sábado, 28 de abril de 2012

Supremo jeitinho brasileiro

[Publicado originalmente no facebook - aqui.]

- Quer fazer apologia da maconha?
O STF autoriza a marcha.

- Acha injusta união civil só "entre homem e mulher"?
O STF libera homem e homem também.

- Sente-se discriminado pela cor da sua pele?
O STF garante sua vaga na faculdade.

- Está insatisfeito com seu filho anencéfalo?
O STF dá licença para matá-lo.

Aproveite! A lei agora é uma questão de "sentimento".
Em caso de angústia, vá direto ao ministro Ayres Britto.

Não deixe para o Congresso [ou divã, ou confessionário] o que você pode resolver no STF.

Brasil - Um Jeitinho de Todos

* Os 100 primeiros pedófilos que apresentarem suas vidas sofridas ganharão um par de criancinhas.
 ** Prêmio sujeito ao "sentimento" do dia.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A jovem beldade

[Publicado originalmente no facebook - aqui.]

- Qual é o seu sonho, filha?
- Ser bonita.
- Mas isso você já é.
- Quero ser mais.
- Eu estava falando de projeto de vida...
- Eu também.
- Minha filha!
- Que foi?
- ...
- Fica tranquila, mãe, eu não quero ser puta.
- O que você quer fazer?
- Qualquer coisa que as moças bonitas têm direito.
- Direito?
- Qualquer coisa que as moças bonitas costumam fazer.
- Que são...
- ...eventos, desfiles de moda, fotos de sites e revistas, programas de TV, viagens, álbuns de facebook...
- Álbuns de facebook?
- É a consequência, né, mãe? Quem tem o resto tem o álbum.
- E isso rende o quê?
- Bom, o "resto" rende o acesso, mãe. Acesso é tudo.
- Acesso a quê?
- Acesso aos meios de gente bonita, cool, chique, vip... Artistas, atletas, empresários... Enfim, gente badalada.
- Badalada por quem?
- Por todo mundo, ué. Menos por gente chata.
- Entendi: existem o mundo dos badalados e o dos chatos. Melhor eu não perguntar a qual pertenço.
- É melhor mesmo.
- E o álbum?
- O que tem o álbum?
- O que ele rende, filhinha?
- Rende elogios, desejos, invejas, rancores... As mulheres querem ser como a gente. Os homens querem ter a gente.
- E "a gente", no caso, gosta disso?
- A gente adora, mãe!
- E que mulheres são essas? Que homens são esses?
- Todas e todos, ué. Até as chatas e os chatos, embora finjam que não.
- Isso é o que você presume?
- Isso é a realidade, mãe.
- Mas você quer ser possuída ou quer ser amada?
- Ai, mãe, larga de ser cafona...
- Então me diz: quando a beleza acabar, você...
- Quando a beleza acabar!? Tanta coroa enxuta por aí, mãe... Hoje se compra juventude na farmácia, você devia olhar as promoções.
- Obrigada pela dica, filhinha, você é um amor.
- Disponha. Alguma outra dúvida?
- Qual é o tipo de homem que você deseja?
- Um muito gato, cavalheiro, carinhoso, bem-sucedido...
- Um que renda ainda mais... como é mesmo?... "acesso"...
- Esse mesmo!
- Mais elogios, desejos, invejas, rancores...
- Isso, mãe! A senhora me entende!
- Mais chifres, dores de cabeça, filhos bastardos...
- Ai, mãe, a senhora não entende nada...
- É... Eu só entendo de chatos, como seu pai.
- Tô vendo... Eu já tenho um monte desses atrás de mim.
- Tem, é?
- Aham.
- Espere só até eles conhecerem você um pouquinho melhor.
- Quem diria, hein... Subestimando o poder da filha...
- "Isso é a realidade", meu bem. A beleza atrai, e atrai até os bons. Mas o que segura é outra coisa.
- O sexo...
- O sexo? Hum... O sexo amarra, dá um nó. Mas o que não deixa arrebentar é outra coisa.
- "A beleza atrai. O sexo amarra. Mas o que não deixa arrebentar é outra coisa." Muito profundo, mãe! A senhora devia postar isso no face!
- Bem em cima de "Acesso é tudo"?
- Pode ser embaixo!
- É... Quem sabe, as beldades se interessariam em ter "acesso" a "outra coisa"...
- Seja lá o que isso for...
- E qual é o próximo passo do seu projeto?
- Colocar peito.
- Mas isso você já tem.
- Quero ter mais.
- Para atrair mais?
- Isso!
- Mais bocós, mais cafajestes, mais pilantras...
- Ai, que saco!
- Ô...
- Você devia, como mãe, me incentivar a realizar meu sonho.
- Só estou me certificando de que você o entende.
- Eu o entendo perfeitamente!
- "Tô vendo"...
- Você é muito preconceituosa. Mulher bonita também pode ser inteligente, sabia?
- Ah, agora estamos dando nome aos "chatos"...
- Nem todos os inteligentes são chatos.
- Sei... E a inteligência é mais uma daquelas coisas que o "acesso" dá? Vem presa na pulseirinha vip?
- Vem! Vou trazer uma do próximo evento pra você.
- Ah, filha, obrigada.
- Imagina, mãe, "você é um amor".

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Di Matteo não é brasileiro

"Retranca" no futebol é como "educação" na cultura: uma síntese que todo mundo usa, com a maior autoridade, pensando ter explicado tudo. Por que o time ganhou? Porque armou uma retranca. Por que perdeu? Porque armou uma retranca. Times ganham, perdem e, sobretudo, arrancam empates porque armam retrancas, assim como países são mais ou menos civilizados "por causa da educação". Mas e daí? Que las hay, las hay. A questão é: por que diabos são boas ou ruins? Burras ou inteligentes? Necessárias ou covardes? Feias ou bonitas?

