Juveninho

“Juveninho é uma voz singular no Brasil.” (Carlos Andreazza)

Ouça. Leia. Sinta na pele as aventuras de Juveninho.

Ninguém escapa ao seu humor impunemente.

EPISÓDIOS ABAIXO:

- Juveninho e as moças de Woody Allen - NOVO!
- Juveninho e as tijucanas do Brasil
- A insustentável leveza de Juveninho
- O balzaquiano Juveninho
- Juveninho e os estereótipos voluntários
- Juveninho e a geração facebook
- Juveninho e o e-mail ignorado
- Juveninho e Ela
- Juveninho Quintana e a busca da intimidade
- Juveninho N' Roses
- O segredo dos olhos de Juveninho
- Juveninho no carnaval de Salvador
- Juveninho e os amores impossíveis
- Juveninho e a paixão offline
- Juveninho e o apagão
- Juveninho 2016
- Quem ama faz spinning
- Juveninho Standard
- Juveninho e a noite de autógrafos
- Juveninho e o ventríloquo
- Juveninho e o Réveillon
- Ele e as viciadas
- Juveninho e suas órfãs
- Juveninho e a religião
- Juveninho e o carnaval
- Juveninho e Rocky Balboa
- Juveninho e as moças do Coqueirão
- Juveninho e as moças do seu tempo

Juveninho e as moças de Woody Allen
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2013, às 14:51

Reza a lenda que antes de começar o verão carioca, São Pedro pergunta a Juveninho:

“Está pronto?”

Pois bem. Juveninho está. (Atrasado, mas está.) Podem vir as periguetes. Podem vir as biscates. Podem vir as cafonas. Podem vir todas para o colo de Juveninho que ele agradece de coração, mas passa. Passa a mão, dizem os amigos. Juveninho ignora. Não quer saber de passatempo algum a não ser procurar a antiperiguete, a antibiscate, a anticafona, sem hífen nem cintinho de vestido.

Não! Juveninho tampouco quer uma freira. Nem anta nem santa, ele diz. As ingênuas, desprovidas de malícia e sedução, nem pensar. Poucas coisas são tão enfadonhas para um homem vivido quanto sair com uma filhinha-de-mamãe. No escurinho do cinema, nem adianta despejar o sal da pipoca em seu bracinho mais próximo. Elas são alérgicas, explica Juveninho. Batem os braços sem desviar os olhos da tela e já estão limpinhas de novo. Se uma mãe quer tirar todo o sal de sua filha, deixá-la assim feito uma pipoca seca e fria, ainda que atraente, a receita ideal, ensina ele, é fazer tudo, tudo, tudo com ela: malhar junto, correr junto, ir à praia junto, tomar açaí junto, colocar silicone junto, sair para dançar junto e, claro, pegar um cineminha junto, dividindo uma pipoca doce. Não tem erro. Uma “filhinha-de-mamãe-miguxa” assim criada, se vier a ter algum jogo de cintura, diz Juveninho, será no bambolê.

Há que se cair no mundo, eis a verdade. O problema é saber o quanto — coisa que raríssimas moças sabem, segundo Juveninho. A maioria acaba nos extremos. Se não cai, infantiliza-se; se cai, despiroca-se — que é a forma desinibida de infantilizar-se. Em outras palavras: se não cai, acha natural, diante de um homem, referir-se à mãe como “mamys”; se cai, vira um bonde sem freio para homens, cigarros, tatuagens, bebidas, drogas e demais sensações, inclusive mulheres e caixas de bis. A força corruptora do meio é tanto mais forte quanto mais fraco o filtro mental de quem nele se aventura. E o único filtro que não enfraquece no verão carioca, diz Juveninho, é o filtro solar. Até porque, contra os raios UVA, já é mesmo bem fraquinho...

Juveninho anda prevenido. Nada de pegar morenas entre 11 e 17 horas no verão. Nesse horário, só as albinas, dizem os amigos. Aquelas ruivinhas sardentas que não podem ir à praia, mas adoram uma sauninha no playground. Juveninho dá de ombros. O maior perigo do sol — pensa — é que, junto com as areias, ele infantiliza as pessoas, a começar pelos seus amigos. Não que Juveninho pense em abandonar os esportes praianos por causa disso. O segredo, ele diz, é vencer todas as partidas e voltar para casa, sem se deixar contaminar pelo limbo mental dos outros.

A Zona Sul do Rio de Janeiro é o paraíso do limbo mental, segundo Juveninho, de modo que só se deve sair de casa por esporte — ainda que o mais recomendável seja praticá-lo em casa mesmo. Reza a lenda que Juveninho jamais dispensou uma morena 'delivery' para bater uma bolinha. O problema, dizem os amigos, é que, quando você já está em casa, não dá simplesmente para voltar para casa depois. E Juveninho bem sabe, segundo eles, o trabalho que dá fazê-las voltar para as suas. É por essas e outras, creem alguns, que ele está se aposentando. É por essas e outras, creem outros, que ele se tornou um especialista no assunto.

Lamenta, Juveninho, o despudor histérico dos amigos, mas não vai entrar nesses méritos agora. Está muito mais preocupado com o limbo mental das moças, sobretudo depois que descobriu o que fez Woody Allen conhecer escritores sérios, como o russo Anton Tchekhov:

“Foi no finzinho da escola secundária” — contou ele ao jornalista Eric Lax em 1988 —, “quando comecei a sair com mulheres que me achavam iletrado. Eu achava aquelas meninas lindas: sem maquiagem, joias de prata, bolsa de couro. Saía com uma delas, que dizia: ‘O que eu queria mesmo fazer hoje era ouvir o Andrés Segovia’. E eu dizia: ‘Quem?’, e ela dizia: ‘Andrés Segovia’. E eu simplesmente não sabia do que ela estava falando. Ou então outra dizia: ‘Você já leu este romance do Faulkner?’. E eu dizia: ‘Eu leio gibi. Nunca li um livro na vida. Não entendo nada disso’. E então, para poder acompanhar, precisei ler.”

Foi para poder acompanhar as moças lindas de sua geração que aquele que viria a ser um dos maiores cineastas de todos os tempos — e um dos favoritos de Juveninho — precisou ler Faulkner, Hemingway, Fitzgerald, Tchekhov e peças de teatro, o qual passaria a frequentar aos 18 anos, a fim de escrevê-las também (já que “roteirista de cinema não era nada, só um nome anônimo cuja obra era retalhada. E um dramaturgo era uma grande coisa”); e ainda precisou ouvir música clássica, como o violão erudito de Andrés Segovia, o mesmo a quem Villa-Lobos dedicou seus "12 estudos" — embora Juveninho prefira a Ária (Cantilena) das Bachianas Brasileiras número 5 —, recebendo depois uma série de sugestões de mudança no texto musical.

Já para poder acompanhar as moças lindas de sua geração (e das gerações abaixo, dizem os amigos), aquele que virá a ser o maior escritor de todos os carnavais — ele mesmo: Juveninho — precisa ler Caras, Contigo, Ego e o caderno Ela, além de textos falsamente atribuídos a Arnaldo Jabor, Luis Fernando Verissimo e Martha Medeiros, citações de livros não lidos de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, e frases do maior filósofo das redes sociais brasileiras, o apologista da maconha Bob Marley; e ainda precisa ouvir Thiaguinho, Jorge e Mateus, MCs Naldo, Catra e Marcinho, além de Coldplay, Jack Johnson e Beyoncé, aquela que homenageou o presidente-teleprompter Barack Obama, em sua posse, cantando o hino americano em playback.

“O que eu queria mesmo fazer hoje era ouvir o Wiz Khalifa”, dizem as mais novinhas. E Juveninho: “Quem?” Elas: “Wiz Khalifa” — e fazem aquela cara de assombro, como se só um E.T. não soubesse do que se trata. O E.T. Juveninho então lhes pergunta, apontando com o dedinho mágico: “Você já leu este romance de Goethe?”. Elas: “Quem?” Ele: “Goethe” — e faz aquela cara de caridade, como quem oferece a chance de suas bicicletas voarem. E de fato voam, dizem os amigos. Voam para bem longe de Juveninho. Não que o moço mais completo de sua geração, segundo ele mesmo, achasse que elas se tornariam as maiores cineastas de todos os tempos caso tentassem acompanhá-lo, mas ao menos, ele diz, entenderiam melhor suas piadas.

A tragicomédia brasileira, resume Juveninho, está toda ela contida nesta simples comparação: Woody Allen, sentindo-se ignorante ante o conhecimento alheio, buscou humildemente o aprendizado; a moçada brasileira, sentindo-se ultrajada ante o conhecimento alheio, foge, maldiz, xinga, chama de velho, nerd, louco, autista, elitista, metido, arrogante, rancoroso, teórico da conspiração, o diabo. E ainda acha que, se tiver o pensamento positivo, tudo vai dar certo. Com pensamento positivo, dizem os amigos, Juveninho não levanta nem... Bom, deixa pra lá.

O carnaval carioca promete. Promete no corpo e deixa a desejar na alma, mas Juveninho se diverte do mesmo jeito. Vai levar o bambolê nos blocos para ver quem tem jogo de cintura; e um salzinho no bolso para tentar ajudar quem não tem. Já mandou até fazer um Megasserrote Antimiguxa, para cortar as patotas ao meio e depois retalhar as metades. Se encontrar uma “filhinha-de-mamãe-miguxa”, retalha as cabeças também. Há que se cair no mundo, e Juveninho cai por esporte, atrás de sua antiperiguete morena, sem maquiagem no rosto e no espírito, como as moças de Woody Allen, porque, segundo Juveninho, inteligência não é dentadura, para ser adquirida e utilizada só depois que tudo já caiu.

Há quem diga que, por precaução, Juveninho já decorou 10 frases do Bob Marley, 5 pagodes do Thiaguinho e 3 funks do Naldo, mas há quem diga que, como a Beyoncé, ele só se garante com playback. Há quem diga que Juveninho prefere abordar as suburbanas porque se encanta com a simplicidade, mas há quem diga que é porque, quanto mais difícil o nome, mais fácil de achar no facebook. Há quem diga que o beijo do filhinho-de-papai Juveninho na filhinha-de-mamãe-miguxa será o mais lindo do carnaval, mas há quem diga que dois E.T.s juntos não fazem um verão.

Que importa afinal — pensa ele — o que dizem os iletrados? Rendido ao sol da folia, Juveninho já separou o filtro solar (com alta proteção contra os raios UVA) e o filtro mental (contra o que hoje se chama de “cultura”), e deixou muito bem avisado a São Pedro (e às morenas) que está mais pronto do que nunca.

*****

Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim e vende fantasias de Juveninho para o carnaval.



Juveninho e as tijucanas do Brasil
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012, às 10:23 

Juveninho está ficando careca.

Este é seu último verão com bordas no telhado, e ele precisa garantir o quanto antes uma morena vitalícia. Mas onde ela está? Onde está “A” morena capaz de unir a simplicidade alegre da Zona Norte ao horizonte mental da Zona Sul? Ou melhor: onde está a simplicidade? Onde está o horizonte? O Rio de Janeiro, diz Juveninho, virou uma Tijuca sem fim. A Faixa de Gaza engoliu Israel e Palestina. Glu, glu!

Para os dois lados, alastrou-se o espírito das tijucanas de raiz, arremedos de patricinhas reconhecíveis a quilômetros, segundo Juveninho, pela silhueta rechonchuda, marca indelével da preguiça de malhar somada a muito “chopinho” com batata frita ao molho cheddar em nights e happy hours. Assim como as barrenses de origem Zona Norte (espécies, ao menos, mais atléticas de tijucanas, diz Juveninho), elas tanto mais revelam sua cafonice quanto mais tentam camuflar suas raízes entre brilhos multicoloridos (nos olhos, na roupa, no cinto...), blushes, bases e batons, todas eternamente vestidas pela mamãe para uma festa de 15 anos.

Para Michelangelo, a beleza era a purgação do supérfluo. Para as "neotijucanas", diz Juveninho, o supérfluo é a condição da beleza: o único passaporte para o clubinho de “gente bonita”, onde buscam sem sucesso a redenção para o estigma de suburbanas. É por isso que a Zona Norte, na concepção elogiosa de Juveninho, começa depois do Méier. Quanto mais perto da Zona Sul, mais extraviada, caricatural e infantilizada é a tentativa de elegância. Quem quer tanto se diferenciar da “gente feia” (vulgos pobres, ele traduz) acaba virando um ET.

No verão carioca, com o desembarque de “tijucanas” de todo o Brasil, é como se o Rio de Janeiro fosse sequestrado por extraterrestres, com a diferença, segundo Juveninho, de que, ao menos nos filmes, os extraterrestres nunca vieram com peitos de borracha. Disseminado pelo exemplo supremo das celebridades – a imensa maioria delas, no mundo real, um notório fracasso em matéria de vida amorosa –, o silicone é, para Juveninho, a mais emblemática de todas as caipiradas, mais até que a bolsa rosa shock com detalhes e corrente em dourado.

Se peitões atraem homens, como dizem os “especialistas”, ninguém senão Juveninho parece perguntar que tipos de homens são esses, nem qual a importância ou a durabilidade dessa atração, sobretudo após a revelação da farsa (o que, em alguns casos, segundo Juveninho, só ocorre mesmo através da análise tátil, entre quatro paredes e dois ou três espelhos). No país da diversão obsessiva, a popularidade do silicone, diz Juveninho, é a prova de que o horizonte mental das moças é do tamanho de uma noitada. O que faz sucesso na Quartaneja da Melt traz felicidade para a vida inteira. Afinal, imita Juveninho, “a blusinha veste melhor...”

Em termos de caipirada, ele compara, só chega perto do silicone (a rigor, o motiva) o deslumbre por galãs de novela, cinema, música e esportes, exercido diariamente no facebook por “neotijucanas” virtuais que não veem a menor incompatibilidade entre esse despudor público e o sonho de viver um grande amor. Acham natural que seus futuros ou atuais namorados saibam exatamente quem são os homens que lhes deixam loucas, tendo eles a obrigação de não dar a mínima bola para isso. Confessam entre risos a milhares de “amigos” (dos amigos dos amigos...) suas fantasias eróticas com ilustres desconhecidos, e depois ficam frustradas (para não dizer revoltadas) quando os conhecidos menos ilustres a realizam e vão embora.

Essas moças, diz Juveninho, encomendam o chifre e o pé na bunda com tanta antecedência que, quando eles chegam, elas já nem se lembram mais que foram elas que pediram (muito menos, lembra Juveninho, que foram vistas sem maquiagem pela manhã...). Passam então a postar milhares de citações pseudoliterárias de mulher mal amada, retiradas de seriados de TV e revistas masculinas, femininas e de domingo, cuja única função é incitar o rancor por quem não as escolheu. Juveninho lhes devolve, então, a responsabilidade: quando a mulher abandona o pudor, ele ensina, mais cedo ou mais tarde todo homem a abandona.

Assim como o acesso à internet expõe a um bombardeio de informações (e ao ridículo, conclui Juveninho) pessoas absolutamente despreparadas para absorvê-las, o acesso a novos bens de consumo, em tempos de crescimento econômico, desperta a cafonice adormecida do povo. E quando até as elites estão esvaziadas de espírito, e desprovidas portanto dos sensos de hierarquia e de estética que só a imersão numa cultura superior lhes transmitiria, o resultado, diz Juveninho, é a tijucanização geral do país. Não à toa, quando anda pelas ruas do Leblon, Juveninho se sente no presente alternativo de “De volta para o futuro”, buscando um meio de voltar ao passado para impedir que Biff Tannen receba o almanaque que o levará ao poder.


Juveninho, porém, nasceu há dez mil anos (porque “atrás”, ele diz, é coisa de Paulo Coelho) e lembra que Lima Barreto, há quase 100, já descrevia a opção brasileira pelo fingimento: “Não há na maioria daquela gente uma profundeza de sentimento que a impila a ir ao âmago das coisas que fingem amar, de decifrá-las pelo amor sincero em que as têm, de querê-las totalmente, de absorvê-las. Só querem a aparência das coisas...” Estética e socialmente, define Juveninho, o Brasil de hoje é uma macaqueação cíclica de tijucanas (de raiz, de elite e de TV), umas tentando aparentar as outras, numa imensa e apatetada histeria consumista, onde todas as relações, como as chapinhas, se esvaem à primeira gota de chuva. Tóin!...

Os amigos, dessa vez, escutam Juveninho em silêncio. Não ousam discordar de seus comentários, nem apontar suas incoerências. Não vão sequer acusá-lo de ressentimento por alguma tijucana patricinha (pleonasmo!, grita Juveninho) que teria se recusado a dançar com ele a valsa eterna dos 15 anos. Muito menos espalhar que Juveninho foi visto na Melt com uma extraterrestre de bolsa rosa shock com correntinha dourada. Em hipótese nenhuma, tentarão convencer Juveninho das delícias do chopinho com batata frita e dos peitões de silicone com molho cheddar.

Ninguém tampouco insinuará que Juveninho esfrega minoxidil nas “entradas” e toma finasterida todas as noites, com medo de perder a vaga no clubinho de “gente bonita”, onde, aliás – eles não resistem – suas musas sempre lhe deram bola preta. Nada disso!, eles gritam. Juveninho está ficando careca, e o médico mandou não contrariar. Por isso, todos estimulam a continuação da busca juveniniana por uma morena terráquea, sincera e elegante em sua simplicidade, limitando-se apenas a consolar com amor e afeto o cabeçudinho do grupo:

“Calma, Juveninho. O boné veste melhor...”

A insustentável leveza de Juveninho

por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011, às 14:18

O romance não é uma confissão do autor,
mas uma exploração do que é a vida humana,
na armadilha em que se transformou o mundo.

Milan Kundera, em A insustentável leveza do ser



O que é o flerte?

A pergunta é de Milan Kundera em A insustentável leveza do ser. E se, bem ou mal, estamos todos flertando, diz Juveninho, convém saber do que se trata.

O flerte, segundo Kundera, é um comportamento que deve sugerir que uma aproximação sexual é possível, sem que essa eventualidade possa ser entendida como uma certeza. “Em outras palavras, o flerte é uma promessa de coito, mas uma promessa sem garantia.”

Juveninho é especialista em matéria de coito. Não pode ouvir uma promessa morena que quer logo extrair a garantia. Mas não se afoba. Principalmente quando é ele mesmo, Juveninho, o autor da promessa. Para Kundera, o virtuosismo do flerte reside precisamente no equilíbrio entre a promessa e a ausência de garantia: a arte, segundo Juveninho, de prometer sem se comprometer - de manter verossímil a alegação de que tudo não passou de educação, simpatia e afeto, ou, como diria o aposentado orkut: “sou legal, não tô te dando mole”.

Muitas amizades entre homens e mulheres – e elas existem, afirma Juveninho – começam a partir do flerte, ou, mais precisamente, são resultados de um flerte não correspondido. Juveninho não vê nisso mal algum, muito pelo contrário: vê somente o indício de uma maturidade, que se revela na habilidade de lidar com coitos potenciais. Da mesma forma que ninguém precisa chegar às vias de fato, ninguém precisa ignorar ou excluir do seu convívio real ou virtual aqueles que um dia se aproximaram de maneira meramente sugestiva. Ver em cada aproximação um estupro potencial é, para Juveninho, o aspecto definidor de uma moça besta.

E moça besta, ele diz, é o que não falta na Zona Sul do Rio de Janeiro. Numa província de elite em que toda a cultura se resume a “curtir a vida” (adoidado), gastando fortunas (em viagens, ingressos, roupas, bebidas) para fugir a qualquer esforço de inteligência e realização superior, nada mais natural, segundo Juveninho, que essas moças só se interessem por aquilo que lhes desperta um desejo imediato de consumo; e que, por pura projeção, só possam conceber a curiosidade masculina como uma tentativa de consumi-las com urgência, como se o simples fato de serem aparentemente desejáveis as eximisse de serem efetivamente interessantes.

