quarta-feira, 25 de abril de 2012

Di Matteo não é brasileiro

"Retranca" no futebol é como "educação" na cultura: uma síntese que todo mundo usa, com a maior autoridade, pensando ter explicado tudo. Por que o time ganhou? Porque armou uma retranca. Por que perdeu? Porque armou uma retranca. Times ganham, perdem e, sobretudo, arrancam empates porque armam retrancas, assim como países são mais ou menos civilizados "por causa da educação". Mas e daí? Que las hay, las hay. A questão é: por que diabos são boas ou ruins? Burras ou inteligentes? Necessárias ou covardes? Feias ou bonitas?

No Brasil, todo mundo reclama de retranca. É coisa de Zagallo, de Lazaroni, de Dunga, de Joel. Algo compreensível, até: nossas retrancas, normalmente, são uns desastres. Ruins, burras, feias e covardes. Mas daí a achar que todas são como as nossas é puro provincianismo futebolístico. Real Madri e Chelsea aprenderam a jogar contra o Barcelona porque: 1) reconheceram sua superioridade ofensiva, o que, ao contrário do que se pensa, não significa superioridade total; 2) armaram retrancas boas, inteligentes, necessárias e bonitas.

Isso mesmo: bonitas. Há beleza na humildade, no desarme e na cobertura. Há beleza em blocos compactos impedindo craques de serem craques. Há beleza em contra-ataques precisos.

As três entradas de Lampard em Fábregas, além da joelhada por trás e fora do lance de Terry em Alexis Sánchez, que resultou em expulsão, foram lamentáveis, é verdade, mas não apagaram o show de desarme e cobertura do Chelsea de Di Matteo. Uma marcação coletiva inconcebível para o futebol brasileiro, com três, às vezes quatro jogadores cercando Messi quando a bola lhe chegava aos pés. É assim que se marca um bom e veloz driblador: com gente próxima na retaguarda, impedindo os dribles espaçados em fila. O grau de atenção, solicitude, técnica e preparo físico necessário para fazer isso, sem deixar tão livres Xavi, Iniesta e os demais, não é para um time qualquer. É para um time de defensores obstinados e inteligentes, orientados a ocupar os espaços certos.

Se, dentro de campo, existe algum sentido na palavra "comprometimento", tão repetida no Brasil dunguista, é justamente o da responsabilidade individual que cada jogador assume de desempenhar a sua função, incluindo as duas tarefas mais renegadas cá no país dos sonsos: cobrir os companheiros e oferecer-lhes alternativas quando estão com a bola. O Chelsea falhou duas vezes na primeira parte, deixando a zaga no mano-a-mano, e levou dois gols (Busquets e Iniesta) do Barça, o time mais "comprometido" do mundo com a segunda. Em compensação, Ramires - esta exceção nacional - arrancou da cabeça-de-área para o ataque, recebeu belo passe de Lampard e fez um golaço por cobertura antes do intervalo, mostrando que retranca boa também tem alternativas ofensivas.

Como chamar de medíocre ou covarde um treinador que, mesmo sob enorme pressão, com um jogador a menos, substitui um atacante por outro (o marfinense Drogba pelo espanhol Fernando Torres), em vez de reforçar a zaga, como queria Galvão Bueno e como faria qualquer Joel Santana? O pênalti batido por Messi no travessão parece ter apenas renovado a confiança de Di Matteo na extraordinária capacidade defensiva de seu time. Sabendo que Torres (como Drogba) não é um típico atacante brasileiro incapaz de marcar, o treinador confiou nele para dar o primeiro combate, mantendo ainda a possibilidade de gol em contra-ataque rápido, o que acabou de fato acontecendo, com drible no goleiro e tudo, para calar a boca do Galvão, como ele mesmo foi obrigado a admitir.

Aqui é assim: nossos zagueiros são tão ruins, e nossos atacantes tão mimados, que, na hora do sufoco, queremos sempre mais um zagueiro, para compensar em quantidade - ou violência - a falta de consistência geral.

A derrota do Barça para o Chelsea (no placar "agregado") na Liga dos Campeões, assim como para o Real Madri no Campeonato Espanhol, não foi "o triunfo da mediocridade", não, como afirmou Reinaldo Azevedo. Foi, com muita categoria, o triunfo da inteligência obstinada sobre o talento criativo, o que é sempre fundamental para a evolução deste último, desde que não sucumba às lições enviesadas daqueles que se valem do fracasso dos bons para impor a necessidade da sua grosseria (como aconteceu após a eliminação da seleção brasileira da Copa de 1982, embora ela não fosse tão boa quanto se diz. Ver meu artigo: "O Brasil à luz do Barcelona").

O futebol europeu tende a se nivelar por cima, ao contrário do nosso, no qual a disputa diária, hoje, como em toda a "cultura" verde-amarela, é pela taça da baixaria: vale tudo para ver quem é mais grosseiro, sonso, fanfarrão, mercenário e desinteressado de ser e jogar melhor. E quanto mais o futebolês deslumbrado da imprensa encobre essa realidade com expressões vagas ou vazias de sentido (eu nunca vi, por exemplo, um "volume de jogo" meter um golaço), menos conscientes ficam os torcedores, treinadores e jogadores, cada vez menos capazes de entender o que está acontecendo e mais sujeitos a engodos e decepções profundas, a despeito dos indícios mais óbvios, como era o caso de Ronaldinho Gaúcho. (Renato Maurício Prado escreveu "quem diria", ao que devo responder: eu não diria, ora; eu disse.)

A pior de todas as retrancas é sempre a literária, porque entorpece a vida mental de todo mundo.

Para a sorte do Chelsea, e para o bem do futebol, Di Matteo não é brasileiro.

*****

Pós-escrito das 18:40: Kaká entrou no fim, errou tudo como de hábito, perdeu pênalti, e o Real Madri foi eliminado da Liga dos Campeões pelo Bayern (que fará a final contra o Chelsea). Mas, por enquanto, eu ainda admiro Kaká em um ponto: ele fica no banco, passa vergonha, mas não volta para o futebol brasileiro.

Pós-escrito de 5 de maio: O Chelsea de Di Matteo é campeão da Copa da Inglaterra, após derrotar o Liverpool por 2 a 1. A propósito, comento: quando vejo um atacante como Drogba roubando a bola na lateral-direita aos 48 minutos do segundo tempo, penso como é pequeno o futebol brasileiro.

Pós-escrito de 19 de maio: O Chelsea, mesmo sem Ramires, aguentou a pressão do Bayern, em Munique, e conquistou nos pênaltis a Liga dos Campeões. Mais um triunfo da inteligência. A glória - merecida - de Di Matteo.

* Mais artigos e vídeos na profética página de Futebol do Blog do Pim.

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