segunda-feira, 28 de maio de 2012

O espírito de peguete

[Veja também: Da arte de educar bocós; Por onde Ronaldinho deve sair; Palmada & Pedofilia; Mulher é foda?; Ler é chato?; Por que você não bebe?]

Há 40 anos, Meira Penna já observava a cisão do homem brasileiro em formas ambivalentes: de um lado, a imagem feminina grosseira, vulgar e sensual, projetada sobre a prostituta e a amante; do outro, a Urânia etérea e pura, que projetará sobre a Mãe de seus filhos.

Em outras palavras: o homem brasileiro vive dividido entre a mulher boazinha e a mulher boazuda. Quando casa com uma, trai com a outra. (E, quando casa com a outra, não demora muito a ficar solteiro de novo).

Unir as pontas parece impossível. Desejar uni-las é entrar numa saga sem fim. "Não se pode querer tudo", dizem os conformados. Conformados, geralmente, em trair suas esposas - ou em viver a eterna poligamia dos solteiros.

O Rio de Janeiro tem um papel fundamental nessa cisão. Paraíso praiano, tropical e liberal, exporta ao resto do Brasil o seu culto à beleza e ao corpo, macaqueado, então, pela caipirada do país inteiro da maneira mais esdrúxula.

Nosso ambiente visual urbano, limitado à Natureza e ao consumo, não estimula ninguém a se elevar intelectualmente. Se, na Europa, a presença física do esplendor artístico em obras-primas, monumentos e museus, em contraste com as propagandas do dia, já institui automaticamente na vida mental a diferenciação do essencial e do irrelevante; aqui, para onde olhamos, vemos apenas as paisagens, os letreiros e as bundas, normalmente umas dentro dos outros.

Somos bombardeados por "gente bonita" e sarada o tempo todo, o que nos torna cada vez mais exigentes em termos de aparência (a rigor, reféns dos "belos") e, ao mesmo tempo, absolutamente imersos no irrelevante, incapazes de identificar o que é melhor e o que é pior, o que dura e o que não dura - numa inépcia que nivela tudo por baixo e que caberia à classe intelectual compensar, não estivesse ela, hoje, reduzida à militância política.

O valor da beleza é tão alto no mercado, e tão baixo o estímulo à inteligência, que a administração do capital erótico virou a maior vocação nacional, com destaque, entre as mulheres, para dois tipos básicos: as pirainhas, que se emprestam a todos, mas só se vendem para os ricos; e as princesinhas ou bonequinhas, que, desprovidas de curiosidade e iniciativa, estão sempre avaliando para qual adulador concederão passivamente os seus atributos.

O rancor das mulheres menos bonitas ou preguiçosas em relação às belas ou boazudas se manifesta, por outro lado, em uma aversão desmedida ao culto à beleza e ao corpo, como se o cuidado com a aparência (e o vigor e a saúde) fosse sinônimo de burrice e vulgaridade, e elas tivessem mais o que fazer em vez de, por exemplo, frequentar academias. Querem ser amadas pelo que são, mas esquecem que também são o seu corpinho caído.

Homens imbecis, há muitos, sim. Mas boa parte das mulheres insatisfeitas finge não notar que a liberdade sexual, à medida que facilita a conquista do beijo e do sexo casuais, também eleva o nível de exigência (de ambas as partes) para uma relação de compromisso. (E também, diga-se, rebaixa o nível de exigência para o beijo e o sexo, gerando paixões descabidas e inevitavelmente frustrantes entre pessoas que pouco ou nada têm a ver uma com a outra.)

Boa parte dos homens livres simplesmente não quer trocar a sua coleção de peguetes - atuais e vindouras - por qualquer uma, porque sabe, consciente ou inconscientemente, que a escolha não se sustentará, e a poligamia, muito embora abjeta, é moralmente preferível - e menos arriscada - na solteirice que no casamento.

