quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Corações corrompidos

[Publicado originalmente no facebook - aqui.]

Eles querem mulheres lindas e gostosas. Elas querem homens ricos, de preferência do mercado financeiro.

Eles foram feitos para elas. Elas foram feitas para eles.

Ambos se consomem para garantir a vida de lazeres e prazeres que os seduziu desde a juventude.

Elas ganham roupas, joias, jantares, viagens, carros e apartamentos.


Eles ganham sexo e prestígio entre seus semelhantes.

Elas fingem que os amam e que eles bastam. Eles pensam que as amam e acreditam.

Nenhuma novidade. Apenas o bom e velho casamento da beleza com o dinheiro.

Cada um garantindo o passaporte para seus objetos preferidos.

E, no entanto, "cada um" é muita gente. Muito mais a cada dia.

Quanto mais o consumo e a tecnologia avançam, maior o número de deslumbrados.

Quanto mais o ambiente cultural provincianiza a mente humana, mais se estende a caipirice.

Elas já não são apenas as mulheres sem perspectiva ou iniciativa, encaminhadas até pelos pais aos bem-sucedidos.

São também as bem formadas, educadas, com emprego e capacidade de escolha.

Eles já não são apenas os idiotas endinheirados.

São também os razoavelmente inteligentes, com vivência, experiência e discernimento.

Quanto mais ambos se deixam engolfar nesse processo, menos se dão conta de estarem nele.

Cresce o fingimento. Cresce o cinismo. Vazam os desejos reprimidos.

E hoje, para o bem ou para o mal, não faltam canais por onde eles possam vazar...

O que falta em um relacionamento se encontra, mais cedo ou mais tarde, na rua, na academia, no trabalho, na internet - e se mantém via whatsapp, messenger, facebook.

O conteúdo. O senso de humor. A afinidade das almas.

A possibilidade de algo ser mais profundo, divertido e elevado do que o jogo de aparências em que se meteram, inertes.

Aparecem, então, as dúvidas. As angústias de quem, sendo ao menos capaz de conceber um amor maior, pondera se vale a pena abrir mão da conveniência em favor dele.

E, como um rolo compressor contra a inquietude, cada vez mais a conveniência vence. Seja na fidelidade à superficialidade, seja na superficialidade da traição.

Em tempos de permissividade e abundância, o luxo esmaga o espírito - e até os bons corações se corrompem.

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Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim e nunca viu tanta dondoca de Louis Vitton com mauricinho de polo listrada no Rio de Janeiro.

[Veja a repercussão desta crônica - aqui.]
[Outras crônicas recentes: Contra a cafonice; Flertes virtuais]

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