofrendo nas torres a herança maldita e deixando nos instrumentos de guerra a bendita. As forças especiais americanas não teriam os equipamentos, o contingente, a autoridade, o treinamento, a experiência, muito menos as informações necessárias para a Missão não fosse o governo Bush, que lhes quadruplicou o orçamento, aumentou o número de integrantes em 50%, incrementou os serviços de inteligência, e obteve o nome dos mensageiros de Bin Laden submetendo 3 – e somente 3 – terroristas àquelas técnicas de afogamento que irritavam o mesmo Obama, os mesmos “Democratas”, a mesma imprensa, enfim, os mesmos Verissimos que hoje celebram os seus resultados. Sem George W. Bush, Obama estaria até hoje jogando o Atári de Clinton.

O combate ao terror, para esquerdistas, é como a escrita para Slavoj Zizek: “psicologicamente impossível”. Se houver uma maneira de passar do antes aos finalmentes, fingindo que o processo não existe (ou deixando-o nas mãos da direita), tanto melhor. Assim como Lula manteve a política econômica de FHC depois de anos vociferando contra o Plano Real, Obama manteve a política antiterror de Bush depois de anos vociferando contra suas guerras. No fundo, o método dos surdos de si mesmos é simples: primeiro, criticar; depois, reivindicar o mérito. E puf: a moral desaparece.

No caso de Obama, junto com os cadáveres.

Por Felipe Moura Brasil

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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Fla-Flu abre nova seção do Blog do Pim

"A função do escritor no Brasil é manter a sobriedade em meio à histeria." (Juveninho)

Está lançada a seção "Futebol etc.", que reúne meus artigos e comentários a respeito de futebol - mas principalmente de "etc." -, incluindo a saborosa cobertura da Copa do Mundo 2010.

"A vitória da mediocridade" é o marco inicial da página, com a transmissão completa do Fla-Flu em que o Flamengo se classificou para a final da Taça Rio 2011.

O debate público (Início), a literatura (Juveninho) e o esporte (Futebol etc.) estão agora separados pelas abas, mas aqui eles continuarão sempre se misturando em cada frase.


Aonde houver histeria - eis o que importa -, o Blog do Pim levará sobriedade.

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Pós-escrito de 27 de abril: Leia também "O Flamengo da Vila Belmiro", com os comentários da Copa do Brasil e da Libertadores.

terça-feira, 19 de abril de 2011

O monopólio das vaginas

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

Uma mulher de Rio Preto passou veneno na vagina e convidou o marido para o sexo oral. Tonteado com o cheiro da coisa, ele interrompeu o ato a tempo de se dirigir ao hospital mais próximo. O caso logo repercutiu na internet. A polícia investigou a tentativa de homicídio. Eu só tenho uma dúvida: onde estão os desarmamentistas? Não seria o caso de proibir as vaginas?


Em minha imaginação, alguém argumenta que letal mesmo é o veneno. Eu contraponho: o veneno é a munição; a arma é a vagina. Uma arma triplamente perigosa, porque entorpecente, estupefaciente e de fogo. Antes que seja tarde demais, convém ao Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, promover o primeiro referendo vaginal brasileiro. Está provado. É científico. O porte legal de vagina aumenta a criminalidade.

É hora de pôr em prática as palavras do ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux: “Não [se] entra na casa das pessoas para ver se tem dengue? Tem que ter uma maneira de entrar na casa das pessoas para desarmar a população”. Tem que ter. Caso contrário, as armas pularão da gaveta e sairão atirando; ou pularão na cama e sairão envenenando; ou transmitirão doenças pelo ar. Há uma epidemia de armas legais sob o nosso nariz. O Brasil só estará seguro quando homens e mulheres de bem entregarem suas pistolas e vaginas.

O governo Dilma sabe disso. Se antes o PT não dava a menor pelota para as fronteiras, agora menos ainda. O corte no orçamento da Polícia Federal para 2011 já reduziu o efetivo desde a Amazônia até o Rio Grande do Sul. Faltam recursos para diárias de delegados e agentes, manutenção de carros, compra de combustíveis e coletes à prova de bala. Delegacias operam com menos da metade do pessoal, postos pararam de funcionar, blitzes foram suspensas, patrulhas retiradas. O oxi, um derivado da cocaína mais nocivo que o crack, veio da Bolívia e do Peru, arruinou jovens e crianças no Acre e se espalhou pelo país. Com ou sem armas e drogas, os bandidos e terroristas são cada vez mais bem-vindos: “Sorria, você está no Brasil”. A única fronteira preocupante para o PT é a do nosso armário, contra o qual basta um referendinho de R$ 300 milhões. Ou dois. Ou três. Ou dez. Até o povo consentir: “Você quer trocar a sua legítima defesa por um cacho de bananas?” Siiiiiiiiiim!

