Contos


...do fundo da gaveta:

- Um tremendo tradeoff [2001] - pseudopolicial
 
- E mundo... [2003] - aventura internacional

- Os óculos Zequinha [2007] - pseudoinfantil

Mais contos em breve, possivelmente. E leia também as histórias do personagem Juveninho; e ainda o conto "O pequeno escritor", na seção Baú.


NOTA DO AUTOR:

No prefácio de 1946 para uma outra edição de Admirável Mundo Novo, livro profético publicado originalmente em 1932, Aldous Huxley escreveu:

"A arte possui também sua moralidade, e muitas das regras desta são iguais, ou pelo menos análogas, às da ética comum. O remorso, por exemplo, é tão indesejável com relação à nossa arte de má qualidade quanto com relação ao nosso mau comportamento. A má qualidade deve ser identificada, reconhecida e, se possível, evitada no futuro. Esmiuçar as deficiências literárias de vinte anos atrás, tentar remendar uma obra defeituosa para levá-la à perfeição que não teve em sua primeira forma, passar a nossa meia-idade procurando remediar os pecados artísticos cometidos e legados por aquela outra pessoa que éramos nós na juventude - tudo isso, certamente, é vão e infrutífero. Eis por que este novo Admirável Mundo Novo sai igual ao antigo. Seus defeitos como obra de arte são consideráveis; mas para corrigi-los eu teria de reescrever o livro - e ao reescrevê-lo, como uma outra pessoa, mais velha, provavelmente eliminaria não apenas as falhas da narrativa, mas também os méritos que pudesse ter tido originariamente. Assim, resistindo à tentação de chafurdar no remorso artístico, prefiro deixar o bom e o mau como estão e pensar em outra coisa."

Faço minhas as palavras de Huxley, ainda que os contos a seguir - escritos na minha juventude literária - não sejam nem de longe um Admirável Mundo Novo. São apenas contos imperfeitos e amalucados, mas, creio eu, bastante divertidos, pelos quais tenho até hoje um carinho especial.

Meu grande romance, quem sabe, ainda está por vir.

Mas agora vou pensar em outra coisa.

Felipe Moura Brasil, 30 de abril de 2013.



UM TREMENDO TRADEOFF

Conto pseudopolicial de Felipe Moura Brasil

Menção Honrosa (equivalente ao 2º ou 3º lugar) no Concurso de Contos Guimarães Rosa/ Radio France Internationale – Paris, França, 2001. Total de contos inscritos: 1864. Total de países participantes: 14.

1.

Evito a solidão. Não que desgoste da falta de companhia, às vezes é fundamental fugir do bulício do mundo. Atormenta-me apenas a idéia de porventura ser acusado de um crime e não dispor de um álibi que prove minha inocência. É preciso prevenir-se para tudo hoje em dia.

2.

“Querido Télvio,





Um beijo,
Giza”

3.

Típico de Adalgiza, pensei. Um bilhete repousado sobre a mesinha-de-cabeceira. O pior: a mesinha ao seu lado. Nem ao menos tivera a preocupação de deixá-lo sobre a minha. E se eu não o visse? Por pouco não saio para o trabalho sem lê-lo, se é que se pode dizer isso de um bilhete em branco. Um papel de recado, leve, solto, livre para voar pela janela aberta se batesse um vento. Adalgiza, tsc, tsc, desligada que só. Se não volto no último minuto para roubar uma de suas canetas, ficaria sem saber o que ela tinha a me contar. Aliás, o que ela quer me dizer com isso?, perguntei-me coçando a cabeça. Enfiei o papel no bolso e saí. Já enfrento enigmas demais no trabalho.

4.

Você também trabalha pro Heleno?, interessou-se.

Olhei-o fixamente, retina com retina. Esses estagiários são todos iguais, nenhum respeita o silêncio. Até que esse tinha resistido bastante, três minutos desde que entrara no carro, um recorde, gostei do garoto. Havia chance de ser contratado. Trabalho com consultoria, respondi. Sou contratado pelos “grandes” e ganho a liberdade de tomar algumas decisões nos negócios. Corto os gastos aqui, diminuo o excesso ali, faço uns remendos acolá, ajeito umas peças soltas no quadro de empregados e vou aos poucos moldando toda a estrutura da empresa.

Sei, ele disse. Mas então...

Então, interrompi, por que estou aqui com você? É isso? É que quando sobra tempo, faço toda essa parte de recursos humanos, assim faturo um bicho.

Ah... E qual é o maior problema que você enfrenta nesse trabalho com os clãs?

Aquele papo me fazia lembrar a primeira conversa com Adalgiza, eu tentando passar tudo para uma linguagem leiga e ela, por sua vez, pondo o intelecto na ponta dos pés a fim de me alcançar. Clã? Tentativa frustrada, assim como as de Adalgiza naquela noite. Resolvi pôr um fim às explicações, usufruindo a tática habitual.

O maior problema é quando a gente se depara com um tremendo tradeoff, alfinetei.

Ele fez que entendeu, abrindo e fechando a boca, levando as sobrancelhas para dentro daquela franja patética. Igual à Adalgiza, fora a graciosidade do gesto. Graciosidade dela, que fique bem claro.

Você não vai perguntar se eu tenho experiência?, ele disse, mudando de assunto como um prodígio que acabara de derrubar um vaso de porcelana.

Já estou a par, redargüi.

Naquele exato momento, lembrei-me de como Adalgiza fizera para mudar o rumo da conversa. Ela entrelaçara seus dedos, apoiara o queixo sobre as mãos e os cotovelos sobre a mesa. Com isso, pressionava os cotovelos contra o corpo e enrijecia seus seios, fartos, chamativos, expostos pelo decote. Era a singeleza de Adalgiza, convidando-me para a cópula. A conta, por favor, dissera eu para o garçom.

Chegamos!, despertei. O prédio é aquele, garoto.

5.

Subimos até o quarto andar, eu explicando como seria sua prova de habilidade específica. Surpreendentemente, não me parecia nervoso. Apenas rodava os ombros, ensaiando exercícios de trapézio, um método razoável para aliviar a tensão, evidenciando que não era muita. Paramos em frente à porta.

Aqui sua carreira pode começar a decolar, eu disse, frase feita, claro, que eu usava para todos desde que Ambrósio a utilizara comigo. Respire fundo, garoto.

Ele sorriu, displicente. Quando dei por mim, ele já havia arrombado a porta e executado o cobaia, um figurão da alta sociedade. Dois tiros nas costas, um na nuca. Mais um que morre fodendo, pensei.

Eu não sei de nada, ele é freguês de primeira viagem, ainda bem que tá morto. Disse que só ia pagar a metade, se fodeu, a puta praguejava. Olha, eu não tenho nada a ver com isso, só tava fazendo meu trabalho, já estava de saída mesmo.

Puta é um bicho engraçado. Sempre que mato um figurão desse, no ato, elas me vêm com o mesmo sermão. E começam a falar antes de tirar o pau do cadáver de dentro da boceta. Se fosse Adalgiza, não, não, não posso comparar Adalgiza a uma puta desse nível. Nem a qualquer outra puta, Adalgiza não era puta, onde eu estava com a cabeça?

Sentei numa poltrona, perto da alargada cama de casal. O contraste do quarto, rico, multicor, todo mobiliado, com a fachada do prédio, em ruínas, podre, infestada, era escandaloso. Havia quadros pelas paredes, abajures chineses, bar, chão atapetado e, logicamente, espelhos, o que dava um aspecto de motel de luxo e de um mau gosto, para mim, irrepreensível. Já Adalgiza, dali só deixaria a poltrona.

Posso matar, patrão?, indagou-me, como eu o havia instruído.

Não, a puta interferiu, eu faço um serviço grátis pra você, ela completou com sua incrível arte de transformar o medo da morte em sensualidade em frações de segundo.

Quer se aventurar, garoto?, instiguei.

Pode vim, garotão, sou hiv-negativo, pode gozar aqui dentro, ó, ela provocou, esfregando o dedo em seu caça-níqueis.

Vai fundo, garoto, fundo, eu disse.

Ele pôs a arma no chão, chutando-a com o pé até mim. Em seguida, abriu a fivela do cinto, empurrou o corpo ensangüentado até que caísse no chão e conseguiu fazer tudo espremido no lado seco da cama.

6.

Afundei-me na poltrona ao som de urros e ofegos. Tirei-me as luvas. Inclinei a cabeça para trás de modo que me percebi no canto do espelho do teto. Olhei-me fixamente, retina com retina. Foi quando me veio a imagem de Adalgiza, nós dois fodendo num quarto de motel. A banalidade dos acontecimentos daquele dia me rememorava a primeira noite com Adalgiza. Mas onde ela teria ido naquela manhã? Adalgiza costumava estar em casa dormindo sempre que eu saía para trabalhar. Aliás, estranho, Adalgiza também costumava estar em casa dormindo sempre que eu chegava do trabalho. O que fazia Adalgiza afinal? Não me lembrava qual fora o último trabalho que ela havia arranjado. Talvez seja isso, pensei, ela está à procura de emprego e saiu cedo, antes de eu acordar. Talvez.

Esticando-me na poltrona, tirei o bilhete do fundo do bolso. Desdobrei-o e corri os olhos pelas poucas palavras que a inconfundível caligrafia de Adalgiza me proporcionava. Alguma coisa me soava incompatível a nossa realidade, não demorei a perceber o que era. Télvio, assim ela se dirigira a mim. Télvio... Adalgiza jamais me chamara de Télvio. Antes que chegasse o couvert do nosso primeiro jantar, eu já era o Tel em seus vocativos. Télvio é muito formal, ela dissera. Vou chamar você de Tel, certo, Tel? De início, o apelido me causara calafrios, um breve impacto, que eu amortecia segurando com força a toalha de mesa sem que ela notasse, a cada vez que ela pronunciava a nova apócope, como se apocopar um nome fosse pré-requisito no estabelecimento de uma relação, o primeiro passo rumo aos descaminhos da intimidade. Como eu precisava de uma esposa com a máxima urgência, deixei. E, aos poucos, fui começando a curtir, até me tornar indiferente, tudo conforme o padrão natural das coisas. O que uma mulher quer dizer com um bilhete em branco?, essa questão pairava sobre meus neurônios.

