Resenhas

Eis algumas críticas literárias de Felipe Moura Brasil - anteriores à criação do Blog do Pim -, todas elas publicadas na (hoje extinta) versão impressa do Jornal do Brasil, no período 2008-2009.

Destaque para Fôlego, de Tim Winton, uma das melhores obras da recente literatura mundial.

LIVROS: 

- Fôlego, de Tim Winton.
- Homem no escuro, de Paul Auster.
- A primeira mulher, de Miguel Sanches Neto.
- Um livro em fuga, de Edgard Telles Ribeiro.
- O ponto da partida, de Fernando Molica.
- Paz na terra entre os monstros, de André de Leones.
- O livro dos nomes, de Maria Esther Maciel.


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[Fôlego, de Tim Winton]

O jovem e o mar
Mais aclamado dos escritores australianos da atualidade, Tim Winton narra, em ‘Fôlego’, saga de um surfista adolescente na Oceania dos anos 1970

por Felipe Moura Brasil (Pim)

Quem não pega onda, espere só um segundo. Porque, se alguém aí pega, melhor remar já para a livraria: mais raro que o surf em primeiro plano – como paixão central de um livro de ficção – só mesmo esse livro ser uma beleza. Agora sim os demais: quem estiver cansado de jogos de linguagem, em busca de enredo ágil, escrito com sutileza e fluência, sem medo da emoção – “o humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade”, como escreveu Bukowski sobre Pergunte ao pó, de John Fante – terá no romance Fôlego, do australiano Tim Winton, de 48 anos, o exemplo de uma narrativa que desliza com elegância por todas as ondas.

O olhar adulto – quatro décadas depois – do paramédico Bruce Pike, o “Pikelet”, sobre a própria adolescência na Austrália dos anos 1970, entre a apatia dos habitantes de sua cidade natal (incluindo os pais) e o fascínio com a descoberta do surf nas redondezas, ao mesmo tempo que confere maturidade às lembranças mais extraordinárias – e elas são muitas – também deixa transparecer com precisão as hesitações e excitações da época. Na literatura enxuta do premiado Tim Winton – autor de contos, romances, ensaios e livros infanto-juvenis adorados por lá e desconhecidos por aqui – os silêncios dão a dimensão e a graça dos personagens, tanto naquilo que disfarçam em diálogos quanto nos momentos de dúvida, raiva e entrega.

Amigos opostos
É assim que Pikelet vai se revelando e (re)descobrindo seus limites e os dos outros, num quarteto que inclui o corajoso e inconsequente amigo Loonie, o guru místico do surf Sando, e a mal-humorada e misteriosa esposa dele, Eva. Com temperamentos opostos, mas gostos em comum, Pikelet e Loonie crescem entre desafios declarados e secretos, e cada vez mais arriscados (como prender a respiração e enfrentar ondas gigantes), naquela linha entre a amizade e a competição que fica ainda mais tênue quando passam a disputar a atenção de Sando, o melhor surfista do pedaço. Contra a vontade dos pais, os garotos frequentam sua casa de madeira, onde uma Kombi velha, um cachorro vermelho, pranchas novas, muita maconha e brigas com Eva compõem o exotismo que os encanta e fisga para além do esporte.

Cada vez que Pikelet recua – ou encolhe os ombros, sem saber reagir – ali está um menino a procura de si mesmo, tateando aventuras e relações como quem avalia em que ponto a coragem vira imprudência; a sabedoria, vaidade; a rejeição, autodesprezo. Como em muitos romances de formação, o protagonista tenta se situar no mundo à medida que enfrenta o medo e se rebela contra os padrões, mas, em Fôlego, é apenas ao mergulhar de cabeça no extremo oposto – simbolizado pela adrenalina do surf – que ele concebe outras arestas com que se preocupar, algumas das quais, uma vez rompidas, nunca mais se recompõem. Inebriado pelo poder de fazer tão cedo algo tão belo e viril, Pikelet vê seu desconforto se estender do tédio da rotina sem as ondas aos prazeres e riscos da vida sobre elas.