Não basta, porém, facilitar a tarefa de invasores. É preciso premiá-los, como se faz na Bahia. Em 2009, o governador petista Jaques Wagner gastou R$ 161,3 mil em aluguel de ônibus para levar os sem-terra de volta ao interior após uma invasão de prédio superanimada. Em 2010, instalou quatro banheiros químicos, um tanque d’água e um barracão como “apoio logístico” para outro protesto. Agora, para comemorar o circuito de 40 fazendas invadidas, fornece 600 quilos de carne por dia, verduras, 32 banheiros químicos, dois chuveiros improvisados e toldos. A infraestrutura do trio “Abril Vermelho” aumenta a cada ano. Só faltam os camarotes com Open Bar, o Asa de Águia e o Chiclete com Banana.

A micareta nacional do PT distribui dois tipos de abadás: o dos bandidos sem causa, que podem entrar e brincar à vontade; e o dos bandidos com causa, que têm direito a banho e bufê de carne de sol. Que cidadãos armados sejam um risco para essa folia social, é evidente. Que a proibição da maconha limite a participação de jovens e crianças, também. O líder do partido na Câmara, Paulo Teixeira (SP), se dirige diretamente a esse público quando defende a liberação do plantio de maconha, dizendo que droga mesmo é um lanche do McDonald’s. O líder do Senado, Humberto Costa (PE), e do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP), além do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, apoiam a discussão. A campanha “Troque o seu Big Mac por um baseado” está lançada. Ainda chegaremos ao dia do referendo “dois em um”.

Camuflar a própria incompetência no combate à criminalidade, ou mesmo fomentá-la para depois culpar os homens de bem pela tragédia, é a receita básica para deixar uma sociedade doidona, de pernas abertas (mas sem veneno) para os seus governantes. Daí a tornar legal o ilegal, e ilegal o legal, é só uma questão burocrática. O petismo está adiantado. A imprensa dá cobertura. A oposição nunca foi capaz de sentir o cheiro da coisa a tempo de interromper o ato. Intelectual, moral e – sobretudo – politicamente, o Brasil se desarmou até os dentes, aumentando o coro do consentimento. Com um tantinho de persistência e uns R$ 300 milhões aqui e ali, é possível que a resposta da população não tarde:

- Você quer trocar o monopólio da sua vagina por um membro do MST?

- Siiiiiiiiiim!

Por Felipe Moura Brasil
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sexta-feira, 8 de abril de 2011

A pontualidade do nosso atraso

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

Eu antecipei no Twitter: “Massacre no Rio será usado por militantes do desarmamento. Não se engane! Eles querem só bandidos e psicopatas armados”. Eram 13 horas. Dali a pouco, o ex-policial Rodrigo Pimentel já falava na TV em “retirar armas da rua”. Depois vieram “especialistas”. Jornalistas. Ministro da Justiça. José Sarney. Todo o front do atraso nacional querendo a nossa família tão indefesa quanto as crianças na escola de Realengo.

Como eu sabia? Ora. A única coisa que não se atrasa no Brasil é o atraso. Ele sempre chega na hora. Às vezes, até se adianta. Mas atrasar? Nunca! Um drama comove o país e lá está ele: pontual, previsível, irremediável - com o mesmo kit de ideias retrógradas, argumentos chinfrins e omissões providenciais já tantas vezes desmoralizado em outros lugares e épocas. Dilma Rousseff alegou ainda que o massacre “não é característica nossa”. Nossa característica, eu dizia no artigo anterior, é sermos assassinados aos pouquinhos e espaçadamente, sem reparar na soma total. Matemática não é o nosso forte. Entre 65 países, tiramos o 57º lugar.