7.

Um uivo demasiadamente encompridado tirou-me do além. Não só o uivo, mas também o odor que logo se alastrou pelo ambiente, dissolvendo orgasmo, sangue e defunto numa enxurrada homogênea e nauseabunda de ar. Era necessário dar um término às delongas antes que eu desse sinais de claustrofobia. Recoloquei-me as luvas e agachei a fim de pegar a arma do estagiário - durante esse movimento não pude deixar de reparar no bem nutrido pau do garoto voltando ao seu estado de languidez profunda.

Posso ir agora?, a puta perguntou, vestindo-se enfim.

Você faz uso de anticoncepcionais?, indaguei-lhe.

O senhor acha que eu ganho o suficiente pra comprar pílula?

Como eu imaginei, pensei, uma puta de segunda.

Quer dizer que você obriga a clientela a usar preservativo?, intrometeu-se o garoto, incapaz de conter sua curiosidade mirim. Você não acha que eu engravido todo dia, acha, garotão?

Aquele jogo interminável de perguntas me irritava. Puta não sabe responder sem fazer pergunta. Putas, todas iguais.

Bom, eu disse, já que você acaba de engravidar, vou dar minha leve contribuição ao fim dos abortos ilegais.

Atirei na testa, puta já sofre o suficiente durante a vida. Percebi uma leve tremida de susto no rosto do garoto, que logo recompôs sua fisionomia. Ele concedeu-me um riso, ainda um tanto claudicante.

Vamos?, ele disse.

Olha, expliquei-lhe paulatinamente, você acaba de deixar seu sêmen na boceta de uma vítima de assassinato. Hoje em dia, com o Revolução Tecnocientífica, já é possível identificar o homem a partir da análise laboratorial de seus espermas - ele fez uma cara de quem diz, hum, fiz merda. Portanto, prossegui, aproximando-me do estagiário como de costume, como não gosto de dar trabalho aos outros, pouparei os esforços da polícia.

Estou reprovado?, perguntou.

Não respondi. A não ser que se considere o tiro à queima-roupa ao lado de sua orelha uma resposta. O garoto tombou com o cérebro espatifado, reduzido artisticamente a migalhas. Dei início à dança do afterkilling, como costumo chamar, cantarolando e arrumando algumas peças do jogo para dar a impressão de xeque-mate (ou cheque-mate, como também costumo chamar) sem a influência de terceiros. Primeiramente, coloquei a arma do estagiário – e do crime - em suas mãos por motivos óbvios. Qualquer matadorzinho de aluguel faria isso e partiria, pensando ter deixado a cena do crime digna de um Oscar de fotografia. Eu não. Ainda havia vestígios da minha presença naquele recinto, um detalhe sutil que podia passar despercebido a um amador, mas não a mim. A poltrona. Um detetive ou perito que se preze atentaria para o fato de que o encosto e a almofada mostravam-se alterados, fora de seus respectivos estados de repouso, e ainda, se ele não demorasse a chegar, sentiria o calor do meu corpo, o corpo de um quarto personagem que assistia a tudo, personagem este que eu estava prestes a apagar da minha história. Arrastei a poltrona e, sem me sujar muito de sangue, acomodei o corpo do garoto sobre ela, dispondo ambos à beira da cama. Juntei a mão esquerda do garoto com a direita da puta morta. Cumpre-me, apenas para efeito de corroboração, ressaltar que a esmagadora maioria dos suicidas de primeira viagem (adoro este irônico pleonasmo) escolhe dar-se o tiro ao lado da orelha, por isso fi-lo assim.

Pronto. Suicídio após ato sexual e duplo assassinato, não necessariamente nesta ordem. Crime aparentemente passional. Caso arquivado.

Contando isso, os leigos pensam que sou muito esperto, que subverto as técnicas de investigação policial, que meu trabalho independe de telefonemas do Heleno ou do Tavico para delegados corruptos. Adoro os leigos. Por isso, são eles meu objeto de trabalho.

Desci as escadas pensando em Adalgiza.

8.

Do carro, liguei para o Heleno.

E então?, ele disse, mastigando o que eu imaginei ser o seu café da manhã, tão tarde ele acordava. O menino recolheu o trem de pouso? Tá aprovado?

Olha, expliquei-lhe, o garoto ia bem, mas quis...

Já sei, quis comer a vadia?

Pois é, essa geração...

Essa geração estúpida só consegue pensar com a cabeça de baixo.

Olha, Heleno, você tem que mandar os olheiros...

Já sei, eles têm que caprichar mais, os putos são foda, vou te contar. Só me mandam bagaço, daqui a pouco tão me trazendo batedor de carteira querendo que eu aprove. Esses putos são que nem empregada doméstica, você sabe. A gente diz que tá precisando de alguém para recompor o quadro de funcionários e eles dizem ó, tem um primo meu, ó, ele é lá de onde eu moro, do bom, já fez mais de vinte, tá a fim de um trampo, ó, posso trazer? E me aparecem com esses bostinhas. Na sexta eu mando depositar na sua conta. Qualquer hora, chamo.

Sempre às ord... Ele já havia desligado. É um prazer negociar com o Heleno, não tenho que dar muitas explicações e ainda recebo em dia.

9.

Adalgiza nunca tivera a curiosidade de conhecer meu escritório, sequer perguntara sobre meu ambiente de trabalho em todo esse tempo juntos. Um ano e meio compartilhando a mesma casa, a mesma cama e a única pergunta profissional de que me lembro foi aquela no nosso primeiro jantar. Sorte a minha, porque eu não tinha um local fixo de trabalho. Quando não era requisitado, o que era raríssimo de acontecer devido à reputação que construí, ficava em casa. O curioso é que ela também não me perguntava por que eu estava em casa, mas grudava em mim. Fodíamos até tocar o telefone para alguma nova consultoria. E então Adalgiza ia arrumar a casa, fazer compras e essas coisas que as mulheres fazem enquanto os homens trabalham.

Adalgiza não tinha diploma universitário, eu sim. Formei-me em Economia há tanto tempo que não sei mais se esqueci o que eu sabia ou se, no fundo, nunca soube. Eu só fazia uso de alguns termos técnicos quando da necessidade de mostrar-me superior, aliás, sagrei-me um mestre em fazê-lo. A profissão mesmo não exerci, preferi ser um criminoso economista a um economista criminoso, apesar de que hoje os dois conceitos já se fundiram. Adalgiza devia pensar que eu era um economista sério.

Não minto, nunca menti, sou de fato um consultor econômico, dentro da minha especificidade, aliás, o melhor.

10.

Sentei-me à mesa com o velho e obeso Netto. Sua mansão, uma verdadeira fábrica de mármore, supostamente a residência dos sonhos de Adalgiza, parecia-me quase tão bonita quanto longínqua. Levei uma hora e quarenta para chegar lá, vindo do motel particular onde o figurão comia a puta. Sabia o caminho de olhos fechados, havia algum tempo que eu ia lá dia sim, dia não. Já passava das três quando tirei a papelada da pasta.

Olha, eu disse, este é o resultado de três semanas de trabalho, destrinchando suas caixas de entrada e de saída de dinheiro, a distribuição de funções através da hierarquia estabelecida, a evasão de renda, as curvas de oferta e de demanda de armamento – todo economista fala em oferta e demanda, disso não me esqueço -, além de todo...

Ora, deixe de meandros, vamos aos cortes.

Diante da interrupção de Netto, não pude deixar de constatar como os líderes das corporações são impacientes. Acho que é para fingir que eles têm muito que fazer.

Está certo, retomei, pegando minha caneta para explicar melhor. Existem inúmeras possibilidades de corte no quadro de empregados, no fornecimento de armas, no...

Quais são?

Bom, pigarreei, comecemos pelas equipes de matadores que podem passar de quartetos para trios, é um exagero quatro pessoas para execuções em domicílio. Sendo três equipes, são três fora. Quanto às equipes de seqüestro, deixemos quatro, mas, convenhamos, não há a menor necessidade de pagar duas empregadas para a manutenção de cada cativeiro. Sei que é sempre bom ter álibis, entretanto, uma por cativeiro já basta. A cobertura de recebimento das drogas no cais do porto também pode sofrer alguns cortes. O suborno do oficial de prontidão, por exemplo, pode ter um abatimento razoável e deixar de ser tão salgado. Basta dar um aperto no homem, descobri que ele come a mulher de um superior, então fica a proteção pelo silêncio. Vi, numa noite dessas de plantão, dois dos carregadores de lá indo para o prostíbulo local, enquanto os outros trabalhavam. Parece que eles fazem um revezamento. Nesse caso em particular, tamanha a gravidade do problema, sugiro a reformulação geral da equipe, bem como, posteriormente, a redução do número de carregadores. Não aconselho a redistribuição de pessoal, como passar os excessos da equipe de matadores para o cais, porque é bom que os subalternos não tenham a dimensão exata da vastidão do negócio. Estou à disposição para fornecer-lhe novas peças para o jogo. Já ia me esquecendo, as armas que está comprando estão acima do preço de mercado, conheço um fornecedor melhor, aqui está o cartão dele. Ademais, tudo consta no relatório entregue em anexo, qualquer dúvida, chame. Este é o meu trabalho.

Quando encerrei meu irretocável discurso, exaustivamente ensaiado no percurso de ida, Netto terminava de escrever uma pequena lista com os nomes que lembrava de cabeça. Chamou Saga, seu braço-direito, um homem robusto de aparência macabra, e entregou-lhe o papel olhando em seus olhos, retina com retina. Nada disse, e ele saiu como quem sabia o que fazer, ao que Netto devolveu-me a caneta de Adalgiza. Nunca entendi como são possíveis as ordens mudas. Quiçá por isso eu não tenha jamais delegado funções.

