quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Soneto chato

[Publicado originalmente no facebook - aqui.]

Ninguém salva mais vidas do que um "chato"
E nada mata mais que a sua ausência
Sem ele tudo é culto à inconsequência
Glamour da estupidez em cada ato.

Ninguém é do futuro bom arauto
Se não tem do passado consciência
Mais vale ouvir a voz da experiência
Do que implorar socorro como incauto.

Os pais, "chatos" primeiros, quando ausentes
Ou por medo dos filhos, transigentes
Na esperança de vê-los sempre gratos

Endossam atitudes delinquentes
Tragédias evitáveis, decorrentes
De toda uma cultura avessa aos "chatos".

*****

Felipe Moura Brasil é o chatinho (sem aspas) autor do Blog do Pim.


Nota chata
[Publicada no facebook após o trágico incêndio na boate de Santa Maria (RS).]

Na maioria dos países, o sujeito que tem medo de que a boate pegue fogo, o prédio desabe, o elevador despenque, a ponte caia, a arquibancada desmorone, a encosta deslize, o bueiro exploda e outras coisas mais venham abaixo (ou acima), sem deixar opções para a fuga, é considerado um sujeito paranoico, com síndrome do pânico.

No Brasil do jeitinho, onde tudo corre frouxo, um sujeito assim é apenas alguém bem informado.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Que diferença faz?

[Publicado originalmente no facebook - aqui.]
[Também publicado no Mídia Sem Máscara - aqui.] 
[Nota complementar - aqui.]

Recomendações básicas:

1. Se seus partidários forem pegos comprando o Congresso, diga “Eu não sabia de nada”, como Lula.

2. Se você e seus partidários forem pegos mentindo sobre um ataque terrorista, pergunte “Que diferença faz?”, como Hillary Clinton.

3. Em ambos os casos, diga que o mais importante não é apontar motivos nem culpados, mas fazer o possível para que isto não aconteça de novo.

O Manual do esquerdista para a hora do aperto vai ficando assim cada vez mais completo. Siga-o sempre, que a imprensa ainda ajuda você a se dar bem.

1.

Não que Hillary Clinton não tenha usado também o recurso lulista.

Em depoimento ao Senado, a secretária de Estado alegou não ter sido informada dos pedidos de reforço de segurança para o consulado em Benghazi, antes do ataque que matou 4 oficiais americanos.

Sabe como é, pessoal: havia ameaças “muito sérias” no Cairo, no Iêmen, na Tunísia... Quem se lembraria da Líbia numa hora dessa? Hillary não sabia de nada, porque estava ocupada demais salvando o resto do mundo.

Eu entendo. Em meus tempos de monitor de colônia de férias na região serrana do Rio, costumava brincar em segredo com os demais monitores: “A gente trouxe 220 crianças. Se levar de volta 219, está ótimo, não é? Quase 100% de aproveitamento.”

Nunca pensei que minha piada macabra se tornaria discurso oficial de uma secretária de Estado americana. Na colônia de férias do governo Obama, é justificável deixar até 4 para trás, desde que os outros sejam levados de volta.

É uma gente assim — como posso dizer? — muito bem-humorada.

2.

Não é por outro motivo que Hillary perguntou “Que diferença faz” se ela, Obama, Jay Carney e Susan Rice passaram semanas culpando pelo ataque um vídeo do Youtube crítico ao profeta Maomé.

Que diferença faz, ora bolas, se Hillary garantiu até para o pai do oficial Tyrone Woods, no próprio enterro deste, que o autor do vídeo (sim: do vídeo) seria preso e condenado, como de fato foi?

Que diferença faz se o governo Obama, sob o pretexto de derrubar Kadafi, armou e financiou os terroristas que agora fazem a festa no Norte da África, com direito a churrasquinho de americanos na laje do consulado em Benghazi?

Que diferença faz se esses americanos pediram em vão mais segurança, antes e durante o churrasco, para não entrarem no espeto?

Que diferença faz, afinal, se Obama, Hillary e demais “democratas” mentiram para o povo de seu país e do mundo, enquanto a reeleição do presidente estava em jogo?