Com efeito, lamenta Juveninho, o comportamento que sugere que uma aproximação sexual é possível (às vezes, um mero “boa noite”) já soa como a própria intimação ao coito, devendo ser imediatamente rechaçado com ar blasé ou correspondido tão somente como concessão, uma atenção emprestada por quem se dispensa da mais mínima participação ativa no processo. Antigamente, ao “conversar” com moças incapazes de lhe fazer uma única pergunta, Juveninho desandava a falar de si, para ver se, subitamente, elas despertavam da passividade. Hoje, tem um método mais eficaz: inverte as perguntas, como numa espécie de “Auto-Quiz”.

- Quantos irmãos eu tenho?
- Você? Ué... Não sei.
- Meus pais são casados?
- Seus pais? Como assim!?
- O que eu desejo estar fazendo daqui a 10 anos?
- Eu, hein! Como posso saber isso!?
- Qual era o nome do cachorro que tive na infância?
- Cruz credo, cara! Você é maluco!

É verdade que nem sempre funciona. Quem quiser ter uma conversa de verdade, segundo Juveninho, no grande parquinho que se tornou a Zona Sul, é logo considerado um maluco. Todo o repertório de assuntos que constitui o conteúdo verbal do flerte - ou de qualquer outra possibilidade de relação - se resume, quando muito, ao que se fez no último fim de semana e o que se fará no próximo, de preferência com interlocutores já devidamente apresentados por parentes ou amigos em comum, porque, nas palavras de Juveninho, ninguém pode falar com estranhos nem andar sem mão dada no parquinho.

Enquanto circular incólume a crença geral de que a economia move o mundo, avulsa e desencarnada, como se não fosse ela determinada por fatores intelectuais, culturais, éticos, psicológicos e religiosos, e enquanto todos estes estiverem reduzidos à propaganda político-partidária, a obsessão dinheirista-consumista regerá também a vida social e amorosa das elites, com todo o seu poder de esvaziar o cérebro de mocinhas encantadoras, todas elas, segundo Juveninho, muito mais adestradas a usufruir um homem (como uma bolsa ou um sabonete) do que a conhecê-lo de fato para além de suas posses e poses, criando aquele vínculo profundo sem o qual toda relação é tão descartável quanto um notebook velho.

Não quer com isso, Juveninho, desprezar o papel dos atributos físicos – ou, ao menos, manifestados pela aparência imediata – na hora do flerte. Admirador incontornável das carnes morenas e douradas, Juveninho seria o último a exaltar as vantagens do amor desencarnado. Mas esclarece: uma coisa é o desejo de coito (aplicável a numerosas moças), outra bem diversa é o encanto. Milan Kundera acredita que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. O problema é que aquelas poucas mulheres que realmente encantam, comovem, dão beleza à vida de Juveninho – entrando em sua memória poética e fazendo dez embaixadinhas lá dentro –, normalmente são as mais bestas de todas.

Os amigos não se conformam.

- Mas e fulana, Juveninho? Aquela gostosa!
- Não entra na minha memória poética.
- Mas entra na sauna, não é?
- ...
- E beltrana? Mó gatinha...
- Bate na trave.
- E sicrana? Você era apaixonado por ela!
- É besta.
- É besta ou você não entra na memória poética dela?
- É besta.
- Como você sabe?
- Nunca me fez uma pergunta.
- Ela não pode estar desinteressada?
- Pode. Não pode é ser besta.

Até os amigos agora fazem perguntas a Juveninho. Nenhum quer parecer tão besta quanto as moças mais encantadoras da cidade. Todos já sabem de cor quantos irmãos tem Juveninho, se seus pais são casados, o que ele deseja estar fazendo daqui a 10 anos e qual era o nome do cachorro (um fox terrier, eles gritam!) que Juveninho teve na infância. Imploram pelo romance autobiográfico A insustentável leveza de Juveninho, regado a muitos diálogos de “Auto-Quiz”. Alguns, aliás, confessam que colocaram o método em prática, com relativo sucesso. Outros, que pararam de puxar o cabelo das moças nos eventos, porque isto sim é intimar ao coito. As amigas admitem que andam interagindo com os estranhos no parquinho, porque ignorá-los, sobretudo se gentis, é de fato tão grosseiro quanto, para os homens, puxar o cabelo; e que, apesar de um ou outro Trem Fantasma, conquistaram amizades e conhecimentos assim, sem mais antecipar o momento do “não”. Por fim, todos exigem papeis de destaque na grande obra juveniniana, embora temam a maneira como serão descritos.

Juveninho conversa com cada um deles. Não os rechaça. Não os exclui. Não é besta nem nada. Trata os fãs com educação, embora prefira conhecer as tietes. Seu comportamento sugere apenas que o livro é possível, sem que essa eventualidade seja entendida como uma certeza. É uma promessa de romance, mas uma promessa sem garantia.

Até porque, pensa Juveninho, a literatura é como a maturidade: bem ou mal, também se revela enquanto estamos flertando.


O balzaquiano Juveninho
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terça-feira, 07 de Junho de 2011, às 20:18



Juveninho anda muito ocupado fazendo 30 anos. Logo ele, que chegou à idade da razão aos 12. O motivo é simples, ele diz: há muito a se fazer quando se tem 30 anos. Os amigos desconfiam de crise existencial, balanço mental, revisão de valores e objetivos. Mas isto, afirma Juveninho, é coisa de quem espera completar 30 anos para tirar a fralda do cérebro. A de Juveninho, ele garante, ficou há mais de uma década pela prateleira, marcando a página 56 de “O apanhador no campo de centeio”: “quando estou com gente burra”, dizia Holden Caufield, “fico burro também”. Desde então, o objetivo de vida de Juveninho é ser inteligente.

O maior problema de querer ser inteligente no Brasil é a falta de companhia. Para Juveninho, seus amigos só querem ser ricões, com carrões, apartamentões e mulheres lindas e gostosas. Já as mulheres lindas e gostosas podem até pular de quebra-galho em quebra-galho (Juveninho em Juveninho, traduzem os amigos), mas estão mesmo é atrás dos homens ricões, com carrões e apartamentões. E as mulheres não tão bonitas e gostosas se arriscam em cirurgias estéticas, a fim de atender milimétrica e mililitramente às exigências desses tipos tão sutis de homem (os borrachófilos, segundo Juveninho), os quais, para elas, são os únicos que existem. Onde a biblioteca é a conta bancária, ele diz, o divã é o leito cirúrgico.

A aversão à inteligência – ou intelectofobia; ou Juveninhofobia, segundo Juveninho – produz uma multidão de reféns voluntários das propagandas dominantes (inclusive a de peitos), como se pode verificar diariamente no facebook. Basta uma companhia aérea divulgar uma promoção, e todos os colecionadores de paisagens correm para completar seu álbum. O ideal mais elevado dessa geração, ele diz, é registrar em algum lugar paradisíaco o seu edificante momento seminu fazendo absolutamente nada, para então despertar a inveja dos miguxos do outro lado da tela, ansiosos por extravasar o tédio de empregos aborrecidos em vislumbres ilusórios de felicidade, como se o conteúdo das paisagens pudesse suprir a sua miséria interior.

Para Juveninho, viagem é como megaevento: um índice de possibilidades. Quem faz de uma viagem um fim em si mesma, está sempre em função da próxima, sem nunca ter feito valer a primeira. Da mesma forma, quem não leva adiante qualquer possibilidade extraída de um megaevento – seja uma possibilidade loira, ruiva, morena ou mulata –, está sempre em função do próximo, sem nunca ter feito valer o primeiro. Do Louvre, do Havaí ou do carnaval de Salvador, seus amigos guardam - isto é, publicam - sempre a mesmíssima e única coisa: uma foto com pulinhos e caretas diante do cenário, com aquela certeza afetada (“uhuuuuul”, traduz Juveninho) de que isto representa o máximo em matéria de aproveitar a vida. São os colecionadores de índice, ele diz: nunca se aprofundaram em qualquer assunto, interesse, conhecimento ou morena. Vivem para ostentar, senão a riqueza, ao menos a beleza e o prazer.

Balzac escreveu que o homem começa a morrer na idade em que perde o entusiasmo; de modo que Juveninho se sente a cada dia mais cercado de zumbis, que afetam entusiasmo para camuflar existências vazias, destituídas de qualquer significado maior. O cruel retorno à realidade, marcado por uma inescapável depressão ao fim de cada viagem, megaevento, ou simplesmente domingo, serve menos como alerta para um ciclo vicioso de frustrações do que como estímulo para a compra antecipada de passagens e ingressos para novos mundos encantados de “gente bonita”, onde balzaquianos que nunca leram Balzac, segundo Juveninho, pulam, bebem e fazem “uhuuuuul”, convictos de estarem participando de um grande acontecimento cultural. Aos 30 anos, se você é bonito, mora sozinho, pula, bebe e faz “uhuuuuul”, diz Juveninho, você tem tudo de que precisa para pousar os maiores aviões do Brasil na sua pista. Principalmente, ele diz, se você gosta de aviões emborrachados.

Em 1945, Henry Miller já questionava se o objetivo do adulto americano era se tornar “apenas um ‘sucesso’, independentemente da forma ou do estilo, do propósito ou da significação” com que o sucesso se manifestasse. Juveninho, hoje, não tem dúvidas: o objetivo de seus amigos é se tornar apenas um “sucesso”, para poderem finalmente consumir pacotes de turismo e de silicone. Aprendeu com Olavo de Carvalho: ao substituir a realização superior do homem na vocação pela mera busca do emprego, sem nenhuma importância no que diz respeito ao conteúdo, os brasileiros vivem presos “como animaizinhos, entre a dor inevitável e o prazer impossível”, “entre o trabalho forçado e a diversão obsessiva (da qual o Carnaval é a amostra mais significativa)”. Se Henry Miller, aliás, sonhava com um zoológico humano, o sonho se realizou. Para Juveninho, o facebook é um zoológico virtual de animaizinhos presos entre o trabalho forçado e a diversão obsessiva, da qual o Rock In Rio é a amostra mais significativa.

A jaula favorita de Juveninho é a dos casais, através da qual ele pode – como queria Miller –“estudar a felicidade conjugal com certo distanciamento e imparcialidade”. Do namoro à lua-de-mel, das férias ao primeiro filho, do ciúme à separação, Juveninho acompanha cada cena de sua novela das oito feicebuquiana, esforçando-se, ele admite, para não atirar pipoca aos macacos. Não espanta Juveninho que, assim como tudo o mais, a declaração de amor só tenha sentido atualmente quando tornada pública, e seja tanto mais admirada, desejada e comovente (“Que fofoooo!”, ele traduz) quanto maior o público alcançado. Quem não encontra uma atividade que dê sentido à própria vida, ele diz, despeja na vida alheia tanto as frustrações quanto as supostas paixões vividas. Por isso, Juveninho não se comove com a moda dos pedidos de casamento no YouTube. Declara que é tudo esgoto do mesmo zoológico virtual e que já dizia o velho ditado juveniniano: cão que ladra não afoga o ganso.

Os amigos o chamam de insensível. Acham que Juveninho está sentindo o peso da idade e da solidão, e começando a exagerar no tom e na hostilidade. Dizem que ele só não viaja mais porque, depois de velho, passou a ter medo de avião; e que, do Louvre, do Havaí e do carnaval de Salvador, só não guardou as fotos porque suas ex-namoradas roubaram todas. Que Juveninho só não vai ao Rock In Rio ver o show do Guns porque, quando lembrou que admirava o Rose, a fila já durava dez horas e ele não tinha barrinhas de proteína e cereal suficientes. Que ele só anda ocupado porque decidiu morar sozinho, numa última tentativa de enjaular moças lindas e gostosas, emborrachadas ou não, pois que Juveninho já teria sido visto fazendo “uhuuuul” com uma série de peitinhos faber-castell pela cidade. E que não adianta Juveninho despejar na literatura os seus recalques, porque eles, os amigos, estarão sempre de olho, esforçando-se para acertar a pipoca, o churros e a pizza bem na cara do macaco.

Juveninho dá de ombros. Com tantas moças casadas chamando-o de inflexível por recusar o papel de amante, não serão os amigos - chamando-o de insensível por simplesmente descrever a realidade - a lhe despertar a fúria. Aos 30 anos, Juveninho não tem mais tempo para quem não quer entender, nas palavras de Miller, “até as coisas desagradáveis”, “até mesmo o que parece hostil, mau, ameaçador”; ou para quem não quer, nas palavras de Juveninho, tirar a fralda do cérebro. Quando está com gente burra, ele agora usa a internet do celular. Nada mais pode desviá-lo do objetivo de ser inteligente; nem mesmo os aviões sobrevoando o zoológico sem pousar na sua jaula. Se a inteligência no Brasil é incompatível com a beleza, ele diz, azar o da beleza. Para o balzaquiano Juveninho – e os amigos não negam -, sempre há um trocinho querendo saber com quantos “us” se faz um “uhuuuul” de verdade.


Juveninho e os estereótipos voluntários
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 23 de Fevereiro de 2011, às 17:18



Juveninho não bebe. Juveninho gosta de samba. Ninguém entende como alguém pode gostar de samba e não beber ao mesmo tempo. Contraria, segundo Juveninho, a ordem bocó das coisas, de acordo com a qual só se pode transitar em determinado grupo uma vez que se absorvam dele também os vícios. A vida amorosa de Juveninho é o testemunho diário da incapacidade das morenas (loiras, ruivas, mulatas...) de contrariar a ordem bocó das coisas. De cada tribo, ele diz, elas têm sempre de absorver o pior.

Juveninho está calejado. Não mais se deslumbra com a beleza das moças, embora lhes dê a chance de surpreendê-lo. E elas surpreendem. Estão sempre aquém do pouco que Juveninho espera. As morenas da praia fumam maconha; as da academia veem BBB; as patricinhas trocam a academia pela maquiagem; as intelectualizadas trocam a academia pelos pêlos; as interioranas são terrivelmente cafonas; as bem-sucedidas perdem toda a molecagem; as médicas e engenheiras nada sabem para além de medicina e engenharia; as mais belas, quando muito, têm uma amiga mais simpática, inteligente e feia; e todas, segundo Juveninho, numa doce ilusão de personalidade, ainda acham que os homens têm de gostar delas como elas são.

Dá vontade, mas não: Juveninho não vai se trancar em casa e conversar apenas com as orelhas dos livros. Não quer ser um daqueles eruditos que “leram até ficarem burros”, como escreveu Schopenhauer. O intelectual não é um isolado, ele repete. Aprendeu com Sertillanges: “Se a solidão vivifica, o isolamento paralisa e esteriliza”. Com Vitor Hugo: “À força de ser alma, cessa-se de ser homem”. Com Goethe: “O talento se aprimora na solidão, o caráter na agitação do mundo”. Com Montaigne: “todos os lugares lhe serão estúdio: pois a filosofia (...) tem o privilégio de imiscuir-se por toda parte”. Imiscuir-se é mesmo com Juveninho. Por todas as tribos, ele se imiscui atrás de uma morena que as transcenda.

No verão, Juveninho é figurinha fácil até nas festinhas pop da cidade: no Morro da Urca, no MAM, na Marina da Glória, no Píer Mauá, e onde mais houver espaço e matéria prima abundantes para a sua filosofia, apesar da garrafa d’água a 6 reais. Para Juveninho, a função do escritor no Brasil é manter a sobriedade em meio à histeria. E Juveninho leva sua função ao pé da letra. O único gargalo admissível para o álcool, ele diz, é o lábio suculento de uma morena transcendental. De preferência: de vestido amarelo e florzinha nos cabelos. Só não sabe, Juveninho, o que veio primeiro: se foi o estilo “vestida a vácuo”, ou se foi o vácuo mental produzido pelas Ladies Gaga da cultura pop. O certo é que o traje predominante nas festinhas da cidade nunca lhe pareceu tão coerente.

Se as moças se vestem com um tantinho mais de naturalidade no carnaval diurno dos blocos, isto se deve tão somente à inclemência do Sol - o melhor estilista do universo, na opinião de Juveninho. Porque basta entrar no facebook de cada uma, ele diz, para se dar conta do tamanho do monstro que elas podem se tornar à noite. Amoldadas pela moda e pelas tribos para caber em roupas e perfis que, segundo Juveninho, só emagrecem seus espíritos, elas hoje, cada vez mais cedo, colocam saltos, batons, cigarros, peitos e drogas na mesma sacola de supermercado, e saem cantando alegremente: “Rah, rah, ah, ah, ah/ Roma, roma, ma/ Gaga, ooh la la/ Want your bad romance”. Ufa, diz Juveninho. Estranho seria se ainda quisessem um “good romance”.

Os amigos, por incrível que pareça, compreendem a tragicomédia juveniniana. Não o chamam de preconceituoso, nem rancoroso, nem arrogante. Acham, ao contrário, que Juveninho tem tudo para encontrar a morena transcendental nos blocos ou festinhas pop da cidade. Das duas, uma (ou duas): ela estará linda e radiante, nos braços de um maridão de dois neurônios; ou tão completa e graciosa quanto só a distância pode assegurar. Dizem que o destino de Juveninho é a paixão mortal pela mulher do próximo (do próximo homem, do próximo país ou do próximo planeta), ou a paixão pedófila pelas fãs da Lady Gaga. Mas que a tribo de Juveninho tende a ser a dos titios, que vão descendo de geração em geração até levarem toco das filhas dos amigos. E eles já deixaram claro: nenhum quer Juveninho como genro.

Juveninho ignora. Não discute sobre Carlotas e Lolitas com quem não leu Goethe nem Nabokov. Sabe, porém, que jamais se mataria por uma Carlota alheia, se, como o jovem Werther, encontrasse uma Mademoiselle de B... pelo caminho. Que, no fundo, Juveninho deseja apenas uma “amável pessoa, que, não obstante as formalidades e o ar empavesado daqueles com quem vive, conserva muita ingenuidade”. (Ok, ele admite: tem de ser gostosa). Muito antes de ler Schopenhauer, Juveninho já descobrira no livro do mundo que “a ingenuidade atrai, enquanto a artificialidade causa repulsa”. Mais vale uma morena de alma aberta ao aprendizado, ele diz, do que outra irremediavelmente viciada nas condutas e opiniões de sua tribo. Em outras palavras, também de Juveninho: antes as canárias que as pavoas.

Transitar em diversos meios, lugares, épocas (e morenas), absorvendo o melhor de cada, sempre foi a filosofia de Juveninho. E, enquanto as morenas do Brasil tiverem o sincero e provinciano desejo de se tornar um estereótipo, dizem as boas línguas que Juveninho continuará free-lancer.


Juveninho e a geração facebook
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 27 de Janeiro de 2011, às 19:52



- Posso só saber seu nome?

- Não!

Quanto mais assiste a cenas assim (ou vivencia, segundo os amigos), menos Juveninho tem a dizer sobre as moças do seu tempo. E por quê? Ora, ele diz, porque já disse! Sempre teve horror, Juveninho, a esses escritores preguiçosos que dizem já ter escrito sobre todas as coisas só para não ter de escrever de novo. Mas agora cansou. Além de distribuir o cartão de sua terapeuta e de seu personal, também entrega às moças o cartão de seu Blog:

“Aqui você vai descobrir a diferença entre menininhas e mulheres. Obrigado.”