Quanto a Saga, é claro que só lhe teci elogios em meu relatório, não sou louco de me intrometer em patamares superiores.

A propósito, acrescentei quando já ia saindo, não há necessidade de três guardas na guarita do portão.

Despedimo-nos. Saí da sala escutando ao fundo o que supus ser Netto abrindo a janela. Ao passar de carro pelo portão, notei apenas dois guardas e alguns vestígios de sangue.

11.

Cheguei em casa exausto, mais um dia cansativo de trabalho. O sucesso é mesmo estafante, pensei. Meu estômago não roncava, rangia. Ininterruptamente. Passara mais de uma hora no carro, louco para comer. Ataquei os armários e a geladeira. Para minha grande decepção, tinha tudo, porém tudo em estado terminal. Juntando os restos de comida, consegui formar um prato que, uma vez posto no congelador, transformar-se-ia provavelmente em algo parecido com um bolo fecal. Comi, dirigi-me ao banheiro e defequei pensando em Adalgiza. Olhei novamente o bilhete. Dei-me conta de que ela assinara Giza, eu nunca a chamara de Giza, não suporto apócopes e adjacências.

O que uma mulher quer dizer com um bilhete em branco afinal?

Essa pergunta sem resposta exigiu que eu encontrasse Adalgiza. Não é difícil encontrar uma mulher, pensei, basta ligar para o cabeleireiro, para a manicure, para a melhor amiga e para a mãe. Se ninguém dessa lista sabe dela, é porque ela morreu. Adalgiza não havia morrido, por isso, dando alguns telefonemas anônimos, descobri que ela estava na casa da melhor amiga. A única, aliás, que a chamava de Giza, talvez tivesse sido uma pista providencial. Mesmo cansado, dei-me ao trabalho de ir até lá.

12.

No trajeto, Ambrósio deu-me o privilégio de sua companhia. O falecido adentrava meus pensamentos com a facilidade de quem tem a seu dispor um código secreto. Ele sempre me interceptava com a mesma frase, ele dizia: agora você já pode recolher o trem de pouso, garoto.

13.

O que é que você está fazendo aqui?, ela assustou-se.

Calma, Adalgiza, por que essa bravura toda? Vim saber o que houve. Aconteceu alguma coisa com você?

Você acha que foi comigo que aconteceu alguma coisa? Você acha que o problema sou eu? É isso que você quer dizer?

Então eu fiz algo errado? Não tem problema, Adalgiza, diga o que é e podemos debater, chegar a um denominador comum. A culpa é minha?

O que você acha, Télvio?

Por que você está me chamando de Télvio agora?

Por que você nunca me chamou de Giza?

Naquele dia, Adalgiza estava parecendo uma puta, cheia de perguntas ao invés de respostas. Aquilo me irritava. Duas vezes no mesmo dia era ruim de aturar. Tentei ao máximo acariciar minha paciência para não cometer qualquer equívoco que me fizesse ficar arrependido mais tarde. O bilhete, eu precisava saber o que significava o bilhete.

Deixemos de meandros, eu disse e peguei-me lamentavelmente parafraseando Netto, vim por causa do bilhete, o que você quis dizer com um bilhete em branco?

Adalgiza não pôde conter sua perplexidade diante da pergunta. Perplexidade que, aos poucos, passaria a ser traduzida numa queda gradativa de decibéis.

Você não sabe o porquê do bilhete?, ela disse, sarcástica.

Quer fazer o bendito favor de parar com as perguntas, Adalgiza? Eu só quero que me explique o motivo para você sair de casa hoje de manhã, antes de eu acordar. Será que a senhora poderia me dar uma justificativa cabível?

Ela sorriu, com espanto. Um sorriso irresoluto, aterrorizante. Preparei-me para o pior, na certa havia falado alguma besteira.

Mal podia imaginar o tamanho da besteira. Adalgiza recuperou a compostura e seu discurso alterou-se como se o réu houvesse lhe permitido uma brecha, um novo rumo a seguir, como se tivesse concedido a ela uma nova informação, uma valiosíssima informação.

Como você percebeu a minha ausência? Não, não responda, posso adivinhar. Existem algumas possibilidades. Achou estranho encontrar a cama desarrumada? Viu que suas roupas não foram passadas? Talvez tenha se dado conta de que os pratos não estavam limpos? Por um momento, fiquei contente por ela não ter acertado.

Já sei, ela disse, foi roubar uma de minhas canetas e encontrou o bilhete?

Fi-lha-da-pu-ta, pensei.

Ou então acabou a comida da casa. Foi, não foi?

Fi-lha-da-pu-ta duas vezes, pensei.

Pois você fique sabendo, ela desabafou com o dedo em riste, que eu já saí de casa há quatro dias, seu picareta! Quatro dias, e você só hoje percebeu.

Fi-lha-da-pu-ta!, dessa vez eu disse.

Quatro dias de ausência e eu nem sequer reparei. Só então percebi o que uma mulher quer dizer com um bilhete em branco. Nada. Mas não é nada, de não ter nada para dizer, é exatamente o fato de dizer que já não há nada para dizer.

Saia já daqui, antes que eu chame a polícia, ela esbravejou, plagiando noventa por cento das mulheres irritadas.

Fui-me embora. E cruzei com a dona da casa chegando com o namorado. Ela me olhou, retina com retina, mas não havia mais nada ao meu alcance, nada que eu pudesse fazer. Pensei em voltar, matar Adalgiza, mas a fadiga me dissuadiu e me retirou daquele ambiente inóspito. O dia de trabalho fora muito desgastante. Quase voltei ao imaginar, entre eles, um possível ménage. Mas eu precisava dormir.

14.

Acordei pensando em Ambrósio, agora você já pode recolher o trem de pouso, garoto. Lembrei-me do dia em que eu o conheci, o dia em que ele me dissera essa frase. Na ocasião, entrei no carro, ele mudo, eu calado. Assim fomos até aquele motel de beira de estrada. Ouvi sua voz pela primeira vez quando me explicou o serviço. Aqui sua carreira pode começar a decolar, ele disse.

Entrei, matei o figurão, eles são sempre os cobaias, e depois ele me perguntou se eu queria comer a puta. Eu disse que não, ele me perguntou por quê. Não sou necrófilo, eu disse. E matei a puta antes que ela me perguntasse o que era necrófilo. Atirei na testa, puta já sofre o suficiente durante a vida. Ambrósio sorriu, satisfeito.

Agora você já pode recolher o trem de pouso, garoto.

E você, eu disse, já pode acionar o seu.

Matei Ambrósio. Desde então sou uma unanimidade no mundo da máfia empresarial. Todos me respeitam. Jamais fui acusado de um crime que cometi, de modo que meu único medo é ser acusado de um crime que não cometi. Sabe-se lá quem anda por aí à noite, desempenhando tarefas similares às minhas? Já faz um bom tempo que a máfia deixou de ser mero subemprego e passou a empregar todo tipo de profissional capacitado. Ainda bem. Só que quanto maior a indústria, maior a chance de alguém lhe soprar fumaça. É preciso prevenir-se para tudo hoje em dia.

Antes de bater a porta, contemplei o vazio da casa. Meu grande azar, pensei, é o de ser heterossexual, mulheres são complicadas demais. Para isso, entretanto, não havia jeito. Eu precisava de uma nova esposa, a verdade era essa. A solidão não era um bom álibi.

15.

Você também trabalha pro Tavico?, interessou-se.

Olhei-o fixamente, retina com retina. Seu currículo merecia alguns louvores.

Trabalho com consultoria, eu disse, o maior problema é quando a gente se depara com um tremendo tradeoff.

*******

Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim.





E MUNDO...

Conto de aventura internacional de Felipe Moura Brasil

[Publicado originalmente na internet como folhetim, daí sua subdivisão em partes.]

Parte I: O muchacho

1.

Mineiro de Campo Florido, Zé da Fonte - como mais tarde se autodenominaria – se desarvorava ao testemunhar as donzelas conterrâneas se enrabichando pelos garotos de Uberaba. Em quermesses, festas de São João e demais efemérides locais, eles faziam valer sua condição de moradores de cidade de médio porte e, embora cabotinos, se apoderavam das munícipes sem gastar muito o sotaque.

A mesma facilidade não encontravam Zé e seus amigos quando freqüentavam Veríssimo ou Pirajuba em fins de semana festivos, até porque a diferença populacional era quase irrelevante. Certa vez, chamado ao quadro pela professora de biologia da escola, Zé exemplificou da seguinte maneira a cadeia alimentar: escreveu em letras gigantes Belo Horizonte, depois Uberaba e, em seguida, Campo Florido. Colocou uma seta da primeira para a segunda e outra desta para a terceira. E justificou a seu pai a semana e meia de suspensão e o ódio das vizinhas de sua idade com o argumento de ter apenas explicado à turma quem comia quem. E, no dia seguinte, explicou aos amigos que não poderia ir a Conceição das Alagoas para a festa à fantasia porque seu pai o colocara de castigo pelo que tinha dito na escola.

A ditadura acabara havia muito tempo e Zé agora se via em clausura simplesmente por ter tornado pública uma metáfora. Foi a primeira vez que se deu conta de que ao mundo faltava poesia.

2.

Tradicionalmente, as pessoas lutam por sobrenomes que lhe emprestem garbosidade, ou títulos que antecipem seu valor. Com os Zés é diferente, pelo menos em Campo Florido. Afinal, todo Zé leva uma alcunha, pode ser do Mato, da Quitanda, Quelé, Mané, da Bola, do Bicho, das Couves, do Caixão ou da Rua dos Tijolos 76, sendo este o menos popular. De maneira que Zé puro só deve existir um em cada região, isso se houver quem faça jus ao honroso cargo.

