quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Juveninho e as moças de Woody Allen

[Publicado originalmente no facebook - aqui.]
[Mais histórias de Juveninho - aqui.]

Reza a lenda que antes de começar o verão carioca, São Pedro pergunta a Juveninho:

“Está pronto?”

Pois bem. Juveninho está. (Atrasado, mas está.) Podem vir as periguetes. Podem vir as biscates. Podem vir as cafonas. Podem vir todas para o colo de Juveninho que ele agradece de coração, mas passa. Passa a mão, dizem os amigos. Juveninho ignora. Não quer saber de passatempo algum a não ser procurar a antiperiguete, a antibiscate, a anticafona, sem hífen nem cintinho de vestido.

Não! Juveninho tampouco quer uma freira. Nem anta nem santa, ele diz. As ingênuas, desprovidas de malícia e sedução, nem pensar. Poucas coisas são tão enfadonhas para um homem vivido quanto sair com uma filhinha-de-mamãe. No escurinho do cinema, nem adianta despejar o sal da pipoca em seu bracinho mais próximo. Elas são alérgicas, explica Juveninho. Batem os braços sem desviar os olhos da tela e já estão limpinhas de novo. Se uma mãe quer tirar todo o sal de sua filha, deixá-la assim feito uma pipoca seca e fria, ainda que atraente, a receita ideal, ensina ele, é fazer tudo, tudo, tudo com ela: malhar junto, correr junto, ir à praia junto, tomar açaí junto, colocar silicone junto, sair para dançar junto e, claro, pegar um cineminha junto, dividindo uma pipoca doce. Não tem erro. Uma “filhinha-de-mamãe-miguxa” assim criada, se vier a ter algum jogo de cintura, diz Juveninho, será no bambolê.

Há que se cair no mundo, eis a verdade. O problema é saber o quanto — coisa que raríssimas moças sabem, segundo Juveninho. A maioria acaba nos extremos. Se não cai, infantiliza-se; se cai, despiroca-se — que é a forma desinibida de infantilizar-se. Em outras palavras: se não cai, acha natural, diante de um homem, referir-se à mãe como “mamys”; se cai, vira um bonde sem freio para homens, cigarros, tatuagens, bebidas, drogas e demais sensações, inclusive mulheres e caixas de bis. A força corruptora do meio é tanto mais forte quanto mais fraco o filtro mental de quem nele se aventura. E o único filtro que não enfraquece no verão carioca, diz Juveninho, é o filtro solar. Até porque, contra os raios UVA, já é mesmo bem fraquinho...

Juveninho anda prevenido. Nada de pegar morenas entre 11 e 17 horas no verão. Nesse horário, só as albinas, dizem os amigos. Aquelas ruivinhas sardentas que não podem ir à praia, mas adoram uma sauninha no playground. Juveninho dá de ombros. O maior perigo do sol — pensa — é que, junto com as areias, ele infantiliza as pessoas, a começar pelos seus amigos. Não que Juveninho pense em abandonar os esportes praianos por causa disso. O segredo, ele diz, é vencer todas as partidas e voltar para casa, sem se deixar contaminar pelo limbo mental dos outros.

A Zona Sul do Rio de Janeiro é o paraíso do limbo mental, segundo Juveninho, de modo que só se deve sair de casa por esporte — ainda que o mais recomendável seja praticá-lo em casa mesmo. Reza a lenda que Juveninho jamais dispensou uma morena 'delivery' para bater uma bolinha. O problema, dizem os amigos, é que, quando você já está em casa, não dá simplesmente para voltar para casa depois. E Juveninho bem sabe, segundo eles, o trabalho que dá fazê-las voltar para as suas. É por essas e outras, creem alguns, que ele está se aposentando. É por essas e outras, creem outros, que ele se tornou um especialista no assunto.

Lamenta, Juveninho, o despudor histérico dos amigos, mas não vai entrar nesses méritos agora. Está muito mais preocupado com o limbo mental das moças, sobretudo depois que descobriu o que fez Woody Allen conhecer escritores sérios, como o russo Anton Tchekhov:

“Foi no finzinho da escola secundária” — contou ele ao jornalista Eric Lax em 1988 —, “quando comecei a sair com mulheres que me achavam iletrado. Eu achava aquelas meninas lindas: sem maquiagem, joias de prata, bolsa de couro. Saía com uma delas, que dizia: ‘O que eu queria mesmo fazer hoje era ouvir o Andrés Segovia’. E eu dizia: ‘Quem?’, e ela dizia: ‘Andrés Segovia’. E eu simplesmente não sabia do que ela estava falando. Ou então outra dizia: ‘Você já leu este romance do Faulkner?’. E eu dizia: ‘Eu leio gibi. Nunca li um livro na vida. Não entendo nada disso’. E então, para poder acompanhar, precisei ler.”