Machado de Assis dizia que nada seria sem as suas repetições. A meta de Juveninho, há 8 meses sem repetir-se, é tornar-se um nada. Seu maior obstáculo? O facebook. Como aguentar calado os mesmos status de sempre? Não, Juveninho não vai comentar sobre as moças que, como se estivessem no cabeleireiro, anunciam para quais galãs tirariam a roupa num piscar de olhos. Nem sobre a incapacidade geral de fazer uma piada sem emendar um “haeuhaeuhaeu”. Muito menos sobre as musas inacessíveis, com 340 fotos em paisagens deslumbrantes e seu eterno medo de interagir com a humanidade. “Não!”, ele diz, imitando as mesmas.

O difícil, para Juveninho, é ignorar tantos “bjinhus” e “beijãããooooos”, tanto “te adorooooo, amigaaaaa” e “tá lindaaaa!”, tanta “saudagiii”, “xodade” e “quissáaa” (de “que saudade!”). É tanto amor, tanta união, tanto ursinho de pelúcia, que Juveninho quase se emociona e pede uma vaga no bercinho. Até as moças de 30, que, ao contrário das de 23, cresceram num mundo virtual que ainda sabia rir sem “u” nem “e”, já incorporaram os trejeitos das gerações seguintes, com aquele desejo invertido de macaquear e perpetuar a infância, o qual Juveninho chama carinhosamente de “medo de homem”. A maturidade, como tudo mais, também é reflexo da linguagem, de modo que, segundo Juveninho, quem não sabe mandar simplesmente um “beijo” (ou, vá lá, um “bj”, ou “bjs”) ainda não sabe beijar de verdade.

O cordão umbilical entre miguxos e miguxas, ele diz, está cada vez mais difícil de cortar. Agora estão todos juntos e portáteis 24 horas por dia, cobrando uns dos outros, a cada status, uma prova de carinho capaz de consolar o seu vazio interior e legitimar a sua existência. Para Juveninho, quando Henry Miller descreveu seu amigo Van Norden, em “Trópico de Câncer”, ele antecipava toda a geração facebook: “Não fica sozinho um segundo. Mesmo quando consegue pegar uma mulher, tem muito medo de ficar só com ela. Se pudesse, faria eu ficar sentado no quarto, enquanto ele entra em ação. Seria como pedir para eu esperar enquanto faz a barba”. Juveninho já avisou aos amigos: não vai esperar ninguém fazer a barba.

Quando leu que metade dos americanos entre 18 e 34 anos checa o facebook ao acordar, Juveninho ficou extremamente motivado a conhecer a outra metade. O problema é ter de ir até os Estados Unidos para isso, posto que Juveninho, como Joaquim Nabuco, chegou numa fase em que prefere viajar pela profundidade dos livros a viajar de fato. Viajar, ele diz, é coisa tão adolescente quanto é hoje o cinema: um banho estritamente visual que, depois de umas tantas doses, já não pode surpreender senão pela chatice. Os álbuns do facebook, segundo Juveninho, são a prova de que se pode viajar pelo mundo inteiro e continuar o mesmo bocó.

Os amigos não curtiram isso. Desconfiam da razão para a quebra do silêncio juveniniano. Há quem diga que sua musa inacessível “está em um relacionamento sério”, e Juveninho não consegue abrir o facebook sem dar um soco na página inicial. Há quem diga que, ao fim de cada evento da cidade, os cartões da terapeuta, do personal e do Blog ficam espalhados pelo chão junto com os panfletos de música eletrônica, e Juveninho só não vai aos EUA ver se existem morenas bonitas e inteligentes ao mesmo tempo porque seu passaporte e seu visto estão vencidos. Há quem diga que o YouTube vai transmitir ao vivo o carnaval de Salvador, e Juveninho já está inibido de pegar uns trocinhos no bloco da Ivete. Porque, segundo os amigos, só os trocinhos aceitam dizer o nome para Juveninho, e ele não aguenta mais ouvir “Não!” nesse verão.

Juveninho, como de hábito, ignora. Sabe que, no Brasil, as verdades só se justificam quando se encontra uma razão psicológica profunda para sua expressão. Em todo caso, enviou aos amigos sua versão moderna de “Eu sei que vou te amar”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, o que, para eles, nada mais significou senão a prova concreta de seu eterno amor virtual. Alguns chegaram a responder “Te adorooooo, amigooooo!” e “Você é lindoooo!”, na tentativa de consolá-lo. Que se danem. Crescer, diz Juveninho, não é mesmo pra qualquer um.

*****

Eu sei que vou curtir
Música original: “Eu sei que vou te amar” (Tom Jobim/ Vinícius de Moraes)
Adaptação livre: Juveninho

Eu sei que vou curtir
Todo o teu feicebúqui eu vou curtir
E cada foto tua eu vou curtir
Desesperadamente, eu sei que vou curtir
E cada status meu será
Pra te dizer que eu sei que vou curtir
Por todo o feicebúqui...

Eu sei que vou chorar
A cada offline teu eu vou chorar
Mas cada online teu há de apagar
O que este offline teu já me causou...
Eu sei que vou escrever... pra caixa de mensagens, podes crer
À espera de sair no álbum teu
Por todo o feicebúuuu...qui...



Juveninho e o e-mail ignorado
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 27 de Maio de 2010, às 12:52



Os três maiores horrores de Juveninho são: o inacessível, o impossível e a impotência. Quando os três “is” se juntam, das duas, uma (ou duas): ou Juveninho bate a cabeça na parede; ou Juveninho deixa o sangue escorrer em prosa. Eis a sua arte, nascida em pleno seio (moreno) da batalha emocional. Se as criações da pesquisa militar – como leite condensado, microcomputador, celular e internet – viraram a base da vida diária no mundo; tem esperanças, Juveninho, de que suas criações em guerra amorosa também melhorem - em tempos de paz - a vida íntima de alguém. Há quem já agradeça pelo Leite Condensado Juveninho.

Os amigos se lambuzam. As amigas raspam o pote. Um simples e-mail não respondido pela morena ideal pode lhes render uma apostila completa de como responder e-mails. Quanto mais ignorado é Juveninho, mais intelectualmente nutridos ficam os amigos. A torcida é para que Juveninho permaneça num eterno fracasso existencial, alternando momentos de ilusão apaixonada, raiva incontida e desabafo literário. Juveninho ignora. Acha que, com ou sem ele, os amigos vão fazer tudo errado do mesmo jeito. Sua única esperança é que os filhos (dele e dos amigos) aprendam um dia com seu legado - e digam: “Pô, pai, Tio Juveninho era o cara!”.

No momento, ‘o cara’ não se conforma. Se a eternidade é o offline da musa, enquanto não tem o telefone dela; a desumanidade é o silêncio da musa, após seu convite pra tomar um sorvete. Que peso tem um sorvete? 250 gramas de maturidade? 300 gramas de humor? Parece-lhe natural que a internet, à medida que embaça a fronteira entre o acessível e o inacessível, seja o meio por excelência de paixões descabidas e desencontros marcados; e, fosse ele um fã de fotografia, um crítico de comunidade, um colecionador de perfil, ou um comentarista de status, até respeitaria o silêncio como um saudável “tenho-mais-o-que-fazer”. Sim, Juveninho é quase tudo isso; mas também é Juveninho, e conheceu a musa ao vivo. Isso não conta?

Há, evidentemente, um milhão de motivos para não se responder a um e-mail – ainda que já se tenha trocado uma porção. Após uma semana, Juveninho pôs-se no lugar dela e enumerou uns 30. Trinta possíveis respostas tardias da musa. Coração grande, avesso ao rancor e aberto ao perdão, Juveninho incluiu várias opções redentoras – cuja eventual veracidade o faria contente. Só excluiu o item “Não tinha visto a mensagem, mas te amo!”, embora fosse o seu preferido. Como em todo caso quem se dará mal mesmo é Juveninho, os amigos insistem que ele mande a lista, pedindo que ela marque a opção correta. Juveninho resiste. A resistência é a mais trabalhosa de suas obras. Milênios de sabedoria, ele diz, separam um ‘save’ de um ‘send’.

Sua parte, a seu ver, já está feita – pelo menos, a virtual. Não é um silêncio entalado no peito que fará Juveninho ignorar o impossível, extrapolando os limites da elegância. Seja lá o que a musa tenha entendido de suas atitudes, agora é a vez dela de tomar alguma. O silêncio dói, é verdade. Perto dele, dá quase saudade do poder libertador de um ‘não’. Mas tampouco viverá, Juveninho, como o viúvo voluntário de um amor sequer iniciado. Viverá, sim, como um viúvo tarado, dizem os amigos, divertindo-se com as moças certas (pelos sambas da vida) enquanto espera pela errada (conferindo o e-mail no celular). Juveninho desmente. Quanto mais maduro fica, mais exigente se torna, e mais intolerável lhe parece quem não sabe andar e sorrir.

Talvez seja esta a maior dor de sua impotência ante a morena impossível e inacessível. Saber que, doravante, e mesmo num silêncio ausente, ela estará sempre presente em sua vida como parâmetro. Um parâmetro à luz do qual todo recomeço soa como um eterno zigue-zague entre insustentáveis concessões. Um parâmetro brejeiro, feminino e lindo; difícil de ser sobrepujado. Não sabe, Tio Juveninho, por que afinal ela não respondeu ao e-mail do sorvete. Muito menos se – ou o que – ela responderia caso ele perguntasse isso. Mas distribuiu o ‘Quiz Juveninho’ aos amigos (”Este é meu sangue. Tomai e bebei!”), desejando bom proveito a seus filhos e netos.

O leite condensado está entregue. A múltipla-escolha está no ar. Se estamos todos falando com o vento neste mundo digital, ele diz, é possível que, um dia, o vento marque uma resposta.

QUIZ JUVENINHO

( ) E-mail? Que e-mail? Não recebi nada, Juveninho!
( ) Opa. Desculpe a demora. Eu precisava resolver algumas coisas na minha vida antes de tomar esse sorvete. Acho que agora já podemos. Vamos?
( ) Não posso. Tô em outra. Sei que é só um sorvete, mas, sei lá, não acho que eu deva.
( ) Juveninho, eu tenho medo de homem. Sou meio teen ainda. Pra mim, um sorvete é como um convite pro motel. Eu saio correndo, sem nem querer olhar pra trás, entende?
( ) Olá. Só estou lendo esses e-mails muito tempo depois. Tive um problemão naqueles dias; te conto na sorveteria. O convite é meu, dessa vez. Você ainda quer?
( ) Não quero, Juveninho. E não te devo explicações. Prefiro que não me mande mais mensagens.
( ) Desculpe, Juveninho. Eu mal conheço você e não me sentiria à vontade. Vamos ver mais pra frente.
( ) Não me leve a mal, mas há muitos psicopatas por aí. Uma vez, fui tomar sorvete com um cara, e ele botou a mão dentro da calça e… Ali mesmo, na minha frente… Mó trauma! Deixa eu me informar melhor sobre você.
( ) Iupiiii! Há quanto tempo não sou chamada prum sorvete! Só vi agora. Onde eu assino?
( ) Olha, eu não sei o que responder. Nunca sei o que dizer nessas situações. Ando um pouco confusa.
( ) Eu me acho - e acho que todos querem me namorar, por isso não saí com você. Tenho certeza de que você ia querer grudar em mim feito chiclete, e eu estou numa de ficar solteira.
( ) Ah, cara, eu até pensei em responder, mas minhas amigas falaram que eu não podia ser assim tão fácil, que eu tinha que fazer um doce. “Mal conhece o cara, e já vai tomar sorvete!?” Sabe como é: cedi.
( ) Pra ser sincera, eu não sinto muita firmeza em você – e ando cansada dessa ambivalência masculina: gente que vem-mas-não-vem; que está-dentro-mas-pode-não-ser-exatamente-assim. Eu não sou pesquisa de opinião, não tô aqui pra ser ‘sondada’. Preciso de um homem que me pegue pelo braço, e diga: “Vem cá: eu quero você, mulher! Não tem nenhuma outra que eu queira nesse mundo. Procurei você a vida inteira. O que mais vou precisar fazer, hein?”. E não vale falar isso da boca pra fora. Eu vou perceber.
( ) Ué, Juveninho… Você acha que é assim? Não, senhor! Eu sou difícil. Eu acho o máximo ser difícil. Se o homem me quer de verdade, ele tem que me convidar 30 vezes prum sorvete, ouviu? Trinta! (Pra jantar, são 80).
( ) Claro, Juveninho! Por que não? Não pude esses dias, mas vamos sim, que tal sábado?
( ) Não tenho vontade, Juveninho. De minha parte, fica o carinho por você. Mas busco outra coisa pra mim.
( ) Não respondi, porque não quero agora, mas também não quero perder você. Não quis dizer ‘não’, com medo de você partir pra outra. Quero que você continue apaixonado, mostrando seu encanto esporadicamente, assim posso ter sempre essa opção a meu dispor.
( ) Caramba, achei que você tinha entendido o ‘recado’… Não estou interessada em te conhecer, cara! Se toca!
( ) Preciso te contar uma coisa, Juveninho. Eu sou gay.
( ) Fui bobinha mesmo. Que mal tem um sorvete, né? (Além de algumas calorias…) Vamos combinar sim. (Qualquer coisa, eu tomo um diet…) Me manda um e-mail semana que vem.
( ) Bom, Juveninho: eu não quis te dar esperança. Nem quis ser muito simpática, que é pra ver se você me odeia, e me esquece. A minha forma de ser boazinha é essa. Sendo estúpida.
( ) Não fui, porque ainda não esqueci meu ex-namorado. Preciso de tempo.
( ) Eu acho que você é maduro. Que quer conversar. Que tem um carinho enorme por mim. Acho que a vida é feita desses momentos, dessas pessoas que, de repente, se reconhecem na gente - e isso é bonito; é o que torna tudo mais leve e, ao mesmo tempo, mais profundo. É isso mesmo? Me ajuda, porque eu não tenho certeza.
( ) Eu sou insegura. Notei que você gostou de mim de verdade. Que é um homem que sabe o que quer. Mas tenho medo de te decepcionar; de não ser tudo isso que você imaginou.
( ) Achei esta múltipla-escolha uma tremenda babaquice! Eu sei fazer a minha parte sozinha! Seu mané!
( ) Por motivos pessoais, eu não tinha respondido o outro e-mail. Eu ia responder que sim agora, mas depois desta sua mensagem – Jesus! -, um abraço, cara!
( ) Hahahaha! Você é hilário, Juveninho! Tô rindo muito aqui dessas opções malucas. Pelo visto, você realmente não me conhece, né! Vamos resolver isso. Eu estava ocupada, mas é claro que posso tomar um sorvete, seu bocó. Me liga mais tarde pro celular. O número segue aí embaixo, na assinatura.
( ) Não vou responder este e-mail. Nem mesmo marcar esta opção! Vou continuar aqui em silêncio. Eu me sinto bem calada.
( ) Você é só mais um, Juveninho! Não distingo você dos outros. Tenho muitos assim. E vocês me cansam!
( ) Não sei se você lembra de mim, Juveninho. Há 8 anos, você me convidou prum sorvete, e depois mandou essas opções. Nunca mais nos falamos. Agora eu te vi na TV, soube do seu livro… Ainda não li, mas parabéns! Anote aí meu novo e-mail.
( ) Nenhuma das opções anteriores. A verdade é que:
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Juveninho e Ela
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Segunda-Feira, 17 de Maio de 2010, às 14:29



Vou casar com ela. É o que diz Juveninho. Com a literatura? Não. Com a bola? Não. Com a cuíca? Também não. Com ela. Uma mulher? Sim. “A” mulher. “A” morena. Com nome, sobrenome e bunda grande. Os amigos dizem que Juveninho sempre diz isso - mas dessa vez é sério. Os amigos dizem que Juveninho sempre diz que dessa vez é sério - mas dessa vez é de verdade. Os amigos dizem que… Bom, os amigos não sabem de nada, diz Juveninho. A melhor forma de emburrecer é seguir o conselho dos seus amigos.

Mas quantos ex-namorados-eternos ela tem? Um, responde Juveninho com o indicador. Ah, então ela é mais nova… Bom, alguma coisa os amigos sabem. É a convivência virtual, ele diz. Se as moças convivessem indiretamente com Juveninho, também saberiam de alguma coisa. Para isso Juveninho escreve. Para que as moças se preparem pra ele. Que muitas acabem se preparando para outros homens (ingratos, segundo Juveninho), é o efeito colateral inevitável da escrita. Paciência. A Juveninho só interessa uma. Não “qualquer uma, que pelo menos dure enquanto é carnaval”. Ela. Por todos os carnavais.

A tarefa de Juveninho não é fácil. Há moças deslumbrantes, ele diz, que, crescendo sob o assédio de trogloditas, preservam-se ao máximo para não se deixar envenenar por qualquer um. E, quando à desconfiança soma-se um namoro mal convalescido, só mesmo um Juveninho para furar o bloqueio. A receita (sem garantias, ele antecipa) é o cortejo contínuo em doses homeopáticas, com a perseverança gentil do homem que sabe o que quer e ali permanece, obstinado e sorrateiro, criando raízes na alma da moça, enquanto os demais - revelando suas facetas a cada estação - vão caindo um a um, como folhas ao vento.

Pode levar anos. Nunca acontecer. Que importa? Quando o homem vislumbra seu ideal, tem por obrigação criar as condições para que este se realize – principalmente se o ideal tem a pele morena, e sabe andar e sorrir. Ah, suspira Juveninho, quanta coisa se diz num passo cadente e num sorriso envergonhado! Nas festinhas pop da cidade, sua vontade é pegar o microfone e ensinar: “Você. É, você aí de salto maior que a perna, e cintura nos seios, com o umbigo saindo pelo pescoço. Você se vestiu para uma foto ou para uma festa, querida? Acha mesmo que sua suposta beleza estática se mantém inabalável com este passo troncho? Francamente!”.

Para Juveninho, o ex-namorado-eterno é uma espécie de cinto de seio, pelo qual a moça cabeça-dura cria um apego tão grande que já não quer saber se (quanto mais por que) não lhe cai bem. É tanto amor, tanta saudade, tanto envolvimento que os motivos práticos da “separação” permanecem ocultos, inominados, ausentes da consciência; mas absolutamente ativos, e tanto mais desconcertantes quanto mais invisíveis, do jeito que o diabo gosta. Alheia à educação sentimental, ela segue apertando o cinto e se prendendo toda, até desaprender a andar. O ódio ao conhecimento, segundo Juveninho, tem este efeito tragicômico na vida amorosa: cria um monte de viúvas precoces, voluntárias e (não raro) taradas.

Chega uma hora na vida da gente (e Juveninho não sabe como seria “uma hora na morte da gente”) que as coisas vão ficando fáceis por um lado (o da pegação, da sacanagem, do suingue) e bem difíceis por outro (o do amor, do romance, da disponibilidade). Todo mundo já tem passado (presente…) demais. Juveninho tem o dele – não nega. Morre de saudade de cada ex-namorada e peguete. Até daquela que o roubou. Até daquelas que passaram direto no dia seguinte. Até daquelas que (por um ex-namorado, ex-noivo, ou ex-marido) sumiram assim, ó: puf! E, no entanto, poderia (e vai!) escrever mil romances sobre as impossibilidades (sexuais, inclusive) de cada relação. Juveninho não tem a menor dúvida de que morrerá assassinado.

Até lá, cortejará real e virtualmente sua idealíssima morena. Não sabe, Juveninho, quanto tempo ela vai demorar para terminar o namoro que já terminou, mas – não podendo nem querendo intervir direta e terapeuticamente no luto - só lhe resta acompanhar o processo à meia distância, mostrando que está ali. No fundo, torcendo para que alguma migalha de consciência lhe desperte a sede de libertar-se, em vez de render-se ao clã das viúvas taradas, que pulam de galho em galho pela noite, sob o compromisso único de jamais comprometer-se com ninguém a não ser o defunto vivo dum amor impossível que já passou. E como embarangam!, ele alerta, preocupado.

