quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A droga da beleza

E lá vão elas, fugindo de si, ao contrário das cadelas que, ao correr atrás do rabo, ao menos podem se alcançar fisicamente.

Vão aniquilando férias com pacotes de turismo, como quem subtrai o tempo vindouro em pinceladas de cartão de crédito, sonhando encontrar em paisagens desconhecidas a liberdade, a independência, o desafogo do tédio e dos limites do ambiente social imediato, dos quais só concebem escapar pela distância geográfica.

Vão colhendo em fotografias os cenários que melhor se encaixam à sua vaidade, formando com eles um conjunto de beleza natural e humana em seu estado mais bruto e hipnotizante, a cegar de paixões febris aqueles que o contemplam virtualmente de longe, paralisados diante de uma imagem que lhes promete a felicidade eterna, sem avisar que, na prática, jamais poderá proporcioná-la.

Entre pulos, bebidas e sorrisos, elas percorrem as mais fabulosas praias, cachoeiras e montanhas, reconhecendo em cada vista deslumbrante uma oportunidade de se fazerem ainda mais belas e desejadas, até o ponto inevitável de esquecerem o caminho de volta: aquele pelo qual desceriam do pedestal (a rigor, da prateleira) de objeto de desejo para o chão de sujeito interessado, oferecendo aos outros muito mais que um vislumbre de sua pele queimada de sol.

Sem atinar que a fotogenia feminina em recantos paradisíacos é um ideal publicitário de plenitude, elas o perseguem junto às amigas, conscientes do valor que obterão no mercado dos homens, tão sedados pela droga onipresente da beleza imediata que já não sabem reconhecer as demais qualidades - morais, intelectuais, de senso de humor - necessárias à sua satisfação amorosa em longo prazo.

Quanto mais elas se expõem pelo mundo real e virtual, mais eles se embriagam de desejo. Quanto mais elas inflam - às vezes, literalmente - seus atributos, mais eles inflam a atração que elas despertam. E ambos inflados, iludidos do que podem sustentar na realidade, desencontram-se diariamente, deixando um rastro de rancores, angústias e paixões descabidas que torna o ciclo cada vez mais frustrante.

Se sempre haverá plateia para o exibicionismo das musas, estranho é que tão poucos consigam tocar a vida a despeito delas.

Um comentário:

  1. Muito bom Pim! Concordo com o q vc disse, mas tem vezes que é difícil sair deste ciclo, pois muitos homens alimentam o ciclo, mas chega de tanta exposição!
    E vc não consome estas belezas?
    Para mim, vc está sempre atento a cada movimento de suas musas.

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