Ritos de passagem
Uma vida cujo estilo lhe impõe (quase) à força os ritos de passagem da juventude, oferecendo as fontes de comparação que faltavam entre o menino que ele foi e o homem que ele quer ser. Da casa dos pais à de Sando, das garotas a Eva, dos conterrâneos a Loonie, da escola ao mar, da monotonia à maluquice, da solidão à liberdade, dos livros de aventuras à vivência delas, há um adulto em (re)construção – atrás de um sentido – e um autor em estado de graça. O pouco que sabemos do Pikelet de hoje já tem peso suficiente para expor não só o abalo que sua adolescência alternativa produziu, mas também o impacto da história de Tim Winton. Se, por um lado, ele lembra Hemingway, com o culto natural e a narrativa mareada de leveza, por outro usa o surf como Nick Hornby usou o rock em Alta fidelidade, como uma paixão que, manifestada em detalhes, fala mais sobre os personagens do que sobre o objeto em si.

Daí sua habilidade – rara em uma literatura contemporânea como, por exemplo, a brasileira – em atingir tanto a surfistas quanto a meros banhistas literários, de novos a calejados leitores, dos jovens aos antigos. Oscilando entre o clássico e o atual, entre maturidade e inocência, sofisticando por dentro o atrativo popular, em pleno domínio da difícil arte de escrever fácil, Tim Winton dá a Fôlego o tom preciso para um romance de alto nível, acessível e cativante do início ao fim. Holden Caulfield, no clássico O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger, dizia que “bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler fica querendo ser um grande amigo do autor, para se poder telefonar para ele toda vez que der vontade”. Pois aí está um capaz de deixar muito marmanjo, no mínimo, querendo mandar um e-mail.


[Homem no escuro, de Paul Auster]

Segredos de família em tempos de guerra
por Felipe Moura Brasil (Pim)

Há tantos relatos familiares em Homem no escuro que, lá pelo fim do livro, é o mero figurante de um deles quem diz talvez a única frase capaz de uni-los de alguma forma: “Não existe no mundo nenhuma família sem segredos e sem esqueletos no armário”. Some-se a ela o encanto com que o narrador August Brill esquadrinha – entre outros – o filme Era uma vez em Tóquio – com toda a crueza das relações entre pais, filhos e nora – e assim se terá uma idéia do panorama humano (e íntimo) bem esmiuçado por Paul Auster numa parte de seu novo romance: a parte em que Brill, um escritor viúvo e insone (cuja perna se esfacelou num acidente), relembra não só seu passado sofrido como também o da filha divorciada e da neta viúva, com as quais divide a casa. (E outros tantos passados, diga-se…)

Brill o faz aos poucos, com relutância, pois é justamente para tentar fugir dos “esqueletos no armário” que, noite após noite, imagina a história de Owen Brick, um mágico de festa transportado a uma realidade paralela em que não houve o 11 de Setembro nem a Guerra do Iraque, mas em que ocorre nos Estados Unidos a segunda Guerra de Secessão. Nesta outra parte do livro – que Auster sabiamente intercala e conjuga com a original – Brick é incumbido de matar o próprio Brill, o homem que, deitado em sua cama, criou aquele país alternativo onde, através de Brick, pode exorcizar seus erros e infelicidades, e até realizar fantasias represadas, como o encontro com uma antiga paixão de escola, hoje integrante da quadrilha que o quer assassino.

Por mais fantástico (insano?) que o enredo possa parecer, a habilidade de Auster em manejar dois universos e biografar uma porção de personagens sem confundir a cabeça do leitor é notável e, até certo ponto, instigante, mas não passa daí. Homem no escuro revela suas falhas à medida que se repete e se desinteressa de grandes soluções narrativas, como se não fizesse a menor questão de chegar a algum lugar (difícil conter a decepção, por exemplo, com o fato de Brick e sua missão serem abortados sem maiores explicações). Se na realidade paralela há muito movimento e fortes ações, a história real – mais profunda sob o ponto de vista humano – nutre-se tão somente de lembranças pontuais e diálogos dentro de casa. Assim, o que sobra numa parte do romance acaba não compensando o que falta na outra.

