Baú

Eis uma breve seleção de textos de Felipe Moura Brasil anteriores à criação do Blog do Pim – este divisor de águas (e sucos) na carreira abstêmia do autor.

A maioria deles teve imensa repercussão na internet, ora emocionando os leitores, ora divertindo, ora chateando, ora tudo ao mesmo tempo, e não raro rendendo reportagens em diversos jornais e revistas.

Destaque para Babuska, em homenagem à saudosa vovó Roma, a quem o Pim dedica esta e todas as páginas, agora e para sempre.
 

LEIA ABAIXO:

CONTO
- O pequeno escritor - Leia na VEJA!

CRÔNICAS
- Os enrolões
- Um sóbrio em Salvador
- Ex-amor
- Quase amor
- Amigos, cinco minutos
- A cafajestice na era da internet
- Um carioca em São Paulo [comentário]

ARTIGOS
- PTs e pitis
- Amor e mundo - uma introdução à realidade
- Da arte de curtir a vida [comentário]
- Das metáforas de Jabor [comentário]

OBITUÁRIO
- Babuska
- Feliz Natal, Da Vila
- Do recém-amigo que se foi
- O Rody e as Rodices

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CRÔNICAS

Os enrolões [2008]
por Felipe Moura Brasil (Pim)

Minha geração é assim: quando chega a algum lugar, não entra. Faz rodinha, conversa, come no restaurante ao lado, passa num aniversário na esquina, bebe no posto, compra uma balinha, espera os amigos – não entra. Se não tem fila, não vale a pena. Se tem, reclama. Se tem banheiro, não dá descarga. Não sei a sua, mas a minha geração não dá descarga. Tem muito nojo para tocar onde os outros tocaram, e muita vergonha ou preguiça para pegar um papel e tocar protegida. Então não toca. Não faz. Não vai. Não entra. Se eu tivesse que definir minha geração, eu diria só isso: é aquela que não entra. E teria a certeza de ter dito tudo.

Minha geração ignora a relação entre prazer e sacrifício, direitos e deveres. As permissividades do nosso tempo caíram em seu colo de graça, sem dela exigir sequer uma marcha atlética. Não precisou ir à guerra em lugar de camponeses e comerciantes para desfrutar orgias e cachaças, não precisou se confessar ou se penitenciar quando roubava o baleiro da escola, não precisou assumir um casamento para abrir as pernas da vizinha, não precisou nem enfrentar a polícia para tocar um pandeiro. Foi terminantemente eximida das responsabilidades religiosas, militares e políticas com que seus antepassados pagavam o preço moral da vadiagem aristocrática. Não arcou com sacrifícios e deveres para obter prazeres e direitos inúmeros (os quais o Rio de Janeiro, como paraíso natural, liberal e multiopcional, ainda vem potencializar). Minha geração é uma foto seminua no orkut, na praia paradisíaca de uma viagem que alguém lhe pagou.

Em seu clássico La Rebelión de las Masas, de 1928, Ortega y Gasset já apontava o típico representante da classe média moderna - o “homem-massa” - como o “señorito satisfecho”, “el niño mimado de la historia humana”: o filhinho-de-papai que se julga herdeiro legítimo de todas as benesses da civilização moderna para as quais sua contribuição foi nenhuma. De lá para cá, com as revoluções sexual e tecnológica, só aumentaram a estupidez e a extensão das massas engolfadas nesse processo. Por ter mais regalias do que merece, o señorito despreza a si mesmo, mas como a cultura da educação ideológica, do parasitismo estatal, do escambo político, do conchavo artístico, da repulsa à discordância, do horror à ambição, da burocracia geral o impede de analisar a verdadeira natureza de suas culpas, reprimindo seu desafio pessoal até entorpecer seu caráter, ele vira não só massa de manobra política, como também tanto mais perigoso nos círculos íntimos quanto mais inconsciente de seus atos.

Por isso é que, há anos, eu não me decepciono com ninguém, tanto menos se brasileiro e da minha geração. Minhas expectativas são sempre as piores – e, na imensa maioria dos casos, elas tão somente se cumprem. Os grandes potenciais ficam pelo caminho, entre escolhas amorosas e profissionais medíocres. O resto não se compromete com o que diz, não tem limites ou interdições, não pede desculpas por completo. O sujeito combina com você de ir a um enterro, desaparece, liga durante o velório e, como se nada tivesse acontecido, pergunta “Tá bom aí?”, condicionando sua (dele) ida não à palavra dada ou à importância do “evento”, mas à qualidade das amigas do defunto. Um dia dará em cima de sua mulher, não devolverá seu dinheiro, falará mal de você e, mui “arrependido”, tentará tê-lo de volta à base de bajulação, o atalho-padrão de quem desconhece consequências e responsabilidades morais.

Minha geração é toda feita de “enrolões”. Eles passam a vida enrolando os outros e a si mesmos, absolutamente desprovidos de qualquer gosto [profundo] ou convicção [sólida] que se sustente. Há dois tipos básicos deles: aqueles que só enrolam e nunca escolhem nada [não entram], e aqueles que fazem escolhas cada vez mais enroladas e vão ficando – por mais que jurem o contrário – cada vez mais distantes da satisfação plena. Em ambos os casos, pulam fora [ou pagam por fora] à menor necessidade de esforço físico ou mental, e vivem numa eterna fúria contra tudo e todos para esconder de si - bem lá no fundo - a revolta real contra seus próprios e insistentes desejos, de cujas realizações jamais conceberam pagar o sacrificante preço. São como menininhas obesas apaixonadas por um galã cobiçado: em vez de saírem correndo para uma academia, colocam a culpa da paixão não-correspondida nos padrões de beleza da sociedade, e tentam chamar a atenção do galã maldizendo a inteligência das mocinhas bonitas.

Minha geração é assim: quando não faz tudo pela metade, tenta pular a metade faltante.



Um sóbrio em Salvador [2004]*
por Felipe Moura Brasil (Pim)

* Publicado na internet após o carnaval de 2004, este texto rodou o país por e-mail, rendeu milhares de mensagens ao autor, e acabou citado em diversas reportagens, a maior delas na Revista O Globo. Ninguém jamais havia descrito assim a folia baiana.

Tem que beber! Tem que beber! É a apologia geral. Carnaval em Salvador a seco? Cê num vai güentá, bróder, pago pra ver. Dei de ombros, disfarcei o susto meu de cada dia no campo de concentração, ordens superiores e exclamadas, a alta patente da folia, veteranos de blocos, eles bebem sim, estão vivendo, eles e a turma da persuasão em confidência, a mão no ombro e o ponto final: vá por mim, beba. Por você, não vou, obrigado, e meus botões, pouco antes das férias na gaveta, me alertaram com a experiência dos que já perderam muitos semelhantes no roça-roça de outros carnavais: cuidado, se tem que beber, deve ser muito ruim.

Não é, pensei, ou é, titubeei, mas acreditar neles seria como deixar de ver Rocky IV porque o Micky morre no III, ou Rocky V porque o Apolo morre no IV, de modo que, além da culpa de trair minha Mangueira, me expiei de preconceitos – conclusões somente a posteriori, sim? Boas férias, meus botões, e que venham os abadás! Tatuagem temporária é ruim de tirar, tô fora. Já as bandanas, vão a gosto: há quem use de munhequeira, véu, realce a bíceps e panturrilhas (a la Chong Li) ou mesmo para fins menos exemplares, como já se verá. Enrolei a da Mangueira no pulso, que se todo traidor fizesse propaganda, mulher divorciada não morreria solteira.

Alegria, alegria, meu povo! “Vamo nóis”, com lenço, mas sem documento, a não ser o passaporte no corpo pra mostrar na imigração – os seguranças conferem os abadás a qualquer altura do bloco antes de levantar a corda que carregam em fila perimétrica. Sejam bem-vindos ao ringue: um caminhão leva em cima os músicos, outro serve de apoio e ambos dividem em três partes o mundaréu monocromático de foliões no asfalto, uma horda de solteiros em sua, literalmente, esmagadora maioria. Fala, compadre. Oba, tudo bem? Beleza. E aí? Tranqüilo. Qualé? São Sebastião tirou o chapéu de palha e se fantasiou de São Salvador, nunca me senti tão popular noutra cidade. Apresente as meninas, rei. Com prazer. O Rio desembocou na Bahia, com direito a pororoca no Nana Banana e no Me Abraça.

