segunda-feira, 9 de abril de 2012

A palavra dada ainda é sua

[“Mensagem Pós-Páscoa”, publicada originalmente no facebook - aqui.]

Até pouco mais de uma década atrás, se você marcava um encontro, uma reunião, um evento, uma pelada ou qualquer coisa com alguém, em tal lugar, em tal hora, você tinha de estar lá, na hora marcada, porque não havia celular nem internet para complementar ou mudar os planos no meio do caminho.

Minha geração foi uma das últimas a viver essa época, em que as coisas tinham de ser devida e previamente combinadas para que pudessem ser efetivamente cumpridas. Em que a palavra dada com certa antecedência era a única garantia de presença, e a palavra ouvida, a última fonte de orientação, o que exigia, ao menos, algum cuidado no momento de dar e ouvir essas palavras, para evitar “bolos” e desencontros.

Esse cuidado se perdeu.

A evolução dos meios de comunicação, tornando possível o contato telefônico ou virtual a todo instante, acentuou de tal forma a displicência verbal e, por conseguinte, moral da nossa cultura que, hoje, confirmar qualquer coisa com antecedência é o mesmo que nada, ainda que a confirmação seja feita na manhã do mesmo dia.

Você diz que vai estar em tal lugar, em tal hora, e à tarde alguém já pergunta de novo:

- Está de pé? Você vai?

E se por algum motivo (por exemplo: o de já ter respondido) você não responde, a pessoa se dá a liberdade de crer que está tudo cancelado: que você desistiu, esqueceu ou teve algum imprevisto e não vai poder comparecer, de modo que ela logo se dispensa de comparecer também – isto quando não se dispensa em silêncio, dando o acordo como prescrito.

Entre a confirmação e o encontro, há portanto uma série de confirmações intermediárias exigidas por múltiplos meios, talvez porque só a soma de umas 3 delas (por e-mail, SMS e whatsapp, por exemplo) se aproxime de um “sim” de verdade.

Em suma: estamos cercados de babás por todos os lados, cobrando-nos a cada segundo o preço da irresponsabilidade geral, quando não de suas próprias carências afetivas. Daqui a pouco, a tornozeleira eletrônica vira moda.

Jesus Cristo recomendava: “Diga apenas ‘sim’, quando é ‘sim’, e ‘não’, quando é ‘não’. O que você disser além disso vem do Maligno”; mas, quanto mais prático se torna dizer “sim” pessoalmente, compartilhando a euforia momentânea, e “não” virtualmente, alegando imprevistos (sem nem gastar saliva, muito menos dar a cara à tapa), mais se esvazia o valor da palavra, mais se ignora a responsabilidade moral integral assumida ao declará-la, e mais aceitamos o maligno descompromisso de todos, que, no fim das contas, resulta em sumiços (“puf”) sem a menor explicação.

Numa sociedade cada vez mais descristianizada e corrompida intelectualmente, o único ideal cultivado com amor é o de enganar e ser enganado, ideal este que, à distância, sob a proteção dos monitores, pode ser realizado com a maior tranquilidade.

Ninguém deve desculpas, muito menos atitudes a ninguém. O “fogo de palha” é o padrão oficial de conduta; e a vida social, uma grande página de eventos do facebook.

Se você achava que a sua geração não tinha palavra, espere só até ver o cinismo das próximas; ou comece, a partir de você mesmo, a curar a sua, apelando ao último grão de consciência dos furões, mandando para a terapia os psicóticos, e deixando claro a todos os seus conhecidos que quem precisa de babá é criança e de tornozeleira eletrônica é bandido: se você falou que vai estar em tal lugar, em tal hora, é porque, aconteça o que acontecer, você vai.

(Não é?)...

Um comentário:

  1. Meu marido sempre lê seus textos e hoje compartilhou comigo o texto acima.

    Por coicidência falamos sobre isso no fds.

    Fico feliz de ver alguém a moda "antiga" mesmo que este alguém seja da minha geração (anos 80).

    O valor das palavras não pode ser substituído pela modernidade e agilidade. É muito bom saber que podemos contar com o compromisso de alguém.

    Curti o texto.
    Parabéns!

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