segunda-feira, 25 de abril de 2011

Fla-Flu abre nova seção do Blog do Pim

"A função do escritor no Brasil é manter a sobriedade em meio à histeria." (Juveninho)

Está lançada a seção "Futebol etc.", que reúne meus artigos e comentários a respeito de futebol - mas principalmente de "etc." -, incluindo a saborosa cobertura da Copa do Mundo 2010.

"A vitória da mediocridade" é o marco inicial da página, com a transmissão completa do Fla-Flu em que o Flamengo se classificou para a final da Taça Rio 2011.

O debate público (Início), a literatura (Juveninho) e o esporte (Futebol etc.) estão agora separados pelas abas, mas aqui eles continuarão sempre se misturando em cada frase.


Aonde houver histeria - eis o que importa -, o Blog do Pim levará sobriedade.

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Pós-escrito de 27 de abril: Leia também "O Flamengo da Vila Belmiro", com os comentários da Copa do Brasil e da Libertadores.

terça-feira, 19 de abril de 2011

O monopólio das vaginas

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

Uma mulher de Rio Preto passou veneno na vagina e convidou o marido para o sexo oral. Tonteado com o cheiro da coisa, ele interrompeu o ato a tempo de se dirigir ao hospital mais próximo. O caso logo repercutiu na internet. A polícia investigou a tentativa de homicídio. Eu só tenho uma dúvida: onde estão os desarmamentistas? Não seria o caso de proibir as vaginas?


Em minha imaginação, alguém argumenta que letal mesmo é o veneno. Eu contraponho: o veneno é a munição; a arma é a vagina. Uma arma triplamente perigosa, porque entorpecente, estupefaciente e de fogo. Antes que seja tarde demais, convém ao Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, promover o primeiro referendo vaginal brasileiro. Está provado. É científico. O porte legal de vagina aumenta a criminalidade.

É hora de pôr em prática as palavras do ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux: “Não [se] entra na casa das pessoas para ver se tem dengue? Tem que ter uma maneira de entrar na casa das pessoas para desarmar a população”. Tem que ter. Caso contrário, as armas pularão da gaveta e sairão atirando; ou pularão na cama e sairão envenenando; ou transmitirão doenças pelo ar. Há uma epidemia de armas legais sob o nosso nariz. O Brasil só estará seguro quando homens e mulheres de bem entregarem suas pistolas e vaginas.

O governo Dilma sabe disso. Se antes o PT não dava a menor pelota para as fronteiras, agora menos ainda. O corte no orçamento da Polícia Federal para 2011 já reduziu o efetivo desde a Amazônia até o Rio Grande do Sul. Faltam recursos para diárias de delegados e agentes, manutenção de carros, compra de combustíveis e coletes à prova de bala. Delegacias operam com menos da metade do pessoal, postos pararam de funcionar, blitzes foram suspensas, patrulhas retiradas. O oxi, um derivado da cocaína mais nocivo que o crack, veio da Bolívia e do Peru, arruinou jovens e crianças no Acre e se espalhou pelo país. Com ou sem armas e drogas, os bandidos e terroristas são cada vez mais bem-vindos: “Sorria, você está no Brasil”. A única fronteira preocupante para o PT é a do nosso armário, contra o qual basta um referendinho de R$ 300 milhões. Ou dois. Ou três. Ou dez. Até o povo consentir: “Você quer trocar a sua legítima defesa por um cacho de bananas?” Siiiiiiiiiim!

Não basta, porém, facilitar a tarefa de invasores. É preciso premiá-los, como se faz na Bahia. Em 2009, o governador petista Jaques Wagner gastou R$ 161,3 mil em aluguel de ônibus para levar os sem-terra de volta ao interior após uma invasão de prédio superanimada. Em 2010, instalou quatro banheiros químicos, um tanque d’água e um barracão como “apoio logístico” para outro protesto. Agora, para comemorar o circuito de 40 fazendas invadidas, fornece 600 quilos de carne por dia, verduras, 32 banheiros químicos, dois chuveiros improvisados e toldos. A infraestrutura do trio “Abril Vermelho” aumenta a cada ano. Só faltam os camarotes com Open Bar, o Asa de Águia e o Chiclete com Banana.

A micareta nacional do PT distribui dois tipos de abadás: o dos bandidos sem causa, que podem entrar e brincar à vontade; e o dos bandidos com causa, que têm direito a banho e bufê de carne de sol. Que cidadãos armados sejam um risco para essa folia social, é evidente. Que a proibição da maconha limite a participação de jovens e crianças, também. O líder do partido na Câmara, Paulo Teixeira (SP), se dirige diretamente a esse público quando defende a liberação do plantio de maconha, dizendo que droga mesmo é um lanche do McDonald’s. O líder do Senado, Humberto Costa (PE), e do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP), além do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, apoiam a discussão. A campanha “Troque o seu Big Mac por um baseado” está lançada. Ainda chegaremos ao dia do referendo “dois em um”.