É a sua primeira vez? Ih, peralá, neguinho tem cada pergunta… A principal delas é o placar. Quantos? Quantas? Nem a calcinha da Ivete desperta tamanha curiosidade. Será trinta um número exorbitante? Alguns perguntariam: para uma vida ou para uma noite? Mas ninguém se importa, porque imagem não é nada, sede é tudo, obedeça a sua sede, pegue geral! Parece até que a lei foi sancionada: quaisquer atos vivenciados no carnaval soteropolitano, condenáveis ou não pela sociedade, serão proscritos da memória coletiva tão logo finde o mesmo. Assim, concluo, com o indulto antecipado, o pecado iminente para o qual haverá perdão sem a necessidade de sujar os joelhos no confessionário, a maioria cai em tentação e até mesmo a cria para depois nela mergulhar de cabeça. (Convenhamos que trinta tentações na mesma noite, nem em camarim de Miss Universo.)

Bell Marques canta o amor eterno lá de cima, a saudade presa no coração, o amor perfeito no peito, o vôo para o ninho, pois ninguém vive sozinho, tudo dentro de uma receita de letras simples e melodias empolgantes – até mesmo para sambistas conservadores –, enquanto no chão, empapuçados de álcool e suor, uns beijam as outras, as outras beijam os outros e os outros beijam as amigas das outras. Rodinha, fila, suingue, arrastão de beijos, ora por vontade consentida, ora à força, ora sem querer tamanho o aperto e ora sem saber graças à inalação providencial (seja diretamente ou depois de embeber uma bandana) de lança-perfume, a droga contrabandeada da Argentina para atender à demanda da sempre indignada classe média brasileira. Quem tá solteiro aí? Quem ainda não beijou vai beijar agora! Assim gritam Bell, Durvalino, Ivete e companhia, e assim se faz o marquetingue tribalista dos espetáculos de axé.

Rapaz, aquela menina ali não é da PUC? É, tá passando o rodo… E aquela tua amiga, hein? Pois é, tá fazendo fila, por que tu num tenta a sorte? Não, não, tô numa de pensamento. Por quê? Ex-namorada na área, manja? Ih… E não sou só eu, Salvador virou o recanto das ex-namoradas: você paga o fondue durante anos, ensina qual é o De Niro e qual é o Pacino, e depois ela tá aqui pegando um cara tatuado, sem camisa e deixando ele passar a mão na bunda. E tu, num tá pegando geral? Ah, mas eu sou homem. Qual é a diferença? Existe diferença, sim, você sabe disso. Isso não é machismo? Machista é a sociedade, quer ver, ô clarividente? Manda. Então me diz qual é pior: a mulé que pega uns vinte no bloco ou a que pega um e dá pra ele depois do bloco? O que isso tem a ver com a tua mulé? Não interessa, responde. Ih, sei lá, me tira dessa, mete um ponto parágrafo aí, ô de casa!

Tá metido. Tão metidos. O ponto parágrafo e os cariocas, segundo as moças do meu tempo, meu caro Zé Kéti. Eles acham que a naturalidade é suficiente pra merecer beijo na boca, veja só que pretensão. Você não vai me beijar? Eu sou carioca! Não é bem assim, conterrâneos, as moças de família andam mais ressabiadas. Mas que os guerreiros não se preocupem: são só as de família. Uma pesquisa boba mostrou que a maioria dos entrevistados esperava encontrar um grande amor no carnaval. Não em Salvador, aposto, onde a sedução alcança os maiores índices de banalização, tornando ainda mais difícil conhecer alguém para ouvir junto às águas de março baterem no vidro da janela. E, se por um acaso se conhece, difícil é fazê-la acreditar em deslumbre e encantamento, principalmente se você tiver o azar de ser carioca. Muita calma e lábia numa hora dessa.

E muita calma também ao término dos blocos. Ou pressa, não se sabe ainda o que é recomendável. Bell avisa antes da saideira: galera do Nana, junte-se aos amigos e voltem pra casa atentos. Juntei-me aos amigos, voltamos pra casa atentos, a tropa arregimentada para percorrer o trajeto a contrapelo, e mesmo assim nossos bolsos viraram corrimão de quartel. Um amigo mal avisado viu seu colar indo embora em mãos ariscas. Outro, cansado de ter o bolso revolvido na multidão, levantou as mãos e passou gritando: podem mexer, já levaram tudo – ao que alguns safardanas agradeciam o poupar de seu tempo. Eles roubam até passar a fila imponente (e insuficiente) de oficiais da polícia militar, quando, aliás, testemunhei um deles sorrindo para um bandido como quem diz: agora você pára, né? Sim, param, dão adeus e voltam a pôr a mão na massa.

Aos sem-teto e sem-terra, excluídos do meu Brasil guaranil, agrega-se uma nova classe, sazonal, porém revolucionária: a dos sem-abadá, vulgos pipoca. E, como em toda classe social, há os que prestam e os que não prestam. A pipoca é composta por foliões à paisana, cuja indumentária livre só permite acesso a determinadas praças do percurso, calçadas apertadas e demais locais onde são espremidos em prol do divertimento dos com-abadá – vulgos ricos. Ricos e pobres, portanto, compõem um cenário estratificado, dividido por linhas de seguranças e visto com maior nitidez dos camarotes. Finda o circuito, baixam-se as cordas, as cores das roupas e das peles se mesclam, dois mundos se fundem e o Brasil mostra a sua cara. Me arranja esse abadá por duas cervejas e uma água? Os ambulantes vêm regatear com os ricos e os não-ambulantes mendigam: você tem que entender a situação da gente, que mora aqui, é fã do Chiclete e não tem dinheiro. Me arranja esse abada aí, patrão? (Ouvem-se em média – longe de mim as hipérboles! – uns quinze peditórios como esse depois de cada bloco).

Fico assim meio Rocky Balboa em meio à invasão do ringue, com um monte de perguntas no ouvido enquanto grito em delírios pela mulher amada, que não aparece. Volto à realidade e peço desculpas aos pedintes, vou guardar os abadás de lembrança – eufemismo para troféu –, inclusive o do Nana de sábado, apesar do trauma. Desde minha época de cover do Michael Jackson na escola que eu não passava tanto tempo inclinado a quarenta e cinco graus. Foram quase duas horas para ir de trás do bloco para frente, com momentos de memorável agonia como ficar esmagado contra o caminhão do Chiclete, este em movimento, pensando em atravessá-lo por baixo para respirar (como faria um larápio depois de roubar um folião no trio da Ivete). Isso até Bell interromper a música para organizar a pipoca desvairada e pregar a não-violência do alto de seu púlpito. Obrigado, rei, mas da próxima vez vê se vende menos abadá, falô? Zunzumbaba pra você também.

É inegável o carisma do cabeludo. Ele, Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Durvalino têm qualquer coisa de cativante, muito além dos vocalistas de É o Tchan, Harmonia do Samba, Terrasamba [sic], Companhia do Pagode e outras formas alotrópicas de cantores baianos. Do polêmico Camarote 2222, em frente à concentração dos blocos, com o Farol da Barra ao fundo, vi tudo. E fiquei sabendo de um certo cochicho entreouvido no mesmo camarote no ano passado, cujos protagonistas, dois grandes nomes da dita MPB, batiam palmas da varanda. Um dizia: bandinha ruim, essa. E o outro: o pior é ter que aplaudir enquanto eles babam nosso ovo. Cada um com seus compromissos e, pelo menos este ano, quem não tivesse nenhum que fosse abusar da comida, da bebida e da internet liberadas. O céu era ali, minha gente, apesar do Marcos Mion. Se Deus tivesse os patrocínios da primeira dama da cultura, o Fome Zero viria de cima.