Os amigos, pela primeira vez, dizem que Juveninho está no caminho certo. Que ele tem tudo para conquistar sua morena aos 95 anos, com direito à valsinha dos bisnetos. Que nenhuma de suas colegas de quarto saberá andar e sorrir postiçamente como ela. Que eles estarão todos presentes à cerimônia, finalmente acompanhados de viúvas taradas autênticas, usando autênticos cintos de seio. Que a noite de núpcias promete. Que eles invejarão Juveninho pela única esposa realmente disponível, livre para um futuro promissor. Que ela, porém, chorará o assassinato de Juveninho até ler seus romances e abrir a tumba para lhe dar mais seis tiros.

Juveninho, pela primeira vez, não ignora. Sabe que - perto das histórias, dos problemas e dos desejos das moças - as capacidades do homem são sempre limitadas. Por mais que seja sério. Por mais que seja de verdade. Por mais que seja Juveninho. Mas, se o destino de sua geração é a micareta no asilo, nada como contrariá-la num casamento geriátrico. O rascunho do próximo e-mail está pronto. A fantasia de Velha Guarda, costurada. O romance da morena ideal, iniciado. Nada é impossível até agora – e, no que depender dele, jamais será. No amor eterno de Juveninho, a literatura, a bola e a cuíca só aguardam por Ela.



Juveninho Quintana e a busca da intimidade
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Segunda-Feira, 19 de Abril de 2010, às 14:15



A melhor forma de saber quais peguetes seguem disponíveis é mandar um e-mail coletivo dizendo que você perdeu o celular e precisa dos contatos. Quem diz isso? Juveninho, claro. As primeiras a responder, ele ensina, são as mais ouriçadas. As segundas: não queriam parecer tanto. As terceiras: relutaram até o fim. E quem não respondeu, azar. [Em caso de silêncio geral, diz Juveninho, não pule pela janela]. Reza a lenda que Juveninho já “perdeu” o celular três vezes só este ano. Que ele passa dias e noites roubando e-mails na internet para aumentar sua lista. Que ele já conseguiu pegar de volta o telefone duma porção de gente morena que jamais constou em sua agenda. Que seu próximo passo é perder o celular no Twitter: “Queridas followers, roubaram meu iPhone. Mandem de novo seus telefones. Obrigado”.

Tudo seria maravilhoso (e é, diz Juveninho), não houvesse uma grande diferença entre disponibilidade de peguete e disponibilidade real. Os amigos que se iludiram com os números e acabaram de coração partido, é porque não ouviram Juveninho até o fim. A disponibilidade real, ele diz, é um dos maiores mistérios do nosso tempo – e testá-la, um dos esportes favoritos de Juveninho. Na vida adulta como na internet, há quem coloque “ocupado” quando está “disponível”; “disponível” quando está “ausente”; “invisível” quando está “em todas, pegando geral, no meio da pista”; e “num relacionamento sério” quando está “na cama com Juveninho”. Você pode sair, beijar, transar, namorar, noivar e até casar com alguém, cujo verdadeiro status, no fundo, era “indisponível”: o vulgo “só estava curtindo umas férias”.

Nada mais difícil hoje que encontrar uma morena Ficha Limpa, ele diz. Elas vêm sempre com uma porção de ex, e a gente nunca sabe em que instância se encontra o processo. O enredo clássico, segundo Juveninho, é o da mocinha que deixa um rastro de aventuras pela noite, para depois voltar ao ex-namorado, com quem passará a vida brigando em função dos peguetes que teve naquele doce intervalo de alguns verões. Juveninho, segundo os amigos, já fez o papel de peguete. Já saiu, beijou, transou, namorou, e só não casou (ainda), com mocinhas “em férias prolongadas” assim. Umas passaram direto por ele no dia seguinte. Outras – as que transaram, parece - enrolaram mais um pouco. Algumas juraram amor eterno. Mas Juveninho desenvolveu tantos índices de aferição (mensagens espontâneas, foot massage, planos de viagem, prioridade sobre miguxas, iniciativa sexual, pílula em dia) que, ao menor sinal de frieza ou displicência, ele mesmo avisa: você não está interessada.

É de opinião, Juveninho, que quanto mais as moças revelam o perfil, o estado civil, o que estão fazendo e quem estão amando agora, menos elas sabem sobre si – e mais perigosas elas se tornam. Juveninho adora um perigo. Quando as adolescentes passaram a mostrar na tal “pulseira do sexo” qual fruta da salada mista elas desejam, Juveninho pensou: que saudade da adolescência! Nunca foi tão radical e deliciosa aquela sucessão de frustrações em busca de um grande amor. A pulseira do sexo, ele diz, é o orkut de pulso. É como se sua geração tivesse inventado o limpador de pára-brisa, e só a seguinte o tivesse colocado pro lado de fora. [Não dá mesmo, segundo Juveninho, pra contar com sua geração pra nada. Nem pra comprar seus livros.] Fosse adolescente hoje, porém, Juveninho está certo de que as mocinhas o fariam de gato e sapato (principalmente gato). Se adultas, elas não têm a menor idéia do que querem, teens elas são as próprias Coringas tacando fogo no mundo, de rostinho pintado.

Juveninho adora brincar com fogo, mas não é o Batman. Ele sempre preferiu o Super-Homem e a visão de raio-X. Toda sua educação intelectual e sentimental teve dois objetivos básicos, nos quais ele jamais deixou de investir tempo e dinheiro. O primeiro é justamente enxergar as coisas e as moças como elas são. Agora que a ciência é toda fraudada para uso político, e as idéias falsas e paralisantes encontraram meios virtuais de se disseminarem universal e imediatamente, enxergar as verdades mais simples do mundo requer uma vontade e uma coragem super-heróicas. Da mesma forma – e, por conseguinte -, enxergar as moças por trás de sua própria maquiagem verbal e facial requer praticamente um Juveninho. Nenhum status declarado – seja de messenger, de “about me”, de pulso ou de dedo (ele garante) – é confiável, a não ser o status quo. Quanto mais os discursos se afastam das essências, ele diz, mais difícil se torna reconhecer verdades e morenas.

O segundo objetivo de sua educação é saber o preço de seus desejos. Em outras palavras – as de Juveninho -, o quanto ele precisa crescer – em todos os sentidos - para que a morena de bruços na praia, lendo um livro (no intervalo da altinha), lhe peça um autógrafo na capa. A maioria das pessoas faz o contrário. Quer que os desejos alheios paguem o preço de se mutilarem por elas. Juveninho cresceu vendo uma porção de amigos e namoradas repetindo a célebre frase do cabeça-dura limitado e da suposta última mulher do mundo (prestes a embarangar): “Tem que gostar de mim como eu sou”. Uma ova! Desejos, ensina Juveninho, não “têm que” gostar de bulhufas. Eles não obedecem nem os donos, quanto mais seus parceiros. Ou existe um cuidado em manter aceso o desejo do outro, ele professa, ou é melhor procurar um “outro” menos exigente (o que quase sempre significa menos bonito, menos inteligente, menos interessante - enfim: menos Juveninho). Não se prende elefante em gaiola, dizia o passarinho. Juveninho – ele admite – já foi gaiola de muita elefanta, até que resolveu virar um Safári.

Se o amor já é trabalhoso para quem está disponível, Juveninho identifica logo quem não está. Senão para pular fora, dizem, ao menos para saber o quanto pular dentro. Reza a lenda que sua visão de raio-X anda mais calibrada que a do Super-Homem. Que a cada celular “perdido”, Juveninho descobre o verdadeiro status do país inteiro. Que, pelo número de exclamações no e-mail da moça, ele diz o nome e o endereço do ex-namorado. Que, pelo tempo de resposta, ele diz de quantos namoros elas estão dando um tempo. Que ninguém melhor do que Juveninho enxerga qual fruta da salada mista está escrita numa “aliança do sexo”. Que o Batman só precisa dum holofote para socorrer as morenas, porque não tem o talento de Juveninho. Que, sem disposição e disponibilidade, nenhuma delas vai visitar o seu Safári e sentar no teleférico. (No máximo, ele diz, vai sentar no pedalinho). Para Juveninho, afinal, nada dá mais saudade que a intimidade. E esta só é possível – em todos os sentidos - quando ele pode entrar na relação de cabeça.

Ninguém sabe ainda qual é o verdadeiro status de Juveninho – por mais que ele esteja sempre “em horário de almoço”. Às morenas, contudo, ele avisa que seu discurso e sua essência jogam até uma altinha. E às indisponíveis, sem rancor nem sede de vingança, ele apenas deixa no Twitter sua carinhosa versão do “Poeminha do contra”, de Mario Quintana: “Todos estes que aí estão/ Atravancando o meu caminho,/ Eles passarão./ Eu Juveninho!”.



Juveninho N’ Roses
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 6 de Abril de 2010, às 22:48



O trânsito é a MTV de Juveninho. Quando há um engarrafamento na cidade, ele pergunta: “De quem é o show hoje?”. Os amigos gritam: “Lenny Kravitz!”, “Beyoncée!”, “Coldplay!”, “Cirque du Soleil!”, “Botafogo!”. Da maioria, Juveninho nunca ouviu falar. Até outro dia, ele achava que as moças usavam Beyoncée Secret, e que Coldplay era um concorrente do Cirque du Soleil. Agora já sabe que Beyoncée é a concorrente do Cirque du Soleil, e que as moças ainda não usam o Juveninho Secret. Quanto ao Coldplay, da canção God Put A Smile Upon Your Face, Juveninho só tem uma dúvida: onde mais Deus colocaria o ‘smile’? Upon your bumbum?

A música pop, ele diz, provoca antes de tudo o engarrafamento mental. Juveninho não pode ver uma morena cantando Patience que quer logo tocar sua buzina. Dos tempos em que a MTV de Juveninho era uma emissora, a única coisa que ficou, de fato, foram os Guns N’ Roses. Ficou longe. Bem longe. Até o último domingo, Juveninho nunca mais ouvira falar deles a não ser quando revia O Exterminador do Futuro 2, e cantava You could be mine, de cueca, no ouvido de alguma morena. Ele estava em casa, vestindo a mesma, quando um amigo ligou: “Tenho um ingresso para a sua adolescência”. Ok, pensou Juveninho, vou dar uma passadinha.

Foi uma passadinha de 7 horas, com capa de chuva a 5 reais; Sebastian Bach falando fuck you para o céu; mais 2 horas e meia de espera depois do show de abertura com a platéia em coro xingando a mãe de Axl Rose; sem qualquer comida à venda a partir das 23 horas, o que teria feito Juveninho ir embora não fossem as 4 barrinhas de cereal que trazia no bolso; e outros detalhes, segundo ele, absolutamente irrelevantes depois de um carnaval em Salvador; até o show principal finalmente começar à 1:10, e Juveninho procurar alguma razão - uma grande descoberta filosófica! - que fizesse jus ao seu testemunho do seqüestro da Apoteose. Sempre se pode aprender alguma coisa num show de rock, ele se dizia… Mas o quê?

Que dos 30 mil presentes, 29.900 não saberiam responder do que se trata qualquer música do Guns, Juveninho já sabia. Que dos 100 restantes, 90 responderiam “Paciência!”, “Chuva!”, “Selva!” e mais uma ou duas palavras que compõem os títulos, também. Que dos outros 10, 7 eram americanos que moram no Rio, mais ainda!, porque 4 eram morenas. O jeito, então, foi usar o método básico: onde a multidão vê um defeito, deve haver uma grande virtude. E, se o defeito era o atraso de Axl, Juveninho estava certo de que o atraso continha, de algum modo, a resposta para o maior enigma intelectual de sua carreira depois do talher de peixe. O que depreender, afinal, de um show de rock? Elementar, diria Juveninho: o desprezo pelo público.

Na abertura, além de xingar S. Pedro, Sebastian Bach leu uma porção de frases em português; vestiu camisa do Brasil; pegou e esticou cartazes; pediu “mãozinhas pra cima”; mandou repetir gritinhos de “ai-ai-ai”, “ei-ei-ei”, “ou-ou-ou”; exaltou até dar vergonha alheia o grupo principal, puxando o coro de “Guns!”, “And!”, “Roses!” com soquinhos no ar; e detonou, segundo Juveninho, seu repertório axé de conquistar a simpatia da “galera maravilhosa” através da bajulação coletiva. Se Axl Rose, por outro lado, falou uma vez um “Come on, Rio!” foi muito, o que deixou Juveninho quase orgulhoso da sua adolescência in the jungle. No homem comum, ele diz, a necessidade afetada de parecer gente boa já sinaliza a falta de atributos. No artista, se não é prova duma obra sem vigor, é desejo de aparecer mais do que ela.

Juveninho já pode imaginar Axl, antes de subir ao palco, perguntando a um subordinado: “Já estão me chamando de filho da puta? Ótimo. Daqui a pouco, eu entro”. E então ele entra, como se, senhor do próprio carisma, desse três gols de vantagem ao adversário. It’s so easy (easy)… Corre de um lado a outro; deixa-se ver por cada setor; canta e dança dum jeito próprio; toca piano; assovia; domina graves e agudos; e, se sai de cena para descansar a garganta velha, deixando aos músicos um número instrumental, o faz com a mesma indiferença, sem avisar bulhufas na ida ou na volta, para encanto de Juveninho. Um povo carente, ele diz, corrompido por mãos que o afagam, sempre verá o talento como arrogância, o inalcançável como presunçoso, o irresistível como abominável, abrindo-se aos medíocres enquanto trava uma eterna luta solitária de amor e ódio contra quem mais admira.

Para Juveninho, o artista que precisa ficar amiguinho de seu público já renunciou à arte. Juveninho não gosta de se citar como exemplo, mas reza a lenda que ele jamais virou miguxo duma morena. Por analogia, acha que Axl Rose também merece as mocinhas siliconadas e maquiadas que se enfileiram lá na frente para descobrir o tamanho de seu carisma. Está pensando até em fundar a Escola Rose de ‘Fazer O Seu e Que Se Dane’ (já conhecida como a “ERFOS e Que Se Dane”), para a qual convidará – como alunos, claro – cantores baianos, roqueiros, sertanejos, lapianos, sambistas, blogueiros, tuiteiros, pais de família, colunistas, professores universitários e demais meninos carentes do Criança Esperança mental brasileiro. O cordão dos puxa-sacos, ele diz, cada vez tem mais artista. Se Wilson Simonal, precursor nacional da “mãozinha pra cima”, fosse vivo, Juveninho também chamava. O rock nunca foi tão educativo.

Às 3:20 de segunda-feira, acabou o show do Guns N’ Roses, e até agora ninguém sabe o que colocaram na água da Apoteose. Os amigos estão perplexos. Querem a companhia de Juveninho em todos os próximos engarrafamentos da cidade. Há quem lhe garanta ingresso para três Lenny Kravitz. Há quem lhe garanta cinco Beyoncée. Há quem sete Coldplay. Há quem Soleil. E há Botafogo; sem trânsito nem nada. Alguns suspeitam, porém, que ele bajula Axl Rose, porque sonha com a rebarba morena duma turnê internacional. Que Juveninho se apaixonou por uma roqueira da Pista Premium, e agora quer levá-la para a “heaven’s door” fingindo gostar “do Guns”. Que Juveninho jamais falaria “o Guns” se não quisesse que uma morena dark falasse “o Zeca”. Juveninho não dá a mínima. Sabe que os amigos reduzem todo conhecimento humano a gostos e paixões. Que nunca vão tirar da adolescência mais que um “sorriso no rosto”. Que jamais aprenderão a transitar em meios diversos e roubar o melhor de cada um. Que se danem.

Juveninho N’ Roses garante: sábio de quem não precisa ficar amiguinho nem de seus próprios amigos.



O segredo dos olhos de Juveninho
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 24 de Marco de 2010, às 21:00

Não tem para Bill Gates, Gordon Moore, Warren Buffett. Em matéria de filantropia, Juveninho é o maior. Doou seus pensamentos ao Twitter. As morenas do mundo inteiro gritam: “Finalmente!”. As loiras: “Já era tempo!”. As ruivas: “É meu! É meu!”. Agora (mentira, há anos), Juveninho passa dia e noite estudando a alma feminina na internet. O Twitter, ele diz, é como o filme Do que as mulheres gostam. Você pode ouvir tudo que elas pensam; até querer sair correndo.

Depois de assistir duas vezes ao vencedor argentino do Oscar O segredo dos seus olhos, Juveninho está seguro de que as paixões não mudam. É possível encontrar um assassino seguindo apenas seu gosto e os lugares onde se curte aquilo. Da mesma forma – ele sempre soube -, é possível encontrar ex-namoradas. Para precaver-se, Juveninho mapeia a cidade pelo gosto de cada uma. Vai abrir o curso Como fazer sua Planta Baixa de Amores e Peguetes. A dele, pendurada no quarto, inclui até os ambientes virtuais e – claro – as fãs. Se algo acontecer com Juveninho, os amigos já sabem: as maiores suspeitas estarão no Twitter na hora do BBB.

O sonho de Juveninho é ter um selo de Verified Account, que o Twitter pendura nas páginas de pessoas e entidades famosas para atestar que elas são elas mesmas. Com seu estilo peculiar, ele garante: “Eu sou o Juveninho, porra!”. Mas ainda não teve resposta. Toda sua formação intelectual foi dedicada a ter este mesmo (porém mais amplo) poder: o de enxergar coisas, idéias, histórias e pessoas, e dizer: Verified Account. Até hoje, só o que conseguiu foi o telefonema diário dos amigos, pedindo a análise de suas (deles) peguetes. Fulana? Verified. Beltrana? Fake. A empregada já grita da cozinha: “Seu Twitter! Telefone!”.

Há boatos de que Juveninho, em breve, vai cobrar por ligação. O serviço já teria até anúncio: “Você ainda divide o mundo entre ‘gente bonita’ e ‘gente feia’? Suas escolhas merecem mais do que isso. Disk-Juveninho”. “Gente bonita”, ele diz, é o eufemismo criado por alguns ricos para, em vez de chamar pobres de pobres, chamá-los gentilmente de pobres e feios. Começou na roça (ele enumera: Brasília, Porto Alegre, Vitória, Niterói, São Paulo), onde a intolerância estético-social é mais clara e declarada do que no Rio de Janeiro - cá onde a mistura começa na praia, se estende pelo samba, acaba no motel e, dizem as boas línguas mulatas, atende pelo nome de Juveninho.

Boa parte da pop-elite carioca, segundo ele, já incorporou no vocabulário o provincianismo alheio. Só que, na roça, para diferenciar-se da “gente feia”, as moças elitizadas saem para tomar um chope, em pleno verão, vestidas como num casamento; aqui, a moda do chique-despojado apenas tratou de sofisticar o shortinho, a blusinha e o vestido básicos das cabrochas com uns babados e cintos esquisitíssimos, dos quais Juveninho tem tanto pavor quanto de seios de borracha. A semelhança entre roceiras e cariocas são as toneladas de cosméticos, postas especialmente para confundir os bêbados - e avisar aos sóbrios: Fake Account.

Quanto mais Juveninho passeia pelo Twitter, mais entende por que as patricinhas precisam tanto se diferenciar da massa menos abastada pelas aparências. Do interior pobre de São Paulo à Zona Sul do Rio, todas falam dos mesmos assuntos, com o mesmo grau de profundidade. Mudam só o colorido da página e, às vezes, os erros ortográficos. Sabe, Juveninho, que o diferencial das moças da elite tende a ser o horizonte intelectual mais amplo, porque dispõem duma bagagem educacional capaz de absorver melhor o aprendizado. Na maioria, no entanto, é somente horizonte, potência abandonada pela falta de vontade persistente e pelo conforto de já fazer parte da “gente bonita” do Bailinho.