Para justificar a eficácia do desarmamento, Pimentel sacou as palavrinhas mágicas da persuasão contemporânea: “Está provado. É científico!”. Nem precisou mostrar o estudo comprobatório, ou explicar por que bandidos e psicopatas devolveriam suas armas. Vai ver assistiu aos filmes do Michael Moore e acreditou. Nos Estados Unidos, o que é “científico”, na verdade, é justamente o contrário. Segundo o estudo dos economistas John Lott e Bill Landes, “de 1977 a 1999, os estados que adotaram leis que permitiam o porte livre de armas apresentaram uma queda de 60% nos ataques contra indivíduos e uma queda de 78% nas mortes em consequência de tais ataques”. Os motivos? Tanto o temor de uma reação pode dissuadir um criminoso quanto a presença de alguém armado pode interrompê-lo. E a maioria dos americanos sabe que nem sempre há tempo para esperar pela polícia.

Na imprensa e na internet, o Brasil inteiro comparou a tragédia no Rio às Columbines americanas. Prontamente, os jornais publicaram uma listinha de episódios similares. Mas e quanto aos massacres que não chegaram a acontecer? Ninguém vai publicar? É uma desfeita com os dois estudantes que, em 2002, na Virginia, pegaram suas armas no carro para neutralizar um colega atirador; com o policial de folga, porém armado, que levava sua filha à escola no dia em que um aluno resolveu matar os outros em Santee, em 2001; com o dono de um restaurante em Edinboro, que, em 1998, usou sua arma para render o aluno que matara um professor e ferira mais três; com o diretor que também pegou sua arma no carro para apontar a um estudante homicida em Pearl, em 1997. E por aí vai (sem contar episódios em casas, restaurantes etc.). Em vez de 12 mortos até a chegada da polícia, como em Realengo, cada um desses teve no máximo três. A propósito: três são menos que doze.

Mas, assim como criminosos não seguem leis e psicopatas não precisam de motivações, esquerdistas dispensam a realidade e criam suas próprias relações de causa e efeito. Se o porte de armas no Brasil dos 26 mortos por 100 mil habitantes fosse tão comum quanto nos Estados Unidos dos 6 mortos por 100 mil, nada garante, de fato, que o massacre teria sido evitado ou interrompido, embora isto fosse, ao menos, possível. O impossível é que o desarmamento das pessoas de bem tivesse alterado o resultado da tragédia. O único efeito do desarmamento, ao contrário, seria deixar o caminho aberto para as próximas. (Para Farc, PCC, Comando Vermelho, ADA, atiradores escolares etc.) Sem prender bandidos, sem vigiar fronteiras, sem combater o tráfico, sem investir em cadeias e manicômios, o governo já nos trouxe a “pacificação”. Agora, só pede que entreguemos nossas armas.

Um dos avisos mais comuns nos jardins das casas e mansões americanas é o de “Armed response” - o primo sarado do tradicional “Cuidado com o cão”. Aqui, a depender de Rodrigo Pimentel, José Sarney, e do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, você já tem todo o direito de escolher o seu: “Roube sem bater”, “Mate após o café” ou “Estupre devagar, que é mais gostoso”.

Por Felipe Moura Brasil
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sábado, 2 de abril de 2011

O Rei Sonso e o país dos sonsos

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

Barack Obama justificou a guerra na Líbia dizendo que os Estados Unidos não fecham os olhos para as atrocidades em outros países - o que seria muito lindo, não existisse, como de hábito, uma realidade para desmentir o discurso. Os críticos apontaram: e quanto a Síria, Arábia Saudita, Iêmen, Jordânia, Costa do Marfim, Bahrein? Eu aponto: e quanto ao Rio de Janeiro? E quanto ao Brasil? Por que ninguém se lembra da gente nessas horas? A resposta é simples, claro. Faça enchente ou faça sol, morram mil soterrados ou cinquenta mil assassinados, ninguém leva a sério o Brasil.

Neste sentido, a visita de Barack Obama foi, de fato, histórica. Dilma, Cabral e Paes devem agradecer. Se a intenção era propagandear nosso caráter bundalelê para o mundo, Obama foi insuperável. Citou Pau Coelho e Zorze Benzor, exaltou nossas belezas naturais, assistiu às piruetas da capoeira, bateu uma bolinha na Cidade de Deus e, de quebra, autorizou o ataque das tropas americanas às forças militares de Kadafi, sem consultar o Congresso. Nenhum lugar do mundo seria tão estapafúrdio para o anúncio de uma guerra assim quanto o Rio de Janeiro. Nos EUA, os críticos ainda debocham das “férias” do presidente por aqui. É como se, à simples menção da palavra “Rio”, a fama carnavalesca da cidade reforçasse a irresponsabilidade obâmica, e vice-versa. Para inveja de Lula, Obama elevou o Rio a um novo patamar de sonsice.

