segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ídolos de província

[Publicado originalmente no facebook - aqui.]

Se as defesas de Espanha, Holanda e Alemanha fossem iguais à do Palmeiras [ou do Flamengo, ok], eu também veria no ataque do Fluminense uma nova Era para o futebol brasileiro e em Fred um novo Bebeto, um novo Romário.

Mas a falta de cobertura, de responsabilidade, de solidariedade, de inteligência,
de técnica de desarme - de tudo, enfim, que seria necessário para evitar o gol do adversário -, é o fator mais característico e cômico do nosso futebol, que há pelo menos 10 anos nada mais faz senão fabricar ídolos de província, tanto mais criadores de uma ilusão coletiva em relação a sua deles excepcionalidade (desfeita de 4 em 4 anos para surpresa dos provincianos) quanto mais especializados em furar defesas furadas.

Agora que a publicidade garante suas fortunas em território nacional, onde têm também garantida a bajulação da mídia, da torcida e da mulherada, bem como a tolerância com seus excessos alcoólicos e demais fanfarrices, muitos já não veem sequer motivo para arriscar a sorte na Europa, onde tantos falharam em meio a um futebol de verdade.

É o desafio pessoal reprimido em favor da segurança, do comodismo e da esbórnia brasileira, sempre com o incentivo de boa parte dos nossos jornalistas. Basta o jogador declarar amor ao clube e ao país, e pronto: transmuta-se a covardia em desapego material, o abandono dos ideais em gesto nobre de maturidade, a opção pela mediocridade em fidelidade à família, aos amigos, à torcida... à pátria! - aquela mesma que sempre decepcionam quando ela mais precisa de seus talentos desenvolvidos.

No mesmo dia em que o Fluminense ganhou o tetracampeonato brasileiro, Pelé pediu a Neymar, no Domingão do Faustão, que ficasse por aqui com a gente, "entende"? Mas que o maior jogador de todos os tempos (depois de Zico, claro) ficasse por aqui quando ainda existia futebol é coisa bem diversa de Neymar ficar pedalando nas Avenidas Brasil de times "grandes" (ou "enormes") de várzea.

O Brasil, até pouco tempo atrás, era apenas o asilo para ex-ídolos - nacionais e internacionais - já incapazes de acompanhar a qualidade e o ritmo europeus, seja pela idade, pela vida desregrada, ou pelos dois. Mas, como tudo que é Brasil sempre pode piorar, hoje qualquer jogador razoável, de qualquer idade, está satisfeitíssimo em fazer sucesso no asilo - exatamente como o playboy que pega 5 coroas no Baile das Encalhadas e acha que está abalando.

Um país que corrompe assim seus ideais de grandeza será, quando muito, um país de pernas-de-pau.

Um país, enfim, onde até o Fluminense é tetracampeão.

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Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim e adora recolocar as coisas nos seus devidos lugares.

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