Sim, Juveninho ainda procura uma morena da moda despojada-mas-despojada-mesmo, bonita-mas-bonita-mesmo, e inteligente-mas-inteligente-mesmo. Se é por interesse prático, profissional ou patriótico, ninguém sabe. Mas reza a lenda que seu olhar está cada vez mais apurado. Que basta dizer “Maestro, uma nota!” ou “Twitter, 140 toques!” que Juveninho diz qual é a música, a moça, o nível do português e o que ela está vestindo agora. Que, pela cor do pano de fundo da página do Twitter, ele dá a cidade, a classe social e os lugares dela na Planta Baixa de Amores e Peguetes. Que o disk-Juveninho recebe mais ligações que o Criança Esperança e o Shoptime juntos. Que ele vai conseguir o selo de Verified Account muito antes dos Tribuneiros.

Juveninho não nega. Seu Twitter já revelou do que ele gosta e para onde apontam seus olhos. Agora, as moças já podem ouvir tudo que Juveninho pensa; até quererem sair correndo.



Juveninho no carnaval de Salvador
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 24 de Fevereiro de 2010, às 13:22



Vou te comer! Vou te comer! É o que diz o Lobo Mau do axé. Juveninho nem sabia que se comia em Salvador. Achava que era tudo “na base do beijo”, do “vamos namorar, beijar na boca”, do “me dá um beijo bem gostoso, só teu sabor me satisfaz”. Viveu uns minutos de esperança no avião: teriam as coisas evoluído na Terra do Nunca? Nananá!, concluiria em terra firme. Comer, naquelas bandas, ainda é coisa de Lobo Mau. Não importa. Juveninho está sempre preparado para um conto de fadas.

Histeria, histeria! - é o estado que chamamos folia, e ela começou na concentração do Nana Banana, no Farol da Barra, onde Juveninho – mui preocupado com sua defasagem de repertório, humilhantemente estacionado em “cara caramba cara caraô” - conseguiu decorar, segundo ele, os maiores hits do carnaval baiano desde 1950, incluindo os novos e os futuros. Tutatá! Parará! Nananá! Ô, ô, ô! Em cinco minutos (ou duas águas), Juveninho já cantava mais que o presidente do fã-clube do Chiclete. E era como se a cidade lhe retribuísse: “Ah, que bom [que] você chegou” e trouxe o quê que faltava…

Bem-vindo a Salvador, Juveninho!, diziam suas morenas imaginárias, surgidas numa brecha miraculosa entre os facebooks cariocas de sempre. Mas onde elas estavam de fato? Juveninho procurou na frente do trio; entre o caminhão da banda e o de apoio; atrás do caminhão dos banheiros; na fila do banheiro feminino; e só não morreu esmagado pela multidão sudorípara porque a muitas folionas faltou malhar glúteo. Com licença: alguém sabe onde estão as bonitas? Não - Juveninho se antecipava -, não foi ele que bebeu pouco, foi a água. É de opinião, Juveninho, que a água torna o homem mais seletivo, por isso deve-se beber muita água no verão. Quer um gole?, diria às bonitas.

O sonho de Juveninho: encontrar a mulher de sua vida e, como sua “ídola” Beatrix Kiddo, de Kill Bill, “chorar de emoção” - como dizem - deitado no chão do banheiro (mas sem abraçar um ursinho de pelúcia), aliviado depois de enfrentar o Deadly Viper Assassination Squad de seus ex-amores. É uma cena melhor (e mais viável – ele reflete - de se protagonizar na Bahia) que a do casal no carro conversível rumo ao horizonte, onde os filmes terminam e os problemas começam. Juveninho queria viver esses problemas conjugais – os problemas que importam, como dizia O filho da noiva -, sem jamais precisar dum vale-night, ô, ô, ô. E só há uma solução pra agonia de Juveninho: procurar A Noiva!

O problema é que as beldades trocaram o asfalto pelos camarotes: se para as feinhas já é difícil andar incólume, para elas – sobretudo no Nana sábado e no Camaleão domingo – é pior que desfilar de biquíni na Av. Rio Branco. Mulher bonita no bloco, segundo Juveninho, só as que trabalham (distribuindo bandanas, leques, chapéus, cartazes de “Me beija”) e as que terminaram um namoro teen de 8 anos e estão achando o máximo serem cortejadas e agarradas por um bando de trogloditas. [As primeiras não podem beijar durante o circuito, ele diz. As segundas não sabem o que fazer depois. Há também as que rebolam em cima do caminhão, mostrando à massa a cor da calcinha, mas essas não interessam a Juveninho, senão como paisagem. Restam – oh, esperança! - uma ou outra exceção, quiçá chicleteiras de primeira viagem. E Juveninho adora uma exceção morena, de preferência embrulhadinha pra viagem.]

Não. Nada tem, Juveninho, contra os trogloditas que agarram as moças à força até que elas se rendam num beijo de alforria. Cada um usa os recursos de que dispõe. Se Juveninho estivesse necessitado do orgasmo salivar dum beijinho na boca; se não dominasse o idioma vernáculo para arrancar uma risada morena com as mãos nas costas; se não liberasse uma alfazema natural para despertar o rebolation das baianas; se não tivesse o menor interesse em saber o nome dos pais e o telefone das moças para sair do balanço ao trepa-trepa; e se realmente precisasse contar aos miguxos os placares da salada mista carnavalesca, Juveninho jura que também daria uns 15 mata-leões por bloco, com direito ao colarzinho azul e branco dos Filhos de Gandhy a cada vítima conquistada. Aliás, ele comenta em voz baixa: colarzinho meio gay.

Tô a-pai-xo-na-da por você há muito tempo!, confessou uma chicleteira no meio do Camaleão. Quanto tempo?, Juveninho quis saber, já famélico. Desde o início do bloco. Ah, isso em Salvador é uma eternidade… Juveninho quase se comoveu com tamanha paixão, e quase se prostituiu pelas barrinhas de cereal que a moça levava no bolso. Como pôde esquecer as dele? Não há água que dê conta de mais de cinco horas de quebra-costela na Av. Oceânica, e por pouco Juveninho não atravessa a corda de segurança para arriscar o abadá, a cabeça e o estômago por um delicioso “churrasquinho de bactéria”, como chamaria Ivete, no Arrastão das cinzas. Ele leu nos manuais do carnaval: não alimente os seguranças; não alimente os cordeiros; não alimente a pipoca; mas com que alimento ele cometeria tais crimes, se ninguém os vende no percurso? Em terra de bêbabo, diz Juveninho, sóbrio morre de fome; e ele precisaria de muito jeito para conseguir uma barrinha sem conceder um beijo aquém de seu padrão, não tivesse a moça uma rara compaixão pelas agruras dum abstêmio gentil. Ufa. Salvo pelas fãs.

Na altura do Clube Espanhol, um amigo cutucou Juveninho: ih, olha lá, não é aquele escritor? Juveninho deu de ombros. O autor de Um sóbrio em Salvador, não está vendo?, com nome de colírio, como é mesmo?, Felipe Moura Brasil, acho, mas chamam de Pim. “Nunca ouvi falar”, respondeu Juveninho. Há seis anos ele descreveu tudo isso aqui, Juveninho, você está muito atrasado. Juveninho fez uma cara de quem não queria descrever bulhufas. Não gosta dele? Eis o que interessa a seus amigos na literatura, pensou: a fofoca. Deixou, então, escapar que não ia com a cara do sujeito, porque ele vive falando de Juveninho pelas costas e botando palavras em sua boca. Não é o que fazem vocês escritores, Juvenal? “Vocês escritores”, repetiu Juveninho, com escárnio: “vocês homens”, “vocês cariocas”, “vocês isso”, “vocês aquilo”, seu amigo lhe parecia uma mocinha recalcada com aquele típico discurso equalizador. Pôs um ponto-parágrafo com sua resposta-padrão às fêmeas: Eu sou o Juveninho, porra!

O melhor lugar do mundo para ser confundido com qualquer um, observa Juveninho, é o carnaval de Salvador. Basta dizer que você vai ou foi, e pronto: você vira “vocês”. Ah, imagina só essa mistura… Quer ver a menina a quem você deu amor tentando te beijar como se você fosse igual ao fanfarrão que ela pegou na véspera? Quer ver uma ursinha saltitante em sua direção, como se recém-nutrida duma poção gummy, sair muito ofendida quando você vira a cara para cumprimentá-la ao invés de meter a língua que ela julgava certa boca adentro? Quer ver aqueles cupidos que apresentam as amigas – que eles queriam, mas não conseguem pegar - perguntarem, ao vê-lo sair educadamente, se você “não gosta de mulher não, cara”? Quer ver os histéricos mais vaidosos (eles são fabricados em série, segundo Juveninho) - do tipo que precisam ser admirados por todo mundo, inclusive pelas mulheres dos coleguinhas - dando em cima da sua mulher, como se você fosse coleguinha? Então chame-chame-chame, chame gente!

Para se produzirem reis e rainhas do pedaço, ensina Juveninho, basta recortar a realidade: passe uma corda ao redor da sua geração, e faça cada membro acreditar que ali dentro ele é livre, ele é free, ele é dó, ele é mi, suas escolhas não têm conseqüências, ele está seguro do resto do mundo pela corda e de si mesmo pelo aperto, ninguém terá tempo nem espaço para usufruí-lo com profundidade, e assim, no calor do rebanho, ele poderá receber e distribuir abraços e beijinhos e carinhos mas com fim!, salvo de maiores exigências, eximido d’outras habilidades, sem dizer patavina a não ser “sim” a seus desejos imediatos; mas por favor não se esqueça: aumente o som pra galera sacudir! E sai do chão! Parabéns, diz Juveninho: você montou sua arena de Vale-Quase-Tudo, e agora basta esperar a poeira e a vaidade subirem. Ali, onde os fracos têm vez (e as feias também), os belos serão deuses que, viciados nas lisonjas do olimpo, pularão de arena em arena, bailinho em bailinho, fingindo-se tanto mais vivos e livres quanto mais deficientes e dependentes dos bocós que os veneram. E dirão: “Foi o máximo!”.

Juveninho aprendeu com Olavo de Carvalho: “não há nada mais perigoso no mundo do que um idiota persuadido da sua própria normalidade”, de modo que sai correndo dos vaidosos machos (para que não dêem em cima de sua mulher sem se darem conta) e das vaidosas fêmeas (para que ele mesmo não dê em cima delas sem se dar conta). Havia vários nichos da espécie nos mil ambientes do Camarote Salvador, o mais badalado castelo do carnaval, onde Juveninho matou saudades da comida típica do Rio de Janeiro (a japonesa); e, cansado de sair do chão, resolveu descer até o mesmo, ao som do “Melhor DJ do Mundo” - um título intrigante para Juveninho, que não sabe como se dá tal eleição, mas imagina que seja de maneira semelhante à da “Formiga Mais Bonita”. De qualquer modo, não gostaria de ser mesário em nenhuma.

Há quem diga que carnaval de verdade é sair em bloco. Que camarote é uma festa como outra qualquer. Que, se for para ir de camarote, é melhor viajar pra Ibiza. Há quem diga que “gente bonita” só tem no camarote. Que, chegando cedo, dá pra ver os melhores blocos passarem. Que alguns até param em frente prum show particular. Juveninho nada diz a respeito, a não ser que “gente bonita” é papo de cabeleireiro (quando não sub-eufemismo de “ambiente exclusivo”). Que homens e mulheres falem entre si sobre “gente bonita”, é sinal, diz Juveninho, do quanto já descemos abaixo da linha do pudor. Quando uma moça lhe fala em “gente bonita” (ou dá faniquitos pelo George Clooney), Juveninho sai logo para o toalete. Ela deve tê-lo confundido com seu cabeleireiro.

O melhor lugar, para Juveninho, é lá na frente dos blocos (de segunda e terça no Barra-Ondina, principalmente), colado aos cordeiros dianteiros, onde – imagine!, ele diz – é possível até conhecer gente. Isso mesmo: gente, terráqueos – “pessoa humana”, como dizem -, aquela coisa antiga com nome, sobrenome, gostos, afazeres, infância, sonhos, graça. Juveninho só avisa aos incautos que não reparem se, no dia seguinte, aquela pessoa com quem você passou horas, conheceu a história, sabe se os pais são casados, levou em casa e esfregou a língua lhes der duas bochechadas apressadas ou um “tudo bom?” e passar direto. A regra é clara: se não quer – ou não sabe se quer – ficar com fulano de novo, não fale com ele! É mais fácil! Destrua o vínculo afetivo em nome da sua imaturidade amorosa – e venha com as miguxas! Qualquer coisa, “era carnaval”…

Mais seis!, gritou um rapaz de dentro do banheiro masculino. Era hora de Juveninho fazer xixi, com cinco marmanjos ao lado, no mesmo mictório. Durante o ato, outros desesperados socavam as arestas do caminhão, exigindo pressa. Juveninho nunca pensou que fosse dizer isso, mas que saudade do banheiro químico! O xixi, ele diz, é como o beijo: requer serenidade. No meio da histeria, ninguém tira dos prazeres tudo que eles têm a dar, daí que se busque na quantidade a compensação impossível. Onde se urina mal, segundo Juveninho, beija-se mal. Também reconhece, Juveninho, a qualidade dum beijo feminino pelo carinho no braço. Pode cair o mundo que as maduras passearão as mãos devagar, deixando os dedos (como os lábios) sentirem o sabor da pele. As mal resolvidas, ao contrário, na ânsia de mostrar serviço, parecem sempre fazer cócegas em barriga de cachorro. Batata!, grita Juveninho: não sabem beijar.

É seu aniversário?, perguntou uma no Me Abraça de terça. Não, disse Juveninho. Mas você está de parabéns. Obrigado. Meia hora depois: é seu aniversário? Você já me perguntou isso. Ah é? É. Mas você está de parabéns. Obrigado. Juveninho se sente quase um reizinho com a criatividade das fãs, e mal pode esperar pelas próximas abordagens. O conteúdo carnavalesco o engrandece de tal forma que ele sente o coração fazer tutatá. Quando se vê, lá está Juveninho, banhado pelos esguichos de cerveja, o tênis destruído, o corpo (mentira, ele diz) axurriado, as virilhas e os suvacos assados, suplicando a Durval que volte logo do intervalo, atento aos avisos em playback (ou era o irmão?) de Bell, preocupado com mamãe Ivete, assombrado pelos dançarinos-plantas da borboleta Daniela, perguntando ao Jamil onde diabos está a Mila das mil e uma noites de amor com você, cantando “Eu quero uma latinha” e levando uma latada na cabeça, com milhares de reais a menos no money belt, a maior invenção da humanidade, segundo Juveninho, depois da barrinha de proteína, que ele também rouba da equipe de enfermagem dos Anjos da Folia, sem deixar de contemplar ao redor, em alguma cinturinha moleca, o rebolation que tudo justifica.

Agora: se Juveninho encontrou ou não uma exceção morena, com quem pudesse driblar o tempo, o som e o espaço quando eles literalmente atropelam o corpo e a alma, e abstrair o universo em torno no momento indelével dum beijo vagaroso, ninguém sabe. Quem ganhou o Vale-Juveninho? Há quem diga que foram as camareiras do hotel. Há quem diga as panfleteiras do bloco. Há quem garçonetes do camarote. Há chicleteiras de primeira viagem. Reza a lenda que Juveninho e as baianas se entendem no olhar e na pipoca, mas os amigos dizem que ele saiu liso da avenida. Que levou um monte de “tudo bom?” pra casa. Que está até agora passando talco nas virilhas. Que fez xixi no canto do mictório, virado pro ralo, e só caíram duas gotas. Juveninho ignora. Cansou de mandar caso perdido à terapia. São uns 5 mil por bloco em Salvador, e ele nem tinha tantos cartões de visita da doutora.

Depois de comer na tradicional churrascaria Boi Preto, onde os peguetes se reencontram na ressaca da folia, Juveninho foi embora na quarta-feira de cinzas – e ninguém sabe ao certo se ele gostou do carnaval. Mas dizem as boas línguas baianas que, no banheiro do Ondina Apart, antes do check out, Juveninho sentou no trono e chorou.



Juveninho e os amores impossíveis
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 28 de Janeiro de 2010, às 12:08

Juveninho recebeu uma declaração de amor de uma mulher extraordinária. Ela tem 85 anos. Foi numa lanchonete, em Ipanema, enquanto Juveninho comprava seu açaí com morango. “Meu filho!”, disse ela, séria, com o dedo em riste, ao que ele anteviu uma bronca por entrar sem camisa: “Que olhos lindos você tem!”. Juveninho agradeceu, aliviado e tímido, sob a atenção risonha de fregueses e balconistas. “Se eu fosse mais jovem”, gritou Dona Elza, “eu casava com você!”. [Juveninho cogitou pedir o messenger de Dona Elza, mas temeu seu offline]. Soerguendo-se no banco, ela deu-lhe o braço: “Anda, meu filho, me ajude a levantar.”

Não sabe, Juveninho, por que as moças - especialmente as bonitas - demoram 85 anos para ficar inteligentes assim. [Ou sabe: elas passam 40 ouvindo essas coisas e, com sorte, demoram mais 45 para aprender a dizê-las. Não é o caso de Dona Elza, claro, mulher de atitude desde a mais tenra e bela mocidade, segundo a imaginação de Juveninho.] Em todo caso, a cantada das senhoras, ele diz, é como a das feias: existe para dar confiança em encarar as bonitas. Copo na mão, Juveninho chegou à praia de olho na morena dos panfletos: “Que linda bunda você tem! Eu me caso com você!”. Mas desistiu. Precisava de mais 60 anos ou menos morango no açaí.

Juveninho anda preguiçoso. Nada lhe dá tanta preguiça hoje quanto uma moça bonita. As de sua idade (as feias também, mas Juveninho é rapaz de foco), ele as divide em cinco tipos básicos (não raro cumulativos): as anoréxicas, que não assumem a doença nem para si; as piriguetes da night, que ficam com todo mundo; as semi-solteiras enroladas com ex-namorados eternos; as superindependentes, que moram sozinhas e levam homens pra casa como um sabonete; e as recém-casadas (com aquele sujeito tão “fofo” quanto a última bolsa da moda), todas – antes dos 30 – já com seu amante. Acha, Juveninho, que o destino de sua geração é mesmo a micareta no asilo: comprando o abadá do primeiro lote, você já leva um babador.

O abadá é o símbolo da Era das Possibilidades. E onde tudo é possível, ele diz, nada é possível. Onde nada é impossível, tudo é impossível. Onde ninguém termina coisa alguma, ninguém começa coisa alguma. Onde se volta do supermercado com um mamão, um sabão em pó e um marido, jogam-se no lixo a casca, a caixa e o compromisso. A missão de Juveninho: colocar o impossível de volta em circulação. Seu plano: fundar a EDECI - Escola Dona Elza de Consciência das Impossibilidades, cujo primeiro dever de casa será analisar a brilhante frase: “Se eu fosse mais jovem, eu casava com você!”. A expectativa (alta) é de que, em 5 ou 6 anos de graduação, as moças descubram onde está o impossível na relação com seu primeiro ex-namorado.