Garçons, modelos, celebridades e, entre um queijo brie e outro, a reflexão foi inevitável. Quem consegue um visto para o céu merece rever a vida pregressa nem que seja em fragmentos de tudo, de todos e de si mesmo: a Ivete levanta poeira, o Asa arreia, o Chiclete gruda no ouvido, o álcool se esparge aos borbotões, os sentidos se confundem, a juventude ébria, mulheres a granel, a euforia dos libertinos incontestes, o eflúvio de lança-perfume, vamos potencializar as qualidades, viva o hedonismo!, os dialetos cantados em coro!, quem é que entende Carlinhos Brown?, emu gé gé, emu gé ge, o significante prevalece ao significado, viva a alegria verdadeira!, a alegria fabricada!, a alegria imposta!, dê um grito aí, faça a festa pra valer, isso aqui é o paraíso!, ou não, que nojo!, ah, deixa de ser chato!, eu, hein!, que gente impudica!, dandalunda, meu rei, é lindo o povo feliz, cada trio é uma jangada a sair num mar de gente, baiano trabalha sim, empregos indiretos, beijos por tabela, eu não sou igual aos outros, em que blocos você vai?, venho aqui há oito anos, troca de abadá comigo?, hoje eu saio em quatro blocos, já tem camarote?, o circuito Barra-Ondina é melhor que o de Campo Grande, alugaram apartamento?, a pipoca do Camaleão tá sinistra esse ano, te encontro na Casa de Itália, antigamente era melhor, vamo fazê o pré no Boêmia, chegou quando?, agora virou indústria, vai pra Morro depois?, vai ficar parado, seu fura-olho?, é a maior festa popular do planeta, já pagou o Catamarã?, tira o cordão, essa fila toda é pro xixi?, celular nem pensar, vou fazer lá fora mesmo, foto só na internet, demorei muito?, dinheiro na cueca, uma umburoska por favor, uma sirigüeloska pra mim, sai do chão!, prove pelo menos, é típico, já foi ao Pelô?, sai do chão!, não deu tempo, vira-vira-vira, chega na ruiva que eu vou na loira, é pra sair do chão de novo?, já pegou quantas?, levanta a mão!, entre no clima!, hoje eu tô facinho, deixa eu passar, ih, a morena mais linda do avião, já vão baixar as cordas?, você viu fulano?, tô perdido, melhor esperar, melhor procurar, gostou?, amou?, é maravilhoso, não é?, e aí?, vem ano que vem?, já começaram a vender…

Basicamente, o carnaval de Salvador é isso: fragmentos de tudo, de todos e de si mesmo. Agora, aos que vierem com sorrisos e olhares maliciosos quando eu disser pra onde viajei em fevereiro, aquelas mesmas expressões que enfrentei tempos atrás depois de uma viagem a Amsterdã, umas feições de quem está imaginando suas agruras em terras distantes e famigeradas onde existem algumas permissividades que muitos invejam, normalmente os mesmos que vêm com tais olhares e sorrisos, aos que se aproximarem de mim com este perfil, portanto, serei obrigado a dizer nada, nada mesmo, até porque, amante das letras que sou, não gosto de interferir na imaginação alheia. (Que tal, aliás, imaginar três homens com a mesma mulher num quarto de hotel após o bloco? Aí, ao ouvir a campainha, ela interrompe a tripla penetração e, com um grito, põe ordem na casa: “Mais um, não!”. Acertou quem imaginou o cronista como o sujeito que toca a campainha. Tudo bem, vá lá, como o sujeito que cruza com a moça no elevador, porque um outro já havia acabado com a suruba ao tocar a campainha. Pelo menos a história é verídica.)

Contudo, aos meus leitores, aos meus amigos e aos meus botões, confessarei apenas que, contaminado pelo ideal carnavalesco da transgressão, deixei o suco de frutas e a água de lado, respirei fundo, tomei coragem e quebrei um tabu de quatro anos sem beber. Refrigerante, claro. Cada um com as suas liberdades.

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Leia também: Juveninho no carnaval de Salvador [2010] - AQUI.


Ex-amor [2006]
por Felipe Moura Brasil (Pim)

Agora estamos no mesmo bar, um de cada lado, e só sei de sua presença pelos outros. Não a procuro entre mesas, fregueses e garçons, não sei se me interessa vê-la. Ser visto, quiçá. Se ainda a amo? É estranho isso. Um amor bloqueado, interrompido, metido às pressas no porão sob ameaças de bombardeio. Ele fica esmurrando a porta, tremendo a fechadura, como quem quer subir de volta, mas prefiro acreditar que apenas se exercite, que tenha encontrado turbinas ocultas para, movimentando-se, gerar energia à casa.

Ela pintou o cabelo, me dizem, e me fazem perguntas de sua vida como se eu soubesse responder. Aquela mulher que eles vêem ali, outro dia mesmo, eu estava dentro dela. Todos sabem que é assim. Que você saiu por alguma razão, consciente ou inconsciente, como são as razões. E querem saber qual. Querem entender o que leva duas pessoas a se ignorarem publicamente. Vão se ignorar para sempre? Talvez sim. Vamos viver um de cada lado do bar, cada qual em sua aldeia, com um ou outro garçom levando notícias daqui para lá e de lá para cá.

Mais do que eles, porém, algo nos une a distância. A música. Letras que nos descrevem, letras que nos satirizam, letras que nos aconselham. Melodias que nos decolam, melodias que nos flutuam, melodias que nos aterrissam. Algumas - letras e melodias - suspeitamos de antemão retumbantes na aldeia vizinha e só mesmo o amor pela casa para frear o impulso de dar uma olhadela por cima do muro. O bombardeio vem de dentro. É como se o porão de cá e o de lá tentassem se comunicar em código Morse. Esmurrando a porta. Tremendo a fechadura.

Posso ir embora sem vê-la, mas jamais poderei ir embora sem revivê-la. Há neste bar um homem e uma mulher que se amaram tanto que hoje aqui se ignoram. Ela está linda, eu posso sentir. Tão linda que é melhor deixá-la por lá.


Quase amor [2006]
por Felipe Moura Brasil (Pim)

Como são tristes os pactos silenciosos entre aqueles que quase se amaram! Que se seduziram, se tentaram, mas, por algum motivo anterior a eles, não se consolidaram amantes. Eles se encontram numa porta de cinema - entre um ou outro amigo em comum -, ora os dois sozinhos, sabendo-se comprometidos; ora um acompanhado, em desvantagem de olhar; ora os dois em casais, como no velho pagode: “ela e o namorado dela, eu e minha namorada”. E não há o que dizer.

Há o pensamento - indômito! -, ávido por devanear hipóteses e, logo, abafá-las em algum lugar remoto entre o arrependimento e a esperança, o qual manda a razão chamar de sensatez. Como teria sido minha vida com ela? Como teria sido minha vida com ele? Se ao menos aquele jantar tivesse acontecido… Não há tempo verbal mais angustiante – e paralisante - que o futuro do pretérito. Até quando ele vai ter a chance de ser o futuro do presente?

Ex-amores tiveram a sua. Não aproveitaram. Vivem sob o consolo do inevitável, do “não era para ser”, “não dá”, “então diga que valeu”. Quase amores não valeram, ora. Não foram. Não voltaram. Ficaram entalados ali, mesmo quando correspondidos. Correspondidos no quase. No “peraí que eu volto já”. O quase, como o amor, é infinito enquanto dura - mas dura mais. Pode doer menos, mas jamais se esvai. É o triunfo da fantasia sobre a realidade e suas lembranças. Da saudade do que nem começou sobre a saudade do que já se foi. É o pênalti perdido, a bola que não entrou. Fica.

Por um “erro” de cálculo do destino – para não dizer, às vezes, nosso -, não aconteceu. Nunca se ajeitou o tal do timing. “Melhor assim”, dirão aqueles em cuja mentira preferem – ou precisam – crer, todos mestres em colocar defeitos naquilo – e naqueles - que não possuem. É o mecanismo de defesa da vida que segue, da bola pra frente, do vamos com tudo que a carroça - mais que a fila - tem que andar. E talvez elas – as carroças – se esbarrem mesmo lá na frente, onde o silêncio poderá ao menos dar palavra a um gesto, embora não, não nos guiemos pela possibilidade, sabe-se lá, vindoura.

Como são tristes os pactos silenciosos entre aqueles que quase se amaram! Eles trocam pensamentos ininteligíveis uns com os outros, e depois, descaradamente, se viram para seus atuais – e quiçá vitalícios – amores – ou tão somente amores, grandes amores, quem dirá que não? -, num abraço arrebatado de uma saudade que não lhes pertence, ou num telefonema carregado de um desejo que não despertaram, como se descarregassem silêncios antigos em quem agora lhes é de direito. Ah, como são verdadeiros os falsos gestos de amor! O que seria amar senão descarregar em alguém todo – ou quase todo - o nosso amor acumulado? Sorte a de quem passou do quase, e tem hoje quem o descarregue em si.


Amigos, cinco minutos [2004]
por Felipe Moura Brasil (Pim)

Meus amigos têm ciúmes dos meus livros. Na praia, avesso a conversas com mais de três pessoas, leio-os ao longe: os livros e os amigos. Vão dizer que é arrogância minha acusá-los de ciúmes – hoje é arrogância até ser avesso a conversas com mais de três pessoas: é anti-social -, vão me chamar de egocêntrico, eles na verdade não estão nem aí pra mim, quem sou eu para distraí-los em meio a mulheres de biquínis, resenhas sexuais, e papos de futebol e mercado financeiro? Não estão nem aí, mas reclamam. Reclamam de minha ausência da forma como costumeiramente reclamamos da nossa carência do outro: criticando o outro. Em suma: sou autista, velho e chato. Também os amo.