Após a visita, Zuenir Ventura aplaudiu o nosso afeto. Eu vaiei: uuuuuhh! Nós brasileiros somos tão felizes e afetuosos que ninguém abre os olhos para as nossas atrocidades. Nem nós. Se, lá nas bandas do Oriente Médio, ditadores e terroristas promovem genocídios chocantes, aqui somos assassinados aos pouquinhos e espaçadamente, e de maneira terceirizada, de modo que não damos a menor bola e vamos bater tambor. Basta um Beltrame qualquer empurrar os bandidos mais pra lá ou mais pra cá, sem prender ninguém, que já ganha um Prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo. Uma diferença e tanto. Nas últimas semanas, só ao meu redor (e que eu saiba), houve gente baleada em Ipanema (morta), em Copacabana, e na Lagoa. Ao que tudo indica, se você é um blogueiro crítico do governo ou anda de motocicleta, há mais chances de levar um tiro. Por sorte, eu não ando de motocicleta.

Para coroar a criminalidade homeopática do país, a Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia (CBDD) propôs considerar apenas “usuário” quem possuir uma quantidade de entorpecentes para até 10 dias de uso. Em vez de serem encaminhados à Justiça Criminal, os infratores “são acolhidos por comissões especiais” cujo objetivo é “preservar sua saúde”. Isto significa que, a cada vez que sair para vender, basta ao traficante levar uma quantidade equivalente a 10 dias de uso. Caso seja pego em flagrante, ele é considerado “usuário” e ganha de brinde uma avaliação médica e psicológica, paga com o dinheiro do contribuinte. Com o pretexto de diferenciar usuário de traficante, o que se faz na prática é igualar os dois, estimulando os traficantes a empregarem “usuários”; os usuários a virarem traficantes; e ambos a ficarem cada vez mais sonsos. De pouquinho em pouquinho, o Brasil fica legalmente doidão.

Barack Obama é a cara do Brasil. Por isso mesmo, ninguém mais o leva a sério. Como até hoje não apresentou sua certidão de nascimento, é legítimo desconfiar de sua brasilidade (e da autoria de seu livro; e de tudo que envolva o primeiro presidente obscuro dos EUA). A sonsice com que conduziu a guerra na Líbia só fez aumentar a desconfiança. O mesmo Obama que rejeitava a coalizão de 40 países na guerra do Iraque – autorizada pelo Congresso – celebra a aliança de 15 para as operações na Líbia. O mesmo Obama que era contra a imposição da democracia no Oriente Médio defende a liberdade do povo para se expressar e escolher os seus líderes. Se o objetivo de Obama é proteger o petróleo europeu, os rebeldes aliados da Al Qaeda, a Fraternidade Muçulmana, ou demais interesses que ele jamais ousaria confessar em público, a história dirá. O certo é que não se pode esperar critério e coerência de seu teleprompter.

Se Obama fecha os olhos para Darfur, imagine então para o Rio de Janeiro. Em vez do FBI revistando ministros petistas e do Exército americano matando ou prendendo nossos traficantes, vamos ter de nos contentar com as UPPs. Mas estamos felizes. Somos afetuosos. Bagulho não falta. Como cantou Zorze Benzor (ou foi Pau Coelho?), moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.

Por Felipe Moura Brasil
http://felipemourabrasil.blogspot.com

quinta-feira, 17 de março de 2011

Eike X Mainardi

O empresário Eike Batista, homem mais rico do Brasil e oitavo do mundo, foi o convidado do programa Manhattan Connection, da Globo News, no último domingo (13/03/2011). Um leitor antigo veio comentar comigo a atuação de Diogo Mainardi na entrevista - da qual participaram também, como de hábito, Lucas Mendes, Ricardo Amorim e Caio Blinder -, de modo que publico abaixo toda a nossa troca de e-mails sobre o assunto.

Sim: eu poderia estar "robano!", "matano!" ou "alegano!" tempo escasso para escrever, mas, se estou "publicano!" uma troca de e-mails, além das tuitadas já frequentes neste Blog do Pim, é porque não é o meio que torna relevante ou dá valor ao conteúdo. No dia em que eu publicar minhas conversas do MSN ou chats do Facebook, estou
certo de que ficarei bilionário. Aguarde-me, Eike.

Leitor:


Mainardi viajou ontem... falou merda... pro Eike.

Pim:

Vi o vídeo do Manhattan no site da Globo News, e não sei de onde você tirou que o Mainardi falou merda pro Eike...