Não basta a mulher ser boa. É preciso ser boazuda. Não basta ser boazuda. É preciso ser boa. Por boa, entenda-se a mulher com um nível similar de educação, sinceridade, caráter, bom humor, graça, interesse, papo e desenvoltura. Por boazuda, entenda-se a mulher minimamente bela, gostosa e sensual para o padrão dos seus desejos.

Tão trágico quanto a futilidade masculina é o espírito de peguete que assola as brasileiras, com seus perfis jamais mesclados de amante ou de mãe dos filhos.

Que ninguém é perfeito, todo mundo sabe. O problema básico da vida amorosa no Brasil é que ninguém tenta sequer ser o bastante para a pessoa com a qual deseja viver para sempre.

Mesmo, é claro, que ainda nem a conheça.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O demônio favorito de Arnaldo Jabor

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui.]

Arnaldo Jabor, o rapper do colunismo, igualou Lula e George W. Bush. Ponto em comum: o orgulho da ignorância. Diz o rapper, aparentemente em causa própria:

Nunca a estupidez fez tanto sucesso. Forrest Gump, o herói idiota do filme, foi o precursor; Bush seguiu-o e se orgulhava de sua ignorância. Uma vez em Yale, ele disse: "Eu sou a prova de que os maus estudantes podem ser presidentes dos USA." E nosso Lula que tem títulos de doutor 'honoris causa', se gabando de não ter lido nada?

Vou deixar Forrest Gump fora dessa. De obra de ficção, basta o texto de Jabor. Também vou privar o leitor dos demais parágrafos: aquele papo jaboriano de inteligência é isso, burrice é aquilo, caretice é aquilo outro. A Rita Lee, que musique.

Em 2001, quatro meses após sua posse, Bush foi homenageado na universidade de Yale, na qual se formara em História, em 1968. Isso mesmo: em História. Em seu discurso, ele parabenizou os alunos daquele ano e, antes de contar que estudou muito, jogou muito e fez amigos para a vida inteira por lá, falou, na verdade, assim:

To those of you who received honors, awards, and distinctions, I say, well done. And to the C students I say, you, too, can be President of the United States. [Laughter]

[Tradução livre: "Para aqueles de vocês que receberam honrarias, prêmios e distinções, eu digo: muito bem. E para os estudantes nota C, eu digo: vocês também podem ser presidente dos Estados Unidos. (Risos)"] 

Bush fez uma piada. Boa, inclusive. E esta é apenas uma das muitas presentes naquele divertido discurso. Se Jabor quiser fazer uma antologia bushiana de "orgulho da ignorância", pode incluir a dos sofás de couro na sala de leitura da biblioteca; a do acordo subentendido com seu amigo Dick Brodhead para que este não lesse alto e ele, por sua vez, não roncasse; a do professor que lhe dizia para - em vez de fazer curso de haicais japoneses - focar no inglês; a de que muitos críticos lhe dizem isso até hoje; a de que ele não comete gafes, mas sim se expressa ainda com as formas e os ritmos verbais dos haicais japoneses; a de que tudo que ele aprendeu sobre a língua falada, é bom que o mundo saiba: ele aprendeu em Yale; a do professor Blum, que declarou ao New York Times não ter a mais mínima lembrança dele como aluno; ou ainda, caso Jabor consiga adaptar aos seus propósitos, a de que quem se forma em Yale vira presidente, como ele, e quem abandona no meio vira vice, como Dick Cheney.

Eis o senso de humor de Bush, herdado de seu pai, George H. W. Bush, que além de contar piadas aos filhos desde cedo, foi também, quando presidente, o criador do Prêmio Scowcroft (tributo ao Assessor de Segurança Nacional, Brent Scowcroft) para homenagear os membros de sua equipe que caíssem no sono durante as reuniões.

[Ok. Estou humanizando demais o demônio favorito de Jabor e da imprensa brasileira, bode expiatório de todos os males do mundo. Volto ao ponto.]