Nada mais incompreensível para quem não lê do que ser trocado por um livro. Que palavras escritas substituiriam as gargalhadas cafajestes de um domingo no Leblon? Que autores conquistariam meu tempo em detrimento à távola redonda de marmanjos em cadeiras de praia? Não, eles não me perguntam. Ninguém gosta de saber muito sobre aquele por quem foi trocado. Caso soubessem, poderiam quiçá avaliar, como o chefe diante do atraso do estagiário, se minha ausência se justificaria ou não: “Olha, tudo bem ser trocado por um Rubem Fonseca, mas por um Paulo Coelho, assim você me insulta, anda, vem sentar com a gente”. Seria ao menos engraçado, embora talvez eu argumentasse o quão necessário também me é (é?) ler os autores sem graça.

Muita gente tem a mania ultrapassada de estabelecer a quantidade de tempo dedicado como parâmetro oficial para o grau de importância concedido. Diz-se que devemos escolher melhor a profissão do que a mulher, porque passaremos mais tempo no trabalho do que com ela. Uma bobagem. Já assisti muito mais vezes a Um grande dragão branco do que a O poderoso chefão, e considero este infinitamente mais importante. Já li muito mais vezes a Turma da Mônica do que Dom Quixote, e, muito embora reconheça o inestimável valor de Maurício de Souza, sobretudo como incentivador do hábito de ler, ainda prefiro Cervantes. Já cantei muito mais vezes Trem das onze do que Coisas do mundo, minha nêga, e não me imponho por isso qualquer remorso.

Todo mundo tem amigos com os quais gostaria de passar mais tempo, aqueles de sair para almoçar de seis em seis meses, e contar as maiores intimidades recentes. Aqueles diante dos quais se pergunta o mesmo que me perguntei sábado ao pisar a quadra da Mangueira para o primeiro ensaio do carnaval: “Como pude ficar um semestre inteiro sem você?”. A única diferença dos amigos de todo dia para os bons amigos semestrais é que podemos esnobá-los mais amiúde, fingir ausência em sua deles companhia, quando na verdade apenas nos aproveitamos do conforto de estarmos próximos para fazer o que na solidão seria por demais… solitário. Cada um tem um limite de tempo para suportar qualquer atividade, inclusive conversar com os amigos. E são inúmeros fatores que contribuem para o estabelecimento desse limite, como, por exemplo e principalmente, a quantidade deles. (Três, volto a dizer, é um bom número.)

Pobre daqueles que ficam com peso na consciência por não dedicar à turminha o tempo devido, como se devido fosse, principalmente quando começam a namorar e deles ouvem reclamações de distância: fulano mudou, está diferente, não aparece mais… Claro que mudou, claro que está diferente, claro que aparece menos. As coisas mudam e, com elas, o tempo de cada um – o que não quer dizer importância. Alguns perdem as namoradas porque têm medo de ser chamados de autistas, velhos e chatos (adjetivos tão bacanas…) e se sentem numa forçada obrigação de manter o mesmo tempo dedicado aos amigos, o que, como se sabe, é matematicamente impossível. Certas relações amicais beiram o homossexualismo, e as namoradas têm todo o direito ao ciúme e ao pé na bunda, bem como à mais brilhante pergunta que uma mulher pode fazer: “Com licença, onde é que eu me encaixo aí?”.

Tentar extrapolar o tempo-limite de dedicação ao outro só porque um dia já foi maior soa como “tentar remendar uma obra defeituosa para levá-la à perfeição que não teve em sua primeira forma”. Como escreveu Huxley: “é vão e infrutífero”. Por isso, na praia, há um momento em que fecho o livro e os jornais e, durante cinco minutos, sacaneio um por um meus amiguinhos: a barriga, a careca, o nariz, a depilação peitoral, a voz afeminada, a cor da sunga e, como não poderia deixar de ser, o recorde de duas embaixadinhas - ao que, evidentemente, todos quase em coro me sacaneiam de volta: eu, o cabeçudo. Pronto. Eu nada seria sem esses cinco minutos. Agora já posso voltar a ler.


A cafajestice na era da internet [2005]
por Felipe Moura Brasil (Pim)

Até segunda ordem, em que pesem os esforços gerais de legislação da internet (alguém? alguém?), o sexo virtual não pode ser considerado adultério. Fica então a pergunta: o que é traição afinal? No teste de fidelidade do João Kléber (confesso: eu assisto), a moça lambeu o púbis do “ator” e disse ao noivo que não era nada disso. Cá pensei, portanto: a internet, cada vez mais pública e púbica, não deve ser tão rigorosa.

Para os solteiros, pelo menos, não é: vide a profusa cafajestice oriunda de e-mail, messenger, orkut, blogue, fotologue e demais meios de comunicação modernos. Quando se está por trás de um monitor, vale tudo. O computador é o manequim do abadá doméstico. Que desinibe. Que atiça. E a cada advento tecnológico sobrevêm novas técnicas de sondagem. Imagino o júbilo discreto dos canalhas de antanho quando se deram conta do poder do telefone: paquerar as moças sem sair de casa – obrigado, Graham Bell! Pobres garotos, diremos nós, ainda tinham que gastar saliva. Ou suor e tinta para andar até o correio com suas palavrinhas no bolso. James Stewart trocava cartas anônimas com Margareth Sullivan em A loja da esquina, de 1940, cuja refilmagem (Mensagem para você, com Tom Hanks e Meg Ryan) virou comercial em longa-metragem da America Online, assim como Náufrago é da Fedex. Em breve, a Google banca meu filme sobre o orkut, A árvore genealógica da amizade virtual, com o Tom Hanks trocando scraps com alguém distante como, sei lá, a Cicarelli. Ela há de ter um bom perfil.

Eis o mundo da sedução online. O mingau sorvido pela beira do prato; o pandeiro batido devagar... Baby steps, como diria Nosso querido Bob, Bill Murray. São mensagens sorrateiras, cheias de veneno, querendo atingir o seu, o meu, o dele - qualquer coração. Se colar, colou. Spams canhestros, flertes conjuntos - o “eu te amo” moderno vem precedido das três consoantes que não se repetem em forward. Somos todos administráveis. E hipnotizáveis (a ponto de procurar em forward as três consoantes que não se repetem). Casinhos, rolos, gavetas, bicicletas, quem nunca passou um tempo (ou passa) como stand by de alguma alma perversa que sabe como ninguém reter a vontade e, a distância, prolongar o prazer? Não se afobe não, stand, que nada é pra já. Atire o primeiro e-mail quem tem coragem para um relacionamento on/off - vulgo Onofre. (Cambada de mentirosos...)

Só os românticos são capazes de dizer não. Onofre, só com eles. Daí ninguém mais terminar coisa alguma. Daí tudo virar um estrogonofe. Cada um mantém alguém na geladeira como uma possibilidade acesa, como um lenitivo para a solidão vindoura (ou presente?), como a luz merencória do stand by em caso de blecaute afetivo. Tudo se resolve pelo messenger. A ligação do dia seguinte virou e-mail. “Não se apresse em perdoar”, dizia Nelson Rodrigues, “a misericórdia também corrompe”. Mas o pedido de perdão perdeu a campainha. A língua do pê deu lugar às apócopes consonantais (vcs, bjs, hj, kd, pq etc). Para subsistir, as novelas ignoram os celulares, como aponta o Xexéo, que dirá o resto. A dramaturgia já está submersa: os personagens são os futuros amantes, e nós, os escafandristas a decifrar na tevê vestígios de estranha civilização.

É preciso reaprender a interagir aqui fora, onde antes de ser alguém, somos um perfil (melhor ou pior que nós mesmos), e a comunicação obedece à estranha hierarquia dos canais modernos. Chegamos a um tempo em que, não raro, o relacionamento real exige uma vida pregressa na internet. É como abordar alguém e ouvir: “Como assim? Você nunca me mandou uma mensagem...”. (Calma, micareteiros: não acredito que tal restrição alcance o carnaval de Salvador, ainda que se possa “conhecer” antecipadamente todos os foliões do próximo ano em comunidades do orkut.) Tocar o interfone virou sintoma grave de psicose - cuidado. Feche a janela, formosa mulher. Todo mundo anda precavido. Se alguém passa de scrap a e-mail, você já se pergunta inconscientemente antes de abrir: a que devo o upgrade?

