terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Rody e as "Rodices"

Em memória de Rodrigo Cezar (1987-2011), o nosso eterno Rody.***

Rodrigo Cezar sempre ria quando, no meio de uma festa ou de um samba, eu tirava do bolso minhas barrinhas de cereal. Ria, implicava, me chamava de "estranho". O Pim? O Pim é "estranho". Algum tempo depois, lá estava ele na noitada tirando barrinhas de cereal do próprio bolso.

Aquilo se tornou para mim uma síntese da personalidade dele: por trás de seu humor moleque e fanfarrão, havia um sujeito humilde e sereno, capaz de observar e aprender. O Rody que se gabava das vitórias no futevôlei era o mesmo que tirava dúvidas com a dupla adversária: "Essa minha ginga do pescoço", ele perguntava, "tá adiantando alguma coisa?". O Rody que pagava a anuidade da rede ao pessoal do "Vovôlei", como ele chamava, tirando as moedas do cofrinho (sim, do cofrinho) era o mesmo que dava a vez para os recém-chegados jogarem. O Rody que tirava onda de ter sido eleito o melhor jogador do último campeonato de futebol em Niterói era o mesmo que afirmava: "É porque meu irmão não jogou a final". O Rody que explicava o seu tremendo poder de atrair as moças dizendo a frase "É o néctar!" era o mesmo que mandava mensagem pra gente perguntando em qual restaurante (barato) deveria levá-las.

Era difícil não gostar dele. Rody provocava por um lado e envolvia pelo outro, no fim das contas cativando pelos dois, com aquele sorriso leve e radiante de bom garoto, que iluminava qualquer ambiente. Prestativo ainda - como se espera dos melhores professores de educação física -, armava a rede, molhava a quadra, dava aula de altinha às amigas, ajudava as mães a carregar carrinho de bebê pela areia, brincava com as crianças e até consertava bicicleta. No caso, a minha. Rody ajeitou a corrente, mostrou como funcionavam as marchas e em qual eu deveria deixar quando pedalasse pela ciclovia. Depois, claro, passou a dizer para todo mundo: "Eu que ensinei o Pim a andar de bicicleta".

Ele vinha pedalando de Copacabana à Ipanema para praticar o seu esporte favorito, o futevôlei, pelo qual reunia a um só tempo os amigos, a praia, o sol, e as moças da areia e do calçadão, onde gostava de fazer as resenhas no fim de tarde. "Vida!", gritava na quadra, celebrando com a gente a intensidade daqueles momentos, não raro fotografados por alguma turista paparazzi. De todas as suas milhares de fãs, a maior, sem dúvida, era a rede - que, assim como as outras, ele beijava quando podia. Rody fazia tantos pontos com a bola resvalando na fita que, para a sua alegria, batizei aquela jogada sortuda de "Rodice". Todo mundo comete uma "Rodice" de vez em quando. Mas ninguém jamais cometerá tantas "Rodices" quanto o Rody.

Talvez por isso ele abusasse da sorte. Normalmente, ela estava do seu lado. Durante os quase 6 dias de coma após sofrer uma parada cardíaca, era como se a bola estivesse mais uma vez rodopiando em cima da rede, escolhendo em qual lado ia cair. A gente soprou, rezou, cantou, meditou, torceu muito para ela cair do lado de cá. Mas, dessa vez, infelizmente, a rede não ajudou. Rody se foi, e sua morte precoce, assim como sua vida intensa, uniu uma porção de pessoas, criando e fortalecendo amizades, marcadas para sempre pelo fundo comum e inesgotável da saudade: a saudade daquele menino simples e divertido que veio de Barra Mansa ensinar a gente a ser mais carioca. Junto, com ou sem bicicletas e barrinhas de cereal, a gente estará sempre prestando tributo a ele e revivendo a felicidade que ele proporcionava, com sua beleza sem vaidade, seu humor sem cinismo, sua humildade sem hipocrisia.

A maior "Rodice" da minha vida foi ter conhecido o Rody.

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*** Texto de Felipe Moura Brasil, o Pim, lido pelo autor na Missa de 7º Dia do Rodrigo, em 28/10/2011, e publicado no dia seguinte no facebook, com ampla repercussão - AQUI.

2 comentários:

  1. Patrícia Bragalia1 de novembro de 2011 20:16

    Apesar de não saber como vim parar aqui, essa homenagem me fez chorar. Me encontro chorando por uma vida que não conheci, momentos que não vivi...Sim, sei que pode parecer estranho, mas a maneira como o texto foi escrito foi tão apaixonante e envolvente que por um instante pensei e agi como se tivesse feito parte disso tudo. Só me resta agora orar pela família, amigos enlutados e enxugar minhas lágrimas!

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  2. Poxa vida, Pim, que texto comovente, hein?!

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