quarta-feira, 12 de junho de 2013

Como ser solteiro no Dia dos Namorados

[Crônica publicada originalmente no facebook.]

VOCÊ AÍ SOLTEIRO(A), solitário(a), carente, desamparado(a), resistindo para não mandar mensagens para seus ex-amores enquanto tenta se distrair com possíveis ou atuais peguetes sem futuro no chat ou no whatsapp, sem saber o que fazer da sua vida neste longo Dia Dos Namorados, vendo essas explosões, essas correrias, esses incríveis pulos na TV ao som do convidativo grito de guerra "Quem não pula quer aumento!", eu sei que algo está ardendo dentro de você, uma vontade de sair às ruas, de pular mais alto do que você pulava quando a Sandy e o Júnior mandavam, de se rebelar contra tudo isso que está aí, seja lá o que isso for, de pegar também o seu coquetel molotov e descarregar toda a sua raiva acumulada de tantas frustrações sofridas, depredando a cidade para aliviar a sua deprê, eu sei que você sabe que isso não pode ficar assim, o preço dos namorados aumentou bem mais do que 20 centavos, e você nem consegue mais saber qual é, onde paga, onde tem algum(a) do seu número para vender, e dá vontade de vestir um capuz, encher um galão de gasolina, atear fogo no asfalto e paralisar o trânsito para deixar todo mundo preso, engarrafado, esperando como você por alguma solução que não sabe se vem, muito menos quando, e nem sequer de onde, porque a culpa só pode ser do capitalismo, da sociedade, dos donos de empresas de ônibus que nunca trouxeram no corredor um grande amor para sentar ao seu lado e que, em vez de pedir o seu facebook antes de saltar no próximo ponto, deixasse o ponto passar e seguisse com você pela vida inteira, então que se danem eles, você quer berrar, quebrar, incendiar, tacar pedras, paus e todos os seus discos do Roberto Carlos naquele bando de policial que nunca fez nada para proteger você da violência dos abandonos, dos chifres, dos fins inevitáveis de relações impossíveis, e da queda instantânea de intimidade com quem você rasgava a pele de tanto se entregar, e agora você quer que filmem os seus atos, o seu ódio, os seus olhos teatrais na fresta do capuz, para depois aparecer no Youtube e todo mundo ver, todo mundo saber que você também tem sentimentos e é capaz de lutar por eles, por um mundo melhor, um mundo mais justo, um mundo em que ninguém se sinta oprimido pela ditadura do Dia dos Namorados, com todos aqueles posts fofinhos de quem tem seu par porque certamente tirou de alguém que agora não tem... Quando você pensar tudo isso, não esqueça: vá ler um bom livro, ok?

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