Talvez descubra que o deve a seu imenso potencial stand by, contra o qual nada tenho, nem eu nem os Beattles (just as long as you stand by me, claro), afinal sou amante da palavra escrita e, cumpre ressaltar, defensor número um do messenger, sob o argumento de que se trata de literatura interativa, gênero a que devo minhas favoritas (e lamentavelmente ocultas) obras. Carlos Andreazza costuma dizer que é fundamental a existência do rock para que todos notemos o quanto o samba é bom. Portanto, leitora, pra você eu deixo apenas o meu texto marrento, aquele assim, dissimulado, já saindo, indo embora, louco por você. E que termina com gritos de “viva a poligamia virtual!”, “viva a cafajestice desgovernada e palavrosa da era da internet!”, “viva até a crush-list do orkut!” (essa antiliterária!). Porque, havemos de convir, minha cara: elas só fazem valorizar ainda mais a surpresa de uma rosa vermelha entregue em mãos.


Um carioca em São Paulo [comentário de 2006]
por Felipe Moura Brasil (Pim)

Semana passada fui a São Paulo. Juro que foi sem querer. Tive uma reunião. É muito bacana ter uma reunião em São Paulo, carioca adora, por mais que o diga em tom de desalento e autocomiseração. Nós nos sentimos trabalhadores, executivos, finalmente úteis ao progresso. Aqui se olha diferente para quem tem reuniões em São Paulo. Como não é todo dia que tenho, tentei aproveitar ao máximo a oportunidade.

Cancelei a fisioterapia. Fiz questão de dizer à secretária do consultório: “Tenho uma reunião em São Paulo, coisa urgente”. Pronto: minha integridade estava intacta. Na academia, não tive a mesma sorte. Ligaram quando eu já havia embarcado: “Felipe, você está vindo para sua reavaliação?”. Meu deus, a reavaliação... Esqueci, estou no aeroporto, veja bem que surgiu uma reunião em São Paulo, queira me desculpar, sim? Fui multado em dez reais pelo tal do “reagendamento”, mas – creio – mantive minha reputação. Com amigos, parentes e moças, aprendi a fazer meu marketing profissional. Bastou dizer que eu teria – ou que tive – uma reunião em São Paulo que, subitamente, estavam todos interessados no meu trabalho. São Paulo tem um poder extraordinário. Já estou planejando uma porção de reuniões fictícias por lá.


ARTIGOS

PTs e pitis [31/01/2008]
por Felipe Moura Brasil (Pim)

Marta Suplicy não gosta que falem mal da criminalidade brasileira. Ontem, na Feira Internacional de Turismo, em Madri, ela rebateu a uma pergunta sobre a insegurança nacional com um patriótico piti: “O Brasil pelo menos não tem terrorismo”. Você já viu esse filme. Em novembro de 2007, em Zurique, o eterno presidente da CBF, Ricardo Teixeira, fez o mesmo. Defendeu nossos assassinos para uma jornalista canadense. É uma mania oficial. O recurso mais chinfrim em qualquer discussão. Quando não se têm argumentos para contestar, tenta-se carregar o outro para o mesmo buraco. Mesmo que o outro seja o Canadá.

Desde criancinha, eu sou capitalista. Não precisei conhecer a “mão invisível” de Adam Smith, nem a mão forte de Margaret Thatcher, muito menos - do outro lado - as mãos assassinas de Stalin e Fidel para concluir que a esquerda não me servia nem para a masturbação. A competição já fluía no meu sangue quando joguei minha primeira partida de bolinha de gude. Eu pulei o comunismo. Ele, o Posto 9, o Baixo Gávea e congêneres. A única estupidez que me contaminou um pouquinho mais foi esse patriotismo bocó. Pois é. Eu já fui como Marta Suplicy e Ricardo Teixeira. Se um italiano chamasse o Brasil de cara de abacaxi, eu chamava a Itália de cara de mamão. Se um americano chamasse o Brasil de cara de melancia, eu chamava os Estados Unidos de cara de mamão. Eu não gostava de mamão

O problema é que ficou cada vez mais difícil defender o Brasil. Mais do que difícil. Ficou ridículo. Se você já tentou explicar o poder dos traficantes nas favelas a um estrangeiro civilizado, sabe do que estou falando. Eles não estão lá? Vocês não sabem onde é? Por que não os prendem? Ora, são perguntas muito difíceis para um brasileiro responder. Ainda mais para mim (ou seria eu?), que comecei a gostar de mamão. Então concordei. Moro num abacaxi. Moro numa melancia. Foi libertador. Montaigne teria me endossado: “o sábio deve, no íntimo, afastar sua alma da multidão e mantê-la com liberdade e poder para julgar livremente sobre as coisas”.

Nossa ministra, até hoje, não aprendeu a lição. Irritada em Madri, desandou a falar as maiores barbaridades: “O que acontece no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, vira imediatamente manchete e uma tragédia”, “O Brasil não é um país mais violento do que os outros”, “O Brasil vive no imaginário como essa coisa enorme de insegurança”… Deve ser mesmo muito criativo o imaginário internacional: “inventou” que o Brasil tem 50 mil assassinatos por ano (umas 50 vezes mais do que as realizações do ETA, o grupo separatista basco, em 4 décadas), numa taxa de 27 assassinatos (que, no Rio, é ainda maior) por 100 mil habitantes (sendo a do Canadá de 1,85 e a da Espanha de 1,2).

Se o patriotismo é o último refúgio dos canalhas, como definiu o inglês Samuel Johnson lá em 1775, o que dizer do recurso da ministra à natureza? Para Marta, o Brasil é o “turismo internacional do século 21”, porque “os europeus podem criar muitos monumentos, mas lugares de beleza natural como Foz do Iguaçu, ninguém pode inventar”. Eis a nossa propaganda turística. Um atestado de incompetência artística e administrativa.

Henry Miller, por volta de 1940, perguntava por que, na América, as grandes obras de arte eram todas obras da natureza: por que, afinal, só havia obras utilitárias, como diques, pontes e estradas, e não “monumentos duradouros criados pela fé, pelo amor, pela paixão”, como as catedrais da Europa, os templos da Ásia e do Egito? Não sei. Aqui mal chegaram as utilitárias - contra as quais, aliás, nada tenho. Eu trocaria dez Foz do Iguaçu por uma Route 66. Eu trocaria dez Chapadas Diamantinas por uma Golden Gate. Mas o Brasil faz o que há de pior: na falta de segurança e infraestrutura, apela para as fontes murmurantes, onde a lua vem brincar.

Ricardo Teixeira, Marta Suplicy, petistas e demais esquerdistas são todos uns caras de melão.


Amor e mundo - uma introdução à realidade [13/07/2009]
por Felipe Moura Brasil (Pim)

Com quantos anos um brasileiro pára de evoluir? Sim. Supondo que começa. Com quantos? É o que me pergunto toda vez que escuto a frase mais brasileira do Brasil: “Tem que gostar de mim como eu sou”. Com quantos anos um brasileiro decide que “é”? Que é daquele jeito e nada mais fará – muito menos para “agradar” alguém. Com quantos? E com quantos anos um brasileiro decide que os outros “têm que” gostar dele? Assim: como um dever incondicional. Com quantos? Eu, de muito boa vontade, chutaria uns 7. Sete anos. Com sete anos, um brasileiro estaciona a mente na garagem e deixa a chave com o manobrista.

Quem é o manobrista? O principal: Antonio Gramsci. Em vez de tomar o poder pela força, sua estratégia revolucionária era conquistá-lo através da hegemonia cultural. Como? Penetrando militantes comunistas nas artes, na educação, no jornalismo, nas editoras e demais centros disseminadores de idéias, para subverter os sensos comuns e manobrar discretamente a mente do povo em função dos objetivos do Partido. Adestrando o povo para o socialismo, a Revolução [hope and change…] viria naturalmente. [Gramsci é como o sujeito que queria beijar as moças na rua, não conseguia, e inventou a micareta]. É a política Don Juan - mas um Don Juan pedófilo, seduzindo criancinhas para o abate eleitoral, e vampiresco, transmitindo um vírus invisível que elas passarão adiante sem se dar conta, achando-se o máximo.