Àquela época Zé da Fonte era Zé do Zinho, porque antes de o bigode contornar a boca e encontrar a barba todo Zé devia ser do pai também no apelido. O Zé puro da cidade era seu avô, o mais antigo morador de Campo Florido, conquanto a longevidade não fosse pré-requisito para o posto de Zé. Rezava a lenda que Zé tinha integrado a FAB - ou a FEB, o pessoal nunca soube direito -, mas quem ele permitia um rápido acesso a sua casa, normalmente para entregar compras, contava tê-lo visto de uniforme ao lado de gente supostamente importante nas fotos sobre a lareira. As crianças cantavam “Eu nasci há dez mil anos atrás” de longe só pra ver a espingarda do velho, quando ele, adrede, abria o sobretudo na varanda.

Seu filho, Zinho, dono da padaria mais badalada das redondezas, fora Zé do Zé até o cavanhaque avolumar. Mas quem, preguiçosamente, perguntava no balcão por um Zé ainda tinha que ouvir as perguntas: que Zé? Zé do Zé ou Zé do Zinho? Não era mesmo fácil entender quem era quem naquele bando de Zés.

De seu pai, Zinho herdou o rigor com que tratava o filho. Por isso armou a carranca quando a mexicana recém-chegada, nova diretora de uma usina a 25 quilômetros de Campo Florido, lhe perguntou se Zé do Zinho poderia trabalhar, em sua casa, de muchacho. A princípio, Zinho não entendeu nem sequer a pergunta, que dirá os afazeres da profissão. Olhou ao redor como que à procura de um intérprete, alguém a elucidar as palavras existentes entre Zé do Zinho e muchacho naquela frase que parecia pressupor uma resposta. Na ausência de um bilíngüe por perto, aproximou o ouvido e fez sinal de devagar. E quando, por fim, compreendeu a pergunta, manteve a catadura enrugada. Seu filho até sabia cozinhar, mas por que motivos a mexicana chegara obstinada a contratá-lo?

A janela da padaria continha a resposta. Uma, duas, três, quatro adoráveis cabecinhas, na verdade cinco, e com mais uma embrechada na janela do outro lado da entrada, seis, mas devia haver mais alguma escamoteada por ali – seis pares de olhos de menina, sorrisos tampados pelas mãos, quando não pela cabecinha de quem conquistava o primeiro plano. Olhares concentrados na cena do balcão, até Zinho percebê-los e dissipá-los quase concomitantemente.

Deve ter pensado não mais que dois segundos. Apertou a mão da senhora com mesura e voltou ao trabalho escutando o burburinho da calçada. Já havia muita gente – a saber, três pessoas - trabalhando na padaria e, além disso, Zé do Zinho gostava tanto de ficar em seu quarto que aquele não lhe seria um bom castigo.

Parte II: Consulado de país nenhum

3.

Mané Garrincha, quando chegou a Paris pela segunda vez, indagou a um companheiro de equipe: “A gente já jogou nessa cidade antes?”.

Zé do Zinho nunca entendeu por que seu pai ria tanto dessa história. Nos domingos de futebol, com direito a televisão ligada na padaria, Zinho chegava a encená-la para fregueses e espectadores, com o passadismo típico dos amantes da bola. “Ah, o Mané...” A pergunta entre aspas mudava a cada versão, assim como o receptor, de modo que do massagista ao chefe da delegação, todos já haviam respondido que sim, Mané, Paris, tá lembrado? Torre Eiffel, waffle de chocolate, perfume. (Ou Torre Waffle, Eiffel de chocolate, perfume).

Quando saiu da Plaza Cibeles no fim da tarde e desceu a Gran Vía e virou à esquerda na Plaza de España e, depois de alguns minutos contemplando o monumento a Cervantes (autor de um dos livros que tinha lido na escola), virou novamente à esquerda e avistou o Palacio Real, Zé do Zinho se lembrou do que disse seu pai pouco antes de embarcar para Madri: “Vai, meu filho, mas Paris deve ser ainda mais bonita”.

Verdade ou não, voltando em direção à Puerta del Sol, ele atinou que poderia viajar a Europa inteira, até Paris, mas jamais se esqueceria da capital espanhola. E sorriu:

“Ah, o Mané...”

4.

Reunido entre a estátua eqüestre de El Rey Carlos III e a do urso (El Oso y El Madroño), um grupo de brasileiros comentava o quão chique era aquele ponto de encontro, na calçada oposta à que representava o marco zero das estradas espanholas. Experimentando em voz alta, cada um ponderava com conhecimento de causa qual seria a proposta mais cativante: “te encontro às seis no Big Ben, ok?”, “pode ser às cinco na Fontana di Trevi? ciao”, “que tal às onze na Mona Lisa, atrás dos japoneses? bien tout”. Zé do Zinho, mochila nas costas, quase teve vergonha de intrometer-se, mas timidez é luxo de quem tem onde dormir. Urgia que fizesse amizades e, além do mais, a morena merecia o esforço.

“Meio-dia na Matriz de São Domingos, tá bão?” E ouviu um malandreado opa, abre a roda que tem brasileiro na área. Jovens cariocas e paulistas não deviam conhecer os vitrais multicores da igreja de Araxá, a 178 quilômetros de Campo Florido, maior distância que ele já percorrera antes de sobrevoar o Atlântico. A receptividade, no entanto, após breves apresentações, logo se traduziu num convite (o inegável convite sobrando) para o Palacio Gaviria, discoteca ali perto. Era quinta-feira, dia da festa de estrangeiros.

“E aí, mineiro? Tá dentro? Com a gente é assim.”

O pessoal da cidade grande até que era bacana.

5.

Supermercado, perfumes, farmácia, roupa masculina, roupa feminina, esportes, um, quatro, sete andares, não, meia-volta, prédio em frente, telefones, discos, aparelhos de som e de TV, nada disso, meia-volta, a livraria, agora sim, é difícil conseguir pouco de quem oferece muito, Zé do Zinho só queria usar o banheiro do El Corte Inglés para trocar de camisa, e, em sua opinião, não deveriam existir escadas rolantes entre pessoas e banheiros.

Era verão, podia tê-lo feito na rua, nem ele compreendeu sua súbita vaidade. Achou-se mais crescido no espelho, pôs o passaporte no bolso de botão, abotoou o bolso e sentiu falta de papel, tinha paciência para tudo, menos para esperar a mão secar no ar quente.

Caminhando entre as estantes, pensou ter visto um rosto conhecido em algum lugar, mas saiu, virou à direita e passou no Bocata para reencontrar os brasileiros. “Bem melhor que os bocadillos”, o carioca disse. “Vamos, Zé, de agora em diante seremos bons amigos”, previu ele. Foi a primeira previsão do futuro sócio de Zé do Zinho. Embora parecessem bons os sanduíches da vitrine, o mineiro desceu a Calle Arenal desejando que um dia eles pudessem vir a conhecer a padaria de seu pai para provar de seus quitutes. Pensando bem, não iria mal uma filial em Madri.

6.

Ao entrar no Palacio Gaviria, cada um ganhava o nome da pátria para carregar no peito pelo resto da noite. Até do Suriname havia adesivo. Eram nações e mais nações perambulando de copo em punho, umas sem saber se cumprimentavam as outras com um beijo na bochecha, dois, três, um sorriso ou um aperto de mão. Uma salada mista mundial num charmoso consulado de país nenhum.

As portuguesas vinham falar com Zé do Zinho e repetiam pelo menos três vezes cada frase, devia ser a música alta. Italianas, suecas, mexicanas e venezuelanas gritavam Brasil, paravam-no pelos corredores e perguntavam do carnaval ou contavam já ter estado em Salvador, no Rio ou em Florianópolis, as praias, tão lindas, queriam voltar, que país maravilhoso, o dele, que gente alegre! Zé do Zinho acreditava nelas. E dizia também ser universitário em intercâmbio (a mochila? vim direto da aula), porque dava muito trabalho explicar os caminhos sinuosos que o levaram a Espanha, embora o idioma vernáculo já não lhe soasse abstruso. Boate é resumo, ensinou-lhe o carioca, embora não parecesse ter com as moças a mesma facilidade que com as palavras, quiçá por culpa da bebida, e Zé já dava falta da morena do Rio ali no meio do mundo. Mas não importava. Estufou o peito para esticar o adesivo e, desvanecido, nem se compadeceu das surinamesas. Se para a garota de Ipanema ele era apenas um cidadão de Campo Florido, para as outras ele era um brasileiro.

E o Brasil tinha mais de cento e cinqüenta milhões de habitantes.

Parte III: Ouvidos à disposição

7.

Símbolo da cultura porto-riquenha, as coquis são pequenas rãs cujo coaxar se intensifica nas noites mais escuras e depois da chuva, o que às vezes torna mais difícil vê-las do que ouvi-las. O nome deriva de seu canto tradicional - que parece dizer “coqui, coqui” - embora haja algumas variantes entre as dezessete espécies que habitam a ilha. Delas, três estão ameaçadas de extinção devido à poluição e à destruição de seu hábitat.

Foi no ônibus para Granada que Zé do Zinho conheceu a turma de Porto Rico.

“Somos um Estado livre associado aos EUA”, ou algo assim, porque essa explicação ele deixou passar e, enquanto notava de relance uma espanhola demasiadamente observadora, segredou ao brasileiro de trás: Estado livre associado? não sei nem de quem é Fernando de Noronha... E os dois se satisfizeram em saber que a moeda deles também era o dólar. Além disso, de vez em quando passava um furacão por San Juan, contra os quais havia proteção nas casas e nas ruas, fosse lá o que isso fosse.

“No furacão passado, eu estava vendo televisão e fiquei comovido com a cena de uma velhinha sendo socorrida por bombeiros na janela de sua casa. Quando olhei bem, eu disse ei, essa aí é minha avó.” E caiu na gargalhada. Na hora não, no ônibus, junto com quem havia escutado, que ria mais ainda por ele estar gargalhando daquilo. Outro porto-riquenho, de joelhos no banco, soerguendo-se, assobiava imitando as coquis.