No Brasil, todo mundo reclama de retranca. É coisa de Zagallo, de Lazaroni, de Dunga, de Joel. Algo compreensível, até: nossas retrancas, normalmente, são uns desastres. Ruins, burras, feias e covardes. Mas daí a achar que todas são como as nossas é puro provincianismo futebolístico. Real Madri e Chelsea aprenderam a jogar contra o Barcelona porque: 1) reconheceram sua superioridade ofensiva, o que, ao contrário do que se pensa, não significa superioridade total; 2) armaram retrancas boas, inteligentes, necessárias e bonitas.

Isso mesmo: bonitas. Há beleza na humildade, no desarme e na cobertura. Há beleza em blocos compactos impedindo craques de serem craques. Há beleza em contra-ataques precisos.

As três entradas de Lampard em Fábregas, além da joelhada por trás e fora do lance de Terry em Alexis Sánchez, que resultou em expulsão, foram lamentáveis, é verdade, mas não apagaram o show de desarme e cobertura do Chelsea de Di Matteo. Uma marcação coletiva inconcebível para o futebol brasileiro, com três, às vezes quatro jogadores cercando Messi quando a bola lhe chegava aos pés. É assim que se marca um bom e veloz driblador: com gente próxima na retaguarda, impedindo os dribles espaçados em fila. O grau de atenção, solicitude, técnica e preparo físico necessário para fazer isso, sem deixar tão livres Xavi, Iniesta e os demais, não é para um time qualquer. É para um time de defensores obstinados e inteligentes, orientados a ocupar os espaços certos.

Se, dentro de campo, existe algum sentido na palavra "comprometimento", tão repetida no Brasil dunguista, é justamente o da responsabilidade individual que cada jogador assume de desempenhar a sua função, incluindo as duas tarefas mais renegadas cá no país dos sonsos: cobrir os companheiros e oferecer-lhes alternativas quando estão com a bola. O Chelsea falhou duas vezes na primeira parte, deixando a zaga no mano-a-mano, e levou dois gols (Busquets e Iniesta) do Barça, o time mais "comprometido" do mundo com a segunda. Em compensação, Ramires - esta exceção nacional - arrancou da cabeça-de-área para o ataque, recebeu belo passe de Lampard e fez um golaço por cobertura antes do intervalo, mostrando que retranca boa também tem alternativas ofensivas.

Como chamar de medíocre ou covarde um treinador que, mesmo sob enorme pressão, com um jogador a menos, substitui um atacante por outro (o marfinense Drogba pelo espanhol Fernando Torres), em vez de reforçar a zaga, como queria Galvão Bueno e como faria qualquer Joel Santana? O pênalti batido por Messi no travessão parece ter apenas renovado a confiança de Di Matteo na extraordinária capacidade defensiva de seu time. Sabendo que Torres (como Drogba) não é um típico atacante brasileiro incapaz de marcar, o treinador confiou nele para dar o primeiro combate, mantendo ainda a possibilidade de gol em contra-ataque rápido, o que acabou de fato acontecendo, com drible no goleiro e tudo, para calar a boca do Galvão, como ele mesmo foi obrigado a admitir.

Aqui é assim: nossos zagueiros são tão ruins, e nossos atacantes tão mimados, que, na hora do sufoco, queremos sempre mais um zagueiro, para compensar em quantidade - ou violência - a falta de consistência geral.

A derrota do Barça para o Chelsea (no placar "agregado") na Liga dos Campeões, assim como para o Real Madri no Campeonato Espanhol, não foi "o triunfo da mediocridade", não, como afirmou Reinaldo Azevedo. Foi, com muita categoria, o triunfo da inteligência obstinada sobre o talento criativo, o que é sempre fundamental para a evolução deste último, desde que não sucumba às lições enviesadas daqueles que se valem do fracasso dos bons para impor a necessidade da sua grosseria (como aconteceu após a eliminação da seleção brasileira da Copa de 1982, embora ela não fosse tão boa quanto se diz. Ver meu artigo: "O Brasil à luz do Barcelona").

O futebol europeu tende a se nivelar por cima, ao contrário do nosso, no qual a disputa diária, hoje, como em toda a "cultura" verde-amarela, é pela taça da baixaria: vale tudo para ver quem é mais grosseiro, sonso, fanfarrão, mercenário e desinteressado de ser e jogar melhor. E quanto mais o futebolês deslumbrado da imprensa encobre essa realidade com expressões vagas ou vazias de sentido (eu nunca vi, por exemplo, um "volume de jogo" meter um golaço), menos conscientes ficam os torcedores, treinadores e jogadores, cada vez menos capazes de entender o que está acontecendo e mais sujeitos a engodos e decepções profundas, a despeito dos indícios mais óbvios, como era o caso de Ronaldinho Gaúcho. (Renato Maurício Prado escreveu "quem diria", ao que devo responder: eu não diria, ora; eu disse.)

A pior de todas as retrancas é sempre a literária, porque entorpece a vida mental de todo mundo.

Para a sorte do Chelsea, e para o bem do futebol, Di Matteo não é brasileiro.

*****

Pós-escrito das 18:40: Kaká entrou no fim, errou tudo como de hábito, perdeu pênalti, e o Real Madri foi eliminado da Liga dos Campeões pelo Bayern (que fará a final contra o Chelsea). Mas, por enquanto, eu ainda admiro Kaká em um ponto: ele fica no banco, passa vergonha, mas não volta para o futebol brasileiro.