Foi para poder acompanhar as moças lindas de sua geração que aquele que viria a ser um dos maiores cineastas de todos os tempos — e um dos favoritos de Juveninho — precisou ler Faulkner, Hemingway, Fitzgerald, Tchekhov e peças de teatro, o qual passaria a frequentar aos 18 anos, a fim de escrevê-las também (já que “roteirista de cinema não era nada, só um nome anônimo cuja obra era retalhada. E um dramaturgo era uma grande coisa”); e ainda precisou ouvir música clássica, como o violão erudito de Andrés Segovia, o mesmo a quem Villa-Lobos dedicou seus "12 estudos" — embora Juveninho prefira a Ária (Cantilena) das Bachianas Brasileiras número 5 —, recebendo depois uma série de sugestões de mudança no texto musical.

Já para poder acompanhar as moças lindas de sua geração (e das gerações abaixo, dizem os amigos), aquele que virá a ser o maior escritor de todos os carnavais — ele mesmo: Juveninho — precisa ler Caras, Contigo, Ego e o caderno Ela, além de textos falsamente atribuídos a Arnaldo Jabor, Luis Fernando Verissimo e Martha Medeiros, citações de livros não lidos de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, e frases do maior filósofo das redes sociais brasileiras, o apologista da maconha Bob Marley; e ainda precisa ouvir Thiaguinho, Jorge e Mateus, MCs Naldo, Catra e Marcinho, além de Coldplay, Jack Johnson e Beyoncé, aquela que homenageou o presidente-teleprompter Barack Obama, em sua posse, cantando o hino americano em playback.

“O que eu queria mesmo fazer hoje era ouvir o Wiz Khalifa”, dizem as mais novinhas. E Juveninho: “Quem?” Elas: “Wiz Khalifa” — e fazem aquela cara de assombro, como se só um E.T. não soubesse do que se trata. O E.T. Juveninho então lhes pergunta, apontando com o dedinho mágico: “Você já leu este romance de Goethe?”. Elas: “Quem?” Ele: “Goethe” — e faz aquela cara de caridade, como quem oferece a chance de suas bicicletas voarem. E de fato voam, dizem os amigos. Voam para bem longe de Juveninho. Não que o moço mais completo de sua geração, segundo ele mesmo, achasse que elas se tornariam as maiores cineastas de todos os tempos caso tentassem acompanhá-lo, mas ao menos, ele diz, entenderiam melhor suas piadas.

A tragicomédia brasileira, resume Juveninho, está toda ela contida nesta simples comparação: Woody Allen, sentindo-se ignorante ante o conhecimento alheio, buscou humildemente o aprendizado; a moçada brasileira, sentindo-se ultrajada ante o conhecimento alheio, foge, maldiz, xinga, chama de velho, nerd, louco, autista, elitista, metido, arrogante, rancoroso, teórico da conspiração, o diabo. E ainda acha que, se tiver o pensamento positivo, tudo vai dar certo. Com pensamento positivo, dizem os amigos, Juveninho não levanta nem... Bom, deixa pra lá.

O carnaval carioca promete. Promete no corpo e deixa a desejar na alma, mas Juveninho se diverte do mesmo jeito. Vai levar o bambolê nos blocos para ver quem tem jogo de cintura; e um salzinho no bolso para tentar ajudar quem não tem. Já mandou até fazer um Megasserrote Antimiguxa, para cortar as patotas ao meio e depois retalhar as metades. Se encontrar uma “filhinha-de-mamãe-miguxa”, retalha as cabeças também. Há que se cair no mundo, e Juveninho cai por esporte, atrás de sua antiperiguete morena, sem maquiagem no rosto e no espírito, como as moças de Woody Allen, porque, segundo Juveninho, inteligência não é dentadura, para ser adquirida e utilizada só depois que tudo já caiu.

Há quem diga que, por precaução, Juveninho já decorou 10 frases do Bob Marley, 5 pagodes do Thiaguinho e 3 funks do Naldo, mas há quem diga que, como a Beyoncé, ele só se garante com playback. Há quem diga que Juveninho prefere abordar as suburbanas porque se encanta com a simplicidade, mas há quem diga que é porque, quanto mais difícil o nome, mais fácil de achar no facebook. Há quem diga que o beijo do filhinho-de-papai Juveninho na filhinha-de-mamãe-miguxa será o mais lindo do carnaval, mas há quem diga que dois E.T.s juntos não fazem um verão.

Que importa afinal — pensa ele — o que dizem os iletrados? Rendido ao sol da folia, Juveninho já separou o filtro solar (com alta proteção contra os raios UVA) e o filtro mental (contra o que hoje se chama de “cultura”), e deixou muito bem avisado a São Pedro (e às morenas) que está mais pronto do que nunca.

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Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim e vende fantasias de Juveninho para o carnaval.

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