Nós, monitores, também inventávamos um monte de histórias para as criancinhas pegarem no sono mais cedo...

3.

O Manual do esquerdista é claro:

Mesmo quando tiver que assumir a responsabilidade, jamais assuma a culpa.

Por isso mesmo, no fim das contas, eu traduziria assim o depoimento de Hillary:

“Eu assumo — no lugar de Obama — a responsabilidade de não ter sido informada de nada, enquanto salvava o mundo de ameaças muito sérias; e garanto ao povo americano e aos pais das 4 vítimas que farei de tudo não só para evitar novos ataques como para trazer à Justiça os responsáveis por aquele, pouco importando se são ou não os mesmos que, antes das eleições, Obama e eu lhes dissemos que eram. Para isso, precisamos de mais verbas.”

Que toda a imprensa ocidental chame tal coisa de assumir a responsabilidade, com toda a nobreza que o ato sugere, é mais uma prova de que o jornalismo se transformou em “copy and paste” de piada esquerdista.

Diariamente, essa gente não faz outra coisa senão rir de você.

Mas que diferença faz, não é mesmo?...

******

Nota de rodapé 1:

Agora, para ter arma nos EUA, todos serão submetidos a uma checagem de antecedentes. Exatamente aquilo de que Barack Hussein Obama, para ter a maior arma de todas, a Presidência da República, foi e é rigorosamente dispensado.

Nota de rodapé 2:

Parabéns, Beyoncé, pela sutil homenagem a Barack Obama!

Na posse do presidente-teleprompter, nada mais justo que cantar o hino em playback.


******


Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim e já pensa em publicar o livro Tudo que você nunca quis saber sobre a Líbia, nem nunca vai perguntar, que inclui os seguintes artigos, nos quais já revelava as trapaças do governo Obama no caso:

O Rei Sonso e o país dos sonsos;
A "mãe" de Obama;
Garibaldo e Funga-Funga / Já imaginou se fosse o Bush?;
Os vingadores;
entre outros.

[Nota complementar deste artigo - aqui.]

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Juveninho e as moças de Woody Allen

[Publicado originalmente no facebook - aqui.]
[Mais histórias de Juveninho - aqui.]

Reza a lenda que antes de começar o verão carioca, São Pedro pergunta a Juveninho:

“Está pronto?”

Pois bem. Juveninho está. (Atrasado, mas está.) Podem vir as periguetes. Podem vir as biscates. Podem vir as cafonas. Podem vir todas para o colo de Juveninho que ele agradece de coração, mas passa. Passa a mão, dizem os amigos. Juveninho ignora. Não quer saber de passatempo algum a não ser procurar a antiperiguete, a antibiscate, a anticafona, sem hífen nem cintinho de vestido.

Não! Juveninho tampouco quer uma freira. Nem anta nem santa, ele diz. As ingênuas, desprovidas de malícia e sedução, nem pensar. Poucas coisas são tão enfadonhas para um homem vivido quanto sair com uma filhinha-de-mamãe. No escurinho do cinema, nem adianta despejar o sal da pipoca em seu bracinho mais próximo. Elas são alérgicas, explica Juveninho. Batem os braços sem desviar os olhos da tela e já estão limpinhas de novo. Se uma mãe quer tirar todo o sal de sua filha, deixá-la assim feito uma pipoca seca e fria, ainda que atraente, a receita ideal, ensina ele, é fazer tudo, tudo, tudo com ela: malhar junto, correr junto, ir à praia junto, tomar açaí junto, colocar silicone junto, sair para dançar junto e, claro, pegar um cineminha junto, dividindo uma pipoca doce. Não tem erro. Uma “filhinha-de-mamãe-miguxa” assim criada, se vier a ter algum jogo de cintura, diz Juveninho, será no bambolê.