Equiparar a autoironia de Bush diante de uma plateia de estudantes, ao lembrar de seus tempos universitários em uma instituição tradicional, onde ainda por cima se formou em História, e o desprezo que Lula sempre demonstrou pela leitura e pelo conhecimento, gabando-se (“gambando-se”, diria Lula) de sua falta de estudos e sua incultura geral, é uma dessas coisas que só mentes iluminadas como a de Arnaldo Jabor fazem por você.

É como se reconhecer ter sido um “mau estudante” (e Bush, na verdade, foi mediano, acumulando uma nota 77 em seus três primeiros anos, quando o grau era numérico) fosse o mesmo que vangloriar-se de jamais ter se mexido para sair da ignorância. É como se a educação formal, ironizada até por Albert Einstein, fosse o único alimento para a inteligência. É quase como se Albert Einstein também se orgulhasse de ser um ignorante.

Mas eu entendo Jabor. Para um esquerdista fiel às escolhas ideológicas de sua juventude, é por demais constrangedor apontar a estupidez do líder da esquerda brasileira sem dizer que a direita também é boboca. É preciso bater nos dois lados, com a ladainha de que “o país não pode ser dividido em ‘esquerda e direita’”. Claro que não pode. Se houvesse direita política no Brasil de hoje, o próprio Jabor não precisaria recorrer à direita americana para compor seus raps contra tudo, todos e coisa nenhuma.

Bush nunca teve orgulho de sua suposta ignorância. Teve apenas consciência de suas limitações acadêmicas como aluno de graduação e a sensatez de mostrar a recém-formados que as notas na faculdade não seriam determinantes para a realização de seus sonhos, ainda que seus sonhos fossem ser “presidente dos USA”, como diria Jabor. Até porque ele mesmo saiu de Yale sem um plano definido de carreira, e acabaria escolhendo a Harvard Business School, onde foi aceito para fazer seu MBA, tornando-se mais tarde o primeiro presidente americano a ter esse título, impensável para Lula. E ainda saiu de lá procurando novos mentores para orientá-lo em seu ímpeto empresarial, sabendo que faltava muito a aprender.

A mentalidade de Bush é o oposto da brasileira, tão bem descrita por Lima Barreto. Bush não despreza, como Lula, o conhecimento. Ele não dá é muita bola para títulos, diplomas e honrarias, mesmo tendo os seus. Embora grato a Yale, que o tornou um “homem melhor”, a principal lição que uma faculdade pode dar, segundo ele, é que essas coisas estão longe de ser a medida da vida. “O que mais importa são (...) a consideração que você demonstra pelos outros e o modo como utiliza os dons que recebe”. “O que fica da faculdade é uma parte da sua educação da qual você quase nunca se dá conta na época. São as expectativas e os exemplos em torno de você, os ideais em que você acredita, e os amigos que você faz”.

Sim: eu adoro a obra literária de George W. Bush. Comparado a Jabor, Bush é Flaubert. Comparado a Lula, Bush é Shakespeare. Comparado a Obama, o queridinho de Jabor, Bush é... Bom, Bush é alguém de quem a gente conhece as notas, a história e o país de origem. Estou até pensando em traduzir seu livro “Decision Points”, que Jabor e Lula decerto nunca lerão. A cada vez que o colunista do Globo demonizá-lo com suas analogias tortas, vou humanizá-lo com meus haicais japoneses. Das lembranças do campus à guerra ao terror, passando pela “tortura” nas bases da CIA, tenho muitas histórias do aluno C para contar.

Para aqueles de vocês que já leem o Mídia Sem Máscara e o Blog do Pim, eu digo: muito bem. E para os brasileiros manipulados pelo rap da imprensa, eu digo: vocês também podem se informar melhor.

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Nota de rodapé 1 (sobre o caso Cachoeira): Se repórter investigativo (como Policarpo Jr., da Veja) não pode falar com bandido, Tim Lopes, caso sobrevivesse, também seria réu de CPI?

