quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Juveninho e as tijucanas do Brasil



Juveninho está ficando careca.

Este é seu último verão com bordas no telhado, e ele precisa garantir o quanto antes uma morena vitalícia. Mas onde ela está? Onde está “A” morena capaz de unir a simplicidade alegre da Zona Norte ao horizonte mental da Zona Sul? Ou melhor: onde está a simplicidade? Onde está o horizonte? O Rio de Janeiro, diz Juveninho, virou uma Tijuca sem fim. A Faixa de Gaza engoliu Israel e Palestina. Glu, glu!

Para os dois lados, alastrou-se o espírito das tijucanas de raiz, arremedos de patricinhas reconhecíveis a quilômetros, segundo Juveninho, pela silhueta rechonchuda, marca indelével da preguiça de malhar somada a muito “chopinho” com batata frita ao molho cheddar em nights e happy hours. Assim como as barrenses de origem Zona Norte (espécies, ao menos, mais atléticas de tijucanas, diz Juveninho), elas tanto mais revelam sua cafonice quanto mais tentam camuflar suas raízes entre brilhos multicoloridos (nos olhos, na roupa, no cinto...), blushes, bases e batons, todas eternamente vestidas pela mamãe para uma festa de 15 anos.

Para Michelangelo, a beleza era a purgação do supérfluo. Para as tijucanas, diz Juveninho, o supérfluo é a condição da beleza: o único passaporte para o clubinho de “gente bonita”, onde buscam sem sucesso a redenção para o estigma de suburbanas. É por isso que a Zona Norte, na concepção elogiosa de Juveninho, começa depois do Méier. Quanto mais perto da Zona Sul, mais extraviada, caricatural e infantilizada é a tentativa de elegância. Quem quer tanto se diferenciar da “gente feia” (vulgos pobres, ele traduz) acaba virando um ET.

No verão carioca, com o desembarque de “tijucanas” de todo o Brasil, é como se o Rio de Janeiro fosse sequestrado por extraterrestres, com a diferença, segundo Juveninho, de que, ao menos nos filmes, os extraterrestres nunca vieram com peitos de borracha. Disseminado pelo exemplo supremo das celebridades – a imensa maioria delas, no mundo real, um notório fracasso em matéria de vida amorosa –, o silicone é, para Juveninho, a mais emblemática de todas as caipiradas, mais até que a bolsa rosa shock com detalhes e corrente em dourado.

Se peitões atraem homens, como dizem os “especialistas”, ninguém senão Juveninho parece perguntar que tipos de homens são esses, nem qual a importância ou a durabilidade dessa atração, sobretudo após a revelação da farsa (o que, em alguns casos, segundo Juveninho, só ocorre mesmo através da análise tátil, entre quatro paredes e dois ou três espelhos). No país da diversão obsessiva, a popularidade do silicone, diz Juveninho, é a prova de que o horizonte mental das moças é do tamanho de uma noitada. O que faz sucesso na Quartaneja da Melt traz felicidade para a vida inteira. Afinal, imita Juveninho, “a blusinha veste melhor...”

Em termos de caipirada, ele compara, só chega perto do silicone (a rigor, o motiva) o deslumbre por galãs de novela, cinema, música e esportes, exercido diariamente no facebook por “tijucanas” virtuais que não veem a menor incompatibilidade entre esse despudor público e o sonho de viver um grande amor. Acham natural que seus futuros ou atuais namorados saibam exatamente quem são os homens que lhes deixam loucas, tendo eles a obrigação de não dar a mínima bola para isso. Confessam entre risos a milhares de “amigos” (dos amigos dos amigos...) suas fantasias eróticas com ilustres desconhecidos, e depois ficam frustradas (para não dizer revoltadas) quando os conhecidos menos ilustres a realizam e vão embora.

Essas moças, diz Juveninho, encomendam o chifre e o pé na bunda com tanta antecedência que, quando eles chegam, elas já nem se lembram mais que foram elas que pediram (muito menos, lembra Juveninho, que foram vistas sem maquiagem pela manhã...). Passam então a postar milhares de citações pseudoliterárias de mulher mal amada, retiradas de seriados de TV e revistas masculinas, femininas e de domingo, cuja única função é incitar o rancor por quem não as escolheu. Juveninho lhes devolve, então, a responsabilidade: quando a mulher abandona o pudor, ele ensina, mais cedo ou mais tarde todo homem a abandona.

Assim como o acesso à internet expõe a um bombardeio de informações (e ao ridículo, conclui Juveninho) pessoas absolutamente despreparadas para absorvê-las, o acesso a novos bens de consumo, em tempos de crescimento econômico, desperta a cafonice adormecida do povo. E quando até as elites estão esvaziadas de espírito, e desprovidas portanto dos sensos de hierarquia e de estética que só a imersão numa cultura superior lhes transmitiria, o resultado, diz Juveninho, é a tijucanização geral do país. Não à toa, quando anda pelas ruas do Leblon, Juveninho se sente no presente alternativo de “De volta para o futuro”, buscando um meio de voltar ao passado para impedir que Biff Tannen receba o almanaque que o levará ao poder.


Juveninho, porém, nasceu há dez mil anos (porque “atrás”, ele diz, é coisa de Paulo Coelho) e lembra que Lima Barreto, há quase 100, já descrevia a opção brasileira pelo fingimento: “Não há na maioria daquela gente uma profundeza de sentimento que a impila a ir ao âmago das coisas que fingem amar, de decifrá-las pelo amor sincero em que as têm, de querê-las totalmente, de absorvê-las. Só querem a aparência das coisas...” Estética e socialmente, define Juveninho, o Brasil de hoje é uma macaqueação cíclica de tijucanas (de raiz, de elite e de TV), umas tentando aparentar as outras, numa imensa e apatetada histeria consumista, onde todas as relações, como as chapinhas, se esvaem à primeira gota de chuva. Tóin!...

Os amigos, dessa vez, escutam Juveninho em silêncio. Não ousam discordar de seus comentários, nem apontar suas incoerências. Não vão sequer acusá-lo de ressentimento por alguma tijucana patricinha (pleonasmo!, grita Juveninho) que teria se recusado a dançar com ele a valsa eterna dos 15 anos. Muito menos espalhar que Juveninho foi visto na Melt com uma extraterrestre de bolsa rosa shock com correntinha dourada. Em hipótese nenhuma, tentarão convencer Juveninho das delícias do chopinho com batata frita e dos peitões de silicone com molho cheddar.

Ninguém tampouco insinuará que Juveninho esfrega minoxidil nas “entradas” e toma finasterida todas as noites, com medo de perder a vaga no clubinho de “gente bonita”, onde, aliás – eles não resistem – suas musas sempre lhe deram bola preta. Nada disso!, eles gritam. Juveninho está ficando careca, e o médico mandou não contrariar. Por isso, todos estimulam a continuação da busca juveniniana por uma morena terráquea, sincera e elegante em sua simplicidade, limitando-se apenas a consolar com amor e afeto o cabeçudinho do grupo:

“Calma, Juveninho. O boné veste melhor...”

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