Ele até pegou leve.

Leitor:

O Eike é o empresário que mais investe no país hoje.

Pegou leve por quê?

Pim:

Isso seria muito lindo, se não escondesse uma relação promíscua do empresário Eike com o poder, com o governo, com o PT, enfim, que o beneficia, e vice-versa.

E a função de qualquer jornalista/escritor/intelectual é desmascarar essas coisas, como fez o Mainardi, em vez de ficar bajulando o sujeito. Se possível, inclusive, arrancando dele informações, como o valor (R$ 5 milhões, segundo ele) doado à campanha da Dilma (para que suas empresas, depois, continuassem ganhando do governo todas as mordomias...).

Esse enfrentamento, ainda que contido e bem-humorado, é tão raro (a rigor, inexistente) na TV brasileira (e no Brasil), que é natural que você estranhe e ache até agressivo.

Na Fox News americana, por exemplo - e nos Estados Unidos em geral, apesar das patotas esquerdistas na grande mídia -, isso é simplesmente a rotina diária. Sinal de um país com aquele mínimo de vigor intelectual e moral necessário, para não abrir mão de seus valores em troca de uns tantos empregos. É sempre assim que nasce a barbárie, como não se cansa de mostrar uma porção de ditaduras que, economicamente, vão muito bem, obrigado.

Assista um só dia à Fox News, e você vai achar que o Mainardi fez até carinho no Eike.

Leitor:

O Mainardi falou merda porque o dinheiro do Eike está todo investido em ativos reais que estão no Brasil, e o Mainardi disse que o dinheiro é de papel... Difícil é entender como é de papel um conglomerado de empresas que hoje emprega 20.000 pessoas e que em 5 anos empregará mais do que o dobro disso...

Óbvio que o Mainardi não precisa ficar bajulando o Eike, rídiculo é quem bajula. Eu ri bastante e achei fantástico ele ter dito que foi acordado pelo assessor do Eike de madrugada. Qualquer um no lugar dele teria um cagaço enorme de falar isso "só porque é o Eike...".

O Mainardi falou merda em relação ao valor das empresas do Eike, como eu disse acima. Foi típico de quem não conhece finanças e diz que o dinheiro é de papel...

Fora isso, eu particularmente vejo fatos bastante interessantes em relação ao Eike:

- Além de investir nas empresas, ele é um dos únicos ricos do país que investe do próprio bolso na cidade... Colocou 20 milhões na Lagoa, mais 200 milhões no Hotel Glória, mais 15 milhões na Olimpíada...

- Grande parte do dinheiro captado nessas empresas vem de sócios estrangeiros... Ou seja, dinheiro estrangeiro vindo pro país em forma de capital produtivo.

- Muitos falam de BNDES... Que o BNDES financia os projetos etc etc... E qual o problema? Que bom que temos um banco no país que faz isso... As empresas do Eike não pegam nada de graça... Pegam e pagam juros em todos os empréstimos, como todas as outras empresas brasileiras fazem e devem fazer, como procedimento legal de qualquer empresa...

- A prática de doar dinheiro pra campanha eleitoral é corriqueira no Brasil e no mundo (EUA bastante também). Eu acho um absurdo. Acho que não deveria existir porque, se eu sou empresário, e doo 1 milhão prum político, é óbvio que o cara fica "amarrado" comigo depois, podendo facilitar coisas para empresas minhas... Mas o fato é que o Eike doou para a Dilma, mas também para o Serra... Segundo ele (Eike) mesmo, porque "acredita que isso ajuda no processo democrático"... Enfim, o fato é que essa doação não foi benefício só para o PT...

- O Eike faz propaganda do Rio pro mundo inteiro... Imagina quanto essas empresas vão gerar de dinheiro pro Rio? Tem gente de todo o mundo querendo instalar empresas no nosso porto... Tem gente do mundo todo querendo fazer negócio... etc etc etc... Ou seja, é muita riqueza gerada no Brasil e deixada aqui dentro...

Pim:

Não vi o Mainardi afirmar que o dinheiro é de papel. E, mesmo que tivesse afirmado, seria uma provocação absolutamente válida. O vídeo está AQUI.

Na verdade, ele provocou o Eike - como é função dele -, apenas perguntando se as empresas dão mesmo lucro, geram receita, se existem mesmo e têm uma função real etc., no que fez muito bem. Pelo simples fato de que os negócios e as fontes de lucros do Eike são um tantinho nebulosos, e ele mais parece uma celebridade, ou um captador de recurso na bolsa. De modo que é preciso arrancar informações e explicações dele sobre essas coisas. Quanto mais, melhor.