“Essa é nossa música noturna, ressoa até dentro de casa. Uma vez, eu assobiava em Montmartre, em Paris, e uma senhora me abordou perguntando se eu era de Porto Rico. Debulhou-se em lágrimas no meu ombro, disse que não escutava aquele ruído desde a infância em San Juan.”

A história fez Zé do Zinho passear em memória por Campo Florido, a igreja, a praça, a escola, os rabos-de-saia, refletindo se havia em sua terra alguma peculiaridade como as coquis porto-riquenhas. Desistiu rapidamente quando reparou que ele mencionara haver estado em Paris, e ameaçou dar início a sua sabatina sobre a cidade-luz. Mas teria de esperar a vez. Agora, estavam todos entretidos com a conversa musicada sobre os Menudos.

8.

No início, Zé do Zinho se apresentava como José, com pronúncia brasileira, forçando para não trocar o ô pelo u, posto que os raríssimos Josés que não sofrem apócopes são chamados de Jusé. Entretanto, quem tinha o espanhol como primeira língua fazia tanta força para acertar o som do jota, além do esse qual zumbido de abelha, que o acento agudo saía do tom. Como não lhe apetecia ser chamado de Jose, nome de sua mãe, passou a se apresentar diretamente com a pronúncia espanhola, o jota com som de erre. Parecia nome de molho de salada, mas pelo menos soava francês e Zé do Zinho passou a apreciar o galicismo.

Curtia ter quase um outro nome, ouvi-lo nascer de bocas estrangeiras, ser rebatizado por estranhos a quem podia moldar seu próprio passado da maneira que lhe conviesse. Seu olhar mortiço lhe permitia a criatividade, os preguiçosos mentem muito melhor. É verdade que uma vez em Pirajuba ele foi desmascarado de cara, seus amigos teriam de voltar cedo e, a fim de apressar os meandros, se disse morador de Uberaba a uma menina local. Mas quando ela perguntou o nome de sua escola, ele respondeu sem querer a de Campo Florido, e ouviu um desaforo antes de enfrentar as piadas dos amigos na volta pra casa e, claro, nos anos seguintes. Nunca se conformou com o lapso. Marista, José Ferreira, Objetivo, Nossa Senhora das Dores, Castelo Branco, ele sabia uma porção de nomes de escolas uberabenses.

A mentira era uma questão de naturalidade e conhecimento, e o segundo não podia falhar. Dizer-se universitário em intercâmbio numa boate não era o mesmo que fazê-lo de dia, durante uma excursão, embora já soubesse nomes de faculdades privadas de Madri que pouca gente conhecia. Talvez por trauma, talvez por humildade, Zé do Zinho ainda não se sentia seguro para mentir, em escala mundial, sob o arrebol.

No meio de um dos jardins da Alhambra (o Daraxa, precisamente), a espanhola do ônibus se desvinculou do grupo que circundava o guia e questionou como ele viera parar ali. Ele cogitou perguntar “aqui onde? na Espanha, em Granada ou no banquinho?”, no intuito de suprimir alguma parte previamente. Ganhou tempo: “É impressionante como os turistas gostam de fontes, não podem ver uma agüinha jorrando que querem logo guardar de lembrança...”.

Ela comentou qualquer coisa sobre o laguinho artificial do Patio de los Arrayanes e defendeu a beleza da fonte de mármore branco do Patio de los Leones, uma das mais importantes mostras da escultura muçulmana, com os doze leões ao redor. Parecia entender das construções de arquitetura árabe da época do domínio mouro. Conteve, porém, sua prolixidade espanhola e, alheia ao estalar de dedos dos porto-riquenhos ao longe, marotos, bem brasileiros, como se cantassem “não se reprima, não se reprima”, disse que agora era a vez dele, o molho de salada. Não era todo dia que se encontrava uma madrilena com os ouvidos à disposição.

“É uma longa história, tem certeza que quer escutar?” Zé do Zinho, no fundo, tinha uma imensa dificuldade de não ser ele mesmo.

Parte IV: As vogais

9.

Pilar fechou a loja não muito depois do anoitecer - em setembro a luz do sol começa a se esvair lá pelas oito e pouco, o horário de verão em vigor. Saindo da Carrera de San Jerónimo, podia escolher entre duas estações de metrô eqüidistantes, Sol e Sevilla. A primeira, mais movimentada, costumava ser a favorita apenas quando o cansaço lhe fazia antever seu mau humor durante a preparação do jantar, outorgando sua rendição a um sanduíche do Kebab. Ao optar por Sevilla, já ganhava uma estação de vantagem na linha 2, parte do trajeto de volta pra casa.

Uma vez na calçada, um turista lhe perguntou onde ficava a lanchonete. Era turco, com certeza, o labor lhe ensinara a distinguir todos os sotaques europeus. Da América do Sul, argentinos e brasileiros - não precisava os demais, um dia lograria seu modesto objetivo de mapear o mundo pelas especificidades da língua espanhola na voz de cada um. Indicou o caminho: de frente pra praça, o frontispício coroado com o outdoor do Tio Pepe, a célebre marca de xerez, olhe pra cima que você vai ver; depois olhe reto e já está, o Kebab é no térreo.

Também era comum os americanos perguntarem sobre o McDonald’s ou o Burger King mais próximo, os mexicanos sobre os burritos, os japoneses sobre sushis e sashimis e os chineses sobre os preços dos souvenirs, porque pra ver restaurante chino em Madri é só abrir o olho. Quanto aos brasileiros, não hesitava em dar o endereço da Novillo de Plata, em Menéndez Pelayo, até um deles salientar que o preço do rodízio equivalia a um almoço pra dois num domingo de Porcão - incluindo as bebidas.

A todos, contudo, Pilar preferia sugerir tortillas e paellas, embora não fosse este seu passadio. Havia já bastante tempo, aliás, que não tinha de varrer restos de comida espanhola da louça antes de lavá-la. Caminhando até a estação de Sevilla, faminta, imaginou o que teria para o jantar naquela noite. Nem tivera vontade de seguir o turco. Os sanduíches ficaram pra trás quando ela foi apresentada às maravilhas da culinária mineira.

10.

Canillas é uma região tranqüila ao nordeste da cidade, perto do aeroporto. Não tão rica quanto à vizinhança (a cinco minutos moram alguns jogadores do Real Madrid), nem tão pobre quanto os subúrbios da Zona Sul. Um pouco afastada do centro, é verdade, são treze paradas até Sol, com uma troca de linha em Goya, mas nada que meia hora sem barulho de buzina não resolva. Logo à saída da estação ao lado, Mar de Cristal, está o Carrefour, onde Zé do Zinho havia feito as compras.

Antes de Pilar chegar, ele assistia à televisão, o jantar já estava posto. Via uma reportagem sobre a prostituição madrilena, garotos e garotas de programa vendendo o corpo à noite em lugares por onde ele já passara algumas vezes durante o dia. Os points principais eram Gran Via, Ventas, Chamartín, Obelisco, Retiro e, talvez o mais famoso, Casa de Campo. Quando ela abriu a porta, ele estava sentado na poltrona da sala lendo o jornal.

“Oi, José. Brincando de metrô?”

“Você sabia que um espanhol médio mede 1,73, tem 1,24 filhos, 18.300 euros de renda anual, uma televisão e um carro de 3,4 anos de antiguidade?”

“Tá vendo só? O espanhol médio é um excelente partido.”

“Por isso mesmo.”

“Como assim, José? Vai me trocar por um espanhol médio?”

“Não, queria saber por que você está comigo?” Por pouco não acrescentou “oferecendo casa, bebida e louça lavada”.

“Ah, José, nunca quis ter um número quebrado de filhos.”

“Estou falando sério.”

“Porque você cozinha muito bem, ora”

“Pilar!”

O humor era contagioso, ele não tinha dúvidas de que criara um monstro. Ela jogou longe o jornal, sentou em seu colo e entrelaçou as mãos em sua nuca, antes de parafraseá-lo.

“Está bem. Tem certeza que quer escutar?”

Mas ao contrário de Zé do Zinho em Granada, de sua boca só saíram vogais. Parecia até haver mais de cinco em espanhol. De madrugada, esquentaram o feijão tropeiro no microondas. Ela, sorridente. Ele, rememorando a reportagem que vira na televisão.

Parte V: Os nomes

11.

Um rebanho de 1.500 ovelhas merinas saíra da Casa de Campo às dez da manhã em direção à Calle Mayor. Quatro pastores comandavam o desfile com o auxílio de cavalos e cachorros mastins. A eles se seguia uma carroça agrilhoada a cinco burros e um par de bois, como representação simbólica da antiga forma de transportar madeira.

“Roubei uma pra mim”, disse Zé do Zinho entrando na loja quase às duas.

“Uma o quê? A essa hora você não deveria estar no bar?”

“Uma ovelha. A propósito, fui demitido. O chefe descobriu que eu passava manteiga nos bocadillos.”

“E o que vamos fazer com a ovelha? Onde ela está?”

“Ué, vamos cardar os pêlos e... O inverno já desponta...”

“Que horror, José!”

“Fui deixá-la em casa, por isso demorei.”

“Tá bom... Antes que eu me esqueça, seu pai ligou hoje cedo. Pelo que entendi, está preocupado com o visto.”

“Você sabe de que se tratava o passeio?”

“Você ouviu o que eu disse, José?”

“Ouvi, ‘mamãe’. E o passeio?”

“Eles reivindicam a conservação das vias pecuárias. É o décimo ano em que param as ruas da cidade na mesma época; daqui a pouco me mandam cartões-postais com a foto do evento pra eu vender aqui.”

Não eram os bois indianos dotados de corcova, como em Uberaba, a capital brasileira do Zebu, mas Zé do Zinho se rejubilara ao ver a metrópole tomada pelo gado. Por algumas horas, Madri ganhou ares de uma verdadeira cidade do interior.

12.