Pós-escrito de 5 de maio: O Chelsea de Di Matteo é campeão da Copa da Inglaterra, após derrotar o Liverpool por 2 a 1. A propósito, comento: quando vejo um atacante como Drogba roubando a bola na lateral-direita aos 48 minutos do segundo tempo, penso como é pequeno o futebol brasileiro.

Pós-escrito de 19 de maio: O Chelsea, mesmo sem Ramires, aguentou a pressão do Bayern, em Munique, e conquistou nos pênaltis a Liga dos Campeões. Mais um triunfo da inteligência. A glória - merecida - de Di Matteo.

* Mais artigos e vídeos na profética página de Futebol do Blog do Pim.

sábado, 21 de abril de 2012

Enfim, um BBB a ser visto

Vitória é a protagonista do meu reality show favorito.

Ela dorme esparramada. Espreguiça-se. Rola na cama. Tenta engatinhar. Ouve música. Passeia no parque. Brinca no balanço. Alonga na bola. Toma banho. Geme com cafuné. Sorri durante os parabéns pelos seus 2 anos. E dá impulso com os pés para deslizar o skate pelo corredor.

Cada vídeo dura em média 1 minuto, e este último é o mais radical. Nunca imaginei que alguém "sem vida" ou com uma "sobrevida vegetativa" andasse de skate. Mas Vitória anda. Devagar, é verdade. Mas talvez melhor que os ministros do STF. Basta o pai encostar o pezão em seu pezinho que ela o empurra com força e... vruuum!

Sua mãe, Joana Schmitz, é autora do blog "Nossa amada Vitória de Cristo". Em uma tripla crítica à reportagem do site G1 sobre Vitória, ao diagnóstico à distância do Sr. Thomas Gollop (da USP) e ao comentário de um leitor do seu blog, ela dá uma aula imperdível de jornalismo, medicina e internet.

Joana aponta, inclusive, o mais velado dos preconceitos: o de que "essa mãe é uma ignorante que está (...) inventando que sua filha 'vegetativa' reage a estímulos e tem vontades". O ódio aos valores cristãos, aponto eu, tem este efeito prático na moralidade comum: quanto maior o gesto de doação e abnegação, mais ele é aceito como sintoma de ignorância, de loucura, para não dizer de pura otarice.

É por isso que os abortistas são os primeiros a disseminá-lo. Não se sacraliza o alívio imediato sem se destruir a eterna fonte do amor ao próximo.

A existência de Vitória de Cristo pode até ser um peso. Mas só para aqueles cujas tentativas de desumanização dos anencéfalos ("sem informação, sem base, sem escrúpulos e sem respeito") não suportam um contraexemplo vivo.

Para os pais, Vitória é apenas filha - e seja inteira, sem braço, sem perna ou sem calota craniana nem couro cabeludo, filha é filha.

Os fetos que supostamente se tornariam Vitórias têm hoje menos direito à vida que os demais. É um escárnio à Vitória. Uma distinção moral e juridicamente repugnante.

Mas ela, como qualquer menina de sua idade, felizmente não está nem aí.

E, vruuum, desliza pelo corredor.


Mais vídeos de Vitória - AQUI.
Sobre o aborto, leia também: E os patinhos?, Mães mimadas e O golaço de Peluso.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O exemplo imortal

[Publicado originalmente no facebook - aqui.]

Oswaldo Moura Brasil com seus três filhos, após a apuração dos votos
no edifício da Academia Nacional de Ciências, no Centro do Rio

Parabéns ao mais novo imortal da Academia Nacional de Medicina: o meu pai, Oswaldo Moura Brasil, eleito ontem com 46 votos contra 32 do atual presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

É o reconhecimento de uma carreira brilhante como oftalmologista, da qual a família sempre se orgulhou e cujos maiores beneficiários, além dos jovens doutores que aprendem com ele os segredos da profissão, ainda são seus milhares de pacientes diretos e indiretos.

Eu, filho e paciente direto do "Dr. Moura", fiquei aliviado ao saber que a douta maioria dos acadêmicos teve a coerência de escolher para a sua Secção de Cirurgia um dos maiores cirurgiões de retina do mundo, aquele que passou a operar em menos de 40 minutos o que muitos se gabavam de operar em mais de 4 horas.

Enquanto a Academia Brasileira de Letras (ABL) elege "escritores" como José Sarney e Merval Pereira, e homenageia ases da literatura como Diogo Nogueira e Ronaldinho Gaúcho, a Academia Nacional de Medicina mostra que ainda é possível fazer jus ao nome, elegendo médicos de verdade.

Parabéns, ANM, por imortalizar o exemplo que eu já tinha em casa.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Rainha Sonsa e o país dos sonsos

[Notas publicadas originalmente no facebook - aqui, aqui e aqui] 

1. [17/04]

De Hillary Clinton sobre Dilma: "a luta dela contra a corrupção está estabelecendo um exemplo global". Faz sentido. Dilma nomeia ministros corruptos; a imprensa (leia-se Veja) descobre suas fraudes; e Dilma demite aqueles (6) que já estão com a corda no pescoço. Um exemplo global de "luta contra a corrupção". Contra aquela, claro, que ninguém mais consegue esconder.

Enquanto isso, Lula, José Dirceu e o presidente do PT, Rui Falcão, pretendem usar uma CPI destinada a investigar as relações do bicheiro Carlinhos Cachoeira com o Poder Público para esconder os crimes dos mensaleiros, aquela gente envolvida no maior escândalo de corrupção da história da República, que levou o próprio Lula a pedir desculpas pelo partido em 2005, dizendo que se sentia traído.

