quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A insustentável leveza de Juveninho

O romance não é uma confissão do autor,
mas uma exploração do que é a vida humana,
na armadilha em que se transformou o mundo.

Milan Kundera, em A insustentável leveza do ser




O que é o flerte?

A pergunta é de Milan Kundera em A insustentável leveza do ser. E se, bem ou mal, estamos todos flertando, diz Juveninho, convém saber do que se trata.

O flerte, segundo Kundera, é um comportamento que deve sugerir que uma aproximação sexual é possível, sem que essa eventualidade possa ser entendida como uma certeza. “Em outras palavras, o flerte é uma promessa de coito, mas uma promessa sem garantia.”

Juveninho é especialista em matéria de coito. Não pode ouvir uma promessa morena que quer logo extrair a garantia. Mas não se afoba. Principalmente quando é ele mesmo, Juveninho, o autor da promessa. Para Kundera, o virtuosismo do flerte reside precisamente no equilíbrio entre a promessa e a ausência de garantia: a arte, segundo Juveninho, de prometer sem se comprometer - de manter verossímil a alegação de que tudo não passou de educação, simpatia e afeto, ou, como diria o aposentado orkut: “sou legal, não tô te dando mole”.

Muitas amizades entre homens e mulheres – e elas existem, afirma Juveninho – começam a partir do flerte, ou, mais precisamente, são resultados de um flerte não correspondido. Juveninho não vê nisso mal algum, muito pelo contrário: vê somente o indício de uma maturidade, que se revela na habilidade de lidar com coitos potenciais. Da mesma forma que ninguém precisa chegar às vias de fato, ninguém precisa ignorar ou excluir do seu convívio real ou virtual aqueles que um dia se aproximaram de maneira meramente sugestiva. Ver em cada aproximação um estupro potencial é, para Juveninho, o aspecto definidor de uma moça besta.

E moça besta, ele diz, é o que não falta na Zona Sul do Rio de Janeiro. Numa província de elite em que toda a cultura se resume a “curtir a vida” (adoidado), gastando fortunas (em viagens, ingressos, roupas, bebidas) para fugir a qualquer esforço de inteligência e realização superior, nada mais natural, segundo Juveninho, que essas moças só se interessem por aquilo que lhes desperta um desejo imediato de consumo; e que, por pura projeção, só possam conceber a curiosidade masculina como uma tentativa de consumi-las com urgência, como se o simples fato de serem aparentemente desejáveis as eximisse de serem efetivamente interessantes.

Com efeito, lamenta Juveninho, o comportamento que sugere que uma aproximação sexual é possível (às vezes, um mero “boa noite”) já soa como a própria intimação ao coito, devendo ser imediatamente rechaçado com ar blasé ou correspondido tão somente como concessão, uma atenção emprestada por quem se dispensa da mais mínima participação ativa no processo. Antigamente, ao “conversar” com moças incapazes de lhe fazer uma única pergunta, Juveninho desandava a falar de si, para ver se, subitamente, elas despertavam da passividade. Hoje, tem um método mais eficaz: inverte as perguntas, como numa espécie de “Auto-Quiz”.

- Quantos irmãos eu tenho?
- Você? Ué... Não sei.
- Meus pais são casados?
- Seus pais? Como assim!?
- O que eu desejo estar fazendo daqui a 10 anos?
- Eu, hein! Como posso saber isso!?
- Qual era o nome do cachorro que tive na infância?
- Cruz credo, cara! Você é maluco!

É verdade que nem sempre funciona. Quem quiser ter uma conversa de verdade, segundo Juveninho, no grande parquinho que se tornou a Zona Sul, é logo considerado um maluco. Todo o repertório de assuntos que constitui o conteúdo verbal do flerte - ou de qualquer outra possibilidade de relação - se resume, quando muito, ao que se fez no último fim de semana e o que se fará no próximo, de preferência com interlocutores já devidamente apresentados por parentes ou amigos em comum, porque, nas palavras de Juveninho, ninguém pode falar com estranhos nem andar sem mão dada no parquinho.