Ao soar como fonte de inspiração e ponto de partida na subdivisão da obra, a política americana, presente nos últimos livros de Auster, tem agora um papel mais explícito, mas, talvez por isso mesmo, mais decepcionante. A investigação do conflito entre o Estado e o indivíduo, ensaiado por ele no ótimo Leviatã, com a arbitrariedade de um incidindo sobre a estabilidade do outro, não consegue ultrapassar aqui a superficialidade. Embora as histórias das vítimas de diversos episódios de guerra (a invasão alemã na Bélgica, os nazistas mandando judeus a campos de concentração, um espião francês fingindo apoio aos soviéticos, e outros tantos) despertem uma comoção natural – ainda mais com os traumas familiares adjacentes – não é enumerá-las aos montes o que produz um bom romance ou uma reflexão política consistente.

Preparado sutilmente no início por uma conversa sobre cinema, o belíssimo diálogo final entre neta e avô, desenterrando os amores, as dores e os pecados da família, talvez valha a leitura inteira, mas decerto não desfaz a sensação de que Homem no escuro são apenas dois livros imperfeitos: um que não acabou, e um que não começou.


[A primeira mulher, de Miguel Sanches Neto]

De como falar de tudo e de todos num romance
Novo livro de Miguel Sanches Neto vale por uma aula nada teórica

por Felipe Moura Brasil (Pim)

Professor de literatura como Miguel Sanches Neto, o narrador-protagonista de A primeira mulher critica a produção atual dos escritores no Brasil e no mundo: “Eu imaginava uma literatura contemporânea que fosse tão profunda como os grandes livros da modernidade, mas via, a cada lançamento, (…) um sussurro tímido ou uma perversão constrangedora.” É natural supor – exigir, quem sabe - que uma frase como essa venha dentro de um romance, no mínimo, acima da média. E vem. Vem num romance bem acima da média, como o é, de fato, seu autor, não à toa incensado como o melhor de sua geração.

Depois da ficção memorialística de Chove sobre minha infância e do viés histórico de Um amor anarquista, Miguel Sanches mostra sua habilidade de aproveitar cada brecha de um enredo para inferir sobre questões literárias, amorosas, sexuais, cotidianas, familiares, sociais, políticas e universitárias, sem jamais soar didático ou exagerado, amalgamando os comentários dos personagens à história de tal forma que é difícil saber se até as observações mais banais ganham nela um significado maior, ou se a história e os personagens é que ganham em profundidade a partir das reflexões que suscitam. É desta generosidade recíproca que se alimenta a fluidez da narrativa, oferecendo ao leitor uma rica diversidade de situações divertidas e emocionantes, das quais sempre sobra algum valor universal.

A pedido de uma ex-namorada da juventude, hoje candidata a prefeita, um solteirão de 40 anos - dom Juan de suas alunas de 20… - sai do isolamento dos livros para investigar extorsões da campanha eleitoral, e tem todo o seu desconforto existencial destrinchado à medida que ele mesmo se esforça para descobrir seu lugar no espaço e no tempo. A dúvida entre dois amores (por uma das jovens alunas e pela ex-namorada agora madura), sobretudo entre quem simboliza o passado e quem o presente, demarca a ambivalência contra a qual suas novas experiências lhe fazem lutar, transitando da investigação “policial” – no (sub)mundo da política brasileira - para a sua própria – pessoal, interior e familiar – , numa amplitude que, muito bem costurada, permite ao autor conjugar os mais variados ingredientes.

É assim que nascem pensamentos e diálogos certeiros sobre o que as pessoas vão fazer num velório, estudantes “louquinhas” de psicologia, como tratar universitárias atraentes, a hipocrisia do Natal, mulheres que enfeiam depois do casamento, serviço de acompanhantes sem porteiro, o vício de ler o noticiário, a cidade vazia no verão, comida a quilo, caso de amor com o carro, botecos, o cheiro das mulheres belas, nudez na internet, virose, imediatismo, compra e venda de gente, o poder da palavra mãe, as relações entre higiene e crime, político e churrascaria, arma e sexo, amor e desejo, pais e filhos, religião e realidade, patrões e empregados, professores e alunos, e até masturbação de mendigo.