Mas Dilma nada tem com isso. Nem com as obras superfaturadas do PAC. Nem com os 25 mil cargos de confiança da administração federal. Nem com a ministra Ideli Salvatti, que encomendou lanchas a uma empresa de petista, sem licitação, como forma de retribuir a doação recebida durante sua campanha para o governo de Santa Catarina. Dilma, em suma, nada tem com nada.

É por isso que a considero muito mais representativa do caráter nacional do que Lula, Dirceu e Falcão. A vigarice ativa e atuante é para poucos. O Brasil de hoje, em geral - e o facebook não me deixa mentir -, é apenas um país de sonsos, à espera de elogios imerecidos. 

2. [17/04]

Mais do que nunca, é preciso lembrar Nelson Rodrigues:

"O mundo só se tornou viável porque antigamente as nossas leis, a nossa moral, a nossa conduta eram regidas pelos melhores. Agora a gente tem a impressão de que são os canalhas que estão fazendo a nossa vida, os nossos costumes, as nossas ideias. Ou são os canalhas ou são os imbecis, e eu não sei dizer o que é pior. Porque você sabe que são milhões de imbecis para dez sujeitos formidáveis."

Nelson Rodrigues, em entrevista para a Playboy (1979)

* Hoje, não há mais dúvidas: são os canalhas que estão fazendo a nossa vida, os nossos costumes, as nossas ideias. Mas, para dez sujeitos formidáveis (ou 9; 8; 4...), ainda há milhões de imbecis para cair em sua conversa.


3. [16/04]

Hoje, aniversário do Papa Bento XVI, convém lembrar uma de suas melhores frases:

"Quando se chegou ao consenso de que uma criança, que se supõe nascerá com deficiências, deve ser abortada para poupar, a ele e às outras pessoas, o peso da sua existência, está-se a fazer um escárnio a todos os deficientes: está-se a dizer-lhes que só existem porque a ciência não tinha ainda alcançado o progresso atual."

Cardeal Joseph Ratzinger (Cristianismo y Democracia Pluralista, in Scripta Theologica 16, 1984/3)

* Parabéns, Bento XVI, por ter mostrado há tanto tempo o quanto o Brasil petista de hoje escarnece de seus deficientes.

*****

Adicione e acompanhe Felipe Moura Brasil no facebook - AQUI.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O golaço de Peluso

No dia em que o Flamengo de Ronaldinho Gaúcho (que, modéstia à parte, vaiei desde o primeiro jogo) foi eliminado da Libertadores, e a torcida arco-íris fez a festa real e virtual, o Brasil, apesar do golaço de Cezar Peluso, tomou uma goleada histórica de 8 a 2 para a Seleção da Morte, vulgo 'time do PT'.

O jogo fora transferido do estádio do Congresso Nacional para o do Supremo Tribunal Federal, porque é lá que as regras são agora alteradas diretamente pelos membros indicados pelo partido governante, longe dos olhos da torcida e da responsabilidade de seus representantes eleitos.

Tudo na moita, para ninguém se dar conta do vexame.

A Seleção da Morte ergueu a Taça da Legalidade, conquistando a aprovação do aborto de fetos anencéfalos, passo fundamental para a legalização irrestrita.

Mas ela jamais poderá apagar (a não ser do YouTube) a jogada genial, os dribles desconcertantes e a conclusão precisa de Cezar Peluso.

Que, à luz de seus melhores lances, possamos sempre lembrar que, apesar da derrota inevitável, o gesto de grandeza fica.

*******



Seguem os principais momentos do golaço de Peluso (que aplaudi em tempo real e que, a seu modo, traduz muitas das ideias presentes no Blog do Pim, como nos textos "E os patinhos?" e "Mães mimadas"):

2min
VALOR DA VIDA

"A ordem constitucional (...) declara, sobreleva e assegura valor supremo à vida humana."

3 min
TEMPO DE VIDA X ANTECIPAÇÃO DA MORTE

"A compreensão jurídica do direito à vida legitima a morte dado o curto espaço de tempo da existência humana? Por certo que não."

"É mister, todavia, comparar o caso do anencéfalo com outras situações incômodas de angústia ou de sofrimento extremos, mas que não autorizam de per si a decretação da morte do paciente."

"A vida humana (...) não pode ser relativizada."

"A dignidade imanente à condição de ser humano não se degrada nem se decompõe só porque seu cérebro apresenta formação incompleta."

"O tempo de vida pode, sob tal avaliação, ser reduzido também noutras muitas hipóteses, como, por exemplo, a de doenças fatais incuráveis, que não autorizam de modo algum a chamada 'antecipação terapêutica da morte', como para atenuar-lhe o senso comum de reprovabilidade ética e jurídica (...)"

12 min
PROPRIEDADE DA VIDA

Peluso dá o exemplo real de um anencéfalo que chorou.

"Quem não tem vida chora?"

"Se se autoriza o aborto de anencéfalo, por que não se admite que seja eliminado depois do parto, antecipando-lhe, doutro modo, a morte inevitável?"

"A falta de juridicidade do ato é exatamente a mesma."

Peluso explica ainda "o fato de a mãe não ter poder jurídico de disposição sobre o filho ou a filha anencéfalos".

"Tem-se no caso da anencefalia OUTRA vida em jogo, em relação à qual a ninguém é dado comportar-se como dono de coisa."

"Não importa o grau de sua viabilidade de vida extra-uterina, nem o prognóstico de sua sobrevida, é sempre ser humano, do qual não se pode desvencilhar como se fosse um material genético congelado."

18 min
IMPRECISÃO DOS DIAGNÓSTICOS

"Se há dúvidas de diagnóstico, muitos abortos serão autorizados para casos que não são de anencefalia."

