terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Brasil à luz do Barcelona

"(...) Contra times de várzea, esse futebol infantilizado não raro soa bonitinho, fofo, alegre - e até moleque. Mas a verdadeira molecagem precisa daquele estofo (...) do qual possa emergir de repente causando a sua graça. Sozinha, (...) ela é só uma bundinha teen à espera de palmadas adultas.
 
As da Holanda – lamento dizer -, chegaram em boa hora."

Sim. Isto foi o que escrevi no artigo "Palmadas holandesas", logo após a eliminação do Brasil na Copa de 2010. Troque Holanda por Barcelona, e temos agora a bundinha teen dos "meninos da Vila" levando palmadas espanholas: 4 a 0 na final do Mundial de Clubes, com mais de 70% da posse de bola. O que mudou de quase 2 anos pra cá? Nada. O que mudará até a Copa de 2014? Nada.

O motivo é simples: o Brasil sempre tira as lições erradas das aulas humilhantes que recebe. Foi assim com a seleção de 1982. Foi assim com a seleção de 2010. Será assim com o Santos de 2011.

Em 1982, tínhamos 1 craque (Zico), 4 bons jogadores (Leandro, Júnior, Falcão e Sócrates) e 6 entre ruins e razoáveis (Valdir Peres, Luisinho, Oscar, Toninho Cerezo, Serginho Chulapa e Éder). O Brasil venceu uma única seleção de porte, a Argentina, e isto porque Telê colocou Batista para marcar Maradona. De resto, passou pela União Soviética com a ajuda do juiz, que ignorou dois pênaltis de Luisinho, e por Escócia e Nova Zelândia - grandes seleções de rúgbi e críquete. Quando Gentile anulou Zico, perdemos para a Itália de goleada, apesar de outra ajuda do juiz, que invalidou o quarto gol italiano, contribuindo para maquiar a humilhação.

De um time limitado, grosseiro, que perdeu feio, jogando mal, criou-se o embuste do time que "perdeu jogando bonito", do qual se tirou a lição enviesada de que tínhamos de jogar feio também. Desde então, a mentalidade reinante no futebol brasileiro cultua a caricatura dos extremos: de um lado, o “craque” poético, que deslumbra a multidão com a plasticidade de suas jogadas individuais; do outro, o “marcador” troglodita, sem o qual o primeiro não teria tamanha liberdade. Um ataca, outro defende (descendo o cacete), e enquanto um faz a sua parte, o outro o observa, isento de maiores obrigações.

Aos "poetas", couberam as posições de atacantes e meias. Aos trogloditas, couberam as linhas de zaga e de volantes. Aos "meios-termos" (nem tão habilidosos, nem tão grandes, porém velozes), restaram as laterais. Consolidava-se assim a cultura do posicionamento distorcido, que não apenas engessa o futebol brasileiro até hoje, desde as peladas e categorias de base, como também o mediocriza e desperdiça. Aqui se formam (o que nossos “professores” imaginam ser) zagueiros, laterais, volantes, meias ou atacantes, em vez de se formarem jogadores de futebol.

Na hora de montar um time de base ou pelada, os piores garantem logo suas posições de defesa, e os melhores é que disputam as demais, ficando de fora (da carreira, inclusive) se não conseguirem se impor. Não passa pela cabeça de ninguém adequar os melhores às posições dos piores, porque a marcação está bem mais associada à grosseria do que à técnica (para o desarme) e à inteligência (para a cobertura). O resultado é um país onde meias e atacantes habilidosos parecem deuses da bola, quando não passam de meninos sem adversários minimamente preparados, deixando-se cada vez mais nivelar por baixo.

Hoje é inconcebível no Brasil um jogador completo, capaz de dominar, tocar, lançar, driblar, marcar e, portanto, assumir outras posições durante o jogo, preenchendo os espaços deixados por seus companheiros. A característica proeminente de cada um, fator determinante de sua respectiva especialidade, tornou-se o requisito único (mesmo que falso) para o exercício da mesma, mutilando talentos, isolando jogadores e impossibilitando atuações conjuntas consistentes. Os esquemas mirabolantes dos nossos “professores” são apenas a tentativa pomposa de contornar as deficiências que eles mesmos criaram, com o reforço da imprensa nacional e da CBF de Ricardo Teixeira.

O Barcelona de Guardiola é o triunfo de 11 jogadores completos. Todos se apresentam. Todos atacam. Todos defendem. Todos marcam. Todos cobrem. Todos se movimentam em blocos compactos. Não há afobação (fora um ou outro delírio de Daniel Alves), porque ninguém precisa resolver o jogo sozinho. Todos sabem que o time encontrará os espaços certos, na hora certa, avançando com força total, sob o comando de Xavi. Todos sabem que marcar exige atenção geral, porque a vantagem no mano-a-mano é sempre de quem vem de frente. Todos sabem que só é possível ter fôlego para tudo isso quando se valoriza a posse de bola. Todos, enfim, sabem jogar futebol.

Se Neymar (anulado por Puyol) e Ganso (preciso e preguiçoso) quiserem realmente aprender, terão de jogar na Europa, como venho dizendo há anos. Não só pela estrutura, mas pela cultura de repúdio à mediocridade. O time da Vila Belmiro só tem os dois, ainda em construção, sendo o resto – como eu já havia escrito aqui (e eu já havia escrito quase tudo...) – “um bando de Elanos, tão medíocres quanto os do Flamengo” ou os da seleção argentina, onde nem Messi faz milagre. Jamais oferecerão o estofo necessário para que seus presumíveis talentos façam a diferença em jogos de verdade.

Como Neymar renovou contrato com o Santos até 2014, resta o aviso: prepare a bundinha, Brasil! As palmadas, dessa vez, virão em domicílio.

* Mais artigos e vídeos na profética página de Futebol do Blog do Pim. 

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