Camuflar a própria incompetência no combate à criminalidade, ou mesmo fomentá-la para depois culpar os homens de bem pela tragédia, é a receita básica para deixar uma sociedade doidona, de pernas abertas (mas sem veneno) para os seus governantes. Daí a tornar legal o ilegal, e ilegal o legal, é só uma questão burocrática. O petismo está adiantado. A imprensa dá cobertura. A oposição nunca foi capaz de sentir o cheiro da coisa a tempo de interromper o ato. Intelectual, moral e – sobretudo – politicamente, o Brasil se desarmou até os dentes, aumentando o coro do consentimento. Com um tantinho de persistência e uns R$ 300 milhões aqui e ali, é possível que a resposta da população não tarde:

- Você quer trocar o monopólio da sua vagina por um membro do MST?

- Siiiiiiiiiim!

Por Felipe Moura Brasil
http://felipemourabrasil.blogspot.com

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A pontualidade do nosso atraso

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

Eu antecipei no Twitter: “Massacre no Rio será usado por militantes do desarmamento. Não se engane! Eles querem só bandidos e psicopatas armados”. Eram 13 horas. Dali a pouco, o ex-policial Rodrigo Pimentel já falava na TV em “retirar armas da rua”. Depois vieram “especialistas”. Jornalistas. Ministro da Justiça. José Sarney. Todo o front do atraso nacional querendo a nossa família tão indefesa quanto as crianças na escola de Realengo.

Como eu sabia? Ora. A única coisa que não se atrasa no Brasil é o atraso. Ele sempre chega na hora. Às vezes, até se adianta. Mas atrasar? Nunca! Um drama comove o país e lá está ele: pontual, previsível, irremediável - com o mesmo kit de ideias retrógradas, argumentos chinfrins e omissões providenciais já tantas vezes desmoralizado em outros lugares e épocas. Dilma Rousseff alegou ainda que o massacre “não é característica nossa”. Nossa característica, eu dizia no artigo anterior, é sermos assassinados aos pouquinhos e espaçadamente, sem reparar na soma total. Matemática não é o nosso forte. Entre 65 países, tiramos o 57º lugar.

Para justificar a eficácia do desarmamento, Pimentel sacou as palavrinhas mágicas da persuasão contemporânea: “Está provado. É científico!”. Nem precisou mostrar o estudo comprobatório, ou explicar por que bandidos e psicopatas devolveriam suas armas. Vai ver assistiu aos filmes do Michael Moore e acreditou. Nos Estados Unidos, o que é “científico”, na verdade, é justamente o contrário. Segundo o estudo dos economistas John Lott e Bill Landes, “de 1977 a 1999, os estados que adotaram leis que permitiam o porte livre de armas apresentaram uma queda de 60% nos ataques contra indivíduos e uma queda de 78% nas mortes em consequência de tais ataques”. Os motivos? Tanto o temor de uma reação pode dissuadir um criminoso quanto a presença de alguém armado pode interrompê-lo. E a maioria dos americanos sabe que nem sempre há tempo para esperar pela polícia.

Na imprensa e na internet, o Brasil inteiro comparou a tragédia no Rio às Columbines americanas. Prontamente, os jornais publicaram uma listinha de episódios similares. Mas e quanto aos massacres que não chegaram a acontecer? Ninguém vai publicar? É uma desfeita com os dois estudantes que, em 2002, na Virginia, pegaram suas armas no carro para neutralizar um colega atirador; com o policial de folga, porém armado, que levava sua filha à escola no dia em que um aluno resolveu matar os outros em Santee, em 2001; com o dono de um restaurante em Edinboro, que, em 1998, usou sua arma para render o aluno que matara um professor e ferira mais três; com o diretor que também pegou sua arma no carro para apontar a um estudante homicida em Pearl, em 1997. E por aí vai (sem contar episódios em casas, restaurantes etc.). Em vez de 12 mortos até a chegada da polícia, como em Realengo, cada um desses teve no máximo três. A propósito: três são menos que doze.

Mas, assim como criminosos não seguem leis e psicopatas não precisam de motivações, esquerdistas dispensam a realidade e criam suas próprias relações de causa e efeito. Se o porte de armas no Brasil dos 26 mortos por 100 mil habitantes fosse tão comum quanto nos Estados Unidos dos 6 mortos por 100 mil, nada garante, de fato, que o massacre teria sido evitado ou interrompido, embora isto fosse, ao menos, possível. O impossível é que o desarmamento das pessoas de bem tivesse alterado o resultado da tragédia. O único efeito do desarmamento, ao contrário, seria deixar o caminho aberto para as próximas. (Para Farc, PCC, Comando Vermelho, ADA, atiradores escolares etc.) Sem prender bandidos, sem vigiar fronteiras, sem combater o tráfico, sem investir em cadeias e manicômios, o governo já nos trouxe a “pacificação”. Agora, só pede que entreguemos nossas armas.

Um dos avisos mais comuns nos jardins das casas e mansões americanas é o de “Armed response” - o primo sarado do tradicional “Cuidado com o cão”. Aqui, a depender de Rodrigo Pimentel, José Sarney, e do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, você já tem todo o direito de escolher o seu: “Roube sem bater”, “Mate após o café” ou “Estupre devagar, que é mais gostoso”.

