quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Mulheres-passarinho

[Crônica publicada originalmente no facebook - aqui.]

O culto à imagem aniquila a sensorialidade humana.

Quanto mais as moças vivem para sair bem na foto — e não vejo outro motivo para tantos baldes de tinta na cara —, mais perdem, literalmente, o tato com os rapazes.

Resultado: dão carinho como quem faz cócegas em barriga de cachorro; abraçam como quem aperta os botões laterais de um fliperama; e ainda beijam só com a ponta do bico, feito passarinho de gaiola.

As únicas exigências que se preocupam em atender não são mais as masculinas, mas as da capa de revista (ou facebook, ou instagram), para a qual a estética prescinde de funcionalidade.

Postam milhares de fotos na praia, na piscina, na academia, na balada, no espelho, empinando o bumbum e fazendo biquinho, mas, em matéria de contato e envolvimento, estão a léguas da entrega e da desenvoltura sem as quais a intimidade física e amorosa é impossível.

Entre o encanto e o sexo, há em qualquer relacionamento — ainda que carnavalesco — uma etapa intermediária constituída justamente de “abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim”, muito embora “acabar com esse negócio de você longe de mim” seja tanto mais complicado hoje em dia quanto mais intransponível a distância entre mulheres-passarinho e homens de carne (língua) e osso.

Alguns desavisados, incapazes de nomear essas coisas e mais ainda de abrir mão de fêmeas tão desejadas, pulam esta etapa com a indiferença típica dos predadores — e depois não entendem por que diabos não conseguem armar o barraco.

Assim como é difícil para moças vaidosas admitir que a razão de seus sucessivos fracassos amorosos pode estar simplesmente na sua inibição ou inépcia para o beijo e todo o envolvimento corporal que este supõe (já que os rapazes, por educação, evitam dar esse tipo de retorno), também o é para rapazes devassos admitir que ao seu tesão não basta um objeto atraente — e que dirá ao seu amor.

O encontro sensorial dos corpos, como o das almas, é fundamental fora e muito antes da cama.

Quando se torna mera burocracia — e dispensa a qualidade —, os desencontros e constrangimentos são inevitáveis.

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Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim e acredita que o facebook e o instagram são os maiores ninhos de passarinho do planeta.

[Veja a repercussão desta crônica - aqui.]

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