quinta-feira, 17 de março de 2011

Eike X Mainardi

O empresário Eike Batista, homem mais rico do Brasil e oitavo do mundo, foi o convidado do programa Manhattan Connection, da Globo News, no último domingo (13/03/2011). Um leitor antigo veio comentar comigo a atuação de Diogo Mainardi na entrevista - da qual participaram também, como de hábito, Lucas Mendes, Ricardo Amorim e Caio Blinder -, de modo que publico abaixo toda a nossa troca de e-mails sobre o assunto.

Sim: eu poderia estar "robano!", "matano!" ou "alegano!" tempo escasso para escrever, mas, se estou "publicano!" uma troca de e-mails, além das tuitadas já frequentes neste Blog do Pim, é porque não é o meio que torna relevante ou dá valor ao conteúdo. No dia em que eu publicar minhas conversas do MSN ou chats do Facebook, estou
certo de que ficarei bilionário. Aguarde-me, Eike.

Leitor:


Mainardi viajou ontem... falou merda... pro Eike.

Pim:

Vi o vídeo do Manhattan no site da Globo News, e não sei de onde você tirou que o Mainardi falou merda pro Eike...

Ele até pegou leve.

Leitor:

O Eike é o empresário que mais investe no país hoje.

Pegou leve por quê?

Pim:

Isso seria muito lindo, se não escondesse uma relação promíscua do empresário Eike com o poder, com o governo, com o PT, enfim, que o beneficia, e vice-versa.

E a função de qualquer jornalista/escritor/intelectual é desmascarar essas coisas, como fez o Mainardi, em vez de ficar bajulando o sujeito. Se possível, inclusive, arrancando dele informações, como o valor (R$ 5 milhões, segundo ele) doado à campanha da Dilma (para que suas empresas, depois, continuassem ganhando do governo todas as mordomias...).

Esse enfrentamento, ainda que contido e bem-humorado, é tão raro (a rigor, inexistente) na TV brasileira (e no Brasil), que é natural que você estranhe e ache até agressivo.

Na Fox News americana, por exemplo - e nos Estados Unidos em geral, apesar das patotas esquerdistas na grande mídia -, isso é simplesmente a rotina diária. Sinal de um país com aquele mínimo de vigor intelectual e moral necessário, para não abrir mão de seus valores em troca de uns tantos empregos. É sempre assim que nasce a barbárie, como não se cansa de mostrar uma porção de ditaduras que, economicamente, vão muito bem, obrigado.

Assista um só dia à Fox News, e você vai achar que o Mainardi fez até carinho no Eike.

Leitor:

O Mainardi falou merda porque o dinheiro do Eike está todo investido em ativos reais que estão no Brasil, e o Mainardi disse que o dinheiro é de papel... Difícil é entender como é de papel um conglomerado de empresas que hoje emprega 20.000 pessoas e que em 5 anos empregará mais do que o dobro disso...

Óbvio que o Mainardi não precisa ficar bajulando o Eike, rídiculo é quem bajula. Eu ri bastante e achei fantástico ele ter dito que foi acordado pelo assessor do Eike de madrugada. Qualquer um no lugar dele teria um cagaço enorme de falar isso "só porque é o Eike...".

O Mainardi falou merda em relação ao valor das empresas do Eike, como eu disse acima. Foi típico de quem não conhece finanças e diz que o dinheiro é de papel...

Fora isso, eu particularmente vejo fatos bastante interessantes em relação ao Eike:

- Além de investir nas empresas, ele é um dos únicos ricos do país que investe do próprio bolso na cidade... Colocou 20 milhões na Lagoa, mais 200 milhões no Hotel Glória, mais 15 milhões na Olimpíada...

- Grande parte do dinheiro captado nessas empresas vem de sócios estrangeiros... Ou seja, dinheiro estrangeiro vindo pro país em forma de capital produtivo.

- Muitos falam de BNDES... Que o BNDES financia os projetos etc etc... E qual o problema? Que bom que temos um banco no país que faz isso... As empresas do Eike não pegam nada de graça... Pegam e pagam juros em todos os empréstimos, como todas as outras empresas brasileiras fazem e devem fazer, como procedimento legal de qualquer empresa...

- A prática de doar dinheiro pra campanha eleitoral é corriqueira no Brasil e no mundo (EUA bastante também). Eu acho um absurdo. Acho que não deveria existir porque, se eu sou empresário, e doo 1 milhão prum político, é óbvio que o cara fica "amarrado" comigo depois, podendo facilitar coisas para empresas minhas... Mas o fato é que o Eike doou para a Dilma, mas também para o Serra... Segundo ele (Eike) mesmo, porque "acredita que isso ajuda no processo democrático"... Enfim, o fato é que essa doação não foi benefício só para o PT...

- O Eike faz propaganda do Rio pro mundo inteiro... Imagina quanto essas empresas vão gerar de dinheiro pro Rio? Tem gente de todo o mundo querendo instalar empresas no nosso porto... Tem gente do mundo todo querendo fazer negócio... etc etc etc... Ou seja, é muita riqueza gerada no Brasil e deixada aqui dentro...