Citando um médico: "É inegável que o estado atual da medicina não permite a identificação precisa de anencefalia em 100% dos casos (...) Nem sempre a medicina pode garantir que o caso seja de anencefalia."

Peluso dá o exemplo da menina de 1 ano que passou por todos os exames, e os médicos não chegaram a um acordo se ela é anencéfala ou não.

"Como dirão que, dentro do útero, com ultrassom, eu tenho 100% de certeza se a criança é anencéfala?"

Peluso deixa claro ainda que, mesmo que houvesse precisão e certeza no diagnóstico, ainda assim o aborto seria censurável e vedado pela ordem jurídica.

23 min
SOFRIMENTO E HUMANIDADE

"É evidente que ninguém ignora a imensa dor da mãe que carrega no ventre um ser cuja probabilidade de vida é incerta."

"Mas a questão é saber se, do ponto de vista estritamente jurídico constitucional (...)", esse sofrimento "comporia razão convincente para autorizar a aniquilação do feto anencéfalo por meio da eufemisticamente chamada 'antecipação terapêutica do parto'."

Peluso afirma que NÃO.

Chama de superficial a comparação do sofrimento da mãe à "tortura", porque esta "só se pode cogitar com seriedade quando algum sofrimento INJUSTO e INTENCIONAL possa ser esquivado de maneira compatível com o ordenamento".

"Quem estaria de indústria a aplicar tortura à mãe?"

Peluso diz, então, uma frase para a posteridade:

"A NATUREZA NÃO TORTURA."

"O sofrimento em si não é alguma coisa que degrade a vida humana. É elemento INERENTE à vida humana."

"O remorso também é forma de sofrimento."

"E o que o sistema jurídico não tolera não é o sofrimento em si. É a absurda pretensão de erradicar da experiência humana as fontes de sofrimento."

"Nem quero discorrer sobre o aspecto moral e ético - não me interessa - de como o sofrimento pode, em certas circunstâncias, até engrandecer pessoas. Por isso não revelo a discussão do caso."

"Só quero relembrar que o sistema jurídico repudia em relação ao sofrimento apenas os atos injustos que o causem. O sofrimento provindo de um ato antijurídico, esse não pode ser admitido pela ordem (...), mas não é esse o caso de eventual sofrimento materno ou, pelo menos, não é a regra."

"E parece-me absurdo qualquer pretensão muito mais do que utópica de o ser humano não ter sofrimento."

"Não há como fazer cessar, de maneira legal, sofrimento que não é nem justo nem injusto perante a consciência humana, sem a arbitrária convalidação judicial da prática do crime de aborto."

29 min
EGOCENTRISMO E PRAZER

"Apoiar-se nas ideias de liberdade pessoal, inexistente quando se cuida da tipificação de crime de tortura, onde não há sofrimento injusto nem intencional, reflete apenas - não posso deixar de dizê-lo - uma certa atitude egocêntrica, enquanto sugere uma prática cômoda de que se vale a gestante para se livrar do sofrimento e da angústia, que são reais, sobrepondo ao sentido ético de respeito que o pacto pressuposto instaurador da civilização e da cultura consagrou à vida humana atender a solicitações primitivas do princípio do prazer."

"Tal ansiedade, que, voltada para si mesma, depende da história e da conformação psíquica de cada gestante, é exaltada na proposta, em detrimento do afeto, da piedade, da compaixão, da doação, da abnegação, que participam da dimensão de grandeza do espírito humano!"

"Os males de que padecem a mãe, no entanto, não lhe foram provocados injustamente por terceiros, como se dá no caso de gravidez oriunda de estupro, nem lhe ameaçam de modo algum a vida por hipótese, nem tampouco lhe degradam ou aviltam a dignidade pessoal."

"A causa de seu sofrimento natural e compreensível é o acaso genético enquanto falha da própria natureza humana, donde não lhe ficar título jurídico válido para obstar a dor mediante sacrifício de vida alheia inocente."

"A vida humana, hospedada na carne frágil do feto imperfeito, não pode, a despeito da fortuita imperfeição, que não lhe subtrai dignidade jurídica imanente, ser destruída a fórceps para satisfazer sentimento quase sempre transitório de frustração e de insuportabilidade personalíssima de uma dor, ainda que legítima."

"Não há nesse esquema de ponderação de bens jurídicos tão manifestamente desproporcionais - sofrimento e vida - critério algum capaz de equilibrar ou compensar valores jurídicos díspares, nem de justificar, isto é, tornar justo o sacrifício desnecessário da vida em nome da tutela de um sofrimento, cujo objeto é apenas livrar-se de uma dor que não é justa nem injusta, mas apenas humana."

32 min
ESTUPRO X ANENCEFALIA ou VIOLÊNCIA IMPOSTA X ESCOLHA COM RISCOS

"No aborto justificado por estupro, a mulher é vítima de crime ignominioso e engravida à força em decorrência de ação violenta e ilícita, e imputável exclusivamente a outro."

"A concepção como obra da ação alheia delituosa não foi desejada pela mulher, nem sequer proveio de hipótese de descuido de prevenção da gravidez, donde justamente lhe repugna manter a gravidez, aqui sim, como consequência inevitável de uma violência odiosa e sobremodo injusta, em situação de todo e em todo muito diversa daquela em que o casal concebe, no exercício pleno de sua liberadade sexual, o filho que só por infortúnio calha ser anencéfalo."

"No caso da anencefalia, como o relato de muitas das gestantes que passaram pela amarga experiência, o filho era esperado, querido e amado."

"Neste caso, a gravidez intencional ou fortuita não decorre de nenhum ato de violência, mas do cabal exercício da liberdade (...)."

