segunda-feira, 29 de abril de 2013

Da arte de viver entre guris do crime e garis intelectuais

[Também publicado no Mídia Sem Máscara - aqui. Notas 1 e 2 publicadas originalmente no facebook - aqui; e pós-escrito - aqui.]

1.

Um assassino jamais "paga sua dívida com a sociedade", como prega o chavão estimulante de seus defensores. A vítima morta não recebe a sua parte do pagamento e a dor daqueles que a amavam não se quita com ele.

A prisão do assassino é apenas punitiva e pode até ser temporária, embora tanto melhor quanto mais longa. Mas a dívida, queiram ou não, é eterna.

2.

No Brasil, a vida humana custa nada mais que 3 anos de recolhimento na Fundação Casa, se tirada por um menor. Mesmo que este menor tenha "isqueirado" viva a sua vítima - como a dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza -, para torturá-la por dispor de apenas R$ 30 em sua conta na hora do assalto.

Só uma fome estimula isto: a fome de crueldade.

Em 3 anos, o bem-nutrido incendiador de Cinthya - que pode assumir o crime no lugar de seus comparsas mais velhos para aliviar a pena deles - estará solto, de ficha limpa, assim como o assassino de Victor Hugo Deppman, que não se satisfez em roubar o celular do rapaz e deu-lhe um tiro na cabeça.

Se eles terão a certeza - o que já seria um escárnio - de que pagaram sua dívida com a "sociedade"? Não creio! No Brasil de Dilma Rousseff, Gilberto Carvalho e Maria do Rosário, a "sociedade" é que tem uma dívida eterna com eles.

O mínimo que podemos fazer é andar com mais de R$ 30 no bolso.

[Sobre o assunto, leia também as análises indispensáveis de Reinaldo Azevedo: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui; e José Maria e Silva, aqui.]

3.

E eu não tinha escrito que, no Brasil, até o estupro se passa por crime de fome?

Fico muito aliviado, portanto, de não precisar refutar o coquetel de bobagens da jornalista Luíza Pastor na Folha de Qualquer Um, digo, de S. Paulo, não só porque Reinaldo Azevedo já o fez de forma impecável, como também porque meu artigo "Os guris do crime" já o antecipava. Para cada guri do crime, há um caminhão de garis intelectuais dispostos a varrer sua sujeira para baixo do tapete.

Luíza Pastor - que de pastora só tem o sobrenome - ainda se refere ao seu próprio estuprador como "o menino". Isto, limito-me a acrescentar, é praxe entre aqueles que passam a mão na cabecinha de criminosos e terroristas. O "especialista" do jornal O Globo, Luciano Huck, fez a mesma coisa em relação aos traficantes de drogas tempos atrás, como escrevi no artigo "Soletrando a Guerra 'do Rio'":

No Caldeirão mental do Huck, os “meninos e meninas” do narcotráfico “não são bandidos”, mas “nasceram no lugar errado e estão bandidos”. Pobres vítimas que, “por absoluta falta de opção” nas “comunidades dominadas pelas armas”, foram cooptadas pelos líderes do “movimento”. Que essa “absoluta falta de opção” ainda produza uma maioria honesta e trabalhadora, é um desses mistérios cuja elucidação fica para depois dos comerciais. Ou, como escreve o apresentador do “Soletrando” sobre o problema das armas: “Mais [sic] isso dever [sic] ser o tema de um outro artigo”.

Após o atentado na Maratona de Boston, o radialista americano Rush Limbaugh fez também uma compilação de comentários jornalísticos neste sentido a respeito de Dzhokar Tzarnev, de 19 anos, um dos terroristas que explodiram três pessoas - incluindo uma de 8 anos - e mataram um policial. Os grifos são meus:

JULIA IOFFE: This kid seemed to be out of place in Boston. He seemed to be alienated.

DON LEMON: He’s 19 years old, he’s still a kid, he’s still a teenager.

CHRISTINE ROMANS: It's not as if you look at this kid and his background, and see hardship that could have turned his heart hard.

ANDERSON COOPER: He was a seemingly normal college kid.

DEBORAH FEYERICK: Remember, this is a kid who is on a ventilator.

JESSICA STERN: Why is it that one kid is susceptible and not another.

ERIN BURNETT: All-American kid, smoked pot, went to parties. Totally normal kid.

DR. DREW PINSKY: What seems to be a normal kid in high school on the wrestling team to being radicalized.

DAVID REMNICK: This is a mixed up kid.


Pois bem. Na hora do sexo, como escrevi no artigo "Educação de quatro", as crianças devem ser tratadas como adultas. Na hora do crime, os criminosos, mesmo quando adultos - ou mesmo quando detidos pela sexta vez! -, devem ser tratados como crianças (ou "kids").

É assim o discurso revolucionário esquerdista onipresente na educação e na grande mídia americana, brasileira e outras mais: corrompe a sociedade por todos os lados, para depois acusá-la de todos os crimes.

*****

Pós-escrito de 30 de abril:

O menor assassino que incendiou a dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza já tinha sido detido cinco vezes, sendo três por tráfico de drogas.

Luciano Huck, que propôs tempos atrás a anistia dos "meninos" do tráfico, já pode se juntar a FHC, ao jornal O Globo, à Comissão Brasileira sobre Droga e Democracia e aos demais defensores da frouxidão da Lei Antidrogas, e oferecer ao pai de Cinthya, pelo menos, o pagamento das despesas com o enterro. Sugiro a generosa cartinha:

"Caro sr. Viriato,

Nossas ideias justificaram que o assassino de sua filha fosse solto tantas vezes, permanecendo impune e cada vez mais confiante nas ruas.

Estamos à disposição para ajudá-lo no que for preciso.

É o mínimo que podemos fazer.

Com pesar,

Huck, FHC, O Globo, CBDD"

Porque o Brasil será melhor quando, entre outras coisas, as pessoas assumirem a responsabilidade moral pelos efeitos práticos de suas ideias.

[Leia também: Nota sobre a solução]

2 comentários:

  1. Conheci hoje seu blog! Cara se ta f....nunca vai conseguir espaço na grande mídia!








    Mas parabéns! Eu de lá sai a alguns anos como consumidor das mesmas, e meus olhos se abriram para esta realidade que você mostra aqui!

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  2. Felipe,
    Parece-me que, de um modo geral, as pessoas defendem essas idéias para que quando venham a cometer seus próprios erros (possivelmente, nenhum com a envergadura de um assassinato) possam justificá-los com as histórias sofridas de suas infâncias também.Elas não chegaram a assassinatos porque não nasceram em comunidades cheias de violência, mas foram grosseiras, desleais etc, porque viram os pais brigarem ou tiraram um zero na escola.
    Longe de mim desqualificar o sofrimento alheio.Sofrimento realmente pode gerar concepções de vida que trazem malefícios. Entretanto, deveria ser parte de nossa luta diária crescer com ele, assumir os erros e tentar corrigí-los.
    Não é o que acontece , sim, é impossível voltar atrás quando forçamos certos limites.

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