Há que se cair no mundo, eis a verdade. O problema é saber o quanto — coisa que raríssimas moças sabem, segundo Juveninho. A maioria acaba nos extremos. Se não cai, infantiliza-se; se cai, despiroca-se — que é a forma desinibida de infantilizar-se. Em outras palavras: se não cai, acha natural, diante de um homem, referir-se à mãe como “mamys”; se cai, vira um bonde sem freio para homens, cigarros, tatuagens, bebidas, drogas e demais sensações, inclusive mulheres e caixas de bis. A força corruptora do meio é tanto mais forte quanto mais fraco o filtro mental de quem nele se aventura. E o único filtro que não enfraquece no verão carioca, diz Juveninho, é o filtro solar. Até porque, contra os raios UVA, já é mesmo bem fraquinho...

Juveninho anda prevenido. Nada de pegar morenas entre 11 e 17 horas no verão. Nesse horário, só as albinas, dizem os amigos. Aquelas ruivinhas sardentas que não podem ir à praia, mas adoram uma sauninha no playground. Juveninho dá de ombros. O maior perigo do sol — pensa — é que, junto com as areias, ele infantiliza as pessoas, a começar pelos seus amigos. Não que Juveninho pense em abandonar os esportes praianos por causa disso. O segredo, ele diz, é vencer todas as partidas e voltar para casa, sem se deixar contaminar pelo limbo mental dos outros.

A Zona Sul do Rio de Janeiro é o paraíso do limbo mental, segundo Juveninho, de modo que só se deve sair de casa por esporte — ainda que o mais recomendável seja praticá-lo em casa mesmo. Reza a lenda que Juveninho jamais dispensou uma morena 'delivery' para bater uma bolinha. O problema, dizem os amigos, é que, quando você já está em casa, não dá simplesmente para voltar para casa depois. E Juveninho bem sabe, segundo eles, o trabalho que dá fazê-las voltar para as suas. É por essas e outras, creem alguns, que ele está se aposentando. É por essas e outras, creem outros, que ele se tornou um especialista no assunto.

Lamenta, Juveninho, o despudor histérico dos amigos, mas não vai entrar nesses méritos agora. Está muito mais preocupado com o limbo mental das moças, sobretudo depois que descobriu o que fez Woody Allen conhecer escritores sérios, como o russo Anton Tchekhov:

“Foi no finzinho da escola secundária” — contou ele ao jornalista Eric Lax em 1988 —, “quando comecei a sair com mulheres que me achavam iletrado. Eu achava aquelas meninas lindas: sem maquiagem, joias de prata, bolsa de couro. Saía com uma delas, que dizia: ‘O que eu queria mesmo fazer hoje era ouvir o Andrés Segovia’. E eu dizia: ‘Quem?’, e ela dizia: ‘Andrés Segovia’. E eu simplesmente não sabia do que ela estava falando. Ou então outra dizia: ‘Você já leu este romance do Faulkner?’. E eu dizia: ‘Eu leio gibi. Nunca li um livro na vida. Não entendo nada disso’. E então, para poder acompanhar, precisei ler.”

Foi para poder acompanhar as moças lindas de sua geração que aquele que viria a ser um dos maiores cineastas de todos os tempos — e um dos favoritos de Juveninho — precisou ler Faulkner, Hemingway, Fitzgerald, Tchekhov e peças de teatro, o qual passaria a frequentar aos 18 anos, a fim de escrevê-las também (já que “roteirista de cinema não era nada, só um nome anônimo cuja obra era retalhada. E um dramaturgo era uma grande coisa”); e ainda precisou ouvir música clássica, como o violão erudito de Andrés Segovia, o mesmo a quem Villa-Lobos dedicou seus "12 estudos" — embora Juveninho prefira a Ária (Cantilena) das Bachianas Brasileiras número 5 —, recebendo depois uma série de sugestões de mudança no texto musical.

Já para poder acompanhar as moças lindas de sua geração (e das gerações abaixo, dizem os amigos), aquele que virá a ser o maior escritor de todos os carnavais — ele mesmo: Juveninho — precisa ler Caras, Contigo, Ego e o caderno Ela, além de textos falsamente atribuídos a Arnaldo Jabor, Luis Fernando Verissimo e Martha Medeiros, citações de livros não lidos de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, e frases do maior filósofo das redes sociais brasileiras, o apologista da maconha Bob Marley; e ainda precisa ouvir Thiaguinho, Jorge e Mateus, MCs Naldo, Catra e Marcinho, além de Coldplay, Jack Johnson e Beyoncé, aquela que homenageou o presidente-teleprompter Barack Obama, em sua posse, cantando o hino americano em playback.

