segunda-feira, 8 de julho de 2013

Anderson Silva e a viadagem geral

[Notas publicadas originalmente avulsas no facebook - aqui e aqui. Leia também: Idiotice e maturidade - uma singela homenagem aos parasitas da página alheia.]

1.

Muito bem bolada a estratégia pré-Copa do Mundo de Anderson Silva de ensinar à seleção brasileira, pela força do exemplo suicida, que molecagem não ganha jogo e salto alto quebra na primeira pedrada. Boa, Anderson. Lição fundamental no país dos deslumbrados.

2.

Fui debochar da derrota de Anderson Silva, e logo apareceu uma porção de gente afirmando que ele "faltou com o respeito" ao adversário. Parem com isso, crianças. Tomem vergonha. Assim vocês faltam com o respeito ao senso de humor, à graça, ao espetáculo, ao esporte, à inteligência. A seguir nessa linha, acabam legitimando até a violência não permitida pelas regras — o vulgo "antijogo" —, como aqueles comentaristas de futebol que, diante de um pontapé desferido após um drible ou gesto mais abusado, dizem: "Mas também..." Mas também o quê, vagabundo?

Um ambiente cultural onde a molecagem, a provocação, a ironia, o deboche, a dita "arrogância" (tão divertida...) são tomadas como "falta de respeito" — seja a um adversário esportivo ou político, seja a membros de qualquer minoria superprotegida pelos defensores dos fracos e oprimidos — é um ambiente provinciano que fomenta a falsa modéstia, a hipocrisia, o cinismo, a violência e, nos casos extremos, a barbárie, como evidenciam lá fora as reações islâmicas a qualquer crítica espinhosa ao profeta Maomé.

Eu escrevi três anos atrás, no artigo "Viva o deboche!":

"Tratar a ironia [ou a provocação etc.] como uma estupidez que merece ser repudiada só provoca a estupidez exacerbada de cada repúdio; o que provoca, por sua vez, o medo generalizado de ferir suscetibilidades; e, assim, uma sociedade intimidada, acovardada, paralisada, recalcada, cheia de dedos para tocar em qualquer assunto, porque bastará uma palavra soar apimentada, e todos terão a chancela moral para uma reação agressiva. É evidente que estimular esse medo interessa a muita gente poderosa — e que não cair nele é uma obrigação intelectual básica."

Anderson Silva não desrespeitou ninguém, a não ser a si mesmo por ter aparentemente se "esquecido" daquilo que também escrevi três anos atrás, no artigo "Palmadas holandesas", quando o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo de 2010:

"A verdadeira molecagem precisa daquele estofo do qual possa emergir de repente causando a sua graça. Sozinha, ela é só uma bundinha teen à espera de palmadas adultas."

Deslumbrado consigo mesmo, ou entediado com as vitórias a ponto de testar o limite da própria displicência, Anderson deixou o estofo de lado, e ficou só na vaidade moleque diante de um americano adulto que, nem aí para esse papinho adolescente de "mexer com a estabilidade emocional do adversário", tratou de esperar friamente o momento certo para lhe dar as devidas "palmadas" — e deu. Neste sentido, para o bem do Brasil.

Mas, como no Brasil sempre se tira de tudo a lição errada, parece que a derrota de Anderson — até então o último remanescente da linhagem de Nelson Piquet, Mané Garrincha, Romário, Renato Gaúcho, Túlio Maravilha e demais atletas admirável e divertidamente "arrogantes" dentro e/ou fora de "campo" — terá contribuído apenas para reforçar a grande viadagem geral.

2 comentários:

  1. Exatamente, tio Pim! Na ponta do queixo!

    O desrespeito primeiramente foi com ele mesmo. Si queimou sozinho. Pra mim tá claro que ele NÃO se preparou bem, no fim do primeiro round já tava cansado (usou a tal estratégia- duvidosa pelo menos pra esse clone que vos fala- da intimidação psicológica, que acabou funcionando, mantendo o americano na luta em pé. No chão ele percebeu que tava perdido. But...).

    Tão dizendo por aí que teve armação (pra ganho$$$ futuros) e tal...

    Não sei. Só sei o que eu vi(esse o Renato Aragão podia até filmar): o Diderot trapalhão contra o gringo azarão (que brincou a sério se preparando pra maior chance da vida).


    Valeu aí, meu brother, esse texto é GAMEOVER nos Jogos Mortais de pule-chinelo nacional (em vez do divertido 'pique-tá', agora praticamos o 'não-me-toques').

    Acho que a grande vantagem do politicamente-correto é a capacidade de se camuflar nos próprios mecanismos da linguagem, forçando o oponente a mirar e atacar palavras (mutantes) ao vento.

    E eu já tô ficando de saco cheio disso.

    -Mas bom e humilde gafanhoto, tenha paciência e resignação... E pála de chololô e começa a encelá o chão (movimento circular... Mão dileita...).

    -Sim, mestli Plim (Hunf!P@#*!).

    -O que disse!?

    -Nada. Pigarro... Cof!Cof!





    Chris Anderson Silva (tentando vender o passe do sobrenome pra algum marqueteiro talentoso)

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  2. Não sei... Vendo de longe, tô achando que esse título aí (o do texto, não o perdido no ringue Rsss) não tá me beneficiando...




    Anderson Silva e os caçadores da testosterona perdida, do âmago da ressaca milionária.

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