Por Felipe Moura Brasil
http://felipemourabrasil.blogspot.com

sábado, 2 de abril de 2011

O Rei Sonso e o país dos sonsos

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

Barack Obama justificou a guerra na Líbia dizendo que os Estados Unidos não fecham os olhos para as atrocidades em outros países - o que seria muito lindo, não existisse, como de hábito, uma realidade para desmentir o discurso. Os críticos apontaram: e quanto a Síria, Arábia Saudita, Iêmen, Jordânia, Costa do Marfim, Bahrein? Eu aponto: e quanto ao Rio de Janeiro? E quanto ao Brasil? Por que ninguém se lembra da gente nessas horas? A resposta é simples, claro. Faça enchente ou faça sol, morram mil soterrados ou cinquenta mil assassinados, ninguém leva a sério o Brasil.

Neste sentido, a visita de Barack Obama foi, de fato, histórica. Dilma, Cabral e Paes devem agradecer. Se a intenção era propagandear nosso caráter bundalelê para o mundo, Obama foi insuperável. Citou Pau Coelho e Zorze Benzor, exaltou nossas belezas naturais, assistiu às piruetas da capoeira, bateu uma bolinha na Cidade de Deus e, de quebra, autorizou o ataque das tropas americanas às forças militares de Kadafi, sem consultar o Congresso. Nenhum lugar do mundo seria tão estapafúrdio para o anúncio de uma guerra assim quanto o Rio de Janeiro. Nos EUA, os críticos ainda debocham das “férias” do presidente por aqui. É como se, à simples menção da palavra “Rio”, a fama carnavalesca da cidade reforçasse a irresponsabilidade obâmica, e vice-versa. Para inveja de Lula, Obama elevou o Rio a um novo patamar de sonsice.

Após a visita, Zuenir Ventura aplaudiu o nosso afeto. Eu vaiei: uuuuuhh! Nós brasileiros somos tão felizes e afetuosos que ninguém abre os olhos para as nossas atrocidades. Nem nós. Se, lá nas bandas do Oriente Médio, ditadores e terroristas promovem genocídios chocantes, aqui somos assassinados aos pouquinhos e espaçadamente, e de maneira terceirizada, de modo que não damos a menor bola e vamos bater tambor. Basta um Beltrame qualquer empurrar os bandidos mais pra lá ou mais pra cá, sem prender ninguém, que já ganha um Prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo. Uma diferença e tanto. Nas últimas semanas, só ao meu redor (e que eu saiba), houve gente baleada em Ipanema (morta), em Copacabana, e na Lagoa. Ao que tudo indica, se você é um blogueiro crítico do governo ou anda de motocicleta, há mais chances de levar um tiro. Por sorte, eu não ando de motocicleta.

Para coroar a criminalidade homeopática do país, a Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia (CBDD) propôs considerar apenas “usuário” quem possuir uma quantidade de entorpecentes para até 10 dias de uso. Em vez de serem encaminhados à Justiça Criminal, os infratores “são acolhidos por comissões especiais” cujo objetivo é “preservar sua saúde”. Isto significa que, a cada vez que sair para vender, basta ao traficante levar uma quantidade equivalente a 10 dias de uso. Caso seja pego em flagrante, ele é considerado “usuário” e ganha de brinde uma avaliação médica e psicológica, paga com o dinheiro do contribuinte. Com o pretexto de diferenciar usuário de traficante, o que se faz na prática é igualar os dois, estimulando os traficantes a empregarem “usuários”; os usuários a virarem traficantes; e ambos a ficarem cada vez mais sonsos. De pouquinho em pouquinho, o Brasil fica legalmente doidão.

Barack Obama é a cara do Brasil. Por isso mesmo, ninguém mais o leva a sério. Como até hoje não apresentou sua certidão de nascimento, é legítimo desconfiar de sua brasilidade (e da autoria de seu livro; e de tudo que envolva o primeiro presidente obscuro dos EUA). A sonsice com que conduziu a guerra na Líbia só fez aumentar a desconfiança. O mesmo Obama que rejeitava a coalizão de 40 países na guerra do Iraque – autorizada pelo Congresso – celebra a aliança de 15 para as operações na Líbia. O mesmo Obama que era contra a imposição da democracia no Oriente Médio defende a liberdade do povo para se expressar e escolher os seus líderes. Se o objetivo de Obama é proteger o petróleo europeu, os rebeldes aliados da Al Qaeda, a Fraternidade Muçulmana, ou demais interesses que ele jamais ousaria confessar em público, a história dirá. O certo é que não se pode esperar critério e coerência de seu teleprompter.

Se Obama fecha os olhos para Darfur, imagine então para o Rio de Janeiro. Em vez do FBI revistando ministros petistas e do Exército americano matando ou prendendo nossos traficantes, vamos ter de nos contentar com as UPPs. Mas estamos felizes. Somos afetuosos. Bagulho não falta. Como cantou Zorze Benzor (ou foi Pau Coelho?), moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.

Por Felipe Moura Brasil
http://felipemourabrasil.blogspot.com