Pim:

Não vi o Mainardi afirmar que o dinheiro é de papel. E, mesmo que tivesse afirmado, seria uma provocação absolutamente válida. O vídeo está AQUI.

Na verdade, ele provocou o Eike - como é função dele -, apenas perguntando se as empresas dão mesmo lucro, geram receita, se existem mesmo e têm uma função real etc., no que fez muito bem. Pelo simples fato de que os negócios e as fontes de lucros do Eike são um tantinho nebulosos, e ele mais parece uma celebridade, ou um captador de recurso na bolsa. De modo que é preciso arrancar informações e explicações dele sobre essas coisas. Quanto mais, melhor.

Ninguém aqui está recriminando a criação de empregos, ou de oportunidades para o país; mas sim tentando elucidar COMO essas coisas estão sendo feitas, em vez de se deslumbrar com o aspecto meramente financeiro/propagandístico da coisa.

O que você precisa entender é que, PARA fazer tudo isso que o Eike faz - e ainda posar de salvador do Rio e do Brasil -, ele conta com informações e favores privilegiados do aparato e das gentes do governo, seja no BNDES, na Petrobras ou no diabo a quatro. O Mainardi, inclusive, apontou que o senador Delcídio Amaral deu a ele indicação de gente na Petrobras - e o Eike desconversou, vergonhosamente, rindo como quem, no fundo, acha aquilo normal, porque se beneficia disso todo santo dia. Não é normal! Não é aceitável! E isso independe de o governo ser do PT ou não.

Essa promiscuidade de certo empresariado com o poder público, no fim das contas, traz sempre mais malefícios que benefícios a qualquer país.

Eis uma questão que vai muito além das finanças. Não se erguem grandes nações solapando por dentro a sua moral.

5 comentários:

  1. O mais engraçado foi que ele justificou a doação à campanha da Dilma afirmando que seria democrático porque ele doou pros dois lados.

    Esquece, no entanto, que se o outro lado ganhasse o resultado era o mesmo, favorável ao investidor, evidente. E que se ele nada doasse, a balança continuaria a mesma, talvez com uma campanha um tanto mais pobre, mas aí sim mais democrática.

    Aliás, muito mais democrático - porque transparente e legítimo - seria doar para um lado só, naquele que acredita, aliás, como deve ser na democracia.

    No mais, adorei o debate.

    Beijo,
    Manoella

    ResponderExcluir
  2. Acho até que o Mainardi, muito elegante, pegou leve; mas não havia como fazer melhor jornalismo diante do deslumbramento dos demais entrevistadores. O tal do Ricardo Amorim, rematado idiota, só faltou pedir emprego ao Eike...

    ResponderExcluir
  3. Pim, muito bom o diálogo!

    Eu acredito que você e seu leitor tenham razão nessa questão. O que o Eike está fazendo pelo Rio merece, sim, ser elogiado pela população. Afinal, ele é demais! Investe aqui como um doido, nos promove, gera emprego e renda e ainda torce pelo Glorioso!

    Mas eu também concordo contigo. Vale muito a pena observar, de maneira mais criteriosa, qual é o tipo de relação ele vai construindo com o poder público e seus atores.

    Assim nós vamos solidificando nossa relação público–privado, amadurecendo a nossa democracia adolescente.

    Só não podemos fazer aquela patrulha demonizadora de cruzadas individuais contra este ou aquele individuo. Desse jeito, estaremos eternamente condenados a assistir todos os nossos promissores empreendedores virarem novos Daniéis Dantas, todos inábeis na hora de negociar com poder público. Aliás, para esse tipo de empresariado, negócio com o governo, por si só, já é sinônimo de maracutaia.

    Olha o caso do paesano mio Silvinho lá na Italia...logo na terra do Bobbio (morda-se, andreazza!rs) um caso purinho desses de falta maturidade na relação da coisa publica com o capital.

    Bom, eu falo como esse esse tipo de coisa fosse fácil e de uma hora para a outra. Mas eu sei que não é.

    Mas é esse diálogo que vai nos levando a esse ponto.

    Um abraço,

    R.Pian

    AH, fala da visita do obama!

    ResponderExcluir
  4. O BNDES empresta dinheiro a juros infinitamente inferiores ao praticado no mercado para as maiores e mais sólidas empresas do país, justamente aquelas que teriam condições de pagar pelos juros mais altos. Enquanto as pequenas e instáveis empresas só têm acesso ao dinheiro que custa caro. A consequência disso são grandes empresas concentrando a grossa maioria dos empregos no país ao invés da desejável pulverização. Um exemplo são as montadoras de veículos que estão sempre pleiteando menos tributação negociando sempre com ameaça de demissões em massa. Basicamente o BNDES escolhe os campeões do país com um critério subjetivo - para não dizer baseado em interesses do partido de ocasião.

    ResponderExcluir
  5. O Ricardo Amorim é um babaca que não conhece nada de mercado.. é um tremendo Maria Vai Com Ás Outras... Alias... Sé quiser se dar bem, basta fazer exatamente oposto o que este imbecil recomendar... Sucesso garantido.

    ResponderExcluir