Nota de rodapé 2: Quando o país bater o recorde de adultos sem trabalhar (88 milhões do total de 200 milhões), faça como Barack Obama: fale de casamento gay.

terça-feira, 8 de maio de 2012

O mundo encantado dos textos virais

Hoje aprendi a ser elegante. Perdão: a ter "uma elegância desobrigada".

Foi num texto feicebuquiano atribuído a Martha Medeiros. Eu adoro textos feicebuquianos atribuídos aos famosos colunistas dos grandes jornais. Eles mostram como qualquer adolescente pode se passar por um deles, sem gerar a menor desconfiança do público. Meus favoritos são os do Jabor. Sempre melhores que os originais.

Eu sei, eu sei. Não devia estar dizendo isso. As pessoas desobrigadamente elegantes "elogiam mais do que criticam". Até ontem, eu desconfiava de que geralmente, no Brasil, essas eram as pessoas alienadas, tolas, sonsas, hipócritas, coniventes, bajuladoras, frouxas, reprimidas, ou neuróticas em geral, carentes de afeição. Mas agora aprendi. Não vejo a hora de exercitar minha elegância. Quando a moça do telemarketing ligar às 8:30 da manhã, vou dizer que sua voz é muito bonita.

Meu novo projeto é ser uma das "pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros". Não sei se entendi bem a relação entre assuntos constrangedores e humilhar os outros. Mas, ao notar que algum amigo narcotiza sua ansiedade no alcoolismo, por exemplo, vou conversar com ele sobre futebol e fórmula-1. Quando Lula usar a CPI do Cachoeira para fazer os mensaleiros de vítimas da oposição, vou falar de canetas, guarda-chuvas e outros temas nobres ao Sr. Verissimo. Não quero mais constrangimentos na vida íntima nem no debate público. Quem sou eu para "humilhar os outros", não é mesmo?

Desde pequeno, sonho em ter uma secretária "que pergunte antes quem está falando" e só depois diga se estou ou não estou. Até ontem, o identificador de chamadas do celular funcionava como a secretária possível. Mas quanta deselegância a minha! Imagine: querendo escolher quem (e quando) eu quero atender?! Não, não, não. Estou pedindo "licencinha para o nosso lado brucutu". Doravante, atenderei a todos, inclusive enquanto escrevo meus artigos: da moça do telemarketing ao cobrador do aluguel, dos amigos chamando para uma noitada à mamãe querendo saber se estou vivo. Nada como dizer alô sem ver a quem. (1 minuto, leitor, que está tocando meu telefone.)

(Era engano.)

Também descobri que "é muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais". Essa parte é mais fácil para mim. Nunca fui de falar de dinheiro. Até ontem, porém, eu via nisso um tremendo defeito. Jurava que eu precisava falar mais de dinheiro, entender mais de dinheiro, pedir e, principalmente, cobrar mais dinheiro de todo mundo, sobretudo em bate-papos informais, quando forneço meus humildes serviços psicoterapêuticos, mais conhecidos como TeraPim. Mas puxa vida, que engano: eu era elegante, e não sabia!

Algumas leituras mudam, de fato, a nossa forma de pensar. "Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante", mas, para a nossa sorte, claro, há textos feicebuquianos de "Martha Medeiros" (com aspas, até segunda ordem). "Sorrir sempre é muito elegante", assim como "oferecer flores", e já estou sorrindo do secretário Beltrame, que deu alegremente o pontapé inicial na Copa UPP de futebol no Vidigal, enquanto os niteroienses são assassinados pelos bandidos cariocas que ele exportou. Daqui a pouco, vou sorrir na fila do banco, porque também "faz um bem danado para a alma" e "educação enferruja por falta de uso". Talvez ofereça flores à gerente.