Pilar se apropriou da loja quando seus pais, de origem basca, foram morar em Segovia, “a Veneza espanhola”, como costumavam descrever, “o campo em vez do mar”. Eles tinham amigos em Madri que promoviam bingos caseiros e passeavam em parques menos tumultuados, muitos dos quais sozinhos a contemplar o nada, sentados nos bancos a ostentar cansaço. Sua mãe jurou ter visto um antigo colega de turma urinando certa vez atrás da árvore no Dehesa de la Villa. Foi a gota d’água, riria depois Zé do Zinho, para que abnegasse o envelhecimento exânime e o lado direito das escadas rolantes do metrô em prol da calmaria e do acolhimento dos arredores de castelos, igrejas e aqueduto.

“Deixo a capital para quem ainda consegue calçar as meias em pé”, dizia.

Seu pai assentiu, conquanto estivesse tentado pelo convite de colegas catalães para morar no andar de cima e, aos domingos, ir a pé assistir aos tranqüilos jogos do Barcelona B no pequeno estádio ao lado do Camp Nou. Tratou de convencer-se da lorpice que seria trocar uma cidade grande por outra e ambos acabaram optando por Segovia, em vez de Toledo, porque lá já residiam alguns primos e eles se diziam gregários como as ovelhas.

Enquanto varria e retocava a loja naquele domingo de rebanho nas ruas, Pilar riu da lembrança. Zé do Zinho, por seu turno, ria das prateleiras, mexendo nos azulejos gravados de frases feitas. Sua predileta era: “Onde o vinho entra, a verdade sai”. Havia também plaquinhas que traziam o significado de nomes comuns e sucinta descrição da personalidade correspondente.

“Você sabia que Pablo vem do latim e significa ‘pequeno’?”

“Sabia, e daí?”

Ele não conseguiu falar, previu vitupérios ao seu humor chulo, sentia-se pueril demais para explicar que o nome de Picasso em português informal era um tremendo paradoxo. Pilar tampouco esperou sua resposta.

“E você sabia que José vem do hebraico e quer dizer ‘aquele que acrescenta’?”

“Não.” Era seu nome, o nome de seu pai, de seu avô e de meio Campo Florido, e ele jamais soubera o significado.

“Então, para que a gente não chegue à noite no Retiro e fique passeando em meio a meretrizes, pegue uma vassoura, ande. Acrescente, José.”

13.

As caminhadas dominicais pelo Retiro se estabeleceram como uma tradição para Pilar e Zé do Zinho. Costumavam vir de metrô, saltando na estação homônima e atravessando a rua pela passarela subterrânea para chegar a um dos portões do imenso parque. Ali embaixo, sempre lhes era oferecido haxixe por imigrantes, com direito a saudações em inglês: “What’s up, man?”. E nos gramados dos setores mais arborizados, jovens consumiam drogas como se estivessem em Amsterdã - os policiais em bicicletas eram poucos para dar conta dos 119 hectares do “Central Park” madrileno.

No domingo anterior, lá havia um rapaz de bochechas nacaradas, com pinta do que os espanhóis chamam de estadounidense, apertando el porro (o cigarro de haxixe) entre os dedos, às gargalhadas. Tragava e repetia: “Four twenty in progress, four twenty in progress”. Zé do Zinho e Pilar entenderam a frase e imaginaram o sentido, tinham quase os mesmos níveis de inglês - e de imaginação. O primeiro, ele aprendera na escola e ela, na labuta, distinguindo-se do espanhol médio, cuja fama de comunicar-se num único idioma e, quando muito, num dialeto, fazia a maioria dos cinemas exibirem cópias dubladas de filmes estrangeiros. Pilar ainda se julgava felizarda por seus pais não terem feito questão de que ela aprendesse el euskera, a complicada língua basca.

Como vinham a pé pela San Jerónimo, entrariam por outro portão desta vez. Mas quando viu turistas tirando fotos na Fuente de Neptuno, Zé do Zinho pediu que desviassem o caminho e subissem a Paseo del Prado para ver se acontecia o mesmo nas Fuentes de Apolo e de la Cibeles. Não deu outra, “todos sorrindo para a câmera com a agüinha no fundo”.

“São bonitas, José. Desenhadas por Ventura Rodríguez. Podemos voltar?”

“Ventura Rodríguez não é uma estação de metrô?”

“É, assim como Goya e Velázquez. Podemos voltar agora?”

Sempre didática, Pilar já havia lhe ensinado que Goya e Velázquez não eram apenas nomes de paradas da linha 4. Um casara com a irmã e o outro com a filha de seus respectivos mestres na arte, isso ele não esquecera, vincular os negócios à família podia ser produtivo.

Desceram, viraram à esquerda, ladearam o Museo del Prado e adentraram o parque, seguindo diretamente para o lago onde haviam remado a dois na primeira semana de relacionamento. Pilar transformou a caminhada lacustre num cooper até o monumento a Alfonso XII e Zé do Zinho a seguiu involuntariamente, absorto em seus pensamentos. Ela desistiu na metade do caminho, queria começar a fazer exercícios, mas crianças pululavam a sua frente, talvez fosse melhor os dois freqüentarem o Parque Juan Carlos I aos domingos, mais recente, mais vazio e mais perto de casa, deixariam o Retiro para dias úteis, quiçá na hora da sesta, antes de comer qualquer coisa para voltar à loja, um sanduíche natural, quem sabe, digressionou ela, desejosa que estava de ficar esbelta como as brasileiras.

“Sei que no verão era pior, José, mas olha aquele casal ali na grama. Assim eles vão acabar fazendo...”

“Pilar, quero pedir uma encomenda pra você.”

“Ah, basta eu falar de sexo que você desperta.”

“Estive conversando com meu amigo carioca. Ele é bom de palavra.”

“E de bebida... Ouvi dizer que carioca não presta, tome cuidado, José.”

“Queremos que você encomende uma coisa.”

“Jesus, que seriedade! Desde que não seja uma ovelha...”

Ainda faltava pensar nos detalhes, escolher o local perfeito, mas o certo era que não aprazia a Zé do Zinho a tendência de voltar a trabalhar em cozinhas inóspitas como todo imigrante. E, ironicamente, precisaria apoiar-se em Pilar para fazer jus a seu próprio ao nome.

Parte VI: O assovio

14.

“Mas, pai, todo mundo é ilegal.”

“Todo mundo não me interessa. Você não vai ser.”

“Não se preocupe, não tem problema. Tenho vários amigos ilegais. E não são só brasileiros.”

“Filho meu não é marginal. Não quero ver você nas estatísticas.”

“Bem ou mal, todo mundo tá nas estatísticas, pai. Até quem não tá, está.”

“Com o visto, você fica. Senão, volta antes de completar os três meses de turista.”

“E com que dinheiro? Da Pilar?”

“Não sei. Se vira. Não é o que você tá fazendo aí? Viajando, ainda por cima? Eu não mandei ninguém fugir da mexicana no aeroporto.”

“Pelo menos eu dei notícia.”

“Muita gentileza sua, meu filho.”

“Droga, o cartão tá acabando. Eles dizem que tem cento e quarenta minutos pro Brasil, a gente paga cinco ou seis euros e usa uma ou duas vezes, porque de vez em quando chama, chama, dá ocupado e, mesmo assim, o tempo vai diminuindo.”

“Sua mãe tá dizendo pra você ir ao consulado espanhol fazer perguntas, que eles vão ajudar.”

“Ajudar? É mais fácil entrar na Espanha que no consulado.”

“Jô, seu filho está muito ocupado pra cuidar dessas coisas.”

“Não diga isso, pai. Você não foi à porta das extranjerías. Todo santo dia é uma fila quilométrica pra cada lado e um guarda no meio. Pra quem pergunta aonde ir pra fazer só uma perguntinha, ele aponta o final de uma das filas. E é melhor não perguntar duas vezes.”

“Você é quem sabe, José. Já dei minha palavra: se ficar aí ilegal, não precisa ligar. Mande uma carta daqui a uns anos. Que foi, mulher? Ele precisa aprender.”

“Pai, mãe... Pai... Mãe...”

“Oi, filhinho, seu pai anda muito nerv...”

15.

Além de ornamentar a fachada da Universidade de Salamanca, considerada a mais antiga da Espanha e a quarta da Europa, os relevos da época de Carlos V propiciam uma brincadeira já tradicional entre os turistas: localizar a pequena rã ali esculpida, interpretada por muitos como símbolo do pecado. Segundo a lenda, no entanto, o estudante capaz de avistá-la terá sorte em seus exames.

Pilar viajara com Zé do Zinho porque ficava insegura de deixá-lo com seus amigos brasileiros, os primeiros a se inscreverem na excursão, até porque ela sabia muito bem o que os jovens iam fazer numa cidade universitária. Também se aventurara em outras ocasiões pelas chupiterías e discotecas situadas em pleno centro histórico salmantino.

“Zé do Zinho, camarada, vamos ver quem acha primeiro?”

“Cuidado que você tá falando com o mestre do pique-esconde e do polícia-e-ladrão, aquele que mais rápido encontrava o Geninho no desenho da “She-ra” e o Wally nas páginas das revistas da qual era colecionador; o primeiro a ver o Rambo escondido na lama - antes mesmo que ele abrisse os olhos. Tem certeza que quer apostar?”

“Que tal umas batatinhas?"

“As patatas bravas do Pan’s & Cia.?”

“Fechado.”

Homem de palavra como seu pai, Zé do Zinho apertava a mão sempre com os olhos nos olhos de quem com ele selasse um pacto, por mais irrisórias que fossem as bases do acordo. Com a aversão à derrota também dissolvida no sangue, o neto do único ex-combatente de Campo Florido nem bem descolou as palmas, tratou de ocidentalizar os olhos mansos e de passeá-los pela profusão de relevos, consciente de que a ansiedade é abrasiva. Quando a visão se aproximava do que lhe parecera um crânio, alguém o cutucou.

“Zé? Do Zinho?”