Enquanto uma aluna nota 10 não se forma, Juveninho procura uma exceção autodidata. “Transforma-se o amador na cousa amada”, escreveu Camões, e Juveninho não quer transformar-se num polvo. O poeta notou que, apesar de termos em nós o que desejamos, o amor jamais se completa sem a correspondência material, física, da amada - com o que concorda Juveninho, embora não encontre corpos morenos e graciosos sem uma lista de sócios-proprietários. Os amigos dizem que as bonitas é que não querem saber dele. Que, nesse clube, Juveninho só recebe bola preta. Que ele é apenas um peso médio, como o Rob, de Alta Fidelidade, e “You gotta punch your weight”. Que seu destino, portanto, é ser o galã do Retiro dos Artistas. Juveninho ignora. Aprendeu com Ovídio: “É o ápice que provoca a inveja”. Mas, na dúvida, comprou a camisa do Retiro dos Artistas.

Se todo mundo está disponível e indisponível ao mesmo tempo, o segredo é… Bem, Juveninho não sabe o segredo, e continua procurando uma exceção morena. Na praia, segurando o panfleto de uma festa eletrônica, a única certeza de Juveninho é que 11 DJs não fazem um verão. É preciso, no mínimo, dispensar 10, e ensinar o outro a tocar um chocalho. Mas em terra de mal resolvidos, ele diz, todo DJ é um rei. Sabe, Juveninho, que a confusão mental de seus conterrâneos tem origem num ambiente cultural onde o essencial e o irrelevante, o eterno e o efêmero, a realidade e a moda, se misturam alucinadamente, deixando a massa perdida entre o que presta e o que não presta, o que dura e o que não dura, o que se sustenta e o que não se sustenta, e por quê. A onda é escolher o marido por critérios como fofura, portabilidade e status, porque a funcionalidade pode ficar com o amante. Amamos tanto o ecletismo, ele diz, que nosso coração virou um DJ.

O primeiro passo de Juveninho para acabar com isso é proibir a frase: “Fulano fez o impossível”. Se foi feito, não era impossível: era falta de imaginação de quem disse - contribuindo para a crença geral de que nada é impossível. E deduzir, do desconhecimento da coisa, a inexistência dela aliena todo mundo. Nada – além da verdade - foi mais difamado em nosso tempo que o impossível. Hora do direito de resposta. Para Juveninho, o impossível numa escolha amorosa tem mil e uma formas, dependendo do desejo de cada um: está num hálito ruim, num beijo destrambelhado, num sexo insosso, numa beleza aquém, num humor faltante, num charme perdido, num descompromisso existencial, num desinteresse profissional, numa diferença intelectual, moral, de educação ou de ambição, nos pais que você não quer como avós de seus filhos, ou – principalmente, diz Juveninho – num excesso de blush nariz acima.

Sem recursos mentais para analisar essas coisas [sobretudo o blush] até o fim, esgotando as possibilidades de um relacionamento para dele ao menos saírem bem resolvidas, as pessoas hoje, segundo Juveninho, quando estão diante de uma dificuldade qualquer ou já do próprio impossível em carne e osso, o que fazem como solução? Dão “um tempo”! [De modo que há pessoas dando um tempo em três namoros ao mesmo tempo.] São, para ele, como o peladeiro seriamente contundido que, em vez de fisioterapia, passa duas semanas sem jogar [ou jogando futevôlei]: quando volta, sabe Juveninho, machuca-se mais ainda. No verão carioca, então (a estação dos “tempos”; a farsa sazonal dos indisponíveis), achar um grande amor só não é impossível porque a Juveninho não faltam imaginação nem atitude. A essa hora, dizem, ele já está na internet, pesquisando se Dona Elza tem uma netinha morena.



Juveninho e a paixão offline
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 7 de Janeiro de 2010, às 14:59

Sim, Juveninho sumiu. Sim, não deu notícias. Não, não tem um livro para justificar sua ausência. Tem uns atestados médicos. Mas está ótimo, “obrigado”. Escrever para ocupar a cabeça – é o que Juveninho precisa [dizem]. Escrever para não enlouquecer. A escrita como medida profilática é terrível, ele diz, porque você acaba revelando por escrito qual é o seu problema. Juveninho não vai fazer isso. De vingança, contaminará o leitor com a doença. Por uma frase, ao menos. Ou duas. Está bem: três. Juveninho tem horror ao inacessível - eis a verdade. Principalmente, se o inacessível tem a pele morena, queimada de sol.

“Ai!”, diria o Werther, de Goethe, “a distância assemelha-se ao futuro! Uma massa enorme de trevas existe constantemente diante da nossa alma”. Os adolescentes dizem isso hoje: trevas. É sinistro, é “trevas”. Normalmente, sobre aquilo que não entendem. Juveninho entende os adolescentes. Juveninho entende as trevas. O problema de Juveninho é o intervalo entre uma treva e outra. Sentir, ele diz, a ausência de quem você contemplou ou abordou rapidamente, mas ainda não conheceu, não pôde conversar sem a preocupação da hora, da intromissão, da piada atonal e mal compreendida. Não é a distância. Não é o futuro. É o inacessível. A “entretreva”. Em outras palavras: o offline.

Juveninho detesta o offline. Os amigos logo o mandam trabalhar, distrair-se, escrever – como quem presta serviços -, ocupando-se de sua inserção social. Werther reclamava quando lhe sugeriam “amar com moderação” e regular seu tempo, empregando uma parte no trabalho e as horas de recreio – imagine! - “no cortejo de vossa amada”. Para salvar seu amor e seu talento artístico da aniquilação maquinal, Juveninho igualmente ignora essa gente, mas também não vai se matar por amor impossível algum. A menos que morra de saudade, com a cabeça no teclado, a mão no mouse, o cursor no refresh do orkut, e o barulho do messenger acordando os pais: “turururu”, “turururu”…

Para Juveninho, a pior coisa da morte é a certeza de que virá um médico enumerar as causas, como se a ciência soubesse a causa de alguma coisa e Newton tivesse explicado por que os corpos caem, e não apenas descrito seu movimento. Juveninho preferiria que uma adolescente vislumbrasse seu belíssimo cadáver, esculpido a muita malhação e futevôlei, e dissesse assustada: que trevas! Seria mais honesto, ele diz. E depois, sim, que um (seu) biógrafo, como Paul Auster, revelasse então que Juveninho morreu porque estava “com o coração partido. Algumas pessoas riem quando escutam essa frase, mas isso é porque elas não conhecem nada do mundo. Pessoas morrem porque estão com o coração partido. Acontece todo dia e vai continuar a acontecer, até o fim dos tempos”.

Juveninho conhece alguma coisa do mundo, e não pretende morrer tão cedo. Por isso agüenta as entretrevas, evitando alimentá-las. Como? É simples, ele ensina. Evitando as teens. Há duas maneiras básicas de distinguir entre menininhas e mulheres. A primeira é simples. Menininhas não podem largar as “miguxas”. Já as mulheres dizem às amiguinhas que vão ali com você, e pronto. A segunda é quase tão simples. Menininhas não sabem que podem dizer não quando bem entenderem, então acham que qualquer atenção é um supersim. Mulheres são senhoras de si, e sabem [como ele] que podem ser educadas, simpáticas, conhecer, conversar, interagir, sair, jantar, ir ao motel e, se decidirem que não querem nada, basta negar o beijo ou inventar uma desculpa, porque os desencontros fazem parte da vida. (Ok, consente Juveninho: ir ao motel, não).

O problema é que não basta evitar as teens para evitar o offline - a maior agonia contemporânea -, a dor que Juveninho passa enquanto escreve sobre a dor que não passa. Bem-feito, dizem os amigos: quem mandou escolher a melhor? Juveninho ignora. Só a melhor lhe interessa. Na praia, ao avistar a morena queimada de sol, houve quem dissesse: você não viu Uma mente brilhante? Não se lembra do Equilíbrio de Nash? Da teoria de que não se deve ir logo na mais bonita que você não vai se dar bem? Está ouvindo? Estou, respondeu: “John Nash é o caralho. Meu nome é Juveninho, porra”. Os amigos se calaram. Sabem que Juveninho não é de aspas nem de palavrão, muito menos de citar o cinema nacional. Temeram o que Juveninho-Zé-Pequeno faria com quem obstruísse o caminho à sua musa. E ninguém se dispôs a morrer pela matemática.

A eternidade, dizem os cafajestes, é o tempo entre o orgasmo e deixar a mulher em casa. Juveninho despreza os cafajestes. A eternidade, para ele, é o offline da musa, enquanto não tem o telefone dela. Há quem pense que o offline tem o poder de aumentar ou diminuir uma paixão, o que é mais uma bobagem teen. Juveninho já está bem grandinho para saber que o sucesso de uma relação não depende do tempo em que as coisas acontecem (inclusive – mas não só - aquelas…), mas da qualidade. Fugir das provas práticas e (ou para) querer o maior amor do mundo é coisa de miguxa. Só duas coisas, segundo Juveninho, merecem todo o amor do mundo mesmo quando não demonstram a menor qualidade: os filhos e o Flamengo. Para ter os primeiros, primeiro é preciso assistir junto a muitos jogos do segundo. Sua musa já demonstrou várias qualidades. Juveninho só torce para não cair de cabeça no teclado antes do seu “turururu”.



Juveninho e o apagão
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 11 de Novembro de 2009, às 14:55

Onde estava Juveninho durante o apagão? Com quem? As morenas do mundo inteiro exigem uma resposta. Ou duas.

Juveninho não tem blackberry. Juveninho não tem iPhone. Juveninho tem radinho de pilha. Em quase três horas de apagão na noite chuvosa do Rio, ficou abraçado a ele como nos tempos de cadeira azul no Maracanã. No lugar de Zico, Edmundo. O original? Não: um genérico, da Paraíba. Deitado na cama, com o celular descarregado, e atrás de informação sobre o futuro da energia nacional, Juveninho foi obrigado a ouvir Vasco e Campinense, pela série B do Campeonato Brasileiro. Morrendo de medo, claro. Quando a única notícia da civilização é um jogo do Vasco na Paraíba, diz Juveninho, estamos muito próximos do juízo final.

Aos poucos, chegavam declarações de autoridades como o ministro Edison Lobão sobre o desligamento da hidrelétrica de Itaipu, possivelmente devido a “tempestades”, “vendavais” e “problemas atmosféricos” – segundo Juveninho, os maiores criminosos do Brasil depois da “sociedade”. Juveninho também jamais perdoaria a natureza por obrigá-lo a ouvir Vasco e Campinense, não tivesse sido este, felizmente, um jogo cheio de tumultos, expulsões, pênalti perdido, porrada e sangue - em sua imaginação: muito sangue. Enquanto os carros batiam nos cruzamentos sem sinais, e os pedestres eram assaltados nas ruas escuras, e os moradores ficavam presos nos elevadores, e os mosquitos devoravam Juveninho no quarto sem ar-condicionado, Edmundo dava um soco em Carlos Alberto e era expulso. Aquilo o distraiu. Quando moleque, chamaram Juveninho para jogar no Vasco. Mas ele preferiu os mosquitos.

Nunca soube, Juveninho, se primeiro se apaixonou pela bola ou pelo rádio. O futebol era divertido às vezes; o futebol no rádio, sempre. Sua maior influência literária é o garotinho José Carlos Araújo, o melhor locutor esportivo de todos os tempos. Juveninho deve toda a sua carreira (lêem-se: morenas) a ele. Muito agradecido, dizem, grita em pensamento a cada uma: “Entrou! Golão, golão, golão!”. Nos últimos meses, Andre Agassi lançou sua autobiografia, revelando casos com drogas e doping; Hulk Hogan lançou sua autobiografia, revelando ter pensado em suicídio. Fora o Zico, diz Juveninho, os ídolos de infância são sempre uma decepção. Mas vai comprar a biografia do Garotinho. Acredita que a santidade precisa voltar à moda. Por isso anda escrevendo sua história, no romance autobiográfico Enquanto a babá trepava. Se Juveninho é um “Anjo Pornográfico”? Ora, ele diz, isso é para os feios. Juveninho é o Santo Farpador.

Seu atual radinho de pilha, ele ganhou de brinde na assinatura de um jornal americano. Foi o melhor presente que o jornalismo já lhe deu. Agora, quando falta luz, ele pode saber tudo sobre a série B do Campeonato Brasileiro. Dizem que, se os jornais americanos dessem blackberries ou iPhones de brinde, Juveninho estaria dormindo até agora com uma morena da série A. Há quem pense em processar a imprensa americana por deixar Juveninho offline no apagão. Em Porto Rico, é comum as pessoas combinarem onde vão passar o “furacão da semana que vem”. Há quem pense em processar a natureza brasileira por falta de aviso prévio. Todos (mentira, todas) exigem indenizações pesadas, como andar de mãos dadas com Juveninho no Coqueirão. Entre as vítimas online mais prejudicadas, havia até sujinhas moderninhas querendo cantar em seu (dele) quarto-sauna: “Ô chu-vá, eu peço que cai-á devagar”…

Ninguém se conforma em deixar Juveninho às moscas no verão. Nem ele. Quando a luz voltou, foi até o espelho e contou nove mordidas e três arranhões. De onde mesmo tinham vindo os arranhões? Juveninho não lembrava. O jeito foi desligar o radinho de pilha, fechar as janelas, ligar o ar-condicionado e dormir. Um beijo, morenas. Dizem que Juveninho já tem dois furacões marcados pra semana que vem.



Juveninho 2016
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sexta-Feira, 2 de Outubro de 2009, às 20:07

Nada mais preocupava Juveninho senão a maior dúvida olímpica de todos os tempos: estará solteiro em 2016? Atletas fêmeas do mundo inteiro perguntam o mesmo. Um recorde. Nunca antes no esporte nadadoras e ginastas estiveram tão sincronizadas. Dizem que os jogos Juveninho 2007 deixaram sua marca indelével nas morenas, sobretudo as do badminton. Juveninho é craque em badminton. Não pode ver uma peteca que já quer marcar um Pan.

Tão logo foi anunciada a vitória do Rio de Janeiro na mega-sena, Juveninho conferiu os números na identidade. Que tristeza! Em 7 anos, Juveninho planejava estar casado, fiel à sua peteca mulata. Como resistir até lá? Impossível. Desligou a TV, bateu a porta e saiu inconformado: não se pode fazer nada sério nesta cidade… Dois adolescentes, vestidos de Brasil, passaram alegremente por ele na rua. Ambos terão uns 20 anos em 2016. Juveninho chegou perto e gritou: “Canalhas!”. Um quase engoliu o canudo do toddyinho.

Consolou-se, Juveninho, com a opinião de que quem tem potencial para o sucesso não pode casar antes deste, a não ser com uma fã profética tão (ou mais) irresistível quanto as que virão depois. Enquanto não decola sua carreira internacional, Juveninho vive em busca da melhor fã profética. A mais ambiciosa. Aquela capaz de rivalizar com todas as outras, de todos os lugares do mundo, no presente humilde e no futuro glorioso. Agora que o COI ofereceu aos cariocas as petecas de uma carreira internacional inteirinha sem precisar sair do lugar, a responsabilidade das fãs aumentou. Recomenda, Juveninho, sete anos de Flaubert e leg press horizontal.

Seu patriotismo já começou a vingar. Finalmente, alguém enxergou no Rio de Janeiro o potencial! Foram anos e anos, segundo Juveninho, em que insistiram em ver aqui apenas a realidade. Um absurdo, imagine: a realidade! Agora, não. Penetraram o olhar fundo o bastante para ver que, tirando o estado atual, sobra alguma célula sã capaz de multiplicar-se. Quando alguém enxerga na gente o potencial e dá uma chance ou aponta um caminho - ele diz -, só resta dar graças a Deus e correr atrás. Fizeram com o Rio, portanto, exatamente o que Juveninho faz com as morenas. Só teme, Juveninho, que o Rio diga ao mundo: “Tem que gostar de mim como eu sou”…

Não “tendo que” gostar de nada – embora sofra para largar uma peteca -, Juveninho não se importa mais. Se estará solteiro em 2016, nem ele nem ninguém saberá até lá. Mas, para as atletas cubanas que quiserem fugir de Fidel, dizem que Juveninho já preparou o esconderijo.



Quem ama faz spinning
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sexta-Feira, 20 de Fevereiro de 2009, às 10:11

Apesar dos pedidos, Juveninho não se candidatou à vaga de zelador das Ilhas Hamilton, anunciada como “o melhor emprego do mundo” pelo governo australiano. Nada contra os milhares de brasileiros inscritos, vivendo o sonho de ser zelador, mas essa não é a praia de Juveninho. Se a questão fosse apenas escolher entre conviver com brasileiros ou com peixes, baleias e tartarugas marinhas, Juveninho não titubeava. O problema é o salário: US$ 100 mil por seis meses. Muito alto para a idade de Juveninho.

Não pretende, Juveninho, ficar rico muito cedo. Leu por aí que os jovens ricos viram cornos, e ficou bastante preocupado. Mas tem jogado na mega-sena. Nos mesmos números. Alega que mega-sena é prática, e ganhar é uma questão de tempo. Quando isso acontecer, pretende já estar rico como escritor, e recusar publicamente o prêmio. Seu objetivo, na verdade, é distribuir o dinheiro para todos os brasileiros que sonharam em ser zelador de peixe. É uma política, segundo Juveninho, de premiar quem escolhe bem as companhias.

Na falta de um aquário, Juveninho escolheu as dele: os livros. Os livros e os aparelhos de ginástica. Às vezes, no caminho entre uns e outros, escuta menininhas – literalmente – desgostosas falando mal de academias, do ambiente, dos freqüentadores, do papo fútil. É o suficiente para que cheguem à conclusão de que cuidar do corpo é coisa de gente burra – e não façam exercício algum, em lugar nenhum. Nem um levantamento de anzol, diz Juveninho, que se considera muito inteligente. Ele, então, pergunta o que elas fazem em contrapartida para tornar seu espírito tão elevado, sua alma tão evoluída a ponto de dispensar os cuidados com o corpo. Lêem Platão? Aristóteles? Montaigne? Flaubert? Não. Ouvem Chico Buarque. Para Juveninho, deve estar cheio de titias o show do Chico Buarque…

“O que se instrui” – ele cita Montaigne - “não é uma alma, não é um corpo: é um homem; não se deve separá-lo em dois. E, como diz Platão, não se deve instruir um sem a outra, e sim conduzi-los por igual, como uma parelha de cavalos atrelados ao mesmo timão”. Neste carnaval, os cavalos de Juveninho são barbada. É o que andam dizendo, segundo ele, as morenas lá do Coqueirão. Enquanto os amigos fazem suas apostas, Juveninho - muito cuidadoso - atarraxa mais um pouquinho a carroça. Conjuga A república com o leg press horizontal; os Tópicos com o crucifixo inverso; Os Ensaios com o supino reto; A educação sentimental com a bicicleta. Três séries de livro; três parágrafos de aparelho.

Sabe, Juveninho, que um grande amor não é brincadeira. Quanto mais no ponto você estiver antes de encontrá-lo [o amor ou Juveninho, ele avisa], melhor. Mas, como no futebol, ninguém quer saber disso. Depois de uma pelada, os perdedores discutem, brigam, falam de marcação, esquemas táticos, garra e outras bobagens circunstanciais. Nunca de seus próprios preparos físicos, talentos individuais ou rotinas de treinamento. O maior aprendizado futebolístico de Juveninho foi este: o sincero desejo dos outros de não entender nada – a começar por si mesmos - para evitar novos esforços solitários. Por isso o governo australiano é burro, ele diz. Se abrisse vaga para tartaruga marinha, o sucesso seria muito maior.

