quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O playground de Dilma

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui]

Dilma já disse a Lula que não quer disputar a reeleição. Dá muito trabalho encobrir a roubalheira de petistas e aliados. Sua carapaça política é tremendamente menor que a de Lula. Com ele, o lema era: “Não sabe roubar, deixa que eu cubro!”. Com ela, o lema tem de ser: “Não sabe roubar, não desce pro play!”.


O problema é que o play está lotado. Varrer todo mundo de lá exigiria aquele arsenal de princípios e valores com o qual ninguém faz carreira no PT. Já bastou a cara feia do PR, varrido do Ministério dos Transportes. Aturar a cara feia do vice-presidente Michel Temer, do PMDB, seria demais. Faxina tem limite. Nada de varrer o próprio pé.

Para Dilma, as denúncias contra o Ministro da Agricultura, Wagner Rossi, são menos graves do que a perda de apoio na base. O que é um tráfico de influência perto de um Congresso independente? O que é usar um jatinho do agronegócio – ainda mais “em raras ocasiões”, como alegou Rossi – perto do isolamento do PT? Na dúvida, melhor recorrer à velha tática petista: vão-se os “apadrinhados”, ficam os padrinhos.

É difícil agradar a todos. É difícil parecer bonzinho, gerenciando os malvadinhos. A flexibilidade moral nem sempre vem equipada com a desenvoltura e o vigor teatrais que a ocultam; muito menos que ocultem os crimes de toda uma facção, como Lula fazia de bom grado. Com oito meses de governo, Dilma dá sinais de cansaço. Pede colo. Sente saudades do tempo em que só tinha uma Erenice para encobrir.

Mas não sejamos injustos. Que a presidente dá conta dos “apadrinhados”, é inegável. A imprensa chapa-branca pode aplaudir com a mão esquerda. Viva a ética parcial da faxina parcial! O legado petista para as próximas gerações! Dilma é tão boa em livrar-se dos peões incompetentes do governo que já planeja até livrar-se de si mesma. Em breve, vai-se a “apadrinhada”, volta o padrinho.

E todos podem descer pro play à vontade.

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Nota de rodapé: Qualquer crítica à revista Veja deveria vir com a ressalva: “Apesar de ser o único grande veículo de comunicação impressa do Brasil a trazer à tona as profundezas de corrupção dos governos petistas, 'derrubando' dezenas de ladrões de dinheiro público e estabelecendo a pauta semanal de escândalos políticos aos demais veículos sonsos e retardatários, eu acho que...” - e aí então poderíamos falar de manipulações, sendo a maior delas, claro, a propaganda obamista de André Petry.

Pós-escrito: Horas após a publicação deste artigo, o ministro Wagner Rossi se demitiu, segundo ele, “a pedido da família”. Mas quem da família terá pedido? Seu filho Baleia, deputado federal também usuário do jatinho da empresa que mantém negócios com o ministério? Ou outros filhos, donos de produtoras de vídeo que, indiretamente, prestam serviços a órgãos públicos? Não sei. Mas, para Rossi, é tudo uma conspiração de José Serra...

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