35 min
INJUSTIÇA E RISCO DE MORTE

"Há, perante ela [a questão jurídica], 'injustiça' na condição da mãe que recebe a notícia de que o feto é anencéfalo? Se há, terá sido causada e só pode ser explicada em outros planos, místicos ou esotéricos, jamais na província estritamente humana do Direito."

"Quem somos nós para falar e decidir acerca de justiça 'subespecie eternitatis'?"

"Como a concepção de feto anencéfalo deriva em regra de relação espontânea e consentida entre homem e mulher, pode-se dizer que a ação criadora foi livre na causa, não restando dúvida de que sua consequência, a gravidez normal ou anencefálica, não pode ser interrompida sob nenhum pretexto, sem expressa disposição legal."

"Por isso a gravidez oriunda de estupro recusa toda comparação sensata à mera gravidez indesejada, a qual, apesar de ser também em tal sentido involuntária, poderia, em circunstâncias normais, ter sido prevenida. O rompimento de preservativo ou falha de métodos contraceptivos não constitui - ninguém duvida - escusas jurídicas à prática abortiva."

"O argumento de que a gestação de anencéfalo seria perigosa para a mãe não vem ao caso, porque todas as hipóteses de risco à vida da genitora já estão sob o pálio do chamado 'aborto terapêutico' (...)".

"Toda gravidez implica risco teórico à saúde da gestante, mas nem por isso a lei torna lícito o ato de aborto sem prova de risco concreto e grave, cuja atualização seja capaz de provocar-lhe a morte e só possa ser evitada mediante esse recurso extremo."

[Essa redução das garantias da vida humana] "seria sustentada e imposta para favorecer mero sentimento doloroso doutros seres humanos, como se tal estado psíquico, a que estão sujeitas todas as pessoas, constituísse título jurídico hábil para, sob um fundamento de excessiva inusuportabilidade, justificar o extermínio da vida de um inocente indefeso."

42 min
MÁ VONTADE DO CONGRESSO NACIONAL, INCONSTITUCIONALIDADE E IMPROCEDÊNCIA

Peluso fala esponteneamente:

"O caso representa uma tentativa, ao meu ver, de contornar a má vontade que o Congresso Nacional tem de reconhecer a atipicidade, a licitude, o excludente de punibilidade deste caso. É o Congresso Nacional que não quer assumir essa responsabilidade, porque tem motivos para fazê-lo! Não quero discutir tais motivos."

"E, como resulta daí, uma inviabilidade de emanação de uma norma jurídica que viesse a relativizar a vida nesse caso específico, ainda que ficasse sujeita depois ao crivo dessa Suprema Corte, é que esta DPF aparece como uma maneira de transpor aos ombros e a responsabilidade desta Corte abrir uma exceção ao resguardo da vida humana."

"E são essas as razões pelas quais, com o maior respeito, não apenas às razões humanas legítimas, às quais eu me associo, de todas as mães que têm esta situação absolutamente lamentável de trazer no seu ventre um feto cuja vida extra-uterina é de probabilidade restrita, e não obstante também o respeito que eu tenho a todas as razões contrárias expostas pela douta maioria já formada, é que desta feita eu não posso sequer encerrar o meu voto dizendo que, talvez, neste caso, a douta maioria tem razão."

"Desta vez, resta-me dizê-lo que não posso reconhecê-lo. Desta vez, julgo TOTALMENTE IMPROCEDENTE A AÇÃO."

*****

Em suma: GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLL!

Leia também "E os patinhos?" e "Mães mimadas" aqui no Blog do Pim.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Mães mimadas

Um casal (sim: pai existe) que não quer assumir o risco de uma possível má-formação ou baixa expectativa de vida de seu filho não é obrigado, em primeiro lugar, a concebê-lo.

Quando se fala em “obrigar uma mulher a levar uma gestação que ela não deseja”, o que se omite (até porque, em casos de estupro, o aborto já é legalmente permitido) é que ninguém a obrigou a ficar grávida, senão ela mesma.

Se os ministros do STF (a maioria) estivessem preocupados com a saúde mental das mulheres, incentivariam campanhas preventivas para alertá-las dos riscos de gravidez e de anencefalia fetal, preparando-as para os possíveis desdobramentos de suas escolhas, ANTES que elas fossem feitas.

Mas é evidente que isso não lhes interessa. A ignorância, o despreparo, o susto, o sonho do filho perfeitinho que vira fatalmente o “pesadelo” do futuro defunto, tudo isso (e mais um pouco) multiplica a intensidade dramática e o número de depoimentos das mães sofredoras.

Como o aborto também já é permitido para os casos de risco de morte da mãe, quase toda a argumentação favorável ao aborto de anencéfalos se reduz a um duplo show de emoções: um apelo emocional para que se considere a “coisa” (o feto) uma “tortura psicológica” às mães, como dizem os “especialistas” - e como se o feto, em termos legais, pudesse ser o torturador.

Os ministros denunciam, pois, esta “tortura” - ante algo que, sabidamente, podia acontecer - como motivo nobre e científico não para esclarecer e reforçar a responsabilidade arcada pelo casal antes da concepção, mas para abortar o feto anencéfalo, que, por sua vez, nunca teve escolha alguma.

* E se ele pode ser eliminado porque viverá pouco, por que não eliminar o recém-nascido anencéfalo? Será lícito, também, eliminar um idoso em estado terminal, porque causa sofrimento à família? Parabéns ao ministro Cezar Peluso por colocar (pouco antes da publicação deste texto) essas duas questões em debate. *

Já os outros se desviam de qualquer crítica a seus eufemismos, rotulando-a de religiosa, como se o drama de mulheres adultas insatisfeitas, reforçado pelos seus apelos, fosse um dado mais concreto, mensurável e menos passível de teatralização do que a condição humana e indefesa de um feto, no caso mal formado.

