segunda-feira, 28 de maio de 2012

O espírito de peguete

[Veja também: Da arte de educar bocós; Por onde Ronaldinho deve sair; Palmada & Pedofilia; Mulher é foda?; Ler é chato?; Por que você não bebe?]

Há 40 anos, Meira Penna já observava a cisão do homem brasileiro em formas ambivalentes: de um lado, a imagem feminina grosseira, vulgar e sensual, projetada sobre a prostituta e a amante; do outro, a Urânia etérea e pura, que projetará sobre a Mãe de seus filhos.

Em outras palavras: o homem brasileiro vive dividido entre a mulher boazinha e a mulher boazuda. Quando casa com uma, trai com a outra. (E, quando casa com a outra, não demora muito a ficar solteiro de novo).

Unir as pontas parece impossível. Desejar uni-las é entrar numa saga sem fim. "Não se pode querer tudo", dizem os conformados. Conformados, geralmente, em trair suas esposas - ou em viver a eterna poligamia dos solteiros.

O Rio de Janeiro tem um papel fundamental nessa cisão. Paraíso praiano, tropical e liberal, exporta ao resto do Brasil o seu culto à beleza e ao corpo, macaqueado, então, pela caipirada do país inteiro da maneira mais esdrúxula.

Nosso ambiente visual urbano, limitado à Natureza e ao consumo, não estimula ninguém a se elevar intelectualmente. Se, na Europa, a presença física do esplendor artístico em obras-primas, monumentos e museus, em contraste com as propagandas do dia, já institui automaticamente na vida mental a diferenciação do essencial e do irrelevante; aqui, para onde olhamos, vemos apenas as paisagens, os letreiros e as bundas, normalmente umas dentro dos outros.

Somos bombardeados por "gente bonita" e sarada o tempo todo, o que nos torna cada vez mais exigentes em termos de aparência (a rigor, reféns dos "belos") e, ao mesmo tempo, absolutamente imersos no irrelevante, incapazes de identificar o que é melhor e o que é pior, o que dura e o que não dura - numa inépcia que nivela tudo por baixo e que caberia à classe intelectual compensar, não estivesse ela, hoje, reduzida à militância política.

O valor da beleza é tão alto no mercado, e tão baixo o estímulo à inteligência, que a administração do capital erótico virou a maior vocação nacional, com destaque, entre as mulheres, para dois tipos básicos: as pirainhas, que se emprestam a todos, mas só se vendem para os ricos; e as princesinhas ou bonequinhas, que, desprovidas de curiosidade e iniciativa, estão sempre avaliando para qual adulador concederão passivamente os seus atributos.

O rancor das mulheres menos bonitas ou preguiçosas em relação às belas ou boazudas se manifesta, por outro lado, em uma aversão desmedida ao culto à beleza e ao corpo, como se o cuidado com a aparência (e o vigor e a saúde) fosse sinônimo de burrice e vulgaridade, e elas tivessem mais o que fazer em vez de, por exemplo, frequentar academias. Querem ser amadas pelo que são, mas esquecem que também são o seu corpinho caído.

Homens imbecis, há muitos, sim. Mas boa parte das mulheres insatisfeitas finge não notar que a liberdade sexual, à medida que facilita a conquista do beijo e do sexo casuais, também eleva o nível de exigência (de ambas as partes) para uma relação de compromisso. (E também, diga-se, rebaixa o nível de exigência para o beijo e o sexo, gerando paixões descabidas e inevitavelmente frustrantes entre pessoas que pouco ou nada têm a ver uma com a outra.)

Boa parte dos homens livres simplesmente não quer trocar a sua coleção de peguetes - atuais e vindouras - por qualquer uma, porque sabe, consciente ou inconscientemente, que a escolha não se sustentará, e a poligamia, muito embora abjeta, é moralmente preferível - e menos arriscada - na solteirice que no casamento.

Não basta a mulher ser boa. É preciso ser boazuda. Não basta ser boazuda. É preciso ser boa. Por boa, entenda-se a mulher com um nível similar de educação, sinceridade, caráter, bom humor, graça, interesse, papo e desenvoltura. Por boazuda, entenda-se a mulher minimamente bela, gostosa e sensual para o padrão dos seus desejos.

Tão trágico quanto a futilidade masculina é o espírito de peguete que assola as brasileiras, com seus perfis jamais mesclados de amante ou de mãe dos filhos.

Que ninguém é perfeito, todo mundo sabe. O problema básico da vida amorosa no Brasil é que ninguém tenta sequer ser o bastante para a pessoa com a qual deseja viver para sempre.

Mesmo, é claro, que ainda nem a conheça.

3 comentários:

  1. "Nosso ambiente visual urbano, limitado à Natureza e ao consumo, não estimula ninguém a se elevar intelectualmente. Se, na Europa, a presença física do esplendor artístico em obras-primas, monumentos e museus, em contraste com as propagandas do dia, já institui automaticamente na vida mental a diferenciação do essencial e do irrelevante; aqui, para onde olhamos, vemos apenas as paisagens, os letreiros e as bundas, normalmente umas dentro dos outros".

    Meu caro, você em poucas linhas vislumbrou o cerne de um grave problema. As circunstâncias em que vivemos não dão a ninguém os horizontes mental e espiritual necessários para fazer com que as pessoas tentem enxergar mais longe. A mediocridade dos estímulos aprisiona a mente e o espírito das pessoas, que julgam que o mundo microscópico em que vivem é a expressão da extensão de toda possibilidade da vida humana. Parabéns, você tem sensibilidade de filósofo, algo extremamente raro atualmente.

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  2. Apesar de não me encaixar em boa parte do texto (ao menos em ações, já que intelectualmente nossa geração está toda contaminada pelo problema que você descreve), devo admitir que é inspirador, mandou muito bem.

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