Até ontem, eu acreditava que "a ausência de horror para com o erro, para com o mal, para com o Inferno, para com o demônio, esta ausência parece que chega a ser uma desculpa para o mal que cada um leva em si mesmo", como escreveu o filósofo francês Ernest Hello há uns 150 anos. Hoje, finalmente me sinto desobrigado, senão de sentir, ao menos de transparecer esse horror. E na pior das hipóteses - a de senti-lo -, posso sem remorso ignorá-lo, negá-lo, escondê-lo, fingir que ele não existe e que o mundo é cor-de-rosa, como se supõe no facebook. Sou mesmo um novo e sorridente homem.

Nunca me senti tão elegante. Nunca me senti tão brasileiro.

domingo, 6 de maio de 2012

Música para Chico Buarque da Coreia

Depois que Chico Buarque da Coreia recebeu um presentão da irmãzinha Ana de Hollanda, ministra da Cultura, conforme noticiou Lauro Jardim, no site da revista Veja, só nos resta prestar homenagem a essa família muito unida e também patrocinada (por você, leitor)... Então cante comigo!

ParaMim
(Nova versão de "Paratodos", de Chico Buarque)
Autor: Felipe Moura Brasil, do Blog do Pim

Minha irmã era ministra
Me ajudava todo ano
E o meu 'leite derramado'
Traduziu pro coreano
Nosso esquema é soberano
Sempre rende algum trocaaaa-do...

Já levei um Jabuti
Muito embora derrotado
Pelo Edney Silvestre
Mas não fico envergonhado
Não devolvo o que é tomado
Fidel Castro é o meu meeees-tre...

Na TV, eu cato lixo
Reciclável como a sorte
De quem tem as costas quentes
E aproveita por esporte
Vou pedir um passaporte
Para algum dos meus pareeeen-tes!...

Vi petistas, vi dinheiro
Mensaleiros, vi padrinhos
Como um bom socialista
Em Paris, eu bebo vinhos
Somos todos coitadinhos
Viva o mundo comuniiiis-ta!...

Eu não tenho preconceito
Contra quem fuzila gente
Che Guevara idolatrado,
Eu também fui delinquente
Puxei carro, fui na frente
Hoje sou patrocinaaaa-do...

Assinei pelos sem-terra
Um milhão de manifestos
Fiz campanha até pra Dilma
Sou sambista de protestos
E os meus livros indigestos
Sempre tem alguém que fiiiil-ma...

O meu pai era esquerdista
Minha irmã nunca foi tonta
Sabe onde é que tem dinheiro
Meu sucesso já desponta
E quem paga a nossa conta
É o povo brasileeeei-ro...

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Os últimos a saber

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara - aqui. E originalmente, aqui.]

Outro dia o climatologista Ricardo Augusto Felício deu uma divertida entrevista no Programa do Jô, mostrando a fraude do "aquecimento global" - aquele que, quando a Terra esfria, vira "mudança climática". O facebook ficou em polvorosa. Puxa vida! Estávamos sendo enganados? Pois é.

Outro dia, também, o físico James Lovelock, o pai da fraude global, admitiu que estava "errado", que "nada está acontecendo", que era tudo alarmismo, inclusive os dois livros dele. Agora ele vai escrever outro, corrigindo a si mesmo, assim pode faturar com os três. Puxa vida! Estávamos sendo enganados? Pois é.

Poucas coisas foram tão desmoralizadas nas últimas décadas quanto as mentiras apocalípticas dos "aquecimentistas" e seus garotos-propaganda (Al Gore, Tim Flannery, Leonardo DiCaprio e cia.). Mas o brasileiro, mesmo alfabetizado, é sempre o último a saber, porque ainda se deixa orientar pela TV e os jornais.

Agora a 3ª Turma do STJ reconheceu o direito de uma mulher de 38 anos receber uma indenização de R$ 200 mil de seu pai. O "crime" dele: "abandono afetivo". Isso mesmo: não bastasse a Lei da Palmada, os filhos ainda podem processar os pais por não lhes dar a devida atenção. No fim das contas, é mais um incentivo ao aborto.

