quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Caos no Rio

Por que não escrevo sobre a tragédia na região serrana do Rio? Ora, porque já escrevi, como bem me lembra Carlos Andreazza. O texto abaixo foi publicado originalmente como editorial do site Tribuneiros.com em abril do ano passado. A única vantagem de morar num país em que as tragédias se repetem é já ter escrito sobre elas. Sérgio Cabral (coitadinho!) teve de interromper suas férias na Europa para o seu tour anual sobre cadáveres (que, desta vez, já passam de 380). Eu não preciso. Posso continuar de férias do Blog do Pim.

*****

Até agora, são 110 mortos, 60 desaparecidos e 2 mil desabrigados no estado do Rio de Janeiro. Nesta Casa, salvo uma tempestade intergaláctica de meteoros e planetas, dificilmente se escreverá um dia que isto acontece “por causa da chuva”. Não é verdade. Os pequenos (e grandes) erros se somam ao longo do tempo preparando o cenário do caos, o qual só uma dose infinitamente maior de inteligência, disposição e tempo [sozinho, o tempo não cura nem resfriado] poderá senão reverter, ao menos amenizar. É assim na vida pública. É assim na vida íntima. Com a inegável diferença de que os erros políticos perduram, prejudicando muito mais vidas físicas e mentais, por muito mais gerações, do que nossas negligências individuais de cada dia. Não é por outro motivo, aliás, que a política tem qualquer relevância.

O momento é de solidariedade, sim; e não de nos compormos com os que cavam ganhos políticos com a desgraça. É, antes de tudo, tempo de solidariedade. Mas, se a tragédia não despertar os bons [e, com sorte, obrigar os maus] à compreensão das coisas, e só então ao combate das idéias falsas, das ações inconseqüentes e da canalhice disfarçada de bondade, o luto terá sido apenas o símbolo da nossa impotência costumeira, quando não o apogeu de tantos gestos de hipocrisia. Que o Rio de Janeiro é o resultado de anos de omissão, descontrole e avacalhação, todo mundo sabe. Mas este é só o argumento genérico que não dá responsabilidade a ninguém, e ainda dispensa providências, incentivando a maioria a permanecer desolada ou entrar na ciranda.

As maiores catástrofes não são evitadas na adesão a grandes mobilizações por um mundo melhor ou mais limpinho. São evitadas por gente de carne e osso que entendeu um problema enorme e interveio pontual e limitadamente. No momento em que você lê este texto, há pessoas e grupos evitando mortes daqui a dois, cinco, trinta anos, e que jamais serão reconhecidas por isso. Uma palavra, às vezes, tem este poder, seja ela de ordem, negação, aprovação, pedido, ironia ou deboche. Mas, se não vier acompanhada das ações correspondentes, tende a ser tão-somente a consciência negada pela cabeça-dura predisposta ao caos.

Nós podemos - e devemos sempre - cuidar do nosso jardim, incluindo a casa, a família e os jardins amigos, mas jamais teremos autoridade para intervir em tudo que o afeta. Contra boa parte deste tudo, muitas vezes só nos resta espernear, achincalhar, jogar tomate. Na hora da catástrofe, porém, convém segurar os tomates e solidarizar-se. Mas eles estarão preparados. Se ninguém tem culpa do legado que recebe, muito menos tem o direito de usá-lo eternamente como muleta. No Rio de Janeiro, ou o prefeito e o governador começam a assumir e sobrepujar os problemas do passado, ou todo copo d’água será uma tempestade meteorítica.

É assim na vida íntima. É assim na vida pública.

******

Único adendo de 2011: Solidariedade, a gente deixa para desabrigados, feridos e parentes das vítimas. Lula, Dilma e Cabral? Tomate neles!

Nenhum comentário:

Postar um comentário