“O que eu queria mesmo fazer hoje era ouvir o Wiz Khalifa”, dizem as mais novinhas. E Juveninho: “Quem?” Elas: “Wiz Khalifa” — e fazem aquela cara de assombro, como se só um E.T. não soubesse do que se trata. O E.T. Juveninho então lhes pergunta, apontando com o dedinho mágico: “Você já leu este romance de Goethe?”. Elas: “Quem?” Ele: “Goethe” — e faz aquela cara de caridade, como quem oferece a chance de suas bicicletas voarem. E de fato voam, dizem os amigos. Voam para bem longe de Juveninho. Não que o moço mais completo de sua geração, segundo ele mesmo, achasse que elas se tornariam as maiores cineastas de todos os tempos caso tentassem acompanhá-lo, mas ao menos, ele diz, entenderiam melhor suas piadas.

A tragicomédia brasileira, resume Juveninho, está toda ela contida nesta simples comparação: Woody Allen, sentindo-se ignorante ante o conhecimento alheio, buscou humildemente o aprendizado; a moçada brasileira, sentindo-se ultrajada ante o conhecimento alheio, foge, maldiz, xinga, chama de velho, nerd, louco, autista, elitista, metido, arrogante, rancoroso, teórico da conspiração, o diabo. E ainda acha que, se tiver o pensamento positivo, tudo vai dar certo. Com pensamento positivo, dizem os amigos, Juveninho não levanta nem... Bom, deixa pra lá.

O carnaval carioca promete. Promete no corpo e deixa a desejar na alma, mas Juveninho se diverte do mesmo jeito. Vai levar o bambolê nos blocos para ver quem tem jogo de cintura; e um salzinho no bolso para tentar ajudar quem não tem. Já mandou até fazer um Megasserrote Antimiguxa, para cortar as patotas ao meio e depois retalhar as metades. Se encontrar uma “filhinha-de-mamãe-miguxa”, retalha as cabeças também. Há que se cair no mundo, e Juveninho cai por esporte, atrás de sua antiperiguete morena, sem maquiagem no rosto e no espírito, como as moças de Woody Allen, porque, segundo Juveninho, inteligência não é dentadura, para ser adquirida e utilizada só depois que tudo já caiu.

Há quem diga que, por precaução, Juveninho já decorou 10 frases do Bob Marley, 5 pagodes do Thiaguinho e 3 funks do Naldo, mas há quem diga que, como a Beyoncé, ele só se garante com playback. Há quem diga que Juveninho prefere abordar as suburbanas porque se encanta com a simplicidade, mas há quem diga que é porque, quanto mais difícil o nome, mais fácil de achar no facebook. Há quem diga que o beijo do filhinho-de-papai Juveninho na filhinha-de-mamãe-miguxa será o mais lindo do carnaval, mas há quem diga que dois E.T.s juntos não fazem um verão.

Que importa afinal — pensa ele — o que dizem os iletrados? Rendido ao sol da folia, Juveninho já separou o filtro solar (com alta proteção contra os raios UVA) e o filtro mental (contra o que hoje se chama de “cultura”), e deixou muito bem avisado a São Pedro (e às morenas) que está mais pronto do que nunca.

*****

Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim e vende fantasias de Juveninho para o carnaval.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Por trás da pegação

[Crônica publicada originalmente no facebook — aqui.]
[Leia também: Sol, sexo e bebida; As facinhas!]

É verão no Rio de Janeiro. A pegação come solta na Zona Sul. Os solteiros estão na pista — nas mesmas pistas dos mesmos eventos — curtindo e compartilhando peguetes. Nem sempre voluntariamente. Nem sempre educadamente. Quando se dão conta, o número de compartilhamentos já aumentou e eles nem foram notificados disso.

No verão carioca, timing é tudo. Atrasou-se? Alguém levou. Resfriou-se? Perdeu. Marcou amanhã? Hoje tem outro. Camarão que dorme a onda leva, cantavam Zeca e Arlindo. Leva, mas até que traz de volta. Traz, não sem uma ponta (afiada) de rancor.