No caso das cotas, é evidente que, ao facilitar a entrada de um aluno intelectualmente despreparado na universidade, também serão facilitadas suas aprovações durante o curso. Em resumo: "Seu tataravô foi escravo? Ok. Tome o diploma e o bisturi. Pode operar os outros, doutor (desde que os outros não sejam eu)".

Nossos juízes estão promovendo a desconfiança generalizada entre pais e filhos, entre brancos e negros (sem falar em gays e héteros, cristãos e ateus, maridos e esposas, índios/sem-terra e fazendeiros).

É assim um país petista, onde o sentimentalismo é a base do conhecimento, da moral e até das leis: uma guerra de todos contra todos, "vítimas" contra vítimas, mediada pelo estado e revelada com 20, 30, 40 anos de atraso, com sorte, no Programa do Jô.

Puxa vida! Estamos sendo enganados? Pois é.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Carta de um necrófilo ao STF

[Também publicado no site Mídia Sem Máscara, com introdução explicativa - aqui.]

Excelentíssimo Senhor Presidente do Supremo Tribunal Federal,

Em virtude da sequência de decisões favoráveis à marcha da maconha, à união civil de homossexuais, ao aborto de fetos anencéfalos e às cotas raciais em universidades, não posso deixar de apelar para que o STF do Brasil aprove, junto com o Parlamento do Egito, o projeto de lei em favor da necrofilia matrimonial, doravante denominada "relação de despedida", "finalização terapêutica do amor", "posfácio da paixão", ou, aqui entre nós, "rapidinha post mortem" (embora, esclareço, o marido egípcio tenha um prazo de 6 horas após o falecimento da esposa para a realização da tarefa).

Se um ser humano tido como sem vida ou inumano pode ser eliminado no útero para aliviar o sofrimento da mãe, por que não poderia outro ser lavado e comido, digo, penetrado para aliviar a dor de um recém-viúvo? Ah, dirão os reacionários, mas o risco de sobreviver à morte da esposa é inerente ao casamento! Por certo que sim, direi eu, mas do mesmo modo o é, ao ato sexual, o risco de gerar um feto anencéfalo, e nem por isso a douta maioria da Corte deixou de permitir o aborto. Neste caso, ademais, falamos da eliminação de um terceiro, enquanto que a "rapidinha post mortem" é tão somente uma homenagem póstuma - e, ouso dizer, amorosa - a uma saudosa senhora. O que seria a introjeção peniana na vagina de um cadáver fresquinho perto da incisão cirúrgica de um bisturi no crânio fetal? Nádegas!

O recente filme "A perseguição" ainda ilustra à perfeição um dos maiores dramas masculinos relativos à morte. Um grupo de sobreviventes à queda de um avião precisa enfrentar os lobos nas montanhas nevadas do Alasca. Em momento de aparente calmaria ao redor de uma fogueira, um deles revela aos demais o nobre motivo que o faz lutar tão bravamente pela vida, qual seja - lamento revelar -, o de que sua última transa não pode ter sido aquela com uma prostituta velha e flácida. Ora: como não se compadecer diante de tão sincera confissão?, de tão justo ideal de se despedir deste mundo de maneira menos humilhante? É uma questão de dignidade humana, Senhor Presidente!

Pois imagine um sujeito cujo último ato de amor com sua esposa não foi dos melhores. Seu desempenho foi fraco, abaixo das expectativas, ou, nos casos mais graves, ele não conseguiu ter ou manter sua ereção. Pode ser também que ela tenha refugado, que eles estivessem brigados há algum tempo, ou mesmo - com o perdão da imaginação pérfida - que combinaram, por razões ludicamente eróticas, um longo jejum a ser interrompido na noite do mesmo dia em que ela morreu. O Senhor é capaz de conceber a que sorte, digo, azar de sofrimento perpétuo tal fatalidade submete este sujeito? O óbito da mulher com quem tivemos uma última relação remota ou insatisfatória nos priva da possibilidade de redenção sexual. E sobretudo para os broxas, Senhor Presidente, a última impressão é a que fica!

