quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Invada a reitoria você também!

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara.]

Você é a favor das drogas? É contra a polícia no campus? Não tem mais o que fazer? Ótimo!

Participe da próxima invasão de reitoria e incremente o seu portfólio de militante.

O pacote inclui: manchetes e fotos de primeira página em todos os jornais, fotogalerias nos sites jornalísticos, vídeos no youtube, repercussão nas redes sociais, reportagens benevolentes na TV Globo, depoimento solidário ("Não se pode tratar a USP como se fosse a cracolândia") do Ministro da Educação e pré-candidato petista à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad - e muito mais!

Em especial: a foto da vitória! Todos unidos na saída da delegacia exibindo o documento de liberação após o pagamento da fiança de R$ 545! Fiança paga, é claro, com o dinheiro público dos nossos sindicatos, entidades e movimentos sociais, que cuidam de todas as despesas pra você, incluindo os advogados. Isso mesmo: ninguém precisa chamar o papai!

Venha! Traga o seu capuz. Traga o seu baseado. Traga o seu galão de gasolina e o seu coquetel molotov.

Após a invasão, basta ignorar as ordens judiciais, aguardar a chegada da polícia com a(s) câmera(s) do(s) seu(s) celular(es) ligada(s) e resistir bravamente à prisão, com o máximo possível de vitimismo heroico e acusações histéricas. Vamos juntos imputar ao governo tucano qualquer indício de truculência policial! Todo sangue é bem-vindo!

Aproveite ainda para arremessar pedras nos repórteres e destruir seus equipamentos, que nós garantimos a sua absolvição moral. Você e seus amigos delinquentes serão tratados como "manifestantes" (Folha de São Paulo), "estudantes" (O Globo) e até "os meninos" (Jornal Nacional)! É muita honraria à sua espera.

Mas lembre-se: não basta, por fim, reunir 5% dos alunos em assembleia e afetar os demais 95% com a declaração de "greve geral".

É preciso, também, participar das festinhas do DCE, com Open Bar de ervas e charutos cubanos.

Comece em alto estilo a sua carreira na militância esquerdista.

Inscreva-se já!*

*Os 100 primeiros ganham uma carteirinha do PT.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Rody e as "Rodices"

Em memória de Rodrigo Cezar (1987-2011), o nosso eterno Rody.***

Rodrigo Cezar sempre ria quando, no meio de uma festa ou de um samba, eu tirava do bolso minhas barrinhas de cereal. Ria, implicava, me chamava de "estranho". O Pim? O Pim é "estranho". Algum tempo depois, lá estava ele na noitada tirando barrinhas de cereal do próprio bolso.

Aquilo se tornou para mim uma síntese da personalidade dele: por trás de seu humor moleque e fanfarrão, havia um sujeito humilde e sereno, capaz de observar e aprender. O Rody que se gabava das vitórias no futevôlei era o mesmo que tirava dúvidas com a dupla adversária: "Essa minha ginga do pescoço", ele perguntava, "tá adiantando alguma coisa?". O Rody que pagava a anuidade da rede ao pessoal do "Vovôlei", como ele chamava, tirando as moedas do cofrinho (sim, do cofrinho) era o mesmo que dava a vez para os recém-chegados jogarem. O Rody que tirava onda de ter sido eleito o melhor jogador do último campeonato de futebol em Niterói era o mesmo que afirmava: "É porque meu irmão não jogou a final". O Rody que explicava o seu tremendo poder de atrair as moças dizendo a frase "É o néctar!" era o mesmo que mandava mensagem pra gente perguntando em qual restaurante (barato) deveria levá-las.

Era difícil não gostar dele. Rody provocava por um lado e envolvia pelo outro, no fim das contas cativando pelos dois, com aquele sorriso leve e radiante de bom garoto, que iluminava qualquer ambiente. Prestativo ainda - como se espera dos melhores professores de educação física -, armava a rede, molhava a quadra, dava aula de altinha às amigas, ajudava as mães a carregar carrinho de bebê pela areia, brincava com as crianças e até consertava bicicleta. No caso, a minha. Rody ajeitou a corrente, mostrou como funcionavam as marchas e em qual eu deveria deixar quando pedalasse pela ciclovia. Depois, claro, passou a dizer para todo mundo: "Eu que ensinei o Pim a andar de bicicleta".

Ele vinha pedalando de Copacabana à Ipanema para praticar o seu esporte favorito, o futevôlei, pelo qual reunia a um só tempo os amigos, a praia, o sol, e as moças da areia e do calçadão, onde gostava de fazer as resenhas no fim de tarde. "Vida!", gritava na quadra, celebrando com a gente a intensidade daqueles momentos, não raro fotografados por alguma turista paparazzi. De todas as suas milhares de fãs, a maior, sem dúvida, era a rede - que, assim como as outras, ele beijava quando podia. Rody fazia tantos pontos com a bola resvalando na fita que, para a sua alegria, batizei aquela jogada sortuda de "Rodice". Todo mundo comete uma "Rodice" de vez em quando. Mas ninguém jamais cometerá tantas "Rodices" quanto o Rody.

Talvez por isso ele abusasse da sorte. Normalmente, ela estava do seu lado. Durante os quase 6 dias de coma após sofrer uma parada cardíaca, era como se a bola estivesse mais uma vez rodopiando em cima da rede, escolhendo em qual lado ia cair. A gente soprou, rezou, cantou, meditou, torceu muito para ela cair do lado de cá. Mas, dessa vez, infelizmente, a rede não ajudou. Rody se foi, e sua morte precoce, assim como sua vida intensa, uniu uma porção de pessoas, criando e fortalecendo amizades, marcadas para sempre pelo fundo comum e inesgotável da saudade: a saudade daquele menino simples e divertido que veio de Barra Mansa ensinar a gente a ser mais carioca. Junto, com ou sem bicicletas e barrinhas de cereal, a gente estará sempre prestando tributo a ele e revivendo a felicidade que ele proporcionava, com sua beleza sem vaidade, seu humor sem cinismo, sua humildade sem hipocrisia.

A maior "Rodice" da minha vida foi ter conhecido o Rody.

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*** Texto de Felipe Moura Brasil, o Pim, lido pelo autor na Missa de 7º Dia do Rodrigo, em 28/10/2011, e publicado no dia seguinte no facebook, com ampla repercussão - AQUI.