A estação do carnaval é, no fundo, a estação do rancor. Da mágoa que se traveste de indiferença para se afogar em maledicência e se revelar em desabafos virtuais, os mais estabanados. O que mal começou termina mal, e mal se sabe o motivo. Pisam-se nos pés alheios, literal e metaforicamente. É a época em que todos os calos cantam.

Se há os calejados? Há sim. São os piores. De tanto baterem a cara no muro, resolveram ser o muro que bate na cara alheia. Fogem do risco de serem rejeitados rejeitando primeiro, através do singelo e habitual expediente de pegar geral na frente de quem for.

Para isto, as turistas caem como uma luva. Vêm de longe atrás dos encantos praianos dos 'meninos do Rio', que as recebem de braços abertos, desde que bonitas, sendo a beleza um conceito incrivelmente elástico em ambientes escuros com Open Bar.

Já aos turistas machos, seria mais honesto dizer — como Arturo Bandini aos novos californianos de Pergunte ao pó — que “as ruas estarão cheias de belas mulheres que vocês nunca possuirão e as noites quentes e semitropicais recenderão a romances que vocês nunca vão viver, mas ainda assim estarão no paraíso, rapazes, na terra do sol”.

A terra do sol e das praias, onde, já dizia Paulo Mendes Campos, “só conta ponto a favor o encanto pessoal: beleza do corpo, esportividade, simpatia, vivacidade de espírito, capacidade de improvisação, alegria de viver. O resto tem de ser disfarçado como se fosse defeito: riqueza, cultura, origem familiar, seriedade de propósito. Os reis e rainhas da praia são os/as grandes praças, cobras do surfe e da caça submarina [hoje stand-up, altinha, futevôlei...], os doidões, os engraçadíssimos, os touros-de-forte [sarados, bombados] e as lindas-de-morrer. (...) Quem for admitido ao círculo dos bacanas (...) tem acesso a todos os programas (...)”, de modo que “não é preciso ser um rapaz direito para ser rei da Zona Sul; basta ser um rapaz bacana”.

Algumas décadas depois, a não ser pelo interesse cada vez menor dos rapazes bacanas em serem direitos, a Zona Sul continua a mesma, com a vida praiana potencializando os olhares superficiais.

“A supremacia da comunicação visual sobre as outras”, explicava Campos, “é um dado inevitável para o entendimento da psicologia coletiva de nosso tempo. Depois da fotografia, da revista (...), do cinema, da televisão, acabamos todos condicionados pela imagem física do outro. [E nem existia facebook...] As chamadas virtudes morais desceram ao porão. Inteligência, saber e personalidade só valem, um pouco, quando podem servir de título-legenda a uma figura atraente. (...) A juventude está fazendo tudo para desligar a tomada da alma. (...) Mas não é apenas em relação ao outro que o jovem se desliga da verdade humana: ele acaba por se desligar de si mesmo, estancando a todo custo suas mais profundas camadas de humanidade. E quando, apesar de tudo, essas camadas remotas jorram na superfície, sem o hábito da terminologia adequada, o jovem simplifica a complexidade de seu estado espiritual em meia dúzia de expressões: está mandando uma brasa... está gamado... está na fossa...”

Ou — como já analisei aqui — está ‘pagando paixão’, está ‘dando esperança’, está ‘fazendo joguinho’...

Eis a tragicomédia social carioca, sempre acentuada no verão: a moçada quer praia, quer imagem, quer pegação, só não quer aprender a expressar o que se passa consigo e com os outros, nem desenvolver as habilidades necessárias para uma convivência saudável, muito menos assumir as responsabilidades pelas próprias escolhas (de ter ficado ou transado, por exemplo), antes preferindo, com os parcos recursos de linguagem de que dispõe, imaginar histericamente aquilo que lhe parece, para então reagir à sua própria imaginação — mas contra os demais — com a violência do silêncio desdenhoso, da virada de rosto, da indireta pública, da cusparada por trás no prato que comeu.

