sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Melhor sim, e daí?

[Publicado originalmente no facebook - aqui.]

Sempre que se critica qualquer coisa no Brasil - até a cafonice patente de uma geração mentalmente anestesiada por ideais publicitários de beleza e sofisticação -, aparecem os relativistas, com pretensa fofura e ilusão de superioridade, gritando "viva as diferenças!", "não existe melhor nem pior!", "cada um é feliz como prefere!", para então saírem seguros de terem desconstruído uma crônica em dois ou três peidos verbais.

O relativismo, esta doença da alma imposta em 1968, é isso: a intolerância à distinção e à divergência, em nome da tolerância à diversidade. Equipara-se tudo que é mau, feio, falso, ordinário, vulgar e estúpido, quando não criminoso, a tudo que é bom, belo, verdadeiro, elevado, genial e sublime, quando não as próprias bases morais e intelectuais da civilização. E ai do "preconceituoso" que os diferencie e hierarquize de novo...

Neste mundinho - construído por intelectuais e professores militantes - onde o nivelamento por baixo é inevitável, não só um funk dos MCs Naldo e Marcinho têm valor idêntico à obra de Platão e Aristóteles, como a vulgaridade de uma periguete turbinada e a elegância de uma moça simples dividem o mesmo patamar estético. Tudo não passa, afinal, de uma diferença de "estilos".

Se há quem goste de ambos, por que um seria melhor do que o outro, não é mesmo? A pergunta poderia ser igual em relação a bandidos e heróis: se há quem goste de ambos - e o que não falta é "Maria Fuzil" -, por que um seria melhor do que o outro? Da mesma forma: se há quem goste de gente burra, por que os inteligentes seriam melhores?

À geração feicebuquiana, para a qual ser "curtido" é o único critério de julgamento, o fator legitimador das condutas e o máximo a que a alma humana aspira, esses "raciocínios" soam ainda mais arrebatadores. Se é verdade, pois, que ambientes virtuais libertam as mentes inquietas da manipulação da grande mídia e das instituições de ensino, também o é que acentua em mentes escravas o que elas têm de pior: a carência afetiva, o pavor do isolamento, a busca da aprovação, a afetação de bom mocismo.

Em nome da "felicidade" alheia - que nada tem a ver com a história -, algumas menininhas saem em defesa de padrões estéticos que rebaixam até a maneira como elas mesmas são vistas pelos homens. (Ou será moralismo dizer que a proliferação das periguetes contribui para a visão da mulher como um objeto descartável, para mero usufruto sexual?)

Longe de mim julgar o caráter ou a honra de alguém pelas roupas que veste, mas, como dizia Leonardo Da Vinci, "a simplicidade é o último grau de sofisticação"; e, quando a sociedade perde de vista este grau ou, mais grave ainda, a própria noção da existência de graus, é porque o fingimento pomposo - independentemente do jeito peculiar de cada um - já assumiu o seu posto, criando essas monstruosidades, vulgares ou não, que a gente vê em bares, festinhas e álbuns, tanto mais cafonas quanto mais dividem o estojo de maquiagem com as miguxas.

É dever do escritor dizer, a seu modo, que as moças podem e devem ser muito melhores do que isso.

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Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim e, como todo homem, também precisa proteger as mulheres de si mesmas.

[Veja a repercussão deste artigo - aqui.]

Um comentário:

  1. Felipe, ótimo texto! Aliás, é um prazer encontrar alguém que escreve tão bem e sobre assuntos (verdadeiramente) importantes... Lembro-me de quando Olavo citou seu soneto e como o elogiou, mas somente agora conheci sua página. A leitura é deliciosa e devo também o parabenizar pelo trabalho no livro O Mínimo. Aplausos e pedidos de bis.

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