Em toda essa dispersão contemporânea, o narrador consegue identificar e reordenar fatos e simbolismos capazes de apontar uma saída para sua solidão, o que, ao mesmo tempo em que o obriga a revisitar seu passado, vai dando a ele e ao livro uma unicidade forte e louvável. E não só por entremear os capítulos com uma interpretação sensual do poema “Cântico dos cânticos”, Miguel Sanches confere à sua obra “uma dose essencial de poesia”. Mas é que, como queria – e, aliás, fez – Edgard Telles Ribeiro, no belíssimo Um livro em fuga, ele conseguiu escrever “um livro que desse uma volta sobre si mesmo e voltasse ao ponto de partida transfigurado. E que, nesse processo, oscilasse entre o trágico e o cômico, sem excessos”. Menos teórica que literária – como prefere o professor -, eis uma aula de literatura.


[Um livro em fuga, de Edgard Telles Ribeiro]

A perda do amor numa fuga real e metafórica
Edgard Telles Ribeiro narra a vida de um diplomata depois da separação

por Felipe Moura Brasil (Pim)

A certa altura do premiado romance A viagem vertical, do espanhol Enrique Vila-Matas, o protagonista Federico Mayol, de 77 anos, abandonado pela mulher, procura animar-se dizendo que “a melhor preparação para suportar a vida talvez fosse aprender a arte de romper com tudo o que nos parece atraente e imprescindível, a melhor preparação talvez fosse conceber a vida – mesmo que ela tivesse entrado em sua última etapa, ou precisamente por isso – como uma série de rupturas essenciais com tudo, converter-se num perito em despedidas”.

Diplomata e escritor como Edgard Telles Ribeiro, o protagonista sessentão de Um livro em fuga está longe de ser um perito em despedidas, mas decerto que vive, também após o abandono da mulher, um novo e árduo período de “preparação para suportar a vida” – que inclui, no caso, não uma viagem ao léu, mas a aceitação do desígnio da ONU para trabalhar como seu representante num país asiático longínquo, numa “fuga real e metafórica”, nas palavras do narrador: “Como se eu buscasse no exotismo, ou no insólito, uma solução para meu desamparo”. Um desamparo, aliás, quase adjacente ao nomadismo da carreira diplomática.

E se é justamente a profissão errante ou desamparada o que ele tem em comum com artistas, embaixadores, jornalistas, princesas, donos de hotéis e produtores culturais de seu meio social estrangeiro, o que o diferencia e dá margem a “revelações inesperadas” é seu “outro ofício” – o de escritor, vagando pelo mundo em busca de personagens fascinantes, com os quais vai tecendo diálogos cada vez mais íntimos. Assim acontece com Nguon, um jovem diplomata que carrega a culpa de, ainda criança, ter denunciado o pai à repressão; e com Pierre, um gerente de hotel que perde a mãe, uma senhora culta com quem conversavam sobre literatura – esta paixão, afinal, que ele descobre render amizades fortes mesmo depois de certa idade.

Ao contrário do pessimismo irônico de Enrique Vila-Matas, Edgard Telles Ribeiro incute a seu narrador (e ao livro) uma espécie de melancolia contida, carregada de uma leveza reflexiva - e, aos poucos, esperançosa - capaz de nos manter um sorriso sempre iminente, mesmo quando vêm à tona - ora independentes, ora casuísticas - as mais nefastas tragédias pessoais e mundiais, como o tsunami ou os “regimes fechados” de países vizinhos. Em visitas esporádicas ao Brasil, os emocionantes reencontros com a mãe enferma, com irmãos e filhos, com um velho amigo cujos pais estão igualmente idosos, com colegas acadêmicos, com uma antiga namorada intermitente, e com a ex-mulher, claro, completam esta coletânea de paisagens e situações onde o sofrimento e a felicidade insistem em coabitar, mas nas quais o olhar maduro de Edgard Telles Ribeiro – realçado pela concisão e pelos cortes quase cinematográficos da narrativa - pinça sempre o ponto exato de ternura.