É de opinião, Juveninho, que quem espera o amor para descobrir como mantê-lo, ou a desgraça para saber como evitá-la, na hora só consegue evitar o amor e manter a desgraça. Em outras palavras – as de Juveninho -, o melhor emprego do mundo é zelar pelos seus cavalos. Dia e noite, ele tem feito isso. As Ilhas Hamilton são questão de tempo. Agora, Juveninho está de corpo e alma no carnaval. Dizem que Aristóteles baixou no Coqueirão. Que as morenas não largam os Tópicos. Que as desgostosas estão correndo na areia. Que até as titias vêm ver sua carroça passar, cantando coisas de amor. A vaga está aberta, ele pensa. Quem não corre atrás fica pra trás. Na filosofia de Juveninho: quem ama faz spinning.



Juveninho standard
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 02:17

Juveninho passou o ano inteiro sumido. Sumiu como quem se recolhe para um grande projeto – lento e laborioso -, um passo fundamental em sua formação de escritor. Seu objetivo era investir em si mesmo para reaparecer maior, melhor, mais contundente, irresistível, de preferência no verão. Como Montaigne, Juveninho queria se refugiar no alto da torre e descer apenas quando tivesse à mão uma obra imorredoura e, aos pés, as mesmas havaianas. Cansou-se da afobação brasileira, da aversão à qualificação profissional, da ignorância (ou má fé) metodológica que sempre resulta em análises ideológicas, destrambelhadas ou inócuas. Pensava, Juveninho, que era preciso ir até o alto da torre para estudar as raízes dos problemas. E ele foi.

Durante meses, Juveninho só pensou em trabalho. Na praia (mas não no Coqueirão), no samba (mas não na Mangueira), na noite (mas não no Bailinho), na academia (mas não na Estação) não pensava noutra cousa senão numa obra-prima com a qual reapareceria triunfante. Sua torre era uma faixa descontínua de terra à margem de suas antigas paixões. Com o tempo, a faixa se prolongava, e Juveninho ia ficando cada vez mais distante de seu hábitat, a despeito (ou em virtude) de convites e tentações constantes. Estava convicto, Juveninho, de que não queria jamais viver num ponto permanente de tensão, preocupado em perder a mulher, a casa, o carro e o emprego por pura falta (pregressa) de paciência, orientação e planejamento de vida e carreira. Não queria se transformar num cargo. Não queria - mesmo que, para isso, tivesse que morar mais tempo na casa dos pais e gastar mais dinheiro em “suítes simples”.

O futuro preocupava Juveninho. Sua vida pregressa era agora. Agora era o momento de buscar ajuda, como fizeram e fazem sempre os melhores. Só mesmo um idiota não precisa de ajuda, dizia Juveninho, tentando se convencer. Não existem autodidatas, continuava ele, o único autodidata da história foi Adão e, ainda assim, com uma mãozinha de Eva. Até quem foge à educação formal se guia pelos rastros de seus antecessores, ou diretamente pelos próprios, de modo que a Juveninho só faltou encontrar os próprios. Sua ojeriza à educação formal, ele alega, vem de um fato cinematograficamente comprovado: mais vale um Sr. Miyagi do que mil academias Cobra Kai. Na falta de um Sr. Miyagi no Coqueirão, o autodidatismo de Juveninho se resumiu a seguir as pistas de seus autores favoritos, passando da citação à obra original, da referência à fonte primária, do rodapé à pesquisa científica, num delicioso trepa-trepa sem fim de leituras diversas. Foi um ano de muito aprendizado. Juveninho é mestre em trepa-trepa.

Ele já podia sentir a raiva dos invejosos [os blogueiros!] quando, de repente, descesse altaneiro, empunhando o resultado literário de um longo período de isolamento e de renúncia às mediocridades efêmeras de seu tempo. Há quem diga, porém, que sua reclusão foi de ordem financeira, e que Juveninho teria economizado o ano inteiro só para pagar uma das festas de Réveillon “mais nobres e exclusivas” da cidade. De um jeito ou de outro, sua fé inabalável era sempre a mesma (e a tudo se aplicava): melhor estar bonito numa festa do que feio em todas. Para Juveninho, o que seus contemporâneos jamais entenderam é que a onipresença é inimiga da volúpia. Por isso era preciso investir em ausências, aprimorar esperas, lapidar saudades. Uma arte que, na opinião de Juveninho, era pré-condição para a arte propriamente dita. Para escrever sua novela autobiográfica Enquanto a babá trepava, Juveninho precisava resistir à faxineira. Para escrever o ensaio Os sarados também lêem, Juveninho precisava resistir à personal. Carnes do ofício, ele dizia. Não diz mais.

Todo sacrifício valeria a pena no momento da reaparição, o marco inicial da posteridade juveniniana. E ele reapareceu. Há quem diga que foi primeiro no Coqueirão, há quem diga Bailinho, há quem Mangueira, há Estação. Há quem diga que ele está mais bonito, há quem diga inteligente, há quem “fortinho”, há mesma bosta. Mas nem sinal de sua obra-prima. Havia apostas de que Juveninho não resistiria ao verão no alto da torre, e sua recaída era uma questão de tempo. Muitos estão exigindo o pagamento dos devedores, que alegam ser ainda cedo para saber se é recaída ou volta triunfal. Juveninho ignora essa gente. Sabe que existe sempre um rebanho torcendo para não ser tão humilhado com o que se viveu ou se produziu à sua revelia. Por isso ele prefere o mistério. A melhor obra de um escritor é a próxima – e Juveninho descobriu como deixar o público a par disso. Todos suspeitam que ele está prestes a lançar um best-seller. Todos querem estar por perto quando o mundo descobrir o grande artista. Se for amanhã ou daqui a 60 anos, não importa. O verão de Juveninho está ganho. A saudade, lapidada. Até o carnaval, não há mais “suítes standard” disponíveis na cidade.



Juveninho e a noite de autógrafos
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 23 de Janeiro de 2008, às 17:24

Juveninho está vendo a Sessão Erótica, do Telecine. Uma mulher lambe uma banana. Um homem chupa um pêssego. Não são metáforas. São frutas. A Sessão Erótica, ele diz, é o programa mais criativo da televisão. Sempre que pode, Juveninho vê. Outro dia havia um espírito que passava de corpo em corpo jogando a libido dos terráqueos nas alturas. Quem o recebia tinha que foder imediatamente com quem estivesse mais próximo. Juveninho tirou uma grande lição do filme: cuidado com as companhias.

Anda, Juveninho, cada vez mais precavido. Só cumprimenta os amigos de longe. Só freqüenta lugares de “gente bonita”. Foi ao Fashion Rio. Sentou na primeira fileira. Por sorte, nenhum espírito baixou. Juveninho tem horror a modelos. Acha que Gisele lhe sorriu, mas isso não vem ao caso. Prefere as camareiras. Em grandes eventos, ele ensina, o melhor é sempre o entorno. A última fileira. As repórteres, as produtoras, as garçonetes. Os amigos dizem que Juveninho não tem competência para além disso. Juveninho não nega. Deixa os amigos perderem seu tempo esperando espíritos.

Na semana passada, foi ao lançamento do livro dos Tribuneiros. Disfarçado, claro. Ninguém o reconheceu. Há quem diga que Juveninho foi quem escreveu o texto de apresentação. Há quem diga que Juveninho foi quem escreveu as crônicas do Pim. Há quem diga que Juveninho foi quem estava no banheiro com uma leitora do Andreazza. Ele não nega. Considera justo roubar leitoras alheias. Sempre que vai a uma noite de autógrafos, Juveninho morre de vontade de lançar um livro. Seu único medo: que roubem suas leitoras. Por essas e outras, Juveninho nunca dá festas de aniversário.

Na Argumento Leblon, foram mais de duas horas de fila. Uma para comprar o livro, outra para cumprimentar os autores. Juveninho não se surpreendeu. Antes de sair de casa, lera atentamente as dicas de etiqueta de Gloria Kalil: “Precisa entrar ou pode cumprimentar de longe? O melhor é ir preparado para um programa em que o papo na fila faz parte”. Juveninho estava preparado. “Quanto maior a fila, sinal de sucesso para o autor. Mas, caso não dê para esperar muito tempo, o jeito é acenar de longe para o amigo”. Nada disso. Juveninho queria acenar de perto para Bruna Demaison.

Para suportar a fila, teve de usar seus melhores truques. Aprendeu com Otto Lara Rezende: “Tenho para mim que sei, como todos os brasileiros, os três primeiros minutos de qualquer assunto.” Acha um exagero, Juveninho, dizer que “todos os brasileiros” chegam a três minutos. Mas ele chega. Não só chega, como desenvolveu a técnica. Sabe como ninguém passar da filosofia de Sócrates para o calcanhar de Sócrates na Copa de 82. Da literatura de Miller para o gol de Muller no Mundial de Clubes de 93. Do Oscar de Melhor Filme de Rocky para as cestas de Oscar Schmidt no Pan de 87. Da fila de autógrafos para o banheiro da livraria. Sem perder o lugar, ele diz. É uma arte.

Ao chegar sua vez, Juveninho não se afobou. Lembrou-se da “dúvida final” de Gloria Kalil: “é necessário pedir autógrafo para os demais autores que não se conhecem? Não, basta dar um sorriso aos outros e sair”. Ficou devendo, Juveninho, o sorriso aos outros. Há limites para seu lado fashion. Emocionado, pegou o autógrafo da Bruna, e saiu. Há quem diga que Juveninho foi conversar com as leitoras do Pim. Há quem diga que Juveninho foi procurar as representantes do Coqueirão. Há quem diga que Juveninho esqueceu a etiqueta no banheiro. Ninguém sabe ao certo onde baixou o espírito de Juveninho. Entre as moças do seu tempo, contudo, só ficou uma certeza: a primeira noite de autógrafos a gente nunca esquece.



Juveninho e o ventríloquo
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 19 de Dezembro de 2007, às 15:12

Juveninho tem um novo ídolo. É um ventríloquo americano. Seu nome é Jeff Dunham. Indicação de seu fisioterapeuta. Há fisioterapeutas que indicam alongamentos. Há fisioterapeutas que indicam ressonâncias. O fisioterapeuta de Juveninho indica ventríloquos. Deve achar que Juveninho sofre de múltipla personalidade. E que a múltipla personalidade, como tudo ultimamente, é psicossomática. Juveninho não teria machucado a virilha na cama, como ele diz. Mas na mente. É uma hipótese.

O fato é que Juveninho passou a semana inteira no YouTube assistindo a Dunham e seus bonecos. O terrorista morto Achmed, o super-herói Melvin e, sobretudo, o rabugento Walter, agora candidato a presidente. Os outros não eram legendados. Walter, na verdade, tampouco, mas a rabugice, explica Juveninho, é como o dinheiro: uma língua universal. Os rabugentos do mundo inteiro se entendem à menor arcada de sobrancelha. É quase um código Morse. Não há americano algum que ria de Walter antes de Juveninho. Ele teme se tornar um completo idiota. Mas continua.

Desde que foi entrevistado por Johnny Carson em seu mundialmente plagiado Tonight show, Jeff Dunham virou uma febre nos Estados Unidos. Participou de todos os programas de TV. Saiu dos pequenos clubes de stand-up comedy para os maiores teatros do país. Ganhou uma porção de prêmios de humor. Seus bordões, como o “I kill you!”, de Achmed, são tão repetidos por lá quanto os do Capitão Nascimento por aqui. Seu primeiro DVD, Arguing with myself, vendeu mais de 500 mil cópias não-piratas só em 2006. Outros estão a caminho. Juveninho conta tudo isso para quem chega perto dele. Em casa, foi direto ao ponto: “Mãe, quero ser ventríloquo”. Sua mãe achou que era carnaval. Perguntou quem ia ser a aurícula.

Foi mais um teste de Juveninho para saber a reação dos mortais diante de carreiras incertas. Ele não quer ser ventríloquo coisa nenhuma. Quer ser escritor. Publicar A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada, e procurar um grande amor entre as fãs. Pretende, como Jeff Dunham, trabalhar a vida inteira para fazer sucesso da noite para o dia. Mas enquanto trabalha a vida inteira ninguém o entende. Um médico não entende Juveninho. Um engenheiro não entende Juveninho. Um economista não entende Juveninho. Nem uma dona de casa entende Juveninho. Na idade de Juveninho, ele diz, todos já podiam freqüentar festas de Réveillon com 11 DJs. Ninguém vai entendê-lo enquanto não falar a língua universal. Jeff Dunham fala. Hoje, além de ingressos, vende camisetas, ímãs, chaveiros, bonecos e tudo isso que os americanos compram dos ídolos. Juveninho chega lá. Já tem os contatos de todas as sex shops. Só faltam os livros.

Sabe, Juveninho, que, na arte, só existem duas coisas importantes: dominar a técnica (de ser cativante) e ter algo a dizer. As menininhas, infelizmente, só vêm depois. (Quando vêm antes, ele diz, o artista se acomoda. Insiste que não é o seu caso). Todas as manhãs Juveninho abre os jornais e lê uma porção de sujeitos entendidos de uma porção de assuntos. Alguns até têm algo a dizer, mas não dominam a técnica. São chatos. Todas as noites Juveninho passa por Copacabana e dá uma olhadela nas exclusivas. Elas dominam a técnica, mas não têm nada a dizer. São ótimas. Não é isso, contudo, que Juveninho quer comprovar. Se não há ventríloquo no mundo tão bem-sucedido quanto Jeff Dunham, isto sim, é porque ele não só domina a técnica como também tem algo a dizer. Por isso Juveninho investe em si mesmo. Técnica e conteúdo. Se não tiver os dois, terá menos menininhas.

Aprendeu, Juveninho, com Schopenhauer, que nem a leitura nem a experiência podem substituir o pensamento. Não há um dia sequer que Juveninho não vá pensar no Coqueirão. Teme ficar defasado em relação a todos os grandes pensadores de lá. É duro manter o ritmo deles. Sua virilha segue com sinais de fadiga. Está cada dia mais caro o protetor solar. Mas Juveninho não desiste. Trabalha a mente e o corpo do jeito que pode. Precisa de uma aurícula morena para pular junto o carnaval.



Juveninho e o Réveillon
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 12 de Dezembro de 2007, às 15:13

Juveninho não sabe onde passar o Réveillon. Escolher aonde ir numa noite que só acontece uma vez por ano é muito difícil. Qualquer erro, e puf: só ano que vem. O sonho de Juveninho era estar presente em todas as festas da cidade ao mesmo tempo. Como a bateria da Mangueira. Como o DJ Marlboro. Como o Open Bar. Mas Juveninho não são trezentos. Juveninho só tem um, e tem horror a DJs. Não sabe por que os cientistas e os governos gastam tanto tempo e dinheiro com pesquisas de clonagem e células-tronco. Para Juveninho, os DJs têm a resposta há anos. Mas escondem.

A maior diversão de Juveninho nos últimos dias tem sido falar mal dos DJs e de todas as festas de Réveillon da cidade. Nenhuma noite no mundo, diz ele, vale 400 reais. Isto porque, dizem os amigos, ele não tem 400 reais. Se Juveninho tivesse 400 reais, seria o primeiro a pegar o bondinho da Urca para comer os “frios volantes” e os “quentes volantes” do bufê. Como não tem, fica maldizendo os volantes que, não satisfeitos em infestar o futebol, agora vêm contaminar nossa comida. Quanto menos volantes no mundo, segundo Juveninho, melhor. Um bufê na retranca não pode ser bom.

Juveninho tem passado dia e noite na internet procurando defeitos em cada evento. Nenhum vai ter um bufê de verdade. Só buffet. Se tivesse um show de balé, seria ballet. Essa gente é muito provinciana, ele diz. E adora uma exclusividade. Lounges exclusivos. Spas exclusivos. Wraps exclusivos. Tudo exclusivamente para duas mil pessoas. Juveninho, exclusive. Há até áreas exclusivas em festas exclusivas. Como o Espaço Lagoa, no Jockey, onde Juveninho só não é “bem-vindo” porque, no site, faltou o hífen. Já a Hípica fica numa das “áreas mais exclusivas e nobres da cidade”. Quando não é (só) exclusiva, é nobre. Juveninho passa por lá todo dia e não sabia disso. Para ele, só os banheiros deveriam ser exclusivos. Mas nunca são.

O site preferido de Juveninho é o do Réveillon do MAM. “Uma super produção [sic] jamais vista”. É verdade. Juveninho jamais viu superprodução separada. “A contage [sic] regressiva já começou!”. É verdade também. O eme já se foi. “Record [sic] absoluto de público”. O “e” foi junto. “Num dos locais mais nobres do Rio de Janeiro”. Mas não exclusivos. O MAM está por fora. Juveninho, aliás, contou 11(!) DJs no evento. Cada um com seu currículo. Coisas da arte moderna. Para ele, passar 8 horas com 11 DJs é pior que buffet na retranca. Para compensar, haverá uma “Bateria de escola de samba”. Só não se sabe qual. Eis o mundo encantado, segundo Juveninho, das festinhas de Réveillon. Onde bateria é tudo igual, e DJ é tudo diferente.

É de opinião, Juveninho, que o mundo e as pessoas andam ecléticos demais, laicos demais, gays demais. Que trilha sonora é como “buffet volante” ou bordel de luxo: você paga por toda uma variedade que não vai comer. Não vale a pena. Ver a bola gigante cair em Nova York deve ser melhor. Ouvir as doze badaladas em Madri deve ser melhor. Pior que 8 horas com 11 DJs, só a Avenida Paulista. Os amigos de Juveninho dizem que ele vai acabar em Copacabana. Que é a única noite do ano que Juveninho passa em Copacabana de graça. Ele não nega. É lá mesmo que se sente mais à vontade. Olhando de longe, ainda consegue distinguir de qual país é cada moça. Se cantar Auld Lang Syne, é inglesa. Se comer lentilha, é chilena. Se usar calcinha vermelha, é espanhola. Se usar amarela, é colombiana. Se não usar, é brasileira.

Juveninho não tem 400 reais. Mas reza a lenda que nunca abriu mão de uma exclusiva.



Ele e as viciadas
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 18 de Julho de 2007, às 12:51

Meu nome é Dercy. Gonçalves é a puta que pariu. O pau mais gostoso é o circuncidado. Toda mulher precisa chamar a atenção de alguma forma. A forma da bunda, dos seios, do abdômen. Eu queria ser reconhecida pela forma dos pés, então sempre deixo os pés de fora. Mas poucos homens dão valor aos nossos pés, então, por via das dúvidas, dou uma valorizada no resto. Tem mulher que se julga auto-suficiente, eu não, eu preciso de homem. E homem não tem que ser isso, nem aquilo, tem que ser homem. Ser homem é ser homem, só se aprende com uma mulher. Não com duas, nem com três: com uma.

Meu nome é Cleide. Gosto de homens assim-assado. Assim como o Richard Gere e assado lá na minha cama. Sou fogo. Não posso ver um homem bonito que quero logo dar pra ele. Alguns ficam com medo de mim. No início, todos, na verdade. Aí eu vi que homem não dá conta de mulher oferecida demais não. Homem também precisa de preliminar: se você disser “me come” no meio da rua, a maioria broxa. Não, eu nunca disse “me come” no meio da rua. Só na calçada.

Meu nome é Fátima. Gosto mesmo é de mulher. Nada contra homem, eu já tive uma porção, mas mulher que é bicho bom. Com mulher a gente pode ficar horas e horas nas carícias, os homens têm sempre aquela preocupação da coisa cair, não levantar nunca mais, as carícias na maioria das vezes são pura burocracia. Eu gosto é de gozar. E nunca fui muito boa nesse negócio de gozar com penetração. A maioria não é, você sabe. Muitas fingem. Eu não gosto de fingir. Com mulher, gozo bem mais. Tenho uma amiga que diz: “Gozar não é tudo”. Coitada dela. Casou com um idiota do mercado financeiro. Só deve gozar no bidê.