Fomentar ou fazer vista grossa para a irresponsabilidade, a fim de usar a insatisfação resultante como pretexto para a implantação progressiva de uma agenda política (abortista), geradora de mais irresponsabilidade, é uma estratégia típica dos movimentos de esquerda, que corrompe a lei e a psique da população pela raiz.

O STF, junto ao partido governante que nomeou a maioria de seus membros e que distribui ao povão camisinhas e pílulas do dia seguinte, está formando um país de gente mimada e covarde, não só incapaz de assumir os riscos e as consequências de suas escolhas, mas disposta até a matar para livrar-se delas, com o testemunho passivo de todos.

Mães de anencéfalos devem ser orientadas, assistidas e confortadas. Jamais anestesiadas - mental e fisicamente - para a cesariana da morte.

Essa legalização promove muito mais que a seleção genética dos filhos. Ela é a base mesma para a degradação moral dos pais.

No mais (com a exceção notável de Peluso): “tortura psicológica” é ouvir essa gente falar.

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Leia também o artigo "E os patinhos?" aqui no Blog do Pim ou no facebook.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

E os patinhos?

[Também publicado no facebook - aqui.]

Primeiro, os mais fracos. Depois, o resto.

É assim a cultura da morte.

Quando não começa logo desumanizando povos e pessoas (como “inferiores” ou “inimigas da liberdade”), alimenta a agressividade humana contra um alvo provisório, pintando-o como inútil, descartável, ou mesmo uma ameaça ao bem-estar.

Em “A insustentável leveza do ser”, Milan Kundera narra como os russos fomentaram o extermínio de pombos e cachorros durante a ocupação da então Tchecoslováquia para, um ano depois, apontar para o seu verdadeiro alvo: o homem.

“(...) os jornais, o rádio, a televisão, só falavam nos cachorros que sujavam as calçadas e os jardins públicos, ameaçando a saúde das crianças, cachorros que não serviam para nada e ainda tinham que ser alimentados. Fabricou-se uma verdadeira psicose (...)”.

Os fetos “anencéfalos” do Brasil petista são como os cachorros da Tchecoslováquia comunista: não servem para nada e ainda têm de ser alimentados. O STF, assumindo o papel do Congresso com a cumplicidade dos fabricantes de psicose e o incentivo de organismos internacionais, veio mostrar o quanto eles sujam as calçadas e os jardins uterinos, ameaçando a saúde mental das mamães.

A ministra Rosa Weber defende que “a sociedade” estabeleça quais as “capacidades físicas e psíquicas mínimas que permitam ao indivíduo ser considerado humano”. Por sociedade, entenda-se o STF. Pelo resto, que os anencéfalos são os cachorros tchecos, e que o STF ainda vai analisar, com “o óculos da ciência”, se os outros fetos com má-formação são os pombos; os bem formados, os passarinhos; os recém-nascidos, os pintinhos; e nós, os patinhos boiando na lagoa.

Quando a ciência antecipar se nossos filhos terão a aparência do Brad Pitt ou do relator Marco Aurélio Mello, e a inteligência de William Shakespeare ou de Rosa Weber, fiquemos tranquilos: o divino STF do estado laico nos dirá em quais casos eles serão humanos; e em quais serão motivos evidentes de “tortura psicológica” e “tragédia pessoal”, cabendo a toda mãe insatisfeita tentar de novo, até ter certeza de que dará à luz (rezemos) um Brad Shakespeare ou um William Pitt.

[Se, nos EUA, a venda controlada de maconha “medicinal” multiplicou as receitas médicas falsas em 15 estados, e no Brasil a autorização da Justiça para um só médico paulista abortar um feto "anencéfalo" em 1992 já gerou uma busca desenfreada por alvarás, não é tampouco improvável que essa legalização específica do aborto resulte na maior incidência de “anencefalia” da história humana, e que a solução mais prática para a fraude generalizada seja então a legalização irrestrita. Mas cogitar isso só pode ser coisa de crentes fanáticos, alheios à visão prática e científica da realidade.]

Para Teresa, personagem de Kundera, o verdadeiro teste moral da humanidade são as relações com aqueles que estão à nossa mercê, que não representam força alguma. [Ela se referia aos animais. Eu me refiro aos fetos “anencéfalos”.] “É aí que se produz o maior desvio do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras.”

Em nome do “direito das mulheres”, o STF impõe a derrota fundamental, abrindo precedente para todas as outras. A aprovação da “antecipação terapêutica do parto” é a antecipação legal de uma cultura da morte, na qual a população psicótica é a vítima emocional dos abortos físicos que pratica.

Façam filhos, crianças. Não há riscos, nem sofrimentos. Ao menor sinal de defeito, passem a faca com carinho.

[E os patinhos? Qué, qué...]