Com a mesma serenidade de que se utiliza para abrir as portas de suas relações internacionais, plantando em seus interlocutores “uma semente inicial de confiança e amizade”, para só depois “tocar em temas que eles em geral evitam”, o protagonista também nos envolve “de forma lenta e inevitável” até extrair, de uma realidade inicialmente distante, não só reflexões precisas sobre a velhice, mas um belíssimo panorama universal sobre as mais diversas perdas humanas: a da mulher amada, a dos pais por motivos de saúde, a da disponibilidade de pessoas queridas, a da vizinhança num desastre natural, a da infância numa guerra fratricida, a das ilusões frente a um mundo que está se desfazendo – a perda, enfim, da margem, do amparo, da referência, de tudo que nos leva de volta à indefinição adolescente quanto ao futuro, sobretudo para quem já tem uma vida desenraizada por profissão.

Uma profissão de cujas experiências já se valeram autores brasileiros como Guimarães Rosa, João Cabral, Vinicius de Moraes, José Guilherme Merquior, Alberto da Costa e Silva e outros tantos - além de Clarice Lispector, por tabela, como esposa de Maury Gurgel Valente -, e da qual Telles Ribeiro retira boa parte da matéria-prima de Um livro em fuga, em que faz da literatura, não por acaso, a única âncora de um diplomata à deriva.


[O ponto da partida, de Fernando Molica]

A brutalidade tratada com humor
Ao som do violão de Nelson Cavaquinho, Fernando Molica narra desencanto de repórter

por Felipe Moura Brasil (Pim)

Jornalista experiente, de muitas redações, Fernando Molica é também um desses escritores que complicam o trabalho do resenhista. O ponto da partida, seu terceiro romance, é tão enxuto e amarrado, tão belo e verossímil, tão melancólico e engraçado, que, quando se vê, o livro já tomou as rédeas de qualquer discernimento literário mais específico, qualquer atenção aos truques narrativos, qualquer atino sobre forma e conteúdo capaz de guiar uma análise mais detalhada. E aí é preciso voltar.

É preciso voltar para saber como Ricardo Menezes – repórter cinqüentão, ex-militante de esquerda, antirubro-negro, chegado numa ronda pelos botecos do Rio e fã do samba sofrido de Nelson Cavaquinho – repensa sua carreira, sua cidade e sua família, enquanto apura mais um crime carioca, ali mesmo entre um corpo feminino esquartejado no Arpoador, metido num saco preto, de madrugada, e um viúvo incrédulo, sentado num banquinho, à beira da praia.

Sim, é diante da brutalidade que ele aciona seu mecanismo favorito de defesa (no caso, de fuga): relembrar os casos cômicos do antigo colega João Carniça – do tempo em que repórter não precisava escrever. Mas daí para o ódio à ex-mulher, aquela “deslumbrada” e “consumista”, uma advogada que levou – e “estragou” – seus filhos, como foi mesmo que Molica passou?

A narração em terceira pessoa, sorrateira e freqüentemente desviada à primeira para revelar os pensamentos de Ricardo, somada à linguagem de desabafo em mesa de bar (às vezes, literalmente, como no Jobi) e ao manejo de situações e tempos intercalados, impõe ao texto um ritmo leve e inescapável.

O que poderia resultar numa nostalgia para lá de macambúzia se converte, através do humor crítico do personagem, num divertido desencanto profissional e pessoal – ao qual a experiência do autor no ambiente jornalístico empresta a devida veracidade. Dele, não escapam os jovens editores dos cadernos de cultura – que não conhecem Guilherme de Brito, o maior parceiro de Nelson! – a filha gatinha do Leblon – que quer se embrenhar na Índia, numa “viagem profunda” com um tal de Hamiltinho – o filho “chato, conservador, careta, competente” – que escolhe sempre um candidato político oposto ao de Ricardo – e, claro, a “porca reacionária” da ex-mulher. Com cada um desses, ao longo da história, ele trava ao menos um diálogo explosivo, franco e, por isso mesmo, hilariante.

