terça-feira, 8 de maio de 2012

O mundo encantado dos textos virais

Hoje aprendi a ser elegante. Perdão: a ter "uma elegância desobrigada".

Foi num texto feicebuquiano atribuído a Martha Medeiros. Eu adoro textos feicebuquianos atribuídos aos famosos colunistas dos grandes jornais. Eles mostram como qualquer adolescente pode se passar por um deles, sem gerar a menor desconfiança do público. Meus favoritos são os do Jabor. Sempre melhores que os originais.

Eu sei, eu sei. Não devia estar dizendo isso. As pessoas desobrigadamente elegantes "elogiam mais do que criticam". Até ontem, eu desconfiava de que geralmente, no Brasil, essas eram as pessoas alienadas, tolas, sonsas, hipócritas, coniventes, bajuladoras, frouxas, reprimidas, ou neuróticas em geral, carentes de afeição. Mas agora aprendi. Não vejo a hora de exercitar minha elegância. Quando a moça do telemarketing ligar às 8:30 da manhã, vou dizer que sua voz é muito bonita.

Meu novo projeto é ser uma das "pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros". Não sei se entendi bem a relação entre assuntos constrangedores e humilhar os outros. Mas, ao notar que algum amigo narcotiza sua ansiedade no alcoolismo, por exemplo, vou conversar com ele sobre futebol e fórmula-1. Quando Lula usar a CPI do Cachoeira para fazer os mensaleiros de vítimas da oposição, vou falar de canetas, guarda-chuvas e outros temas nobres ao Sr. Verissimo. Não quero mais constrangimentos na vida íntima nem no debate público. Quem sou eu para "humilhar os outros", não é mesmo?

Desde pequeno, sonho em ter uma secretária "que pergunte antes quem está falando" e só depois diga se estou ou não estou. Até ontem, o identificador de chamadas do celular funcionava como a secretária possível. Mas quanta deselegância a minha! Imagine: querendo escolher quem (e quando) eu quero atender?! Não, não, não. Estou pedindo "licencinha para o nosso lado brucutu". Doravante, atenderei a todos, inclusive enquanto escrevo meus artigos: da moça do telemarketing ao cobrador do aluguel, dos amigos chamando para uma noitada à mamãe querendo saber se estou vivo. Nada como dizer alô sem ver a quem. (1 minuto, leitor, que está tocando meu telefone.)

(Era engano.)

Também descobri que "é muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais". Essa parte é mais fácil para mim. Nunca fui de falar de dinheiro. Até ontem, porém, eu via nisso um tremendo defeito. Jurava que eu precisava falar mais de dinheiro, entender mais de dinheiro, pedir e, principalmente, cobrar mais dinheiro de todo mundo, sobretudo em bate-papos informais, quando forneço meus humildes serviços psicoterapêuticos, mais conhecidos como TeraPim. Mas puxa vida, que engano: eu era elegante, e não sabia!

Algumas leituras mudam, de fato, a nossa forma de pensar. "Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante", mas, para a nossa sorte, claro, há textos feicebuquianos de "Martha Medeiros" (com aspas, até segunda ordem). "Sorrir sempre é muito elegante", assim como "oferecer flores", e já estou sorrindo do secretário Beltrame, que deu alegremente o pontapé inicial na Copa UPP de futebol no Vidigal, enquanto os niteroienses são assassinados pelos bandidos cariocas que ele exportou. Daqui a pouco, vou sorrir na fila do banco, porque também "faz um bem danado para a alma" e "educação enferruja por falta de uso". Talvez ofereça flores à gerente.

Até ontem, eu acreditava que "a ausência de horror para com o erro, para com o mal, para com o Inferno, para com o demônio, esta ausência parece que chega a ser uma desculpa para o mal que cada um leva em si mesmo", como escreveu o filósofo francês Ernest Hello há uns 150 anos. Hoje, finalmente me sinto desobrigado, senão de sentir, ao menos de transparecer esse horror. E na pior das hipóteses - a de senti-lo -, posso sem remorso ignorá-lo, negá-lo, escondê-lo, fingir que ele não existe e que o mundo é cor-de-rosa, como se supõe no facebook. Sou mesmo um novo e sorridente homem.

Nunca me senti tão elegante. Nunca me senti tão brasileiro.

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