Eu nunca me interessei por política. Na adolescência, uma assembléia partidária me chamava tanta atenção quanto uma banda de forró. A única coisa que sempre me interessou profundamente, além de Rocky Balboa, foi o amor. Eu só cheguei à política [e à psicanálise, e à filosofia, e ao diabo – principalmente ao diabo] porque havia alguma coisa errada com ele. De onde vinham afinal frases como “Tem que gostar de mim como eu sou”? Quem inoculava no ambiente idéias tão paralisantes? Ou eu descobria ou enlouquecia junto. Então descobri que o Brasil era uma fraude. Uma fraude gramsciana. O Show de Truman. A Vila. Só me restava enfrentar o bicho-papão, atravessar a floresta, pular o muro e cair na estrada. Gostar de mim como eu sou? Cruzes. Eu podia ser muito melhor.

Acontece que melhorar no Brasil é um pecado imperdoável. Ou pior: é uma possibilidade inexistente. Você não pode fazer isso, que dirá sugerir aos outros. Você tem que gostar de você como você é. Ao estender o conceito de “intelectual” a qualquer Gilberto Gil que servisse à propaganda ideológica e o de “cultura” a qualquer berimbau que se expressasse, a esquerda gramsciana destruiu toda diferenciação do melhor e do pior, do mais e do menos elevado, seja condenando-a como discriminatória, seja afirmando sua impossibilidade em milhares de livros, teses e artigos, como o mais Zuenir Ventura da obra de Zuenir Ventura, na semana passada: “quando fico na dúvida entre quem é o mais importante, prefiro os dois”. Fofo, não?

A fofura é o maior valor da nossa cultura puppy. Onde falta [ou se inverte a] hierarquia, sobra idolatria. A gente ama impostores, canalhas, bandidos e terroristas. É a idolatria da diferença. Nem melhor, nem pior, apenas diferente. “Olha, meu amor, se você nunca me beijar, vai ser difícil namorar você”, “Tem que gostar de mim como eu sou!”; “Olha, meu amor, você está chegando aos 200 quilos, será que não pode malhar um pouquinho?”, “Tem que gostar de mim como eu sou!”; “Olha, meu amor, você está descontando em mim problemas que não me pertencem, que tal uma terapia?”, “Tem que gostar de mim como eu sou!”; “Olha, meu amor, não acha que vale a pena aprender uma língua e se aprofundar na sua carreira?”, “Tem que gostar de mim como eu sou!”. Quanto mais comum e ordinário é o brasileiro, mais apegado ele é à sua “diferença” – e mais orgulhoso da sua “felicidade”.

Aqui se criam uma auto-imagem e uma imagem alheia aos 7 anos e é isso: um abraço. “Não vai apresentar seu trabalho?”. “Não, eu sou tímido”; “Não vai ler? Não, eu tenho DDA”. Vá jogar bola com seus amigos, e eles vão “equilibrar” o time de acordo com a imagem que têm do futebol de cada um… de 20 anos atrás! Àquela época, já errada, inclusive. As idéias de esforço, evolução, crescimento, ou – por outro lado – desperdício, retrocesso, desvanecimento, são perturbadoras demais para quem se guia pelo carpe diem, pelo mantra do “Viva cada minuto como se fosse o último!”. Brasileiro não tem projeto de vida, porque está desde os 7 anos vivendo cada minuto como se fosse o último. Vai morrer sem assoprar a velinha.

Meses atrás, David Horowitz publicou nos Estados Unidos o livro One-Party Classrooom (algo como “Sala de aula de um só partido”), em que ele mostra – universidade por universidade, caso a caso - como as propostas de Antonio Gramsci – somadas as de Herbert Marcuse e Paulo Freire - de usar a educação como plataforma para a conquista da hegemonia transformaram o ensino acadêmico americano em doutrinação esquerdista. De acordo com uma pesquisa de 2007, as ciências sociais e humanas têm 9 professores de esquerda para cada professor conservador; e, em campos como antropologia e sociologia, eles ganham de 30(!) a 1. Jornalistas, editores, advogados, juízes, políticos, estão todos saindo prontinhos das “salas de aula de um só partido” para fazer dos EUA um novo Brasil. O Brasil obâmico.

Barack Hussein – para quem Lula é “o cara” – passeia pelo mundo igualando a democracia americana às ditaduras mais escancaradas, enquanto – internamente – “espalha a riqueza” através de impostos, tirando dos realizadores para dar aos mamadores, até arrancar de vez a ambição do povo e formar uma nação de parasitas à espera [hope] de uma esmola do governo [change…], como um direito inalienável. De que vale lutar pela democracia, se uma ditadura light já está de bom tamanho? De que vale trabalhar, se deitar no sofá dá dinheiro? De que vale a honestidade se a bandidagem é protegida por lei? De que vale ser um Aristóteles se você já é um Zuenir Ventura?… Que o rompimento das hierarquias resulte no nivelamento por baixo, é só a ordem natural das coisas. Que este nivelamento geral incapacite as pessoas para a distinção, a escolha e a renúncia, também. Que isto resulte no apego à mediocridade, na repulsa ao desejo do outro e – portanto – na fuga de responsabilidades, até o amor comprova.

De muitos anos pra cá, toda vez que desço da torre e converso com alguém, acabo contando a historinha de Gramsci (ainda com mais detalhes) e do nosso one-party country, onde basta respirar para espirrar petismos - isto quando ele não entala no cérebro como um câncer. Truman, quando descobriu que vivia numa novela dirigida, tentou atravessar o cenário e fugir. Quanto termino a história, então, espero a reação dos meus conterrâneos: interesses súbitos; providências urgentes; pesquisas filosóficas; pedido de listas de autores, jornais e terapeutas confiáveis; filas acampadas na porta da minha casa; um desejo incontrolável de averiguar seu grau de contaminação; todos gritando suas opiniões para que eu as revise uma por uma oralmente alertando para as informações faltantes; e – last but not least - aquela vontade de telefonar para seus grandes amores e dizer: “Eu posso ser melhor! Eu descobri!”.

Mas nada. Nada disso acontece e eu saio cantando alegremente: “Forever seven/ I wannabe forever seven…/ Do you really want to live forever?/ Forever…/ Forever seven…”.


Da arte de curtir a vida [comentário de maio de 2009]
por Felipe Moura Brasil (Pim)

No primeiro domingo de maio, a Revista O Globo publicou uma reportagem (de capa!) sobre o ator-cozinheiro Rodolfo Bottino, portador do vírus HIV. Deparei-me, pois, com o seguinte parágrafo:

Galã na Ipanema dos anos 80, Rodolfo vivia nas noites do African Bar, no Leblon, e emendava uma festa na outra. Fumou e cheirou, mas sem grandes doideiras. Sempre preferiu viajar com vinhos e uísques. Também namorou bastante - amou homens e mulheres. Curtiu a vida. E pretende continuar curtindo.

É isso mesmo: “Fumou e cheirou, mas sem grandes doideiras”. Apenas – como direi? – aquela fungadinha social. E ainda “amou homens e mulheres. Curtiu a vida”. Ao que tudo indica, “curtir a vida” significa emendar uma festa na outra, beber, fumar, cheirar, amar homens e mulheres. Um texto muito educativo, sem dúvida.

Quando os primeiros amigos começaram a descobrir o HIV, ainda no fim dos anos 80, Rodolfo fazia exames todos os meses, temendo o resultado. Um dia, ele veio.

Isso mesmo: ele veio. De onde terá vindo esse misterioso vírus HIV? Não sei. Mas, se “Rodolfo diz que [também] não sabe como contraiu o vírus”, por que ele fazia exames todos os meses, temendo o resultado? Era porque seus amigos estavam infectados? Então, se meus amigos estão infectados, eu também devo fazer exame todos os meses? Será que o HIV se propaga pelo ar, como a gripe? Ou ele simplesmente “vem”, baixa na gente, é uma fatalidade que atinge até rapazes responsáveis, como Rodolfo Bottino, que curtiu a vida “sem grandes doideiras”? Não me pergunte, porque eu não entendi.

Suponho, contudo, que no mundo encantado das revistas de domingo o importante mesmo é ser feliz… Aprenderam, crianças?