Ninguém aqui está recriminando a criação de empregos, ou de oportunidades para o país; mas sim tentando elucidar COMO essas coisas estão sendo feitas, em vez de se deslumbrar com o aspecto meramente financeiro/propagandístico da coisa.

O que você precisa entender é que, PARA fazer tudo isso que o Eike faz - e ainda posar de salvador do Rio e do Brasil -, ele conta com informações e favores privilegiados do aparato e das gentes do governo, seja no BNDES, na Petrobras ou no diabo a quatro. O Mainardi, inclusive, apontou que o senador Delcídio Amaral deu a ele indicação de gente na Petrobras - e o Eike desconversou, vergonhosamente, rindo como quem, no fundo, acha aquilo normal, porque se beneficia disso todo santo dia. Não é normal! Não é aceitável! E isso independe de o governo ser do PT ou não.

Essa promiscuidade de certo empresariado com o poder público, no fim das contas, traz sempre mais malefícios que benefícios a qualquer país.

Eis uma questão que vai muito além das finanças. Não se erguem grandes nações solapando por dentro a sua moral.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Oscar Teen 2011

Como faço todo ano (há cerca de 1 ano), comentei com muita preguiça o Oscar no Twitter. Com apresentação de James Franco e Anne Hathaway, a cerimônia ficou bastante coerente com a atual produção cinematográfica no mundo. Eis os comentários:

[Pim] Socorro. A tradução simultânea do Oscar já começou.

[Pim] Repórteres do Oscar fazem perguntas enviadas pelo Twitter aos atores. A interatividade é mesmo a solução para o jornalismo...

[Pim] Não assisti a filme algum indicado ao Oscar, de modo que posso comentar a cerimônia com muito mais propriedade que Rubens Ewald.

[Pim] O principal recurso dramático de James Franco, ator indicado ao Oscar, é o ar "tô nem aí", que a indústria adolescente acha o máximo.

[Pim] O verdadeiro Oscar hoje é o Emmy, o prêmio da TV americana. O cinema está tão adolescente que a última sessão devia ser às 18 horas.

[Pim] "Cisne Negro" - eu soube - é sobre uma bailarina que precisa tocar umazinha pra se tornar uma grande artista. Um drama, sem dúvida.

[Pim] Juveninho manda apelo: "Morenas do mundo inteiro, por favor! Não se inspirem na maquiagem dessas celebridades! Não é legal! Obrigado."

[Pim] Depois de vários prêmios adolescentes, sai Oscar para Christian Bale. Num filme com Mark Wahlberg, porém, qualquer um parece um gênio.

[Pim] 2 prêmios de Som para os melhores DJs dos filmes. Deviam reclamar dos exibidores, que insistem em colocar cadeiras na pista de dança.

[Pim] Tava demorando! Obama aparece em vídeo, assim como quem não quer nada, fazendo uma gracinha. É o merchandising esquerdista no Oscar.

[Pim] É uma tremenda injustiça que James Franco concorra ao Oscar de Melhor Ator, e Barack Obama não.

[Pim] E o Brasil perde mais uma vez o Oscar com o seu sintomático "Lixo extraordinário".

[Pim] Billy Cristal está envelhecido, de modo que me faz sentir velho. E, em poucos segundos, ele dá alguma graça a este Oscar adolescente.

[Pim]
Se você é um ator de Malhação, calma que ainda há esperanças: James Franco - imagine - já fez um filme com Robert De Niro.

[Pim] O Oscar está igual à Copa do Mundo. Chegamos às etapas principais, e ainda há um monte de candidatos pequenos...

[Pim] Não é irônico que Natalie Portman receba grávida um Oscar por uma personagem que precisava se masturbar para virar uma grande artista?

[Pim] O inexpressivo James Franco e a histérica Anne Hathaway são o retrato do cinema teen: para qualquer lado, sempre exagerado... e falso.

[Pim] Vence "O Discurso do Rei", talvez porque, em vez de zero ou 1, tenha 2 atores de fato: Colin Firth (também vencedor) e Geoffrey Rush.

[Pim] Nada mais coerente que o Oscar Teen 2011 terminar com um coral adolescente. Só faltou a Whoopi Goldberg de maestra.

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Pim no Oscar 2010 - AQUI.