segunda-feira, 1 de julho de 2013

O Brasil de braços com a bola

[Publicado originalmente no facebook aqui e aqui.] 
 
Fred, menos de um segundo após ajeitar a bola com o braço...

O único replay do SporTV pelo ângulo invertido (um replay que dificilmente terá replay na televisão brasileira...) deixou claro: a bola tocou no braço de Fred antes que ele marcasse do chão o primeiro gol da vitória do Brasil sobre a Espanha por 3 a 0, na final da Copa das Confederações. Eu falei antes do jogo (embora tenha apenas uma testemunha, que não vou chamar para depor): a maior chance do Brasil é fazer um gol logo no começo. E assim foi. Mais um gol ilegal de Fred, como aqueles três que garantiram a vitória da seleção de Felipão sobre a Itália. Um gol que desestabilizou os jogadores espanhóis em fim de temporada, vindos ainda de um jogo exaustivo contra os italianos, que acabara nos pênaltis por falta de um juiz que lhes ajudasse três vezes no tempo normal. Dali em diante, bastou ao Brasil administrar a partida, e aproveitar os espaços deixados pelo adversário em desvantagem no placar.

Sozinho, Iniesta - o craque inteligente que nos falta, e que perdeu injustamente para Neymar o troféu de melhor da Copa - tampouco pôde compensar as atuações bisonhas de Arbeloa e Sergio Ramos. Perdidos em campo, ambos erraram quase todos os passes, sendo que o primeiro, em vez de acompanhar Neymar, preferiu ser o terceiro jogador a cercar Oscar na entrada da área, deixando o novo atacante do Barcelona livre para receber o passe e fazer o segundo gol, como se estivesse jogando contra o XV de Piracicaba. E o que dizer de Sergio Ramos? Quando vi que era ele quem ia cobrar o pênalti a favor da Espanha, falei: "Do jeito que está errando todos os passes, vai bater pra fora." Não vou chamar minha testemunha, mas... Foi assim de novo.

Não que o Brasil não tenha tido méritos em seu dia de tic-tac. Dentro das limitações do elenco, Felipão encontrou um time viável e competitivo - provavelmente o único possível, de modo que é bom que ninguém se machuque -, e soube colocar todo mundo para marcar, como há muito tempo não se via na seleção. Dentro da área, Fred faz, com a devida frieza, o que tem de fazer - seja de canela, impedido ou com a mão -, e é bom também que nunca saia dela para dar seus lançamentos bisonhos. Neymar jogou razoavelmente bem pela primeira vez contra um time grande, levando Piqué à expulsão quando a Espanha já estava toda de pernas abertas, mas também perdeu a bola um monte de vezes em arrancadas imaturas, que a imprensa e a torcida fazem questão de não ver. Temos ainda dois bons zagueiros, que dão uma ou outra vacilada, um goleiro que se reencontrou com as boas defesas, embora devesse ter umas aulas de frieza com Fred, e de resto... Bem, eu não tenho coisa nenhuma a dizer sobre o resto. Vejo uma porção de jogadores medianos, que seriam ótimos para completar um elenco, se houvesse nele um Iniesta ou um Xavi; quiçá um Sneijder (Holanda) ou um Schweinsteiger (Alemanha).

Minha preguiça de torcer para a seleção brasileira atual está aí: eu torço a favor da inteligência. Eu torço a favor da genialidade. Eu torço a favor de grandes personalidades fora de campo, que traduzem a sua consistência dentro dele, com a maior simplicidade possível. O Brasil não tem nada disso há uns dez anos. Tem apenas alguns meninos talentosos que, recebendo boas palmadas verbais de um treinador de fibra, podem fazer a diferença quando tudo conspira a seu favor, como foi o caso neste jogo único.

A Espanha teve seu dia de XV de Piracicaba em uma Copa tão importante quanto o campeonato paulista... Na Copa do Mundo, quando as equipes vêm treinadas e descansadas, um replay desse dia é tão improvável quanto o replay da 'mão' de Fred na TV.

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NOTA DE RODAPÉ 1: De fato, o replay também deixa claro que a bola resvalou na mão de Arbeloa antes de tocar no braço de Fred, mas não perdeu a trajetória e não houve intenção, de modo que aquilo não era para ter sido pênalti coisa nenhuma (e, mesmo que fosse, não sabemos se seria convertido). Já um atacante como Fred não pode ser favorecido por encostar o braço na bola antes de fazer o gol, sendo que nem junto ao corpo o braço estava. Isto sim é mão, havendo intenção ou não (e eu tenho lá minhas dúvidas se Fred não teve...), e ao menos o bandeirinha tinha visão para marcá-la, posto que o ângulo invertido era justamente o dele. Sim, senhor: são casos diferentes. Um não é mão, o outro é. E o resto é histeria de torcedor.

NOTA DE RODAPÉ 2: No Brasil, até as pessoas sensatas em assuntos políticos são militantes no futebol. Estão desacostumadas a ler análises objetivas de jogo. Se não encontram aquele entusiasmo ufanista diante de vitórias supostamente "épicas", chamam logo o autor de tudo quanto é nome, incluindo "esquerdista", em uma clara demonstração de que até o leninismo de xingar os outros do que são (ou estão sendo...) elas incorporam. Isso é natural em um país onde a imprensa esportiva também é toda torcedora - toda Leilane Neubarth - e prefere ficar de bem com o público a dizer as coisas como elas são.

Tomem logo jeito, crianças. Senão Tio Pim vai ser obrigado a dar palmada.

RESPOSTA A UM LEITOR: Não subestimo a seleção. Felipão a armou direito, reduzindo os espaços. Já está melhor que a de 2010. Só não vejo inteligência criativa nesse meio-campo, muito menos maturidade geral para lidar com placares adversos, por exemplo, ou mesmo para furar retrancas bem amarradas na Copa do Mundo, com muita paciência e toques precisos de bola. O Brasil tem chances, mas sem inteligência só se ganha torneio pequeno. Precisa de muita palmada ainda.

Um comentário:

  1. Enquanto uns comunistas protestavam contra a corrupção de outros comunistas. Eu estava vendo o jogo. Que venha o touro. Em forma de bife...

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