quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Juveninho e a geração facebook

[Ouça mais histórias de Juveninho - AQUI.]



- Posso só saber seu nome?

- Não!

Quanto mais assiste a cenas assim (ou vivencia, segundo os amigos), menos Juveninho tem a dizer sobre as moças do seu tempo. E por quê? Ora, ele diz, porque já disse! Sempre teve horror, Juveninho, a esses escritores preguiçosos que dizem já ter escrito sobre todas as coisas só para não ter de escrever de novo. Mas agora cansou. Além de distribuir o cartão de sua terapeuta e de seu personal, também entrega às moças o cartão de seu Blog:

Aqui você vai descobrir a diferença entre menininhas e mulheres. Obrigado.

Machado de Assis dizia que nada seria sem as suas repetições. A meta de Juveninho, há 8 meses sem repetir-se, é tornar-se um nada. Seu maior obstáculo? O facebook. Como aguentar calado os mesmos status de sempre? Não, Juveninho não vai comentar sobre as moças que, como se estivessem no cabeleireiro, anunciam para quais galãs tirariam a roupa num piscar de olhos. Nem sobre a incapacidade geral de fazer uma piada sem emendar um “haeuhaeuhaeu”. Muito menos sobre as musas inacessíveis, com 340 fotos em paisagens deslumbrantes e seu eterno medo de interagir com a humanidade. “Não!”, ele diz, imitando as mesmas.

O difícil, para Juveninho, é ignorar tantos “bjinhus” e “beijãããooooos”, tantos “te adorooooo, amigaaaaa” e “tá lindaaaa!”, tanta “saudagiii”, “xodade” e “quissáaa” (de “que saudade!”). É tanto amor, tanta união, tanto ursinho de pelúcia, que Juveninho quase se emociona e pede uma vaga no bercinho. Até as moças de 30 - que, ao contrário das de 23, cresceram num mundo virtual que ainda sabia rir sem “u” nem “e” - já incorporaram os trejeitos das gerações seguintes, com aquele desejo invertido de macaquear e perpetuar a infância, o qual Juveninho chama carinhosamente de “medo de homem”. A maturidade, como tudo mais, também é reflexo da linguagem, de modo que, segundo Juveninho, quem não sabe mandar simplesmente um “beijo” (ou, vá lá, um “bj”, ou “bjs”) ainda não sabe beijar de verdade.

O cordão umbilical entre miguxos e miguxas, ele diz, está cada vez mais difícil de cortar. Agora estão todos juntos e portáteis 24 horas por dia, cobrando uns dos outros, a cada status, uma prova de carinho capaz de consolar o seu vazio interior e legitimar a sua existência. Para Juveninho, quando Henry Miller descreveu seu amigo Van Norden, em “Trópico de Câncer”, ele antecipava toda a geração facebook: “Não fica sozinho um segundo. Mesmo quando consegue pegar uma mulher, tem muito medo de ficar só com ela. Se pudesse, faria eu ficar sentado no quarto, enquanto ele entra em ação. Seria como pedir para eu esperar enquanto faz a barba”. Juveninho já avisou aos amigos: não vai esperar ninguém fazer a barba.

Quando leu que metade dos americanos entre 18 e 34 anos checa o facebook ao acordar, Juveninho ficou extremamente motivado a conhecer a outra metade. O problema é ter de ir até os Estados Unidos para isso, posto que Juveninho, como Joaquim Nabuco, chegou numa fase em que prefere viajar pela profundidade dos livros a viajar de fato. Viajar, ele diz, é coisa tão adolescente quanto é hoje o cinema: um banho estritamente visual que, depois de umas tantas doses, já não pode surpreender senão pela chatice. Os álbuns do facebook, segundo Juveninho, são a maior prova de que se pode viajar pelo mundo inteiro e continuar o mesmo bocó.

Os amigos não curtiram isso. Desconfiam da razão para a quebra do silêncio juveniniano. Há quem diga que sua musa inacessível “está em um relacionamento sério”, e Juveninho não consegue abrir o facebook sem dar um soco na página inicial. Há quem diga que, ao fim de cada evento da cidade, os cartões da terapeuta, do personal e do Blog ficam espalhados pelo chão junto com os panfletos de música eletrônica, e Juveninho só não vai aos EUA ver se existem morenas bonitas e inteligentes ao mesmo tempo porque seu passaporte e seu visto estão vencidos. Há quem diga que o YouTube vai transmitir ao vivo o carnaval de Salvador, e Juveninho já está inibido de pegar uns trocinhos no bloco da Ivete. Porque, segundo os amigos, só os trocinhos aceitam dizer o nome para Juveninho, e ele não aguenta mais ouvir “Não!” nesse verão.