Meu nome é Zenaide. Eu me masturbo às segundas e quartas. Se ninguém me ligar, eu mesma ligo pra mim. Esses celulares novos são bem melhores que os antigos. A gente vai ficando mais exigente, né? Não vejo a hora de ter um I-phone. Uma amiga minha americana falou que é o melhor. Vibra uma barbaridade. Eu tenho medo de ficar viciada. Agora, preciso ligar de cinco a seis vezes pra conseguir falar com ela. Mas quando ela diz “alô”, nossa, aí é que você percebe que a coisa é boa.

Bom, eu sou circuncidado. Achei lindos os pés da Dercy. Quando uma mulher diz “me come”, eu como na hora. Com muitas carícias, porque mulher gosta mesmo é de gozar várias vezes. Eu não me masturbo. Prefiro encontrar uma voluntária. Ah, desculpe, meu nome é Juveninho. Mas meu novo apelido é I-phone.



Juveninho e suas órfãs
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sexta-Feira, 6 de Julho de 2007, às 12:57

Juveninho conheceu uma evangélica. Ela é linda de morrer. Isso dá uma tristeza profunda em Juveninho. Papo vai, papo vem, ela disse: “Sexo só depois do casamento”. Juveninho se despediu na hora: “Um beijo, tchau”. Crê, Juveninho, que a sinceridade está muito mais nas atitudes que nas palavras. Juveninho tem horror à hipocrisia. Nunca disse “obrigado” a um motorista de ônibus. Juveninho tem horror a motoristas de ônibus.

O pai da moça evangélica nunca deu bola pra ela. É como se ela fosse órfã de pai. A teoria de Juveninho é a seguinte: alguém disse à moça que “Deus é pai”, e ela acreditou. Só acha, Juveninho, que, como pai, Deus não devia cobrar dízimo, e sim pagar mesada. Se Deus pagasse mesada, Juveninho seria o maior evangélico de todos os tempos. A cada vez que o pastor gritasse “amém, igreja!”, ele gritaria “amém!” mais alto que a igreja inteira e o Pavarotti juntos.

É de opinião, Juveninho, que as órfãs estão muito mal assessoradas neste mundo. Outro dia, no calçadão, a menininha da flauta estava tocando “Aquarela”, do Toquinho e do Vinícius. Ela, que sempre tocava “O mundo é um moinho”, do Cartola. Bossa nova, pensou Juveninho, deve render mais esmola que samba. Então Juveninho chegou perto dela e gritou: “Sua vendida!”. A menina quase engoliu a flauta. Aquilo sensibilizou Juveninho, que logo pediu desculpa. Notou que estava descontando nela a raiva da outra. Deixou cinqüenta centavos. Nunca pagou tão caro por uma bossa nova.

Para Juveninho, toda moça cujo pai não lhe dá bola deveria ir atrás do pai. Como nas novelas. E perdoá-lo. As moças, diz Juveninho, vêem novela e não aprendem nada. É preciso, segundo ele, sentar o pai numa cadeira e obrigá-lo a saber o básico sobre sua vida: estudo, trabalho, idade, esporte, rotina, viagens e namorado - este, sem maiores detalhes, sobretudo se o namorado for Juveninho. Outro dia, Juveninho soube que vai abrir uma Eclectic no Centro com segundo andar só de terninho. É o tipo do anseio que um pai precisa ouvir de sua filha: “Pai, finalmente vai abrir uma Eclectic no Centro, e você não sabe da maior: com segundo andar só de terninho!”. O mundo seria melhor se os pais soubessem do segundo andar só de terninho. Juveninho, contudo, não gosta de mulher de terno.

Há três tipos básicos, ensina Juveninho, de órfãs de pai: uma - a mais comum - só quer colo e atenção; outra só quer louvar ao Senhor; outra só quer tocar bossa nova. Juveninho não desiste de nenhuma. Manda todas procurarem pelo pai verdadeiro e, na falta de um, escolherem um senhor de idade para falar sobre terninhos. A curto prazo, porém, Juveninho admite ter mais chances com a menininha da flauta. Domingo que vem, vai andar pelo calçadão de novo. Dizem as más línguas que ele já decorou a letra de “Aquarela”.



Juveninho e a religião [proposta de comercial]
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Segunda-Feira, 5 de Marco de 2007, às 13:26

Residência de americanos, EUA – INT./NOITE
Juveninho/ Namorada americana/ Irmã caçula da namorada/ Irmão mais velho da namorada com sua esposa/ Casal de futuros sogros

À mesa de jantar, antes de começarem a comer.

SOGRO (em inglês): Então, Juveninho, você pode puxar a reza?

NAMORADA (em inglês): Pai, ele é tímido…

SOGRA (em inglês): Deixe o menino em paz, meu amor. (Cochichando) A gente nem sabe se existe esse hábito no país dele.

IRMÃO (em inglês): Claro que existe, mãe! O Brasil é um país muito religioso. Deu pra ver na nossa lua-de-mel, não foi, amor?

A esposa do irmão coloca as mãos ao alto, educadamente, como quem prefere não se meter na discussão.

SOGRO (em inglês, amenizando): Ele pode rezar em português, caso se sinta mais � vontade.

IRMÃ CAÇULA (em inglês): Oba! Português!

NAMORADA (em inglês): Meu amor, você não precisa…

JUVENINHO (interrompendo, gentil): Ok, ok.

Todos se dão as mãos e fecham os olhos.

JUVENINHO (em português, sério e comovido, em ritmo de Pai Nosso): Uma vez Flamengo, sempre Flamengo, Flamengo sempre eu hei de ser… É o meu maior prazer, vê-lo brilhar, seja na terra, seja no mar… Vencer, vencer, vencer… Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer. Amém.

TODOS (em inglês): Amém.

Tela rubro-negra com os dizeres:

VOZ EM OFF: “Flamengo: muito mais que um clube, uma religião.”

À mesa de jantar, todos soltam carinhosamente as mãos.

SOGRO (em inglês): Preciso aprender essa.

A namorada, orgulhosa, passa a mão nos ombros de Juveninho.

Todos começam a comer.



Juveninho e o carnaval
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 28 de Fevereiro de 2007, às 13:28

Juveninho não quer falar de carnaval. Passou, passou. Morreu. Puf, como diria o Jack, de Sideways. Juveninho adora Sideways. Queria entender de alguma coisa tanto quanto o Miles de vinho. Mulheres gostam de especialistas, ele diz. Não importa o assunto, é o eterno fetiche pelo professor. Se você souber ensinar a uma mulher tudo sobre a marcha dos pingüins, está feito. É só não desmunhecar.

Juveninho não quer falar de carnaval, mas dele tirou uma importante conclusão: a vida já é muito difícil; logo, a mulher tem que ser fácil. Depois de uma certa idade - ele ensina às amigas - o homem inteligente e trabalhador não tem mais forças para gastar com a conquista, não tem mais tempo para colocar os desafios no lugar errado. A mulher difícil, portanto, perde bons partidos por pura vaidade. Ao que as amigas desconfiam: Juveninho passou o carnaval na lisura.

Há, contudo, quem diga ter visto Juveninho com uma ruiva no Me Esquece; há quem diga ter visto Juveninho com uma loira no Céu na Terra; há quem diga ter visto Juveninho com uma mulata no Boitatá. Sobre a ruiva, ele não quer falar. Puf. Sobre a loira, ele não quer falar. Puf. Sobre a mulata, se insistirem, ele fala. Juveninho não é de fazer doce, só não gosta que lhe perguntem e não ouçam a resposta. Como sua mãe: “Vai à praia, meu filho?” “Não.” “Passa protetor, hein”. Então primeiro se assegura da atenção dos interlocutores. Todos aí? Ótimo.

Não era mulata. Era crioula. Assim se disse. E não foi no Boitatá; Juveninho a conheceu no Bola Preta. Usava a camisa “Sou bola”, mas era magra. E usava uma espécie de biquíni jeans. Disse que morava no posto seis, em Copacabana, de modo que Juveninho ficou na dúvida se ela morava ou fazia ponto. Até que a multidão prensou os dois sobre um tapume da Rio Branco, e o abraço involuntário se tornou um beijo voluntário e suculento. Por sorte, algumas moças do Coqueirão passavam por ali na hora e viram o que Juveninho chama de amostra grátis da miscigenação carnavalesca. É bom que elas saibam: Juveninho gosta da cousa quente.

Mas e aí, perguntam os amigos, já ligou? Ele apenas sorri. (Ok, Juveninho gosta de um doce.) Afinal, não pode adiantar capítulos de A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada. Todo especialista deve usar seus conhecimentos para fins específicos. Ter objetivos, ele diz. Com as mulheres, a cama. Com os homens, vender livros. Quem faz as coisas só para aparecer, segundo ele, é viado enrustido. Juveninho conhece vários. São ciumentos, vítimas do mundo, reclamam sua atenção, acham que tudo que é seu é deles também. Juveninho os trata com a devida indiferença, “a essência da desumanidade”, como aprendeu com Shaw, porque ser desumano é fundamental, ainda mais no carnaval.

Só espera que eles não o sigam por aí. Juveninho acaba de sair para o posto seis e, naquela dúvida, levou um dinheirinho a mais.



Juveninho e Rocky Balboa
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quinta-Feira, 15 de Fevereiro de 2007, às 13:29

Juveninho foi ao cinema sozinho, porque sabia que ia chorar do início ao fim. E não pega bem chorar do início ao fim em filme do Stallone. Mas Juveninho chorou do início ao fim. Sorte dele que ninguém viu. Ao término do trailer, já tinha comido a pipoca toda, o que facilitou um pouco o choro. Pipoca e lágrima não combinam muito, ele diz. A não ser que a pipoca seja doce.

De antemão, Juveninho sentiu falta de Thalia Shire, que só aparece em imagens de arquivo. Há quem diga que Thalia Shire nunca fez nada de importante além de Rocky e O poderoso chefão. Gente idiota. Para Juveninho, quem fez Rocky e O poderoso chefão não precisa fazer mais nada na vida. Ação de graças, presente de Natal, cartão de aniversário, churrasco para os sogros – nada. Nem ameaçar pagar a conta no primeiro encontro. Quando alguém se julga muito importante, Juveninho pergunta: você fez Rocky e O poderoso chefão? Ah, então cala a boca.

Agora, o filho do Rocky não lida muito bem com o peso de ser filho do Rocky. Esse negócio de ser filho de estrela, crê Juveninho, pode ter duas conseqüências ruins: a primeira, o sujeito culpar o genitor por não conseguir nada por si só (como no filme); a segunda, o sujeito achar que é o próprio genitor, a própria estrela. Em ambos os casos, vive-se à sombra do dito-cujo, numa eterna insegurança disfarçada. Sabendo-se uma futura estrela, Juveninho já sabe o que fazer com seus filhos. Se forem do primeiro caso, vai decorar o discurso impecável de Rocky Balboa. (Para isso existem dvd e YouTube, ele diz. Para decorar as falas boas.) Se forem do segundo, perguntará: ô moleque, você fez Rocky e O poderoso chefão? Ah…

As tartarugas do Rocky podem tirar onda; seus filhos, não. Dizem que tartarugas vivem muito tempo, de modo que Juveninho ficou pensando se aquelas eram as mesmas do primeiro filme. Aquelas para as quais Rocky disse, machucado: “Isso tudo é culpa de vocês. Se dançassem e cantassem, eu não estaria lutando”. Algo assim. Juveninho esqueceu todas as frases decoradas dos filmes anteriores - com exceção de “Adrian! Adrian! Adrian!” - depois da naticélebre frase do último, quando Rocky aponta o próprio peito e justifica ao velho Paulie seu retorno ao ringue: “There are some things in the basement”. Não há mais o que explicar, não é? Há algumas coisas no porão. Simples. Preciso. Multiuso. Rocky. Agora, quando vai à praia segunda-feira, Juveninho repete: “There are some things in the basement”.

Tudo que se faz de “errado” na vida, pensa Juveninho, também se acumula no porão. A diferença está entre os que deixam tudo lá e os que fazem daquilo alguma coisa. De modo que se revolta, Juveninho, quando alguém critica Stallone por sua carreira desastrosa. Ele fez Rocky. Escreveu, atuou e dirigiu. É como o Clint Eastwood: melhor passar 180 anos fazendo porcarias de caubói para um dia dirigir Sobre meninos e lobos e Menina de ouro do que ser sempre eficiente, como a Meryl Streep, e não ter uma obra-prima. É o que pensa Juveninho sobre suas experiências amorosas: delas sairá o best-seller A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada. Cada um com seu porão, ele diz. E que não venham encher o dele.

Ao sair do cinema, meio emocionado, meio triste com o fim de Rocky, Juveninho atinou que, no porão de Stallone, ainda tem material para Rambo IV. Por sorte, pensou ele, Stallone não fez O poderoso chefão.



Juveninho e as moças do Coqueirão
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 6 de Fevereiro de 2007, às 13:30

Juveninho, depois de anos (mentira, meses), conseguiu ir à praia numa segunda-feira. Não estava mesmo dando certo esse negócio de malhar, jogar bola, foder e trabalhar – o corpo tem limites -, de modo que Juveninho cortou o trabalho. Nessa vida, ele diz, é preciso saber renunciar. Agora, as moças do Coqueirão não lhe saem da cabeça. São elas a maior prova de que é possível ser linda e tatuada ao mesmo tempo.

Qual será o nome daquela de nádegas enxutas e canga amarela com bolinha rosa? Onde terá se machucado a loirinha que manca com esparadrapo no dedão? Como ela ousa não lhe apresentar sua amiga morena, tão morenamente graciosa que Juveninho nem sequer dela guardou outra identificação senão sua morenice? Onde morará aquela, quase mulata, de biquíni florido, que se contorce toda para dar de chilena na altinha? (E, aliás: falará ela “altinha” ou “altinho”? “Adedanha” ou “adedonha”? “Altinho”, crê Juveninho, é da mesma família de “adedonha”. Ser-lhe-ia, portanto, um alívio se ela falasse “altinha”.)

Há qualquer coisa na praia de segunda-feira que deixa as moças mais lindas que o normal. Talvez porque neste dia, mais do que nunca, ir à praia é uma forma de indiferença - de protesto, quiçá. Dane-se o mundo. Vivam as cadeiras, as barracas, os esparadrapos nos dedões. Nossas escolhas, reflete Juveninho, muitas vezes são também formas de protesto. “Pequena Miss Sunshine”, por exemplo, ele torce para que ganhe o Oscar, simplesmente porque se trata de um filme genialmente simples. Admira, Juveninho, a simplicidade, o minimalismo na arte, o tudo dito com tão pouco, ao contrário dos excessos estéticos de sempre. Mas adorou “Os infiltrados” (ah, lembra ele, a cena do silêncio ao telefone: que aula de roteiro!).

Talvez, de fato, as escolhas feitas mais como forma de protesto do que por gosto pessoal não se sustentem por muito tempo. Sabe essas moças que namoram um dinamarquês? Não um dinamarquês qualquer, estamos falando de um dinamarquês que mora na Dinamarca. Sabe? Juveninho não tem dúvidas: elas não escolheram – protestaram. É como se dissessem assim: “Estão vendo, pobres e infelizes compatriotas? Vocês, com suas peles bronzeadas, disponibilidades integrais e ingressos do Maracanã, não são suficientes para mim. Meu ideal está em outro planeta. Passem bem”. Não adianta, diz Juveninho aos amigos: é o preço que a gente paga por ser concreto demais, humano demais, real demais para elas. Ao que os amigos suspeitam: Juveninho foi trocado por um dinamarquês.

Não tendo jamais se apaixonado por gringa alguma, Juveninho – sempre honesto com os sentimentos alheios – só as utiliza como pesquisa de campo para seu primeiro romance: A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada. Pesquisa na qual pretende incluir as moças do Coqueirão. Para não correr riscos de interromper precocemente sua obra, já até decidiu: deixará a morena por último.


Juveninho e as moças do seu tempo
por Felipe Moura Brasil (Pim) - Segunda-Feira, 22 de Janeiro de 2007, às 13:32

Juveninho cresceu - e já há quem o chame de Juvenal. (Mentira. Não há. Mas Juveninho cresceu.) Seu maior aprendizado depois de grande: a arte de dizer não. Hoje, nas calçadas, recusa todos os panfletos. Quem os aceita, crê Juveninho, ainda não faz certas coisas de adulto. A menos que os panfletos sejam de prédio novo no Recreio, claro. Ele não diz por quê, mas os amigos suspeitam de uma tara secreta pelas moças do sinal. Certa vez, na Lagoa-Barra, uma delas o reconheceu.

Não se diz, Juveninho, nem romântico, nem cafajeste. Acredita, aliás, que todos os cafajestes são românticos. E que todos os românticos são broxas. Nunca confiou em quem se diz alguma coisa, mas, se tivesse que escolher, dizer-se-ia cafajeste. Sabe que é dos cafajestes que as moças gostam: Vinícius de Moraes, Chico Buarque, essa turma. Está seguro, Juveninho, de que não há palavras mais cafajestes que “A beleza que vem da tristeza de se saber mulher/Feita apenas para amar/Para viver pelo seu amor/E para ser só perdão”. O sonho de Juveninho: convidar uma moça do seu tempo para “ser só perdão”.

Não para isso, adiciona as fotogênicas do orkut no messenger. Puxa assunto com todas ao mesmo tempo. Diverte-se. Pensa, Juveninho, que a pior coisa que pode acontecer à personalidade de uma mulher é ser fotogênica. Quer ter três filhas. Sua maior torcida: que, nas fotos, todas saiam com cara de bunda. Se depender dele, dizem os amigos, o sucesso está garantido. Sucesso não é importante, responde Juveninho, evasivo. Reencontrou, no cinema, uma dessas amigas de adolescência, mais atraentes que talentosas, das quais se ouvem falar pelos jornais depois de anos. Seu maior arrependimento: ter dito “parabéns pelo sucesso”. Se fosse para parabenizar alguém pelo gosto dos outros, debate-se ele, era melhor aplaudir o inventor das passas. Juveninho odeia passas.

A maior mentira da humanidade, segundo Juveninho, é o “tudo bem”. Ninguém está com “tudo” bem, ele diz. No mínimo, o papagaio está doente. Quando alguém lhe pergunta se está “tudo bem”, Juveninho responde, enfático: “Estou bem”. Mas admira a sinceridade muda dos que se perguntam sem se responderem: “Tudo bem?”, “tudo bem?”, e vida que segue. Para mendigos e flanelinhas, contudo, Juveninho diz “Tenho não”, mesmo quando tem sim. No fundo, acha, Juveninho, que algumas mentiras são fundamentais para a civilização - mas só as que ele utiliza - e que algumas perguntas não merecem respostas - lista da qual exclui convites para se tomar um sorvete, sobretudo se de flocos.

Do amor, Juveninho não espera mais do que carinho, conforto e segurança. (Mentira. Espera. Mas gosta de carinho, conforto e segurança.) É sensível, Juveninho, à mulher higiênica – aquela que limpa o vaso antes de utilizá-lo – e à mulher solidária – aquela que limpa depois. Na cama: mais à segunda do que à primeira. A experiência já o permite reconhecê-las sem a necessidade de acompanhá-las ao toalete. É de opinião, Juveninho, que quanto mais em bando se anda, menos em cama se mexe. (O que serve para ambos os sexos, ele avisa, embora o masculino não lhe interesse.) Seu lugar favorito para fazer amor: o quarto da empregada. Não necessariamente com a empregada. Juveninho não limita seu público, e só tem, na verdade, duas considerações a fazer. A primeira: que seja mulher. E a segunda: que não o chame de “Ju”.

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