O aparente “tô nem aí” geral é uma ilusão, uma lenda, um disfarce sob o qual quase todos se debatem e se agridem com ressentimentos banais, ainda que se adorem, que se admirem, que morram de encantos uns pelos outros.

Poucas coisas são mais deprimentes e divertidas ao mesmo tempo do que isto: o despreparo psicológico e a inabilidade social de jovens e adultos para lidar com as consequências da permissividade que tanto desejam e desfrutam, sem que nada lhes seja cobrado para tanto senão, quando muito, os valores cada vez mais altos dos ingressos. Quando se desliga “a tomada da alma”, os choques são inevitáveis.

No verão carioca, os solteiros estão na pista se curtindo, se compartilhando — e cultivando aquele rancorzinho gostoso para o ano inteiro...

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Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim e, por uma vida mais leve e bem-humorada, recomenda poesia, literatura e análise a quem só pensa em praias, eventos e viagens.

[Veja a repercussão desta crônica — aqui.]
[Leia também: Sol, sexo e bebida; As facinhas!]
[E ouça os Podcasts do Pimaqui, aqui, aqui e aqui.]

sábado, 5 de janeiro de 2013

Zeca Pagodinho e o heroísmo erótico

[Publicado originalmente no facebook - aqui.]
[Também publicado no Mídia Sem Máscara - aqui.]
[Leia o texto complementar: O arrependimento no país dos otários]

"Dá nojo de político", disse Zeca Pagodinho, o herói da semana em Xerém. Mas de qual político, Zeca? Não seria a hora de você se desculpar por ter apoiado Lula tantas vezes? Sim, eu sei, o governador não é ele; é Sérgio Cabral, eleito com o apoio dele. Não é uma trágica ironia ver o naufrágio de uma cidade abandonada pelo afilhado político - e maior discípulo moral - do seu candidato?

Mais do que isso: não é estranho ter nojo de político que nada faz para evitar a morte de 2 moradores, o desaparecimento de mais alguns e o desalojamento de outras centenas em função de uma tempestade de verão (e que mal se move para socorrê-los); e apoiar político que nada faz para evitar, ou melhor, tudo faz para fomentar o assassinato de até 50 mil compatriotas por ano em tempos de "paz"? Não é estranho, Zeca, ter nojo de alguém só quando as vítimas de seu descaso nos são próximas?

Não, respondo eu. Não é estranho. É brasileiro. Zeca Pagodinho representa a índole da cultura nacional. O Brasil é tradicionalmente o país da chamada emoção erótica. Uma emoção limitada ao contato, à proximidade, ao vínculo familiar ou social. Brasileiro é muito unido a quem está dentro de seu círculo e muito indiferente a quem está fora. Ele ama e se preocupa apenas com os seus.

Meira Penna descreve este traço no livro Em berço esplêndido, o estudo mais útil já escrito sobre o assunto. Diz ele: "O brasileiro traduz literalmente o mandamento cristão de amar o próximo. Acredita que a caridade começa em casa... e talvez nela termine. É a solidariedade do contíguo e do consanguíneo. O próximo é antes de tudo o parente, mas também o amigo, o sócio, o cliente; todos os conhecidos, aqueles com quem se convive e se trabalha; que podem ser vistos, ouvidos e sentidos diariamente. Só estes merecem a expansão específica da cordialidade e da philia. Os desconhecidos, que se danem!"

José Ingenieros, em seu incontornável livro O homem medíocre, descreve esta mesma limitação afetiva como sintoma de mediocridade: "O medíocre limita seu horizonte afetivo a si mesmo, à sua família, aos seus camaradas, à sua facção; mas não sabe estendê-lo até a Verdade ou a Humanidade, que apenas pode apaixonar ao gênio."

