quinta-feira, 5 de maio de 2011

Obrigado, Bush, pelo PlayStation do Obama!

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

Slavoj Zizek é um filósofo marxista esloveno. Sua melhor obra é o depoimento para um
vídeo de 1 minuto no YouTube, explicando seu método de escrever. Para Zizek, é “psicologicamente impossível” sentar numa cadeira com essa finalidade. Então ele precisa se enganar. Fingir que não está escrevendo. Em matéria de autoengano, ninguém é páreo para um filósofo marxista.

Primeiro, ele apenas anota ideias, mas já com uma linha de pensamento definida em frases completas. Até certo ponto, ele diz a si mesmo: “Não, eu não estou escrevendo. Só estou anotando ideias”. Depois conclui: “Já está tudo aí. Agora só preciso editar”. Ele resume assim o processo: “Eu divido em duas partes: anotar e editar. O ‘escrever’ desaparece”. Lindo, não?

Nunca pensei que fosse dizer isso, mas eu sou como Slavoj Zizek. Só de pensar em escrever, tenho vontade de sair correndo para a Eslovênia. Então preciso me enganar. De uns anos pra cá, tenho me enganado publicamente no Twitter. Anoto ali as minhas frases, até resolver ou ter tempo de editá-las no formato de um artigo. Algum apego à posteridade ainda me obriga a esse esforço. No dia em que for criado o botão “Transforme suas frases avulsas em um texto decente”, eu viro um tuiteiro full-time.

Barack Obama é como eu. Quando ouve um chamado da posteridade, transforma as suas frases avulsas em um discurso oficial. A diferença é que, com frequência, seu discurso é exatamente o oposto de suas frases, cujo objetivo é menos o autoengano que o engano alheio. Se ele se opõe aos métodos de interrogatório de Bush, e espalha que vai acabar com a prisão de Guantánamo, e que não vai matar Bin Laden porque não quer criar um mártir, ele logo aparece na TV reivindicando o crédito pela execução de Bin Laden, cujo esconderijo foi encontrado graças aos métodos de interrogatório de Bush, aplicados – nas prisões secretas da CIA – em terroristas até hoje detidos na mantida Guantánamo. O teleprompter de Obama é um escritor menos preguiçoso do que Zizek e eu. Aplica uma porção de malabarismos verbais na hora da edição, enquanto a imprensa Obama-Oba cuida de sumir com suas frases originais.

Assim como eu uso a primeira pessoa para falar do mundo, Obama usa o mundo para falar da primeira pessoa. Ele está convencido de que o mundo começou junto com seu governo. No discurso oficial, afirmou que, pouco após assumir o cargo, orientou o diretor da CIA, Leon Panetta, a fazer da morte ou captura de Bin Laden a prioridade na guerra contra a Al-Qaeda. Obama, portanto, é o responsável por estabelecer uma prioridade já estabelecida há 10 anos. Ele também afirmou ter montado as equipes militares da operação. É, portanto, o responsável por montar equipes já montadas (e atuantes no Iraque e no Afeganistão) há 10 anos. O “eu” de Obama dirigiu cada etapa da caçada pregressa, enquanto o “nós” participou de todos os combates ao terror, embora o “eu” fosse contra. A guerra é dele. O time é dele. Ele é o dono da bola.

Não bastasse repetir 40 vezes a palavra “we”, Obama falou 10 “I”, 3 “my” e 2 “me”. Mais um pouco e ele diz que saltou de paraquedas do helicóptero, entrou no esconderijo pela chaminé e acertou três tiros no peito de Bin Laden, que, antes de morrer, gritou: “Matêêêê!”. Nenhuma foto in loco, no entanto, ficaria tão boa quanto a de sua equipe, supostamente tensa, acompanhando a missão Gerônimo em vídeo - uma transmissão “ao vivo” do Paquistão, segundo a imprensa Obama-Oba, depois desmentida por um porta-voz oficial, que revelou os 25 minutos de atraso. (Até os vizinhos comemoraram o gol em Bin Laden antes de Hillary Clinton.) Mas a sugestão ficou no ar: os SEALs teriam obedecido a cada comando de Obama, diretamente do PlayStation da Casa Branca. Ninguém sabia o truque pra passar de fase. Só ele.

Se Bill Clinton desperdiçou de 8 a 10 chances de matar Bin Laden, como revelou Michael Scheuer, ex-comandante da unidade Bin Laden da CIA, Obama - cujo único ativo para a campanha de 2012 era o assassinato da economia - não podia perder a sua. Por sorte, alguém já fizera o “trabalho sujo” entre um e outro, sofrendo nas torres a herança maldita e deixando nos instrumentos de guerra a bendita. As forças especiais americanas não teriam os equipamentos, o contingente, a autoridade, o treinamento, a experiência, muito menos as informações necessárias para a Missão não fosse o governo Bush, que lhes quadruplicou o orçamento, aumentou o número de integrantes em 50%, incrementou os serviços de inteligência, e obteve o nome dos mensageiros de Bin Laden submetendo 3 – e somente 3 – terroristas àquelas técnicas de afogamento que irritavam o mesmo Obama, os mesmos “Democratas”, a mesma imprensa, enfim, os mesmos Verissimos que hoje celebram os seus resultados. Sem George W. Bush, Obama estaria até hoje jogando o Atári de Clinton.

O combate ao terror, para esquerdistas, é como a escrita para Slavoj Zizek: “psicologicamente impossível”. Se houver uma maneira de passar do antes aos finalmentes, fingindo que o processo não existe (ou deixando-o nas mãos da direita), tanto melhor. Assim como Lula manteve a política econômica de FHC depois de anos vociferando contra o Plano Real, Obama manteve a política antiterror de Bush depois de anos vociferando contra suas guerras. No fundo, o método dos surdos de si mesmos é simples: primeiro, criticar; depois, reivindicar o mérito. E puf: a moral desaparece.

No caso de Obama, junto com os cadáveres.

Por Felipe Moura Brasil

http://felipemourabrasil.blogspot.com

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