Juveninho, como de hábito, ignora. Sabe que, no Brasil, as verdades só se justificam quando se encontra uma razão psicológica profunda para sua expressão. Em todo caso, enviou aos amigos sua versão moderna de “Eu sei que vou te amar”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, o que, para eles, nada mais significou senão a prova concreta de seu eterno amor virtual. Alguns chegaram a responder “Te adorooooo, amigooooo!” e “Você é lindoooo!”, na tentativa de consolá-lo. Que se danem. Crescer, diz Juveninho, não é mesmo pra qualquer um.

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Eu sei que vou curtir
Música original: “Eu sei que vou te amar” (Tom Jobim/ Vinícius de Moraes)
Adaptação livre: Juveninho

Eu sei que vou curtir
Todo o teu feicebúqui eu vou curtir
E cada foto tua eu vou curtir
Desesperadamente, eu sei que vou curtir
E cada status meu será
Pra te dizer que eu sei que vou curtir
Por todo o feicebúqui...

Eu sei que vou chorar
A cada offline teu eu vou chorar
Mas cada online teu há de apagar
O que este offline teu já me causou...
Eu sei que vou escrever... pra caixa de mensagens, podes crer
À espera de sair no álbum teu
Por todo o feicebúuuu...qui...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Caos no Rio

Por que não escrevo sobre a tragédia na região serrana do Rio? Ora, porque já escrevi, como bem me lembra Carlos Andreazza. O texto abaixo foi publicado originalmente como editorial do site Tribuneiros.com em abril do ano passado. A única vantagem de morar num país em que as tragédias se repetem é já ter escrito sobre elas. Sérgio Cabral (coitadinho!) teve de interromper suas férias na Europa para o seu tour anual sobre cadáveres (que, desta vez, já passam de 380). Eu não preciso. Posso continuar de férias do Blog do Pim.

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Até agora, são 110 mortos, 60 desaparecidos e 2 mil desabrigados no estado do Rio de Janeiro. Nesta Casa, salvo uma tempestade intergaláctica de meteoros e planetas, dificilmente se escreverá um dia que isto acontece “por causa da chuva”. Não é verdade. Os pequenos (e grandes) erros se somam ao longo do tempo preparando o cenário do caos, o qual só uma dose infinitamente maior de inteligência, disposição e tempo [sozinho, o tempo não cura nem resfriado] poderá senão reverter, ao menos amenizar. É assim na vida pública. É assim na vida íntima. Com a inegável diferença de que os erros políticos perduram, prejudicando muito mais vidas físicas e mentais, por muito mais gerações, do que nossas negligências individuais de cada dia. Não é por outro motivo, aliás, que a política tem qualquer relevância.

O momento é de solidariedade, sim; e não de nos compormos com os que cavam ganhos políticos com a desgraça. É, antes de tudo, tempo de solidariedade. Mas, se a tragédia não despertar os bons [e, com sorte, obrigar os maus] à compreensão das coisas, e só então ao combate das idéias falsas, das ações inconseqüentes e da canalhice disfarçada de bondade, o luto terá sido apenas o símbolo da nossa impotência costumeira, quando não o apogeu de tantos gestos de hipocrisia. Que o Rio de Janeiro é o resultado de anos de omissão, descontrole e avacalhação, todo mundo sabe. Mas este é só o argumento genérico que não dá responsabilidade a ninguém, e ainda dispensa providências, incentivando a maioria a permanecer desolada ou entrar na ciranda.

As maiores catástrofes não são evitadas na adesão a grandes mobilizações por um mundo melhor ou mais limpinho. São evitadas por gente de carne e osso que entendeu um problema enorme e interveio pontual e limitadamente. No momento em que você lê este texto, há pessoas e grupos evitando mortes daqui a dois, cinco, trinta anos, e que jamais serão reconhecidas por isso. Uma palavra, às vezes, tem este poder, seja ela de ordem, negação, aprovação, pedido, ironia ou deboche. Mas, se não vier acompanhada das ações correspondentes, tende a ser tão-somente a consciência negada pela cabeça-dura predisposta ao caos.

Nós podemos - e devemos sempre - cuidar do nosso jardim, incluindo a casa, a família e os jardins amigos, mas jamais teremos autoridade para intervir em tudo que o afeta. Contra boa parte deste tudo, muitas vezes só nos resta espernear, achincalhar, jogar tomate. Na hora da catástrofe, porém, convém segurar os tomates e solidarizar-se. Mas eles estarão preparados. Se ninguém tem culpa do legado que recebe, muito menos tem o direito de usá-lo eternamente como muleta. No Rio de Janeiro, ou o prefeito e o governador começam a assumir e sobrepujar os problemas do passado, ou todo copo d’água será uma tempestade meteorítica.

É assim na vida íntima. É assim na vida pública.

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Único adendo de 2011: Solidariedade, a gente deixa para desabrigados, feridos e parentes das vítimas. Lula, Dilma e Cabral? Tomate neles!