domingo, 3 de março de 2013

O craque de um toque só

[Publicado originalmente no facebook - aqui.]

"A simplicidade", dizia Schopenhauer, "sempre foi uma marca não só da verdade, mas também do gênio".

Todo pensador autêntico, segundo o filósofo alemão, se esforça para dar a seus pensamentos a expressão mais pura, clara, segura e concisa possível.

É assim na filosofia e na arte. É assim também no esporte.

Aqueles que hoje se deslumbram com os malabarismos de Messi, Neymar e companhia nunca entenderão o futebol de Zico - a rigor, o único precursor de Zidane. Mas eu explico, mais uma vez: o que eles fazem (ou tentam fazer) com 15 toques na bola, Zico sempre fez com um só.

Um pensador de fato autêntico, que, como Michelangelo diante da pedra, se esforçava apenas para tirar-lhe o excesso. Cada domínio de bola de Zico era, no mínimo, um drible. Cada drible, um passe. Cada passe, um lançamento. Cada lançamento, uma cobrança de falta. Cada falta, um gol.

Ele estava uma, duas, três, mil etapas à frente dos demais, porque jamais quis chamar a atenção do público para si, mas apenas escrever cada lance da maneira mais pura, clara, segura e concisa possível, dispensando todos os artifícios com que os menos talentosos fingem sê-lo.

E é por este fator, condensador de suas muitas virtudes, que seu exemplo transcende o futebol, o esporte e a arte, para não apenas servir de parâmetro e inspiração para os homens de qualquer torcida, lugar e época, mas para engrandecê-los pelo encanto de sua genial simplicidade.

A estátua erguida na Gávea em homenagem aos seus 60 anos não poderia representar melhor o espírito do Galo.

No momento da glória, afinal, nada mais simples do que correr para o abraço.

Obrigado, Zico, por sempre dividi-la com a gente.

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Nota de rodapé:

Zico, cobrador oficial da seleção brasileira, perdeu o pênalti contra a França na quarta-de-final da Copa do Mundo de 1986 quando tinha acabado de entrar em campo; mas, na disputa que se sucedeu à prorrogação, já no ritmo do jogo, teve a coragem e o talento para bater e converter o seu.

O Brasil será um país de pessoas mais maduras - e menos invejosas - no dia que elas finalmente deixarem suas paixões de lado e reconhecerem o óbvio: até no momento do maior fracasso, Zico deu um exemplo de grandeza humana que nenhum título mundial jamais poderia dar.

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Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim e só fala bem de quem merece. 

[Página de futebol - aqui.]

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