E é justamente ao culpar os outros pelas suas angústias que Ricardo vai revelando e sentindo suas fragilidades e omissões, e Molica vai traçando um paralelo entre as tragédias do personagem e as do Rio, desde a ditadura até o domínio do narcotráfico - temas familiares a seus dois primeiros romances, Notícias do Mirandão e Bandeira negra, amor. Isto sem jamais se eximir do enfoque humano e da capacidade de olhar as coisas de fora, escapando a qualquer caricatura, gênero ou reducionismo semelhante. Tudo que Ricardo tem de óbvio, teimoso e estereotipado é devidamente alfinetado pelos demais, levando-o também, ainda que aos solavancos, na direção de romper suas crisálidas.

Quem espera do crime uma investigação à la Luiz Alfredo Garcia-Roza (transposta de Copacabana para Ipanema); da crueza urbana e narrativa uma volúpia à la Rubem Fonseca; ou do desencanto familiar um certo lirismo à la Cristóvão Tezza (do belíssimo O filho eterno) seguirá apenas pistas falsas rumo ao universo próprio de Fernando Molica, em que tudo (”ficção e realidade, comédia e tragédia, humor e dor”, como apresenta Antônio Torres) se mistura em doses homeopáticas.

Quiçá, diga-se, como nos filmes argentinos de Juan José Campanella (de O filho da noiva), em especial O mesmo amor, a mesma chuva, que também acompanha, com ternura e graça – e com jovens editores igualmente arrogantes - o drama de um jornalista deslocado, em meio à crise da imprensa e do país.

Talvez agora, aliás, os cineastas brasileiros já tenham (com o perdão do trocadilho) O ponto da partida – e a trilha sonora, sem dúvida – para a versão brasileira. Um livro que, como um lindo samba de Nelson Cavaquinho ou uma boa história de João Carniça, será sempre gostoso de lembrar.


[Paz na terra entre os monstros, de André de Leones]

Um mundo em excesso de monstros quase iguais
Apesar de talentoso contista, André de Leones vira prisioneiro da repetição

por Felipe Moura Brasil (Pim)

É bastante freqüente que se descrevam antologias de contos de um ou de vários autores como “irregulares”, tendo em vista a qualidade diferenciada dos textos. Paz na terra entre os monstros (André de Leones. Record, 176 páginas, R$ 25) tem seus méritos, mas sofre do mal inverso. É regular demais. Tão regular que os personagens parecem os mesmos, as angústias as mesmas, os acontecimentos (raros) os mesmos, “a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim”. Ao se ver fechar o livro com um conto maior – a novela “Aneurisma” – tem-se a impressão de que o goiano André de Leones, de 28 anos, cansou de se repetir em historinhas avulsas (há, aliás, umas três pequeninas e irrelevantes, porque meros subprodutos das outras) e, finalmente, partiu para um vôo solo que tudo condensasse – mas já um pouco tarde.

“Tudo”, no caso, é a terra de “monstros” do autor (vencedor do Prêmio Sesc de 2005, com o romance Hoje está um dia morto): terra de gente – jovem, em maioria – já assolada por uma sincera preguiça de viver, desprovida de “fantasmas” capazes de estimular algum desejo de compreensão de si e do mundo (“Princípio efetivo da morte: os fantasmas dão o fora. É por onde a coisa começa”), e que urina, defeca, masturba-se, transa e goza, como se buscasse o prazer possível somente por vias fisiológicas.

A indiferença diante do outro e da morte percorre o livro inteiro, seja na garçonete que serve seu próprio assassino; na menina que diz pensar em pular pela janela enquanto a mãe folheia uma revista de homens nus; no órfão que nada sente à morte do pai e só preferia estar no lugar dele; no silêncio entre dois jovens amantes cujo amigo (e amante) em comum se matou aos 16; ou no rapaz (personagem da novela) prestes a morrer, que recusa o tratamento, e vai procurar consolo no “livro morto da mãe morta”, enquanto o pai, não vendo como ajudar, prefere fugir e se masturbar com fotos dela.

Faltam contrapontos
É verdade que, nos três últimos casos (contos), há uma mocinha – uma namorada – tentando chegar até a mente do sorumbático protagonista, resgatar sua fé nas coisas, alcançá-lo de alguma forma, nem que seja, digamos, por via anal – uma imagem literária, aliás, que está entre as melhores do livro, quando o sexo ganha uma significação maior do que fuga, despedida, conveniência ou excitação adolescente. Mas o esforço, tímido, fica sempre pelo caminho, condenado no máximo a um choro noturno, alheio que estão protagonistas e autor a qualquer interferência agressiva na cômoda espera do fim.

