sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Por trás da pegação

[Crônica publicada originalmente no facebook — aqui.]
[Leia também: Sol, sexo e bebida; As facinhas!]

É verão no Rio de Janeiro. A pegação come solta na Zona Sul. Os solteiros estão na pista — nas mesmas pistas dos mesmos eventos — curtindo e compartilhando peguetes. Nem sempre voluntariamente. Nem sempre educadamente. Quando se dão conta, o número de compartilhamentos já aumentou e eles nem foram notificados disso.

No verão carioca, timing é tudo. Atrasou-se? Alguém levou. Resfriou-se? Perdeu. Marcou amanhã? Hoje tem outro. Camarão que dorme a onda leva, cantavam Zeca e Arlindo. Leva, mas até que traz de volta. Traz, não sem uma ponta (afiada) de rancor.

A estação do carnaval é, no fundo, a estação do rancor. Da mágoa que se traveste de indiferença para se afogar em maledicência e se revelar em desabafos virtuais, os mais estabanados. O que mal começou termina mal, e mal se sabe o motivo. Pisam-se nos pés alheios, literal e metaforicamente. É a época em que todos os calos cantam.

Se há os calejados? Há sim. São os piores. De tanto baterem a cara no muro, resolveram ser o muro que bate na cara alheia. Fogem do risco de serem rejeitados rejeitando primeiro, através do singelo e habitual expediente de pegar geral na frente de quem for.

Para isto, as turistas caem como uma luva. Vêm de longe atrás dos encantos praianos dos 'meninos do Rio', que as recebem de braços abertos, desde que bonitas, sendo a beleza um conceito incrivelmente elástico em ambientes escuros com Open Bar.

Já aos turistas machos, seria mais honesto dizer — como Arturo Bandini aos novos californianos de Pergunte ao pó — que “as ruas estarão cheias de belas mulheres que vocês nunca possuirão e as noites quentes e semitropicais recenderão a romances que vocês nunca vão viver, mas ainda assim estarão no paraíso, rapazes, na terra do sol”.

A terra do sol e das praias, onde, já dizia Paulo Mendes Campos, “só conta ponto a favor o encanto pessoal: beleza do corpo, esportividade, simpatia, vivacidade de espírito, capacidade de improvisação, alegria de viver. O resto tem de ser disfarçado como se fosse defeito: riqueza, cultura, origem familiar, seriedade de propósito. Os reis e rainhas da praia são os/as grandes praças, cobras do surfe e da caça submarina [hoje stand-up, altinha, futevôlei...], os doidões, os engraçadíssimos, os touros-de-forte [sarados, bombados] e as lindas-de-morrer. (...) Quem for admitido ao círculo dos bacanas (...) tem acesso a todos os programas (...)”, de modo que “não é preciso ser um rapaz direito para ser rei da Zona Sul; basta ser um rapaz bacana”.

Algumas décadas depois, a não ser pelo interesse cada vez menor dos rapazes bacanas em serem direitos, a Zona Sul continua a mesma, com a vida praiana potencializando os olhares superficiais.

“A supremacia da comunicação visual sobre as outras”, explicava Campos, “é um dado inevitável para o entendimento da psicologia coletiva de nosso tempo. Depois da fotografia, da revista (...), do cinema, da televisão, acabamos todos condicionados pela imagem física do outro. [E nem existia facebook...] As chamadas virtudes morais desceram ao porão. Inteligência, saber e personalidade só valem, um pouco, quando podem servir de título-legenda a uma figura atraente. (...) A juventude está fazendo tudo para desligar a tomada da alma. (...) Mas não é apenas em relação ao outro que o jovem se desliga da verdade humana: ele acaba por se desligar de si mesmo, estancando a todo custo suas mais profundas camadas de humanidade. E quando, apesar de tudo, essas camadas remotas jorram na superfície, sem o hábito da terminologia adequada, o jovem simplifica a complexidade de seu estado espiritual em meia dúzia de expressões: está mandando uma brasa... está gamado... está na fossa...”

Ou — como já analisei aqui — está ‘pagando paixão’, está ‘dando esperança’, está ‘fazendo joguinho’...

Eis a tragicomédia social carioca, sempre acentuada no verão: a moçada quer praia, quer imagem, quer pegação, só não quer aprender a expressar o que se passa consigo e com os outros, nem desenvolver as habilidades necessárias para uma convivência saudável, muito menos assumir as responsabilidades pelas próprias escolhas (de ter ficado ou transado, por exemplo), antes preferindo, com os parcos recursos de linguagem de que dispõe, imaginar histericamente aquilo que lhe parece, para então reagir à sua própria imaginação — mas contra os demais — com a violência do silêncio desdenhoso, da virada de rosto, da indireta pública, da cusparada por trás no prato que comeu.

O aparente “tô nem aí” geral é uma ilusão, uma lenda, um disfarce sob o qual quase todos se debatem e se agridem com ressentimentos banais, ainda que se adorem, que se admirem, que morram de encantos uns pelos outros.

Poucas coisas são mais deprimentes e divertidas ao mesmo tempo do que isto: o despreparo psicológico e a inabilidade social de jovens e adultos para lidar com as consequências da permissividade que tanto desejam e desfrutam, sem que nada lhes seja cobrado para tanto senão, quando muito, os valores cada vez mais altos dos ingressos. Quando se desliga “a tomada da alma”, os choques são inevitáveis.

No verão carioca, os solteiros estão na pista se curtindo, se compartilhando — e cultivando aquele rancorzinho gostoso para o ano inteiro...

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Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim e, por uma vida mais leve e bem-humorada, recomenda poesia, literatura e análise a quem só pensa em praias, eventos e viagens.

[Veja a repercussão desta crônica — aqui.]
[Leia também: Sol, sexo e bebida; As facinhas!]
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Um comentário:

  1. A clareza do texto chega a ser irritante. Para os narcisos de agora o espelho da alma pode ser desolador.

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