Àquela situação ele se acostumara, um brasileiro contente ao esbarrar em compatriotas do outro lado do oceano. Não cometeria o desplante de dar-lhe as costas, nem mesmo pelas ‘patatas bravas’ do Pan’s. Podia ser um recém-chegado ao Velho Mundo, ele vivera outrora tais circunstâncias, a necessidade de abordar um desconhecido sob o pretexto do lábaro estrelado, de ouvir um til pronunciado com sua grandeza imponente. Agora não, haviam passado alguns meses, facilmente confundidos com anos tamanha a intensidade com que foram vividos, e se dava ao luxo de dispensar aproximações descabidas a brasileiros, como fez no Parque do Retiro ao contemplar de longe o jogo de capoeira de domingo.

A resposta trepidava em sua boca, sabendo-se requerida antes mesmo da primeira pergunta da tríade interrogativa dos viajantes: de onde você é, o que você faz aqui, e quanto tempo vai ficar. Do interior de Minas, uma cidade pequena chamada Campo Florido, você provavelmente não conhece - essa era a que saía decorada para quem trazia o português do Brasil na voz. Aos demais, numa cidade pequena perto de São Paulo. Rio e São Paulo, a maioria dos gringos só soltava o “ah” depois de ouvir uma das duas. Zé do Zinho conhecera outros moradores de municípios desconhecidos que se diziam nascidos na vizinhança mais famosa para poupar eventuais explicações - até mesmo a compatriotas. Gente de Vila Velha que respondia Vitória, gente de Jundiaí que se intitulava paulistana, gente de Rochester que se apresentava como nova-iorquina.

“Zé do Zinho? Filho do Zinho? De Campo Florido?”

A tríade se alterara daquela vez. Provavelmente alguma brincadeira do amigo carioca que o levara tempos atrás para o Palacio Gaviria, a quem contara já grande parte de sua vida interiorana, bem como suas dúvidas em relação a Pilar e a seu futuro em Madri. “Eu admito: essa foi boa. Mas como eu conheço quase todos os cidadãos de Campo Florido, pelo menos de vista, você dificilmente me conhece. De onde você é?”

“Da Rua dos Tijolos 76. Lembra?”

Um baque estonteante no peito por pouco não derruba Zé do Zinho.

“Zé!”

“Mundo pequeno, não?”

Não devia haver registros de que alguma vez dois cidadãos de Campo Florido se encontraram fora do país. Poucas eram as histórias dos que vivenciaram um acaso fora de Minas, normalmente em repartições públicas, que dirá na Europa. Zé da Rua dos Tijolos 76 contou que estava estudando em Coimbra, em Portugal, depois de ganhar uma bolsa de sua universidade em Belo Horizonte. Pediu desculpas a Zé do Zinho por nunca ter saído muito de casa, por nunca ter dado muita atenção a seus conterrâneos, mas era porque sonhava desde cedo em ser diplomata e a carreira exigia dedicação integral.

“Tomara que você ache a rã, então, pra ter sorte lá em Coimbra.”

Zé do Zinho não dispunha de e-mail, não se afeiçoara àquele e-mundo. Rebatizou carinhosamente o amigo de Zé Sete-Meia, deu o telefone de Pilar, a quem o apresentou de maneira entusiástica, caso ele quisesse passar alguns dias em Madri e, após breve resumo de sua vida nos últimos anos, despediu-se contrafeito porque o guia português reunia o grupo cheio de “ora pois”. “Não vá pegar o sotaque, hein.”

Pilar notou o quão emocionado ficou Zé do Zinho, que por sua vez nem se deixou abater pelas gozações, a derrota sacramentada, a rã sobre o crânio, apontado insistentemente pelo carioca sob o brado de “ao vencedor, as patatas bravas”. Lembrou-se apenas da história de um dos porto-riquenhos em Montmartre e, sem nem se dar ao trabalho de conferir a posição da rã-símbolo de Salamanca na fachada da universidade, saiu assoviando como as coquis.

Parte Final: O começo

16.

Meu pai,

Marista, José Ferreira, Objetivo, Nossa Senhora das Dores, Castelo Branco. Espero que esteja rindo, como ria da ingenuidade de seu filho quando tal história vinha à tona pelos amigos em qualquer ínterim apático entre uma anedota e outra, fosse nas cadeiras da calçada durante o crepúsculo, ou no intervalo do futebol de domingo na padaria. Em cidade pequena, devem-se medir bem as palavras, você me dizia, risonho, numa de suas poucas lições atrasadas, provavelmente elaborada após meu malogro.

Acabo de chegar do batente, o terno pesando no ombro, um envelope pardo no bolso, um branco no outro à espera destas palavras, o seu nó da gravata afrouxado no meu peito e os pés já descalços embaixo da mesa, apesar do frio que a calefação promete expurgar aos poucos. A ele, minha resistência se aprimorou em ignorar. Mas avise à mamãe que não se preocupe, há sempre confortáveis palmilhas entre o chão e eu, mesmo nos poucos minutos que me sobram para desfrutar o lar, como agora, quando aproveito o ensejo para colocá-los a par de mim.

Tudo começou, aliás, a partir de uma idéia minha, lapidada por mais duas pessoas de confiança para o alcance de um resultado condizente com o objetivo proposto. Pilar se divertia com o projeto, incrédula, transformando nossas discussões a respeito do assunto em hobbie, e eu fingia também ser tudo uma brincadeira. Por não poder largar a loja - mas, obviamente, conferiria de perto o andamento assim que dispusesse de tempo – ela preferiu limitar-se aos bastidores desde o primeiro dia, quando me entregou as encomendas e desejou boa sorte, com risos crônicos.

Passei na casa do carioca para dar início aos trabalhos. Pilar, no início, não ia muito com a cara dele (e ele notava), mas não demorou a se render àquela retórica da qual até hoje me aproveito. Vez por outra, ele se referia a mim como seu litisconsorte, gostava de brincar com a língua portuguesa e usava palavras que eu, com meu português mineiro de “você quer que eu ‘vou’?”, não conhecia. Sempre que eu pairava por lá, estava escrevendo no computador, com seu olhar lúgubre que em poucos segundos, segundo ele, se convertia em álacre.

“O que você tanto faz aí, hein?”

“Previsões, Zé. Trouxe os panfletos?”

“Trouxe. Pegue as moedas, vamos.”

Para sagrar-se ponto turístico, um lugar precisa de beleza natural ou artificial, ou de um bom conteúdo histórico, antigo ou recente - sendo os três juntos a opção mais lucrativa. Nós não tínhamos praias como no Rio, vulcões ativos como o Poás, o Irazu e o Arenal na Costa Rica, nem um pequeno Grand Canyon em Madri, e, mesmo que dispuséssemos de algum deles, seria difícil cobrar entradas. Não éramos artistas para criar obras visitáveis, e também nos faltava dinheiro para mandar construir qualquer monumento. Sabíamos que uma queda de avião em nossos lares – quando estivéssemos ausentes, claro - poderia gerar-nos lucro com a curiosidade subseqüente; o desastre é fascinante, seja numa fazenda em Birigüi, interior de São Paulo, ou no World Trade Center; mas a compaixão nos impedia o desejo. Além disso, não éramos os proprietários dos apartamentos. Os pais de Pilar, por seu turno, tinham muitos amigos empresários que pagavam o imposto revolucionário no País Basco para preservar a vida. Etarras, porém, dispostos a emprestar uma bombinha de efeito moral do grupo terrorista para colocar na loja - apenas a fim de valorizar a área - não conheciam nenhum. E isso daria muito trabalho.

O jeito foi escolher um lugar simples, não muito perto, mas não muito longe do movimento turístico, de preferência próximo a uma saída de cinema ou de teatro, e usar a mesma tática que havíamos flagrado no metrô certa vez. Panfletar também era importante, fomos fazendo isso pelo caminho; se não fosse por uma senhora que gritava “salve o relógio da torre! salve o relógio da torre!” e distribuía papéis informativos, o garoto do futuro nunca voltaria para 1985 no meu filme predileto. Ademais, todo mundo panfleta nessa cidade, seja nas portas do metrô ou no meio das praças, é uma sujeira só. De dia, cursos de espanhol, locutórios de internet, cartomantes, e à noite, bares, pubs e discotecas oferecendo chupitos ou copas grátis.

Quando chegamos à fonte não havia mais panfletos, calculáramos mal, a prática traria a experiência. Num momento de poucos passantes, penduramos o azulejo grande com os dizeres em local visível, ao centro, tendo de molhar os pés descalços para isso. Encaixamos mais dois azulejos menores, com as mesmas frases gravadas, em lados opostos. Discutimos suas posições, como os grã-finos discutem em que parede devem pendurar um quadro e tive de molhar os pés novamente para ajeitar a obra. Mas avise à mamãe que não fiquei resfriado. Ao ver turistas se aproximando, sacamos nossas moedas do bolso, fechamos os olhos, fingimos rezar e atiramos, roubando a idéia dos músicos do metrô que levavam amigos disfarçados para dar a primeira esmola. Nossas vítimas iam passando, indiferentes, quando uma voltou, chamou o grupo e todos revolveram seus bolsos e pertences. Plim, plim, plim, plim, que ruído sublime! Vários euros ao lado dos nossos centavos de real.

No fim do dia, com a euforia ofuscada somente pelo cansaço, contamos dez. Isso porque era terça-feira, descanso do show de flamenco em frente, onde no dia seguinte penduraríamos um cartaz interino, enquanto o oficial não ficava pronto. Em três dias tentamos pagar a Pilar tudo que ela gastara com a pré-produção, mas fomos rechaçados. Não aceitou, disse que era um prazer ver seu amor, no caso eu, feliz. E assim eu estava, porque fechamos a primeira semana com uma média de vinte euros ao dia; ainda seria menos do que eu ganharia se tivesse completado um mês trabalhando no bar, mas a propaganda vinha crescendo.

