quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Raras exceções

[Crônica publicada originalmente no facebook - aqui.]

Se você é inteligente, você é metido, segundo os burros.

Se você é bonito, você é idiota, segundo os dragões.

Se você estuda alguma coisa, você é nerd, segundo os ignorantes.

Se você mantém um corpo atlético, você é fútil, segundo os caídos.

Se você tem pudor, você é careta, segundo os depravados.

Se você tem senso de humor, você é cafajeste, segundo os polidos.

Se você cuida da pele, você é fresco, segundo os carcomidos.

Se você cultiva a simplicidade, você é deselegante, segundo os embonecados.

Se você trabalha muito, você não curte a vida, segundo os incapazes.

Se você tem ambições acima do dinheiro, você é imaturo, segundo os dinheiristas.

É por essas e outras que eu digo:

Se existe uma minoria no país da acomodação, é a dos belos e inteligentes, atléticos e estudiosos, pudorosos e bem-humorados, bem-cuidados e simples, responsáveis e perseverantes na luta por um ideal.

Aquele seletíssimo grupo de pessoas prendadas, inquietas e sinceras consigo mesmas que têm a coragem de romper as imagens padronizadas que a cultura as convida a encarnar e, assim, buscar a perfeição, conciliando uma variedade de qualidades e valores dispersos, sem se deixarem paralisar pela caricatura que deles fazem os fingidos, sempre movidos por preconceitos bocós de tribo, preguiça inconfessada ou inveja pura.

Normalmente, as pessoas mais completas são as mais disputadas para um relacionamento sério, o que transforma boa parte delas em pessoas tremendamente enroladas, sem a menor ideia do que escolher diante de tantas opções e facilidades. Aos poucos, em vez de procurarem orientação fora do seu círculo imediato e aprenderem a nomear seus conflitos mais íntimos com as ferramentas de linguagem que o dialeto das tribos não dá, elas também vão se mediocrizando ou se acanalhando junto à massa recalcada e deixando aquele seletíssimo grupo ainda menor.

Em favor do fingimento geral, abrem mão da própria personalidade — e dão início ao processo de embarangamento físico e/ou mental.

É uma pena. Quem condensa em si mesmo os melhores elementos de uma cultura eleva a cultura pela força do exemplo. Quando essas exceções humanas são raras ou já não existem, todos se satisfazem em ser apenas um estereótipo falando mal de outro.

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Nota de rodapé: Se você é um relativista para quem “todo es igual, nada es mejor” e “cada um é feliz a seu jeito”, vá ser igual e feliz na sua página, ok?

[Ou leia isto.]

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Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim e deseja que você seja melhor em 2013.

[Veja a repercussão desta crônica - aqui.]

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