quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Juveninho e os estereótipos voluntários

[Ouça mais histórias de Juveninho - AQUI.]



Juveninho não bebe. Juveninho gosta de samba. Ninguém entende como alguém pode gostar de samba e não beber ao mesmo tempo. Contraria, segundo Juveninho, a ordem bocó das coisas, de acordo com a qual só se pode transitar em determinado grupo uma vez que se absorvam dele também os vícios. A vida amorosa de Juveninho é o testemunho diário da incapacidade das morenas (loiras, ruivas, mulatas...) de contrariar a ordem bocó das coisas. De cada tribo, ele diz, elas têm sempre de absorver o pior.

Juveninho está calejado. Não mais se deslumbra com a beleza das moças, embora lhes dê a chance de surpreendê-lo. E elas surpreendem. Estão sempre aquém do pouco que Juveninho espera. As morenas da praia fumam maconha; as da academia veem BBB; as patricinhas trocam a academia pela maquiagem; as intelectualizadas trocam a academia pelos pêlos; as interioranas são terrivelmente cafonas; as bem-sucedidas perdem toda a molecagem; as médicas e engenheiras nada sabem para além de medicina e engenharia; as mais belas, quando muito, têm uma amiga mais simpática, inteligente e feia; e todas, segundo Juveninho, numa doce ilusão de personalidade, ainda acham que os homens têm de gostar delas como elas são.

Dá vontade, mas não: Juveninho não vai se trancar em casa e conversar apenas com as orelhas dos livros. Não quer ser um daqueles eruditos que “leram até ficarem burros”, como escreveu Schopenhauer. O intelectual não é um isolado, ele repete. Aprendeu com Sertillanges: “Se a solidão vivifica, o isolamento paralisa e esteriliza”. Com Vitor Hugo: “À força de ser alma, cessa-se de ser homem”. Com Goethe: “O talento se aprimora na solidão, o caráter na agitação do mundo”. Com Montaigne: “todos os lugares lhe serão estúdio: pois a filosofia (...) tem o privilégio de imiscuir-se por toda parte”. Imiscuir-se é mesmo com Juveninho. Por todas as tribos, ele se imiscui atrás de uma morena que as transcenda.

No verão, Juveninho é figurinha fácil até nas festinhas pop da cidade: no Morro da Urca, no MAM, na Marina da Glória, no Píer Mauá, e onde mais houver espaço e matéria prima abundantes para a sua filosofia, apesar da garrafa d’água a 6 reais. Para Juveninho, a função do escritor no Brasil é manter a sobriedade em meio à histeria. E Juveninho leva sua função ao pé da letra. O único gargalo admissível para o álcool, ele diz, é o lábio suculento de uma morena transcendental. De preferência: de vestido amarelo e florzinha nos cabelos. Só não sabe, Juveninho, o que veio primeiro: se foi o estilo “vestida a vácuo”, ou se foi o vácuo mental produzido pelas Ladies Gaga da cultura pop. O certo é que o traje predominante nas festinhas da cidade nunca lhe pareceu tão coerente.

Se as moças se vestem com um tantinho mais de naturalidade no carnaval diurno dos blocos, isto se deve tão somente à inclemência do Sol - o melhor estilista do universo, na opinião de Juveninho. Porque basta entrar no facebook de cada uma, ele diz, para se dar conta do tamanho do monstro que elas podem se tornar à noite. Amoldadas pela moda e pelas tribos para caber em roupas e perfis que, segundo Juveninho, só emagrecem seus espíritos, elas hoje, cada vez mais cedo, colocam saltos, batons, cigarros, peitos e drogas na mesma sacola de supermercado, e saem cantando alegremente: “Rah, rah, ah, ah, ah/ Roma, roma, ma/ Gaga, ooh la la/ Want your bad romance”. Ufa, diz Juveninho. Estranho seria se ainda quisessem um “good romance”.

Os amigos, por incrível que pareça, compreendem a tragicomédia juveniniana. Não o chamam de preconceituoso, nem rancoroso, nem arrogante. Acham, ao contrário, que Juveninho tem tudo para encontrar a morena transcendental nos blocos ou festinhas pop da cidade. Das duas, uma (ou duas): ela estará linda e radiante, nos braços de um maridão de dois neurônios; ou tão completa e graciosa quanto só a distância pode assegurar. Dizem que o destino de Juveninho é a paixão mortal pela mulher do próximo (do próximo homem, do próximo país ou do próximo planeta), ou a paixão pedófila pelas fãs da Lady Gaga. Mas que a tribo de Juveninho tende a ser a dos titios, que vão descendo de geração em geração até levarem toco das filhas dos amigos. E eles já deixaram claro: nenhum quer Juveninho como genro.

Juveninho ignora. Não discute sobre Carlotas e Lolitas com quem não leu Goethe nem Nabokov. Sabe, porém, que jamais se mataria por uma Carlota alheia, se, como o jovem Werther, encontrasse uma Mademoiselle de B... pelo caminho. Que, no fundo, Juveninho deseja apenas uma “amável pessoa, que, não obstante as formalidades e o ar empavesado daqueles com quem vive, conserva muita ingenuidade”. (Ok, ele admite: tem de ser gostosa). Muito antes de ler Schopenhauer, Juveninho já descobrira no livro do mundo que “a ingenuidade atrai, enquanto a artificialidade causa repulsa”. Mais vale uma morena de alma aberta ao aprendizado, ele diz, do que outra irremediavelmente viciada nas condutas e opiniões de sua tribo. Em outras palavras, também de Juveninho: antes as canárias que as pavoas.

Transitar em diversos meios, lugares, épocas (e morenas), absorvendo o melhor de cada, sempre foi a filosofia de Juveninho. E, enquanto as morenas do Brasil tiverem o sincero e provinciano desejo de se tornar um estereótipo, dizem as boas línguas que Juveninho continuará free-lancer.

2 comentários:

  1. Isso é o que eu chamo de desilusão.

    ResponderExcluir
  2. Muito bom, Mulambo.Sobretudo a expressão “vestida a vácuo”. Beijos

    ResponderExcluir