Das metáforas de Jabor [comentário de 16/03/2010]
por Felipe Moura Brasil (Pim)

Em sua coluna de hoje, no jornal O Globo, Arnaldo Jabor avisa que seu próximo filme “não é para ‘conscientizar’ ninguém”, que ele filmou por amor à arte etc… Lindo, não? Mas, logo uns parágrafos depois, ele diz:

“(…) O filme que fiz não quer provar nada. Claro que gostaria que fosse uma defesa quase ‘ecológica’ contra a cultura de massas. Mas quem sou eu para desejar tanto? (…)”

Entenderam, crianças? Não é para conscientizar, mas, se conscientizar, conscientizou…

(Reparem, aliás, como a “conscientização” é cousa tão nobre em seu pensamento que Jabor mesmo se confessa incapaz de alcançar um mérito assim tão elevado: “quem sou eu para desejar tanto?”. Ora, rapaz, você é “Jabor, o conscientizador”, não fique triste não, cara! Levante a cabeça! Você ainda pode angariar estudantes sujinhos de comunicação e dar uma palestra sobre a aura mítica de Fidel nos pilotis! Vai fundo!).

Depois, Jabor - no ápice de sua poesia lírica - tenta explicar por que cinema e vida são cachoeiras. E argumenta:

“(…) Realidade é esta coisa sempre além da ciência, sempre além do sentido, do tempo e do espaço, inatingível, pois estamos todos boiando num infinito caldo de cultura, onde ‘parece’ que boiamos; apenas ‘parece’, pois somos também o caldo onde boiamos. A mosca e a sopa são a mesma coisa. (…)”

Não é fabuloso? Que a realidade, para Jabor, é algo inatingível, nós já sabemos faz tempo. Mas eis que ele finalmente admite estar boiando. E quer levar você juntinho, leitor. Ele é a mosca que pousou na sua sopa. Ou vice-versa.

Não perca, na PUC, a palestra (na verdade um tributo de amor à arte): Boiando com o Jabor.


OBITUÁRIO

Babuska [27/06/2009]
por Felipe Moura Brasil (Pim)

Vovó morreu uma semana antes de Michael Jackson. O que une duas almas tão díspares? Eu, claro. Até outro dia, os personagens mais emblemáticos de minha infância andavam distantes. Vovó com Alzheimer, Michael Jackson com alguma coisa. A morte os reaproximou em minha cabeça. É inútil enterrar a infância. Ela é como a Beatrix Kiddo, de Kill Bill, que se desenterra sozinha e destrói quem tentou matá-la. Melhor que enterrá-la é compreendê-la. Melhor que velá-la é iluminá-la. Quando você junta sua avó e Michael Jackson na mesma frase, você está muito próximo de um moonwalk terapêutico.

Há anos venho iluminando e compreendendo minha infância. Aprendi com Michael: You wanna stay alive, better do what you can. A parte que mais me exigiu esforço emocional (e físico) já passou faz tempo. I beat it. Sem matar ninguém. Agora, restam-me compreensões reconfortantes, como a dos genes literários. Tanto no velório quanto na missa de sétimo dia, mamãe resumiu aos padres características de sua sogra: a cultura, o poliglotismo, o gosto pela literatura e pelo conhecimento. Na missa, o padre comentou quão raro é esse gosto hoje em dia. Vovó falava seis idiomas. [E xingava em todos eles]. Ela me ensinou que Babuska – então nome de sorveteria - era “vovó” em russo, e que a sílaba tônica era a primeira: “bábuska”. Queria que eu pensasse nela toda vez que tomasse sorvete.

Vovó e eu nunca estivemos lúcidos ao mesmo tempo. Quando me tornei consciente de mim, ela já não era consciente de si. E sempre houve muita gente - muitas vozes - entre mim e ela, entre mim e os outros. Jamais conversamos a fundo sobre o conhecimento e a literatura. Fizemos diferente: rompemos a barreira do tempo e do espaço, conversando através do conhecimento, através da literatura. Houve um momento em que imitar o Michael Jackson não era mais suficiente para minha satisfação espiritual, então fui abrindo os livros da estante: Salinger, Machado, Poe, Pirandello, Shakespeare, Balzac. A maioria com “Roma S. Moura Brasil” escrito à caneta na primeira página. [Roma: “Amor de trás pra frente”, ela dizia]. Graças à vovó, passei de Thriller a Brás Cubas, de Bad a Hamlet, de Billy Jean às Ilusões perdidas. Tive de beber muito samba para me recuperar do choque.

Em Herdando uma biblioteca, Miguel Sanches Neto escreveu: “Murilo Mendes tratava os grandes artistas do passado como aeroamigos. Para mim, eles foram os aeroancestrais, de quem, num ato de fraude amorosa, me fiz descender”. Por muito tempo, eu também procurei autores dos quais me fizesse descender. Hoje sei, através desses autores, que descendo da minha babuska, cujo amor de trás pra frente rastreio em suas obras. Eles são apenas aerocarteiros levando a correspondência e os sorvetes entre nós. A morte de vovó acendeu mais uma vela sobre a minha história, revelando nossos pontos em comum. Eu nasci uma semana após a morte de Bob Marley. Quis ter certeza de que não dividiria o mundo com ele. Vovó morreu uma semana antes de Michael Jackson. Quis estar lá à sua chegada, só para dizer aos demais: “É uma bichona!”.


Feliz Natal, Da Vila [21/10/2008]
por Felipe Moura Brasil (Pim)

É estranho perder um ídolo, chorar a falta de quem não conheci senão pelo trabalho. Mais estranho ainda é receber as condolências de uma porção de amigos que o remete a mim. Luiz Carlos da Vila e eu trocamos no máximo umas três frases – coisas de fã – ao longo dos 20 anos em que o idolatrei e dos 15 em que o segui como um fiel por onde ele foi. Ele, o artista.

O primeiro samba que decorei do início ao fim foi o seu Kizomba – festa da raça, antes d’eu completar 7 anos. Foi uma lavagem cerebral. Os negros viraram meus heróis – e passei a acreditar em todos. Adolescente desorientado [brasileiro…], fui aprender sobre o amor nas letras de Luiz Carlos da Vila, o que me trouxe conseqüências terríveis. O amor nunca foi tão bonito quanto um samba dele – e era lá que eu queria viver: num samba do Luiz Carlos da Vila.

Precisei de anos e anos de terapia para me desintoxicar. Anos e anos de vida intelectual para entender que subordinar a inteligência (minhas escolhas, portanto) a apenas um de seus aspectos – o sentimento – era um crime contra mim e contra o outro. Eu precisava, por livre e espontânea vontade, investir na razão, no raciocínio lógico, no senso crítico, no interesse prático, e em tudo aquilo que, ensinado sem a cadência de Luiz Carlos da Vila, a gente deixa de aprender na escola. Não foi fácil contrabalançar a fera. Na verdade, eu perdi.

Continuei chorando feito um bebê a cada show daquele negrinho desengonçado, que dançava balançando os cotovelos e, copo de uísque sempre à mão, gritava ao fim de cada música: “Feliz Nataaal!”. Era fevereiro, abril, julho, setembro, mas, no mundo “além da razão” de Luiz Carlos da Vila, era sempre Natal. Aquilo renovava minha fé no samba. Se era “o Cacique pra uns a cachaça/pra outros a religião”, eu fazia parte de “outros”. Assumi Luiz Carlos da Vila – junto com Arlindo Cruz – como minha verdadeira fé. Pouco me interessavam sua vida íntima e seus excessos. Minha fé era cega e, para torná-la ainda mais autêntica, eu a pregava aos demais.

Dois dias antes de sua morte, perguntaram-me qual a melhor ocasião para ir ao Candongueiro – o templo da roda de samba - e eu respondi como sempre: quando o convidado é Luiz Carlos da Vila. Porque ele não era o palco, ele era a roda: o humor, o improviso, a proximidade, a emoção, o samba em sua essência – em seu sentido mais completo. Tanto melhor que seu talento ganhasse o mundo na voz dum Zeca Pagodinho, duma Beth Carvalho, se sua figura permanecia ali entre a gente, de pé no chão, olhar e ouvidos atentos, captando matéria-prima, até dizer, citando Camunguelo: “I’m going to my house now, because I’m very cansado”.

Pequeno, tímido, careca, de fala mansa, voz fanhosa, tudo em Luiz Carlos da Vila contribuía para o arrebatamento de seu canto, pelo qual ele – à flor da pele - vencia o corpo, a origem, a classe, o tempo e o espaço, para alcançar a grandiosidade de sua própria criação, fadada ao infinito. Foi através de suas letras e melodias que o samba encontrou sua melhor via de acesso ao sublime, mesmo na linguagem prosaica e bem-humorada de um cotidiano popular. Minha definição de arte e de amor é dele [é ele]: “Quando ela falou em trocar de janela/pra outra que tinha paisagem tão bela/eu disse não troque/que eu trago a paisagem um pouco mais pra cá”… Amar e escrever, pra mim, é trazer a paisagem um pouco mais pra cá.