Assim como num besteirol o excesso de humor do conjunto tira o impacto da piada incidental, a gratuidade generalizada de Paz na terra entre os monstros tira o contrapeso necessário aos silêncios e desinteresses (de seres “nunca próximos o bastante”), os quais o texto, confessadamente, pretende destacar. Obcecado em “enxergar uma escrotidão desgraçada em tudo e todos”, “todos animais”, André de Leones acaba limitado ao vazio existencial de seus próprios personagens, não deixando entre eles qualquer voz narrativa que os vislumbre de fora com algum discernimento, que extraia de suas interações algo além de escatologias e sarcasmos, ou que ao menos se contraponha à inadequação geral com uma certa solidez.

Na novela final, ao analisar as imperfeições do romance publicado pela mãe – cuja história de um matador prestes a morrer se confunde com a dele – o protagonista aponta sua inaptidão para conhecer a fundo os personagens, e lembra: “A mãe se escusava dizendo que a idéia era essa mesmo”. Por inúmeras vezes (esta, inclusive), diretas ou indiretas (sobretudo pela análise do tal romance), o autor também soa como se utilizasse este recurso clássico de eximir-se, atenuar ou apenas assumir previamente a responsabilidade pelas limitações da obra, através da pura demonstração de autoconsciência – isto quando não tenta explicar a obra (“Ninguém veramente interessado em ninguém”, “Vozes se esborrachando gratuitas em tudo que é lado”).

O que sobra
As semelhanças (não só da novela, mas de todo o livro) com as limitações da mãe são óbvias: ela só queria “contar uma história”, ignorava “eventuais complicações”, deixava um “vazio em função de o cenário praticamente inexistir”, tudo era “provocativamente gratuito”, descrevia uma “rotina ancestral de tédio, amor cansado e tristeza” e, no fim das contas, “nenhuma epifania, apenas uma enorme e nunca verbalizada espera”.

Mas o que sobra, então? Ora, sobra um escritor talentoso, com um estilo próprio, calculadamente despojado, bem ritmado, polifônico, de humor intrínseco, alguns insights divertidos (o pai que parece um frigobar, um velório bem-sucedido, adolescentes no shopping), diálogos simples e fortes, cortes envolventes (para dar um close nos seios da garçonete, para fazer uma múltipla-escolha com o leitor, para mostrar uma cena que só será entendida depois), porém prisioneiro de um universo restrito e repetido, talvez atraente para jovens leitores, mas focado em relações humanas rasas e destacadas da realidade de qualquer cidade, época, geração, informação, ou algo mais propriamente autoral, que traga a André de Leones alguma particularidade para além da forma e do estilo em si.

Para tratar, afinal, só de Pequenas criaturas ou de Secreções, excreções e desatinos, a gente já tem um Rubem Fonseca.


[O livro dos nomes, de Maria Esther Maciel]

São bons personagens. Mas não é um romance
Autora mineira empilha 26 perfis supostamente relacionados

por Felipe Moura Brasil (Pim)

Pode parecer que uma obra intitulada O livro dos nomes, e dividida em 26 capítulos como “Antonio”, “Beatriz”, “Catarina” e assim, em ordem alfabética, até “Zenóbia” - todos iniciados com verbetes sobre as supostas origens de cada nome, e desenvolvidos com histórias particulares de pessoas comuns - seja tão somente uma coletânea de perfis resumidos, de biografias imaginárias, um almanaque de personagens possíveis a ser deixado na mesinha da sala para eventuais consultas. Pode parecer, e talvez seja. Daí que se compreenda a pressa em apresentar a nova ficção da mineira Maria Esther Maciel como mais do que isso, como um quebra-cabeça para o leitor, uma narrativa “elíptica” e “fragmentada”, “uma tapeçaria de relações humanas que pode muito bem” - tenta nos convencer a orelha - “ser chamada de romance”.