Carentes do charme barroco, da figura de Netuno ao centro e de um diretor que perpetuasse nossa humilde fonte nas telas – uma mulher mais bonita que Anita Ekberg poderíamos arranjar na esquina, mas não um Fellini para filmá-la se banhando -, jamais alcançaríamos os 500 euros diários recolhidos na Fontana di Trevi. Enfrentamos, porém, problemas semelhantes aos deles, com imigrantes tentando surrupiar nossas suadas moedinhas. Por isso, encomendamos a Pilar camisetas com a palavra ayuntamiento (prefeitura) em letras gigantes para impor respeito e alguns policiais passaram a acenar de vez em quando em nossa direção, ao que respondíamos refestelados. Foram meses e meses em que nos locupletamos devido à ascensão inopinada do saldo de moedas. Com os panfletos por todos os hotéis da cidade e nossa fontezinha no roteiro turístico de Madri, chegamos a 100 euros por dia na primavera. Camelôs já se amontoavam ao redor em busca do nosso público.

Até que um dia como outro qualquer nos apareceu um senhor de sotaque francês fazendo perguntas. Tinha um ar detetivesco, soltava risotas ao léu, tivemos medo a princípio e nos entreolhamos como se tivesse chegado a hora da fuga. Havíamos traçado um itinerário a seguir a galope em caso de abortar a missão, esquecer o que construímos juntos em prol da liberdade. Seu olhar sobranceiro, dono da situação, e sua maneira de falar roçando nossos lóbulos como um mafioso me faziam dar um passo para trás a cada palavra, pronto para a disparada persecutória.

Sempre que vou mentir, eu repito em voz alta: Marista, José Ferreira, Objetivo, Nossa Senhora das Dores, Castelo Branco. Mas daquela vez não consegui. Ele sabia de tudo, não sei como, mas ele sabia de tudo e, para nossa surpresa, convidou-nos para sermos seus empregados. Não se tratava de chantagem, ele reiterava isso a todo instante, não comentaria com ninguém sobre a fonte se nós não aceitássemos, simplesmente nos admirava por termos pensado em algo que ele jamais pensara. E, em seguida, nos convenceu. Porque quando se descobre que tudo é diferente do que se imaginava, não há quem não baixe a guarda. A cada caso que contava, perguntava: “querem mais?”. Sim, queríamos mais, porque não haveria no mundo quem recusasse ouvir como ele fez para alterar a história e inventar todos aqueles pontos turísticos europeus. Quais? Meu pai, acredite em mim, você se impressionaria em saber.

Hoje, somos responsáveis pela manutenção dos principais pontos de sua empresa na Espanha. Faço a gerência, e o carioca, a redação de tudo que é preciso. Pilar não quis largar a loja por motivos familiares e lá continua. Ainda não tive coragem de terminar nosso relacionamento, quero dar um tempo para ela não pensar que era tudo uma questão de sobrevivência. Não era, gosto muito dela... Talvez fosse. Talvez eu só precisasse de um banheiro, enquanto ela me oferecia todo o El Corte Inglês. O que importa é que estou bem de vida e com dinheiro no bolso, por isso resolvi pedir ao meu redator que escrevesse esta carta para vocês. Já não falo “você quer que eu ‘vou’?”, porém não seria capaz de articular todas essas idéias e lembranças sozinho. Insisto que minha vida dá um romance, mas ele diz para eu deixar de clichê e me desilude: “menos, meu litisconsorte, menos”.

Por favor, meu pai, diga à mexicana que, da próxima vez que tiver um congresso no exterior, não exija um estúdio próprio para fugir da comida dos hotéis. E, se tiver direito a levar um acompanhante, que não seja alguém de Campo Florido, porque o mundo é tentador demais para vê-lo por uma semana, dar-se por satisfeito e voltar a jogar dominó na praça. Pelo menos, quando se é jovem. Mas não se esqueça de dizer obrigado por um ano de aula de espanhol e pela oportunidade. Uma vez, numa livraria, pensei ter visto alguém conhecido e só depois fui me dar conta de que seria ela. Todo chilango é parecido e há muitos por aqui (isso você não diz). Quem sabe um dia vamos todos à Cidade do México, o DF como eles chamam, comer um chile ou logo um posole completo na Plaza Garibaldi ao som do mariachi? Essa ela vai gostar.

Pode ser também que eu diga tudo isso pessoalmente, pode ser que eu nem mande essa carta, pode ser que você a esteja lendo ao meu lado aí em Campo Florido, rindo do castigo que me deu anos atrás. Pode ser, porque estou ao lado de um envelope pardo que contém meu visto, um reles papelzinho carimbado que você tanto exigiu e sem o qual eu não poderia voltar. Não por impossibilidade burocrática, eles querem mais é se livrar da gente, mas por uma questão de orgulho. O francês usou de seus enchufes (aqui, “pistolão” é tomada) e legalizou minha situação. Cada vez gosto mais deste senhor, principalmente quando justifica nosso trabalho com o argumento de que ao mundo faltava poesia. Sem contar que, de quebra, nos convidou para passar uma semana em sua casa de Paris.

O carioca está rindo, lembrando-se da bendita noite em que tomou seu primeiro porre no Palacio Gaviria e eu tive que carregá-lo para casa, o que acabou me rendendo a excursão para Granada, onde conheci Pilar. A ressaca o obrigou a pôr a passagem em minha mão e a desejar boa viagem, e assim fui, meio João do Santo Cristo. Até hoje diz que ficamos quites, embora eu conteste educadamente por acreditar que saí ganhando.

Se bem o conheço, meu pai, aprovando ou não tudo isso, você deve estar é curioso para saber o que estava escrito nos azulejos da fonte. Não, não era para voltar a Madri que as pessoas atiravam suas moedas, assim como em Roma. O que você escreveria? Deixo para contar isso e outras verdades na volta, depois de beber um bom vinho ao seu lado, senão não sobra coisa alguma e, além do mais, agora é hora de dormir porque o avião para Paris sai de manhã. Quem diria? De Champs Floris para Champs Elysées... E mundo...

Um beijo para a mamãe e toda a minha saudade,

Zé da Fonte/José de la Fuente

17.

Vindo da loja de Pilar, Zé do Zinho se deu conta do tamanho de sua barba no reflexo das vitrines e entrou na casa de seu amigo carioca pensando que já era hora de mudar de nome. Ia pedir uma sugestão, quando o viu mais uma vez sentado diante do computador.

“O que você tanto faz aí, hein?”

“Previsões, Zé. Trouxe os panfletos?”

“Trouxe. Pegue as moedas, vamos.”

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Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim.





OS ÓCULOS ZEQUINHA

Conto pseudoinfantil de Felipe Moura Brasil

Depois de tantas buscas, todos deram como certa a morte de Zequinha. Míope até os ossos, Zequinha jamais sobreviveria na selva onde seu pára-quedas tinha caído. Realizaram até um enterro de corpo ausente. Dentro do caixão, colocaram apenas os óculos reservas de Zequinha.

Dois anos depois, quando resolveram desmatar a selva, Zequinha acabou reaparecendo. Usava a mesma roupa e segurava uma caixinha. Seu maior troféu eram os óculos: não tinham um arranhão sequer. Toda noite antes de dormir, explicou Zequinha, ele colocava os óculos na caixinha.

Zequinha apareceu em todos os programas de tevê da cidade. Suas peripécias repercutiram em cadeia nacional. Se as imagens de Zequinha chegaram ao exterior, ninguém da cidade ficou sabendo. Mas sempre, em todos os programas, o destaque era para os óculos de Zequinha: nenhum arranhão. Como pode? Incrível.

A ótica de Zequinha procurou Zequinha: queria fabricar óculos da marca Zequinha. Uma empresa de brinquedos procurou Zequinha: queria fabricar óculos de brinquedo da marca Zequinha. Os pais de Zequinha assinaram contratos. Exigiram porcentagem nos lucros. Ambos os óculos venderam como água. Zequinha ficou rico.

Agora, todas as crianças do país usavam óculos Zequinha, que já vinham com uma caixinha. Até quem não era míope passou a usar óculos. Zequinha ganhou uma porção. Mas preferia usar o seu: o Zequinha original.

A ótica propôs levar o original a leilão. Zequinha recusou. A loja de brinquedos propôs levar o original a leilão. Zequinha recusou. A ótica e a loja de brinquedos se uniram para propor o leilão. Os pais de Zequinha insistiram. Ele impôs uma condição: que abrissem o caixão e recuperassem seus óculos reservas. Todos concordaram.

A notícia vazou. Iam reabrir o caixão de Zequinha para recuperar os Zequinhas reservas. Todas as equipes de tevê vieram registrar o momento histórico no cemitério. Uma multidão de fãs, todos vestindo seus Zequinhas, também prestigiou a cerimônia. Mal os coveiros abriram o caixão, o prefeito pegou os Zequinhas reservas e constatou que estavam inteiros e brilhantes: nenhum arranhão. Como pode? Incrível.

Zequinha então se aproximou e segurou seus Zequinhas reservas. Estavam inteiros. Estavam brilhantes. Mas onde estavam as caixinhas? Reviraram o caixão inteiro. Reviraram os caixões vizinhos. Reviraram todo o cemitério. Nada das caixinhas. Haviam esquecido de enterrar as caixinhas junto com os Zequinhas reservas.

Todo mundo tentou enganar Zequinha com sua caixinha. Mas Zequinha não era bobo. Conhecia suas caixinhas reservas. Reviraram a casa de Zequinha. Reviraram a cidade. Fizeram mais buscas pelas caixinhas reservas do que tinham feito por Zequinha. Zequinha ficou triste. Realizou um enterro de caixinha ausente. Dentro do caixão, colocou apenas o Zequinha original.

No dia seguinte, todas as tevês anunciaram: o caixão das caixinhas fora arrombado. Levaram o Zequinha original. O país inteiro era suspeito. Os coveiros. O prefeito. Os pais. Os repórteres. A ótica. A loja. As crianças. Mas Zequinha já não se importava. Ele gostava mesmo era da caixinha. E não daria a original a ninguém.

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Felipe Moura Brasil é autor do Blog do Pim.

Leia também as divertidas histórias do personagem Juveninho; e ainda o conto "O pequeno escritor", na seção Baú.

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