Todos devem ter a oportunidade de amenizar tal constrangimento. Para uma Corte que modernizou o conceito de casamento "entre homem e mulher", tampouco será difícil estender aos homossexuais casados o direito à "finalização terapêutica do amor". Zamzami Abdul Bari, defensor da mesma, alegou não apenas que o casamento se mantém válido após a morte, como também que as mulheres teriam igual direito à relação sexual com o marido morto e, muito embora não tenha sabido explicar como se daria a coisa, nós sabemos que um viagra póstumo não é uma descoberta tão difícil assim para a indústria farmacêutica, podendo satisfazer em breve tanto as viúvas heterossexuais quantos os viúvos gays, inclusive se passivos!, desde que estes saibam ter uma passividade ativa, se é que me faço entender.

Nos EUA, a venda controlada de maconha medicinal multiplicou as receitas médicas falsas em 15 estados e, no Brasil, a legalização do aborto de anencéfalos deve resultar em um sem-número de diagnósticos de "anencefalia" para fins abortivos, mas nada melhor para nós, autores do "posfácio da paixão", que isto seja ignorado. Quando a permissão legal para a "relação de despedida" produzir uma grande micareta nos velórios, com DJs, Open Bar e filas de maridos virtuais, convido o Senhor Presidente a entrar comigo, cantando o clássico do axé: "Eu sou o lobo mau, hau, hau / E o que você vai fazer, HAAAAAAA / vou te comer, vou te comer, vou te comer!". (Mas não se empolgue: o corpo de minha mulher, Maria dos Prazeres, é propriedade exclusivamente minha, por toda a eternidade, ok?)

Não é o meu caso, mas não posso deixar de apelar, também, para que o STF compense a discriminação secular sofrida pelos homens feios, permitindo uma "rapidinha post mortem" com as beldades que morrerem solteiras. Seria uma espécie de doação controlada de órgãos para o alívio de desejos e ressentimentos acumulados. Os brancos com nota superior aos negros não têm menos direito do que estes às vagas universitárias? Que mal haverá, então, em deixar os homens bonitos, principalmente se solteiros, com menos direitos sexuais que os feios? É justo, ora! Qualquer coisa, basta o ministro Levandowski dizer que a "discriminação positiva" dos feios "não poderia ser permanente", mas apenas vigente enquanto necessária para desfazer as injustiças derivadas do preconceito estético das mulheres, cujas escolhas amorosas tendem a valorizar padrões nos quais eles não se encaixam, a despeito da boa lábia.

Aproveito para convocar todos os ministros para a Marcha dos Necrófilos, a sair em breve do Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, em direção ao Caju, sob a liderança deste humilde militante, ao lado de sua (minha) vivíssima esposa, Maria dos Prazeres, e dos membros mais engajados do Sindicato dos Coveiros, que coincidentemente inicia greve no mesmo dia. Não se trata de maneira alguma de apologia da "finalização terapêutica de amor", mas do mais puro exercício da liberdade de expressão, tal qual aquele que o STF permitiu aos famigerados maconheiros. Vamos gritar "Ei, polícia, necrofilia é uma delícia!", sempre de forma não ostensiva, é claro, levantando cuidadosamente nossas enxadas, na esperança de que o Brasil laico não fique atrás do Egito islâmico em matéria de paraíso prometido.

Que o Senhor Presidente faça valer suas palavras de que um bom juiz deve decidir com o "pensamento" e o "sentimento", e sinta portanto, diante de tamanho sofrimento dos homens, o dever de fazer com as letras mortas da Constituição e da Bíblia o que nós queremos fazer com nossas esposas enrijecidas.

Saudações fúnebres,

Necrofileno dos Prazeres Mórbidos
Diretor-Presidente dos Necrófilos Anônimos