Enquanto circular incólume a crença geral de que a economia move o mundo, avulsa e desencarnada, como se não fosse ela determinada por fatores intelectuais, culturais, éticos, psicológicos e religiosos, e enquanto todos estes estiverem reduzidos à propaganda político-partidária, a obsessão dinheirista-consumista regerá também a vida social e amorosa das elites, com todo o seu poder de esvaziar o cérebro de mocinhas encantadoras, todas elas, segundo Juveninho, muito mais adestradas a usufruir um homem (como uma bolsa ou um sabonete) do que a conhecê-lo de fato para além de suas posses e poses, criando aquele vínculo profundo sem o qual toda relação é tão descartável quanto um notebook velho.

Não quer com isso, Juveninho, desprezar o papel dos atributos físicos – ou, ao menos, manifestados pela aparência imediata – na hora do flerte. Admirador incontornável das carnes morenas e douradas, Juveninho seria o último a exaltar as vantagens do amor desencarnado. Mas esclarece: uma coisa é o desejo de coito (aplicável a numerosas moças), outra bem diversa é o encanto. Milan Kundera acredita que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. O problema é que aquelas poucas mulheres que realmente encantam, comovem, dão beleza à vida de Juveninho – entrando em sua memória poética e fazendo dez embaixadinhas lá dentro –, normalmente são as mais bestas de todas.

Os amigos não se conformam.

- Mas e fulana, Juveninho? Aquela gostosa!
- Não entra na minha memória poética.
- Mas entra na sauna, não é?
- ...
- E beltrana? Mó gatinha...
- Bate na trave.
- E sicrana? Você era apaixonado por ela!
- É besta.
- É besta ou você não entra na memória poética dela?
- É besta.
- Como você sabe?
- Nunca me fez uma pergunta.
- Ela não pode estar desinteressada?
- Pode. Não pode é ser besta.

Até os amigos agora fazem perguntas a Juveninho. Nenhum quer parecer tão besta quanto as moças mais encantadoras da cidade. Todos já sabem de cor quantos irmãos tem Juveninho, se seus pais são casados, o que ele deseja estar fazendo daqui a 10 anos e qual era o nome do cachorro (um fox terrier, eles gritam!) que Juveninho teve na infância. Imploram pelo romance autobiográfico A insustentável leveza de Juveninho, regado a muitos diálogos de “Auto-Quiz”. Alguns, aliás, confessam que colocaram o método em prática, com relativo sucesso. Outros, que pararam de puxar o cabelo das moças nos eventos, porque isto sim é intimar ao coito. As amigas admitem que andam interagindo com os estranhos no parquinho, porque ignorá-los, sobretudo se gentis, é de fato tão grosseiro quanto, para os homens, puxar o cabelo; e que, apesar de um ou outro Trem Fantasma, conquistaram amizades e conhecimentos assim, sem mais antecipar o momento do “não”. Por fim, todos exigem papeis de destaque na grande obra juveniniana, embora temam a maneira como serão descritos.

Juveninho conversa com cada um deles. Não os rechaça. Não os exclui. Não é besta nem nada. Trata os fãs com educação, embora prefira conhecer as tietes. Seu comportamento sugere apenas que o livro é possível, sem que essa eventualidade seja entendida como uma certeza. É uma promessa de romance, mas uma promessa sem garantia.

Até porque, pensa Juveninho, a literatura é como a maturidade: bem ou mal, também se revela enquanto estamos flertando.

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2 comentários:

  1. parabéns.. escreve muito bem, prendeu a minha atenção, me fez lembrar das historias do meu avô que sempre inventava historias para ensinar alguma coisa, julga ele que historias são como concelhos melhorados, pois meche com a imaginação e faz com que a pessoa não esqueça tão rápido o conselho... torço para que vc tenha muito acesso feminino no seu site.. :)

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  2. Felipe,

    Essa "memória poética" que você cita me lembrou "O caminho de Swann", em que o personagem revive sua paixão por Odete a cada vez que uma determinada música toca. É como se sua memória poética fosse acionada nesses momentos.
    Concordo que flerte nunca é nem foi sinônimo de certeza, e sim de possibilidade. Mas o flerte pelo flerte é vazio, sem sentido.
    De qualquer maneira... Juveninho em grande forma!

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