E não é que não possa. Se “a experiência que se aloja num nome às vezes pouco tem a ver com a pessoa real que o carrega”, como escreve a autora sobre a personagem Kelly, um gênero com o qual uma obra é (ou não) classificada às vezes tampouco tem a ver com aquilo que ela consegue despertar. Ao tentar ser e despertar tudo ao mesmo tempo, O livro dos nomes soa indeciso, e acaba sempre no meio do caminho.

Personagens demais
Se em As cidades invisíveis, de Italo Calvino, cada descrição (citadina) fazia parte de uma narrativa maior - a do viajante Marco Polo - aqui, a costura das descrições (humanas) se dá por dentro: cada personagem tem um enredo próprio que, em algum ponto, remete ao de outro. O problema é que, para um romance, há personagens demais, famílias demais e motivos de menos para se investigar noutros capítulos lacunas ou mistérios (também de menos) deixados em cada um. Não são pessoas discorrendo sobre a mesma história sob diferentes pontos de vista; são esboços de trajetórias individuais relacionadas por meros vínculos afetivos. Fica tudo mais fragmentário que elíptico. Mais pontual que circular. Mais almanaque que romance.

Maria Esther despeja vidas inteiras em cerca de cinco páginas (ou cinco meias-páginas), e aquilo que se apresenta como concisão - ou “retrato”, como quer Zenóbia - resulta denso, sim, mas insuficiente para gerar identificação, vivência ou expectativa. É como se ela conhecesse a fundo os personagens (cidadãos de Minas, também), mas nos negasse essa possibilidade a todo instante, sem oferecer um zoom, um diálogo entre eles, uma ação mais duradoura ou significativa da qual pudéssemos extrair interpretações variadas. O quebra-cabeça, assim, vira algo como a velha quadrilha de Drummond: “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”. No caso: Antônio é marido de Sílvia, que é mãe de Eugênia (que ama Jerônimo, que é casado com Ingrid), que é irmã de Vanessa (que é casada com Plínio), que é irmã de Ulisses, que se casa em Londres e nunca mais volta. Ou: Tenório é casado com Nise, que é mãe de Beatriz, que é irmã de Fausto, que é sobrinho de Odília, que é a irmã de Sílvia, que é casada com Antônio (lembra?), que tem um caso com Irene, que é filha da caseira Quitéria. Cada um tem suas escolhas, seus desejos, suas melancolias, suas escapulidas a qualquer classificação. Mas, no fim do quebra-cabeça, não resta muito mais do que uma árvore genealógica. E bem mais ramificada do que essa.

Quem é quem?
A própria autora, a certa altura, parece consciente da dificuldade do leitor em distinguir quem é quem, e chega a dar algumas ajudinhas, remetendo a passagens de capítulos/perfis anteriores já perdidos na memória: “Como se sabe, Sílvia descobriu tudo, num lapso de Irene, em plena festa de aniversário de Antônio”. Ou: “Mal sabe Ulisses que Antônio morrerá antes que as coisas se consumem”. Ao que tudo indica, não lhe importa muito - e as palavras finais de Zenóbia darão a entender isso - se devemos encarar a obra como uma enciclopédia fictícia (lida, esporadicamente, em capítulos avulsos) ou um romance (lido, de uma só vez, como um todo). Os perfis são herméticos, e a autora não se acanha em contextualizá-los, de modo que, separados, todos também se explicam por si sós - e podem, de fato, ser lidos como tais. São verossímeis, familiares, sentimentais, mas sempre mais descritivos que sensitivos. (A melancolia de cada personagem chega a ser enunciada em frases grifadas em itálico, como: “Mais triste do que o que acontece é o que nunca aconteceu”; “Minha mãe não me pôs no mundo, ela me jogou nele”; e muitas outras.) Se o que afasta um perfil do outro são os acasos, as frestas, os desvãos em que a vida recai - e se recria - ao longo do tempo, é justamente por passar rápido demais pelo tempo de cada um que a obra perde em unicidade e relevância.

Resta a sensação de que Maria Esther Maciel criou um grande elenco - e de que, nesse rascunho, há até bons personagens. Mas faltou o romance.

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