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Leia também [o melhor texto já escrito no mundo sobre a] Lógica do abortismo, de autoria do filósofo Olavo de Carvalho:

"O aborto só é uma questão moral porque ninguém conseguiu jamais provar, com certeza absoluta, que um feto é mera extensão do corpo da mãe ou um ser humano de pleno direito. A existência mesma da discussão interminável mostra que os argumentos de parte a parte soam inconvincentes a quem os ouve, se não também a quem os emite. Existe aí portanto uma dúvida legítima, que nenhuma resposta tem podido aplacar. Transposta ao plano das decisões práticas, essa dúvida transforma-se na escolha entre proibir ou autorizar um ato que tem cinqüenta por cento de chances de ser uma inocente operação cirúrgica como qualquer outra, ou de ser, em vez disso, um homicídio premeditado. Nessas condições, a única opção moralmente justificada é, com toda a evidência, abster-se de praticá-lo. À luz da razão, nenhum ser humano pode arrogar-se o direito de cometer livremente um ato que ele próprio não sabe dizer, com segurança, se é ou não um homicídio. Mais ainda: entre a prudência que evita correr o risco desse homicídio e a afoiteza que se apressa em cometê-lo em nome de tais ou quais benefícios sociais hipotéticos, o ônus da prova cabe, decerto, aos defensores da segunda alternativa. Jamais tendo havido um abortista capaz de provar com razões cabais a inumanidade dos fetos, seus adversários têm todo o direito, e até o dever indeclinável, de exigir que ele se abstenha de praticar uma ação cuja inocência é matéria de incerteza até para ele próprio. (...)"

(Olavo de Carvalho, Lógica do abortismo)

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No Blog do Pim:


segunda-feira, 9 de abril de 2012

A palavra dada ainda é sua

[“Mensagem Pós-Páscoa”, publicada originalmente no facebook - aqui.]

Até pouco mais de uma década atrás, se você marcava um encontro, uma reunião, um evento, uma pelada ou qualquer coisa com alguém, em tal lugar, em tal hora, você tinha de estar lá, na hora marcada, porque não havia celular nem internet para complementar ou mudar os planos no meio do caminho.

Minha geração foi uma das últimas a viver essa época, em que as coisas tinham de ser devida e previamente combinadas para que pudessem ser efetivamente cumpridas. Em que a palavra dada com certa antecedência era a única garantia de presença, e a palavra ouvida, a última fonte de orientação, o que exigia, ao menos, algum cuidado no momento de dar e ouvir essas palavras, para evitar “bolos” e desencontros.

Esse cuidado se perdeu.

A evolução dos meios de comunicação, tornando possível o contato telefônico ou virtual a todo instante, acentuou de tal forma a displicência verbal e, por conseguinte, moral da nossa cultura que, hoje, confirmar qualquer coisa com antecedência é o mesmo que nada, ainda que a confirmação seja feita na manhã do mesmo dia.

Você diz que vai estar em tal lugar, em tal hora, e à tarde alguém já pergunta de novo:

- Está de pé? Você vai?

E se por algum motivo (por exemplo: o de já ter respondido) você não responde, a pessoa se dá a liberdade de crer que está tudo cancelado: que você desistiu, esqueceu ou teve algum imprevisto e não vai poder comparecer, de modo que ela logo se dispensa de comparecer também – isto quando não se dispensa em silêncio, dando o acordo como prescrito.

Entre a confirmação e o encontro, há portanto uma série de confirmações intermediárias exigidas por múltiplos meios, talvez porque só a soma de umas 3 delas (por e-mail, SMS e whatsapp, por exemplo) se aproxime de um “sim” de verdade.

Em suma: estamos cercados de babás por todos os lados, cobrando-nos a cada segundo o preço da irresponsabilidade geral, quando não de suas próprias carências afetivas. Daqui a pouco, a tornozeleira eletrônica vira moda.

Jesus Cristo recomendava: “Diga apenas ‘sim’, quando é ‘sim’, e ‘não’, quando é ‘não’. O que você disser além disso vem do Maligno”; mas, quanto mais prático se torna dizer “sim” pessoalmente, compartilhando a euforia momentânea, e “não” virtualmente, alegando imprevistos (sem nem gastar saliva, muito menos dar a cara à tapa), mais se esvazia o valor da palavra, mais se ignora a responsabilidade moral integral assumida ao declará-la, e mais aceitamos o maligno descompromisso de todos, que, no fim das contas, resulta em sumiços (“puf”) sem a menor explicação.

Numa sociedade cada vez mais descristianizada e corrompida intelectualmente, o único ideal cultivado com amor é o de enganar e ser enganado, ideal este que, à distância, sob a proteção dos monitores, pode ser realizado com a maior tranquilidade.

Ninguém deve desculpas, muito menos atitudes a ninguém. O “fogo de palha” é o padrão oficial de conduta; e a vida social, uma grande página de eventos do facebook.

Se você achava que a sua geração não tinha palavra, espere só até ver o cinismo das próximas; ou comece, a partir de você mesmo, a curar a sua, apelando ao último grão de consciência dos furões, mandando para a terapia os psicóticos, e deixando claro a todos os seus conhecidos que quem precisa de babá é criança e de tornozeleira eletrônica é bandido: se você falou que vai estar em tal lugar, em tal hora, é porque, aconteça o que acontecer, você vai.

(Não é?)...

terça-feira, 3 de abril de 2012

O futuro do peido

[Publicado originalmente no facebook - aqui.]

O jornalismo segundo O Globo (e toda a imprensa esquerdista) é assim:

- Se Barack Obama é flagrado sussurrando aos russos que reduzirá o arsenal de defesa dos EUA quando for reeleito, a notícia é de uma simples "conversa indiscreta" (uma espécie, digamos, de bate-papo sobre mísseis, no banheiro do Big Brother).

- Se o pré-candidato de oposição Rick Santorum gagueja no meio de um discurso, a notícia é de "ofensa racista" a Barack Obama! (Sim, porque uma letra "n" perdida nas palavras de Santorum é o suficiente para que os videntes obamistas o acusem de chamar o presidente de "nigger").

Em suma: a promessa de abrir as pernas do país aos seus inimigos é mera indiscrição; mas gaguejar, ah, isso só pode ser racismo!

É por isso que eu digo: cuidado com as flatulências, senhores. Mais um pouco, e o peido vira crime de ódio.