Longe de mim recriminar Zeca Pagodinho por dirigir seu quadriciclo "desde 6 da manhã" pela cidade alagada, ajudando as vítimas da tragédia serrana. Este é o Zeca que representa justamente o que o brasileiro tem de melhor: o amor aos seus. É o Zeca afetuoso com seus amigos e vizinhos, e solidário quando estes mais precisam dele. É o Zeca que eu ia assistir moleque no antigo Imperator, no Méier, e no Teatro Rival, na Cinelândia - quando seu público ainda cabia ali -, e com quem tanto aprendi sobre simplicidade, espontaneidade e afeto por quem nos é próximo, como ele nunca cansou de demonstrar no palco e na carreira a seus músicos, ídolos, padrinhos e afilhados. Na verdade, há 20 anos acostumado com este Zeca, nem sequer me foi surpresa vê-lo encharcado e emocionado na TV, fazendo pelos seus o que os políticos não fizeram.

Mas Zeca é brasileiro e, como tal, diria Olavo de Carvalho, "decide as questões mais graves do destino humano pelo mesmo critério de atração e repulsa imediatos com que julga a qualidade da pinga ou avalia o perfil dos bumbuns na praia. Daí sua tendência incoercível de tomar a simpatia pessoal, a identidade de gostos (...) como sinais infalíveis de alta qualificação moral". Não à toa, o sambista já se referiu a Lula como "um homem de bem", defendendo que ele certamente "não sabia de nada", porque "Eu mesmo às vezes não sei de coisas da minha vida".

Em outras palavras: Zeca é tão solidário às pessoas próximas, como Lula, que nem se importa em saber o efeito das ações delas na vida alheia, mesmo quando esses efeitos respingam em seu próprio quintal e até o devastam. O ódio ao conhecimento, a maior desgraça "deste país", é isso: uma forma de indiferença - um "que se danem!" - ao desconhecido e aos desconhecidos, que sempre acaba por prejudicar, mesmo da maneira mais indireta, aqueles que se conhece. Quem não sabe estender seu horizonte afetivo "até a Verdade ou a Humanidade" pode até praticar o "bem" com uma mão, mas o mais provável é que, consciente ou inconscientemente, esteja afagando o mal com a outra.

Zeca Pagodinho faria muito bem à população que o aplaude se dissesse ter nojo, especificamente, de Cabral e de Lula, confessando a vergonha de ter apoiado este último, que não só se aproveitou da cisão afetiva nacional, como também, pelo exemplo e pelas atitudes, elevou-a até os limites da crueldade pura e simples, favorecendo sempre os "companheiros" (inclusive os terroristas das Farc), enquanto deixava 50 mil brasileiros desconhecidos morrerem assassinados por ano. Se não fizer isso, Zeca é apenas mais um cidadão ativista que luta bravamente para limpar na vizinhança a sujeira que ajudou a criar no país.

Na sociedade erótica brasileira, como se sabe, até os heróis são (amigos dos) bandidos.

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Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim e, muito embora amante do samba desde moleque, cresceu o bastante para saber que o buraco da cultura é muito mais acima.

[Leia o texto complementar: O arrependimento no país dos otários]


[Para compartilhar no facebook o texto, clique aqui; a foto, aqui.]

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Lula, o Filho da Globo

[Nota publicada originalmente no facebook - aqui.]

Lula, o Filho da Globo, ganhou uma sessão de "cinema" na emissora que o colocou no poder e lá o manteve, primeiro ajudando-o a destruir a reputação de seus adversários e a construir a imagem do PT como paladino da justiça e a dele como presidente operário, do qual só se falava com voz embargada e lágrimas de comoção cívica; depois poupando-o em investigações relativas aos assassinatos dos prefeitos de Campinas e Santo André, ao Mensalão e a todos os demais escândalos de corrupção petista; e sempre omitindo suas assembleias com terroristas das Farc e do MIR chileno no Foro de São Paulo, criado por ele junto com o ditador genocida Fidel Castro, "para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política", como confessou em 2 de julho de 2005, quando a soberania do país já havia sido transferida para a entidade clandestina dos "companheiros", jamais denunciada pelo comentarista político global, Arnaldo "Companheiro" Jabor.

Que mamãe Globo resolva lamber sua cria quando novos escândalos lhe ameaçam a reputação, é tão perfeitamente natural que só otários de longa data podem se surpreender com esse tipo de atitude.

Mas, no país dos otários, ainda há quem diga que a Globo é "de direita"...