Nos últimos anos [depois de perder João Nogueira], venho me preparando para a morte de uma porção de sambistas moribundos, mas – hoje me dei conta - me esqueci do Luiz Carlos da Vila. Eu não contava com isso. Eu não queria isso. Devo ter escondido essa possibilidade nada remota lá no fundo do inconsciente. “O show tem que continuar”, eu sei, “a chama não se apagou/nem se apagará”, mas o gosto é o que a gente tem de mais individual e representativo, e é duro aceitar que não vou poder apontar para ele no meio dum batuque enfezado, cantando Fogueira de uma paixão, e dizer: “Olha lá, meu filho, olha lá uma parte essencial da formação do papai, olha lá uma parte de mim” – uma parte que eu ia até Niterói sozinho para ver.

Um dos maiores prazeres da minha vida – cada vez mais raro no Brasil - sempre foi ver alguém fazer alguma coisa melhor do que todas as outras pessoas do mundo. Luiz Carlos da Vila fazia – e aqui vai toda a minha saudade: só ele, afinal, pintava “um azul do céu se admirar”.

Muito obrigado, Da Vila.

Feliz Natal.


Do recém-amigo que se foi [30/03/2010]
por Felipe Moura Brasil (Pim)

Rodrigo Borges de Souza [1980-2010]

O verão passou, sedimentando romances para os invernos da escrita, quando nada mais for tão recente que a criatividade se sinta dispensada. E, talvez, escritor que sou, moldando realidades em prol dum efeito narrativo qualquer, ou duma ironia a que só eu terei acesso, divertindo ou consolando minha solidão com as nuances entre a experiência real e a literatura de ficção, talvez - eu dizia - uma figura como Rodrigo Borges ganhe - sob minha autoria - novos contornos, novos passados e, sobretudo, novos futuros, estes que lhe foram suprimidos por um caminhão na estrada para Macaé, semana passada, quando ele se aproximava dos 30 anos.

Quem sabe, assim, o que foi menos de um ano de parceria no futevôlei do fim de semana virasse então uma longa amizade, sobre a qual eu pudesse dissertar sem a cara-de-pau de quem se quer mais íntimo do que é ou foi, permitindo-me dizer a todo mundo como era bom quando, sentados sob a tenda ao lado da quadra, conversávamos sobre o esporte, a praia, a carreira, a família, o grande amor, enquanto a rapaziada não chegava para completar o quórum duma partida; e isto, que aconteceu de fato duas ou três vezes, se elevaria à categoria daqueles hábitos prolongados no tempo, dos quais os bons amigos falam (ou fingem reclamar) com uma naturalidade orgulhosa - e que são, afinal, o estofo de uma vida compartilhada.

Nada mais justo do que ter com quem se gosta um pretérito imperfeito; e eu quero o meu com Borges. Direi que ele me “ligava” - e me “acordava” - da praia todo domingo, dizendo: “Só tá faltando você”, e pouco me importa se isto foi assim apenas no último mês, quando a intimidade crescia e eu já podia imaginá-lo em meu próximo jantar de aniversário. Tínhamos uma longa amizade pela frente. Borges sabia rir duma firula, como é próprio dos que têm espírito - e nós ríamos, nos divertíamos a tarde inteira; é fácil ficar à vontade com quem não se leva muito a sério. Quando ninguém mais havia para jogar, nós sempre jogávamos “umpla”, o um-contra-um do futevôlei - sempre, sempre, mas tão somente uma vez, duas semanas antes de sua morte. Você pode esquecer com quem já formou uma equipe, com quem já fez uma dupla, mas contra quem jogou uma “umpla”, jamais. E eu ficarei feliz de jamais esquecê-lo.

Daquele rapaz magrinho que, cansado de trabalhar de segunda a sexta numa cidade distante, aguardava ansioso, mas sereno, nossa companhia para bater uma bolinha na areia, só não me sinto à vontade para saber além do que ele mesmo me contou. Decerto, o convívio precocemente interrompido permanecerá no imaginário, multiplicando e embaralhando as lembranças, como sói às maiores ausências. Espero que baste. Mas, a despeito - e para além - das formas que a saudade assume, o que fica do amigo - do recém-amigo que se foi - são as pessoas, as coisas e os lugares mais presentes em sua história. O verão pode ter passado, mas naquela rede está faltando ele, de sorriso aberto, pedindo à gente uma forcinha pra amarrar a corda no poste.

“Era” sempre assim.

O Rody e as "Rodices"


Em memória de Rodrigo Cezar (1987-2011), o nosso eterno Rody.***

Rodrigo Cezar sempre ria quando, no meio de uma festa ou de um samba, eu tirava do bolso minhas barrinhas de cereal. Ria, implicava, me chamava de "estranho". O Pim? O Pim é "estranho". Algum tempo depois, lá estava ele na noitada tirando barrinhas de cereal do próprio bolso.

Aquilo se tornou para mim uma síntese da personalidade dele: por trás de seu humor moleque e fanfarrão, havia um sujeito humilde e sereno, capaz de observar e aprender. O Rody que se gabava das vitórias no futevôlei era o mesmo que tirava dúvidas com a dupla adversária: "Essa minha ginga do pescoço", ele perguntava, "tá adiantando alguma coisa?". O Rody que pagava a anuidade da rede ao pessoal do "Vovôlei", como ele chamava, tirando as moedas do cofrinho (sim, do cofrinho) era o mesmo que dava a vez para os recém-chegados jogarem. O Rody que tirava onda de ter sido eleito o melhor jogador do último campeonato de futebol em Niterói era o mesmo que afirmava: "É porque meu irmão não jogou a final". O Rody que explicava o seu tremendo poder de atrair as moças dizendo a frase "É o néctar!" era o mesmo que mandava mensagem pra gente perguntando em qual restaurante (barato) deveria levá-las.

Era difícil não gostar dele. Rody provocava por um lado e envolvia pelo outro, no fim das contas cativando pelos dois, com aquele sorriso leve e radiante de bom garoto, que iluminava qualquer ambiente. Prestativo ainda - como se espera dos melhores professores de educação física -, armava a rede, molhava a quadra, dava aula de altinha às amigas, ajudava as mães a carregar carrinho de bebê pela areia, brincava com as crianças e até consertava bicicleta. No caso, a minha. Rody ajeitou a corrente, mostrou como funcionavam as marchas e em qual eu deveria deixar quando pedalasse pela ciclovia. Depois, claro, passou a dizer para todo mundo: "Eu que ensinei o Pim a andar de bicicleta".

Ele vinha pedalando de Copacabana à Ipanema para praticar o seu esporte favorito, o futevôlei, pelo qual reunia a um só tempo os amigos, a praia, o sol, e as moças da areia e do calçadão, onde gostava de fazer as resenhas no fim de tarde. "Vida!", gritava na quadra, celebrando com a gente a intensidade daqueles momentos, não raro fotografados por alguma turista paparazzi. De todas as suas milhares de fãs, a maior, sem dúvida, era a rede - que, assim como as outras, ele beijava quando podia. Rody fazia tantos pontos com a bola resvalando na fita que, para a sua alegria, batizei aquela jogada sortuda de "Rodice". Todo mundo comete uma "Rodice" de vez em quando. Mas ninguém jamais cometerá tantas "Rodices" quanto o Rody.

Talvez por isso ele abusasse da sorte. Normalmente, ela estava do seu lado. Durante os quase 6 dias de coma após sofrer uma parada cardíaca, era como se a bola estivesse mais uma vez rodopiando em cima da rede, escolhendo em qual lado ia cair. A gente soprou, rezou, cantou, meditou, torceu muito para ela cair do lado de cá. Mas, dessa vez, infelizmente, a rede não ajudou. Rody se foi, e sua morte precoce, assim como sua vida intensa, uniu uma porção de pessoas, criando e fortalecendo amizades, marcadas para sempre pelo fundo comum e inesgotável da saudade: a saudade daquele menino simples e divertido que veio de Barra Mansa ensinar a gente a ser mais carioca. Junto, com ou sem bicicletas e barrinhas de cereal, a gente estará sempre prestando tributo a ele e revivendo a felicidade que ele proporcionava, com sua beleza sem vaidade, seu humor sem cinismo, sua humildade sem hipocrisia. A maior "Rodice" da minha vida foi ter conhecido o Rody.

Texto de Felipe Moura Brasil, o Pim, lido pelo autor na Missa de 7º Dia do Rodrigo, em 28/10/2011, e publicado no dia seguinte no facebook, com ampla repercussão - AQUI.

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